A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

APRENDENDO DURANTE O SONO

Nova investigação aponta que é possível aprender durante o sono, contrariando a crença bem estabelecida de que isso seria algo impossível.

Aprendendo durante o sono

A ideia de que precisamos de nossa consciência para aprender é uma crença que parece racional e bem fundamentada em termos de conhecimento sobre neurociências. De fato, de forma geral, novas memórias são formadas durante as horas de vigília, quando nossas mentes conscientes estão no controle. No entanto, essa crença foi recentemente desafiada em um novo estudo, que sugere a possibilidade de aprender material novo de forma inconsciente todas as noites.

Uma investigação realizada na Universidade de Berna e publicada na revista Current Biology indica que essa ideia pode não ser tão improvável. Em um grupo de sujeitos falantes de alemão, os pesquisadores expuseram os participantes durante a noite ao vocabulário de uma língua inventada e posteriormente conseguiram associar essas palavras a significados em língua alemã.

Embora essa proeza esteja ainda distante de aprender uma nova linguagem durante o sono, é um avanço importante na compreensão do mecanismo de aprendizagem noturna. Os sujeitos quando acordavam eram questionados sobre as palavras fictícias, de forma indireta, e de fato responderam significativamente acima do acaso. Isso ocorreu sem que os participantes soubessem que haviam sido expostos às palavras anteriormente.

Esse resultado indica que o cérebro adormecido pode realmente codificar novas informações e armazená­las por longo prazo, além de fazer novas associações.

Uma das importantes funções do sono é o processo de reorganizar as memórias. Durante certos estágios do sono, como no período de sonho, o cérebro repete as memórias em modo rápido. Os circuitos neurais que têm a função de armazenar memórias reativam-se novamente como uma rede, ensinando o cérebro a lembrar. Essa repetição parece nos ajudar a introduzir importantes aprendizados e experiências de vida em um armazenamento mais permanente em nossos cérebros. Enquanto isso, memórias menos importantes são apagadas para abrir mais espaço para armazenamento.

Através da medição direta da atividade neural noturna em cérebros de camundongos, verifica-se que as redes neurais ativadas na codificação da memória durante o dia ficarão ativas à noite. A partir desses estudos com roedores, os cientistas descobriram que o hipocampo, uma região em forma de cavalo-marinho no interior do cérebro, se comunica com a camada externa do cérebro, o córtex, durante o sono, através de ondas de atividade que podem ser medidas usando um dispositivo de EEG.

Nesse estudo, participaram sujeitos de língua alemã de ambos os sexos. Para garantir que nenhum dos participantes tivesse contato anterior com a linguagem utilizada, os pesquisadores criaram palavras fictícias, cada uma ligada a um certo significado. Essas palavras fictícias foram apresentadas aos sujeitos nos chamados “estados ascendentes” ou “picos” durante o sono profundo, um estágio geralmente não associado aos sonhos. Durante o sono profundo, a cada meio segundo os neurônios alternam um período no qual sua atividade é coordenada com outro estado inativo. A hipótese dos pesquisadores é de que os picos de ondas lentas são propícios à codificação do sono porque demarcam períodos de excitabilidade neural.

Durante o sono dos sujeitos, foi usado um EEG para monitorar suas ondas cerebrais, enquanto os pesquisadores disparavam associações de palavras através de fones de ouvido. Pares de palavras, uma fictícia e outra com um significado, foram associados durante quatro repetições cada par.

Quando os sujeitos acordaram, os investigadores mostraram aos sujeitos as pseudo – palavras, enquanto pediam que imaginassem se o objeto referido pela palavra com significado era menor  ou maior que uma caixa de sapatos, que foi uma maneira de explorar as memórias inconscientes ou implícitas.

Quando a segunda palavra no par de palavras coincidia com o estado superior em sono profundo, os participantes puderam caracterizar corretamente a palavra inventada em 10% a mais do que o acaso. Isso revela que os traços de memória implícitas formados durante o sono persistem durante a vigília e influenciam a forma como reagimos aos estímulos apresentados, como uma intuição ou pressentimento.

Quando o cérebro dos participantes era examinado através de técnicas de neuroimagem, os pesquisadores descobriram que o hipocampo e as regiões do cérebro normalmente associadas à aprendizagem de línguas durante a vigília também estavam ativos durante a aprendizagem do sono. Essa descoberta contradiz o que sabemos sobre o funcionamento do hipocampo no aprendizado, que estaria ativo somente nas fases da consciência.

Apesar de promissores, esses resultados ainda não apontam para uma consistente capacidade de aprender línguas durante o sono, pois esse aprendizado se baseia em conhecimento explícito e não em sensações implícitas. Mais estudos são necessários para investigar essa nova forma de aprendizado, que parece interessante e promissora.

 

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental(Artmed. 2011.)

OUTROS OLHARES

AQUECIMENTO DO ÁRTICO JÁ É IRREVERSÍVEL

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Ainda que todos os países do mundo cortem drasticamente as emissões dos gases de efeito estufa para cumprir a meta do Acordo de Paris, a temperatura média no inverno Ártico subirá de 3 a 5°C até 2050 e de 5 a 9°C até 2080. O alerta é do “Global Linkages – A graphic look at the changing Artic”, relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) na quarta-feira 13, durante a 4a Assembleia Geral do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em Nairóbi, Quênia. Segundo a pesquisa, o aumento na temperatura tem o potencial de devastar a região e provocar a elevação do nível do mar em todo o mundo. Desde 1979, estima-se que o gelo Ártico tenha retraído 40%. Isso contribuiu, por exemplo, para a redução de vários organismos marinhos como plânctons, moluscos e ouriços que formam a base de várias cadeias alimentares. No evento, lideranças de diversos países clamaram por cortes substanciais nos gases de efeito estufa, no uso de carvão e de outros poluentes climáticos.

Aquecimento do ártico já é irreversível. 2

GESTÃO E CARREIRA

MINDSET DE CRESCIMENTO

Mindset ou mentalidade é um conceito importante, podendo ser entendido como um conjunto geral de crenças, regras e valores que é construído ao longo da vida e influencia nossa visão de mundo.

Mindset de crescimento

Carol Dweck é uma psicóloga norte-americana que estuda há décadas a motivação humana. Dweck sintetizou pesquisas na área de Psicologia social, do desenvolvimento e da personalidade para construir uma teoria poderosa sobre a mente humana, descrita em seu best-seller Mindset a Nova Psicologia do Sucesso (publicado no Brasil em 2017 pela Editora Objetiva). Mindset significa “mentalidade” na tradução literal da língua inglesa. Basicamente, Dweck acredita que existem dois tipos fundamentais de mentalidade.

O mindset fixo é uma mentalidade que se opõe à capacidade de transformação do ser humano. A inteligência é vista como estática, levando a um desejo de parecer mais esperto e levando à tendência de evitar desafios, desistir com facilidade frente a obstáculos e de ver o esforço como infrutífero. O mindset fixo leva a ignorar feedback útil e se sentir desafiado pelo sucesso dos outros. As pessoas de mentalidade fixa têm tendência a ser rígidas consigo mesmas e com as demais. Tendem a criar uma expectativa de fracasso, mesmo antes de tentar algo, e são focadas no problema, com baixa motivação para solucioná-lo. A premissa da imutabilidade das coisas faz com que resistam à aquisição de novos conhecimentos e habilidades.

O mindset de crescimento está fundado na ideia de que a inteligência pode ser desenvolvida, o que leva ao desejo de aprender e, portanto, a uma tendência a enfrentar desafios. Por adotarem crenças pessoais, nas quais a capacidade humana é mutável, as pessoas com mindset de crescimento estão mais abertas ao desenvolvimento de novos comportamentos e habilidades, através do esforço e da experiência. Tendem a enxergar erros como oportunidades de aprendizado e a perseverar mesmo mediante adversidades. São mais flexíveis e engajadas na busca de soluções para desafios diversos. As pessoas com mindset de crescimento aprendem com as críticas e descobrem lições e inspiração no sucesso dos outros.

Ao contrário das pessoas que adotam um mindset fixo, que realizam menos do que seu potencial possibilita por terem uma visão determinística da vida, os indivíduos com o mindset de crescimento estão sempre a se superar em termos de performance, e como decorrência têm um grande senso de livre arbítrio, acreditando no poder da vontade e da autodeterminação.

Podemos relacionar as ideias de Carol Dweck com uma série de outras teorias que convergem na mesma direção. A teoria da autodeterminação, por exemplo, surgiu nas décadas de 1970 e 1980 a partir do trabalho dos pesquisadores Edward L. Deci e Richard M. Ryan sobre motivação. E uma teoria que liga personalidade, motivação humana e ótimo funcionamento, propondo que existem dois tipos principais de motivação, a intrínseca e a extrínseca, e que ambos são forças poderosas na formação de quem somos e como nos comportamos. De acordo com a teoria da autodeterminação, a motivação extrínseca é um impulso para se comportar de certas maneiras que vem de fontes externas e resulta em recompensas externas. As fontes podem ser exemplificadas com prêmios e elogios, avaliações de funcionários, pontos ou sistemas de classificação em organizações, admiração e o respeito dos colegas ou amigos. Já a motivação intrínseca está ligada a impulsos de origem interior, que nos motivam a agir de certas maneiras. Os motivos são internos, como nosso senso pessoal de moralidade, nossos interesses e nossos valores fundamentais. A autodeterminação, portanto, se refere à capacidade ou ao processo de fazer as próprias escolhas e gerir suas decisões, o que é um componente crucial do bem-estar psicológico, que está sempre associado a sentir-se no controle de sua própria vida

No aspecto do componente da motivação, a psicóloga positiva Barbara Fredrickson defende a teoria que chamou de “ampliar e construir”, segundo a qual as emoções agradáveis ampliam o repertório de recursos de uma pessoa, levando a melhor desempenho e realização.

Segundo Fredrickson, as emoções positivas induzem ao aumento dos níveis de dopamina no cérebro. A dopamina é um neurotransmissor excitatório que está associado ao prazer, e cujo aumento produz uma organização mais ampla e flexível do funcionamento cerebral, ampliando a cognição e elevando a capacidade de atenção e foco de uma pessoa. Dito de outra forma, ao alimentar expectativas positivas de sucesso de forma otimista, é mais fácil persistir na busca dos objetivos e ter maior disponibilidade de recursos para atingi-los. Por outro lado, ao nutrir pensamentos determinísticos de incapacidade e fracasso, as emoções negativas reduzem capacidades cognitivas de atenção e foco, além de diminuir a motivação e o estímulo. Portanto, vários estudos e fontes apontam a importância de nutrirmos uma mentalidade ou mindset de crescimento, pois as consequências são poderosas em nosso desempenho, motivação e bem-estar mental. Enxergar a vida como um processo de crescimento e aprendizagem é fundamental e podemos cada vez mais nos beneficiar dessa mentalidade.

 

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed. 2011.)

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 26: 20 – 23

Alimento diário

ÓDIO E CONTENDA

 

V. 20 a 22 – A contenda é como o fogo; ela inflama o espírito, queima tudo o que é bom, e consome famílias e sociedades. Aqui lemos como este fogo é aceso, e como é mantido aceso, para que possamos evitar as oportunidades de contendas, evitando, desta maneira, as suas terríveis consequências. Se desejarmos manter a paz:

1. Não devemos dar ouvidos aos maldizentes, pois eles fornecem combustível para o fogo da contenda; ou melhor, eles o espalham com material combustível; as estórias que eles divulgam são como bolas de fogo. Aqueles que, insinuando descrições infames, revelando segredos e interpretando mal as palavras e os atos, fazem tudo o que podem para criar invejas entre parentes, amigos e vizinhos, separá-los uns dos outros, e semear a discórdia entre eles; os tais devem ser banidos das famílias e de todas as sociedades, e então cessará a contenda, tão certamente como se apagará o fogo quando não tiver lenha; os que contendiam entenderão melhor, uns aos outros, e chegarão a um melhor estado de espírito; as velhas es­ tórias logo serão esquecidas quando não houver novas para manter viva a lembrança delas, e os dois lados verão como estavam aprisionados por um inimigo comum. Os mexeriqueiros e maledicentes são incendiários que não devem ser tolerados. Para exemplificar isto, Salo­ mão repete (v. 22) o que tinha dito antes (Provérbios 18.8), que as palavras do maldizente são feridas, feridas profundas e perigosas, que atingem os órgãos vitais. Elas ferem a reputação daquele que é assunto da mentira, e talvez a ferida seja incurável, e até mesmo o curativo que seria uma retratação (que, em raros casos, pode ser obtida) pode não ser suficiente para ela. Elas ferem o amor e a caridade que aquele a quem são ditas deveria ter pelo seu próximo, e desferem um golpe fatal à amizade e à comunhão cristã. Devemos, portanto, não somente não ser maledicentes, nós mesmos, em nenhuma ocasião, nem realizar nenhum mau ofício, mas não devemos oferecer a menor tolerância com os que são maledicentes.

2. Não devemos nos relacionar com pessoas contenciosas e rixosas, que são exceções, capazes de interpretar tudo da pior maneira, que brigam por qualquer motivo e que são rápidas, e acaloradas, ao se ressentir de afrontas. Estes são homens contenciosos, que acendem rixas (v. 21). Quanto menos tivermos a ver com eles, melhor será, pois evitar brigas com os que são briguentos é algo muito difícil.

 

V. 23 – Isto pode se referir:

1. A um coração ímpio que se mostra em lábios ardentes, em palavras furiosas, inflamadas, violentas, ofensivas, que ardem com maldade, e perseguem aqueles sobre quem, ou a quem são ditas; a má vontade e as más palavras combinam tão bem como um caco de vaso de barro e escórias de prata, agora que o vaso está quebrado e a escória separada da prata, e ambos estão prestes a ser lançados juntos ao monturo.

2. A um coração ímpio que se disfarça com lábios ar­ dentes, que ardem com profissões de amor e amizade, e até mesmo perseguem um homem com adulações; isto é como um caco de vaso de barro, coberto com a escória de prata, com que podemos nos aproveitar de alguém que é fraco, como se tivesse algum valor, mas de cujo embuste um homem sábio logo se dá conta. Este sentido está de acordo com os versículos seguintes.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O LADO BOM DO ESTRESSE

Ao contrário do que muitos pensam, uma vida sem nenhum nível de estresse não é a mais saudável. É possível encarar essa reação cerebral com mais positividade e aprender com ela.

O lado bom do estresse

Ao serem perguntadas sobre o que é estresse, muitas pessoas responderiam que é algo que faz mal e que deve ser evitado. Mas a psicóloga americana e professora da Universidade de Stanford Kelly McGonigal propõe uma visão menos maléfica. Durante anos, ela pesquisou o tema e percebeu que se trata de um assunto complexo. Enquanto alguns efeitos do estresse podem aumentar os riscos de desenvolver doenças e ser prejudiciais à saúde, outros apontam melhoras no funcionamento do cérebro e aumento da resiliência, que é a capacidade de se recuperar e de se adaptar à mudanças, por exemplo.

Em seu livro The Upside of Stress (Avery Publishing Group) – O Outro Lado do Estresse, em tradução livre, sem edição em português), Kelly recupera um estudo de 1998 em que perguntou a 30.000 pessoas sobre os níveis de estresse que tinham enfrentado no ano anterior. Os participantes também foram questionados se achavam o estresse danoso para a saúde ou não. Oito anos mais tarde, os estudiosos checaram quantos dos participantes haviam morrido. O resultado: altos níveis de estresse aumentavam as chances de falecimento em 4.396. Mas a questão que merece mais atenção é que esse risco só se aplicava a quem havia respondido que o estresse era prejudicial à saúde. Os que haviam vivido situações de estresse no ano anterior, mas que não encaravam isso como algo negativo, não estavam mais propensos a morrer. “Os pesquisadores concluíram que não era apenas o estresse que estava matando as pessoas. Era a combinação do estresse e da crença de que ele é prejudicial”, diz um trecho do livro.

A visão é compartilhada por Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR) e co-presidente na Divisão de Saúde Ocupacional da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA), de Porto Alegre. “O estresse nada mais é do que qualquer situação que requer nossa adaptação, e essa situação pode ser positiva ou negativa”, diz Ana. Ou seja, é uma resposta orgânica do corpo e não tem juízo de valor a princípio. Isso, na verdade, depende da percepção de quem vivencia aquele determinado fato. Segundo Ana, o estresse do bem (chamado pelos especialistas de “eustresse”) nos impele para a ação, para a resolução do problema e para o domínio da situação. É aquela sensação boa de se deparar com um desafio. Já o estresse ruim, é responsável por toda a fama de mau do termo (o “distresse” foca na eternidade, no sofrimento, na falta de controle e na frustração.

Essa dualidade mostra que os momentos de desconforto positivo podem gerar aprendizado, significado e ser, sim, prazerosos. Há alguns eventos que, em geral, são estressares positivos, como iniciar um novo trabalho, se casar, aprender um novo hobby, ser promovido, mudar de casa, ou se aposentar”, afirma Alberto Ogata, médico e presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), de São Paulo. “Por outro lado, algumas situações, classicamente, são geradoras de estresse negativo, como a morte de um parente, se divorciar, ficar doente ou ter algum parente doente, perder o emprego ou romper um relacionamento amoroso”, completa.

TERMO CONTAMINADO

O risco de ter doenças é apenas um dos aspectos do estresse, mas, com o passar do tempo, isso contaminou todo o seu significado e causou repulsa em quem passou a acreditar que a melhor estratégia é evitá-lo ­ sempre. Mas essa visão precisa ser transformada, caso se queira desenvolver a inteligência emocional e, principalmente, adotar uma postura mais inovadora, que gera estresse naturalmente, mas que é fundamental para se sair bem em momentos de crise como o que vivemos.

Para mudar essa mentalidade, é preciso, primeiro, entender como você encara o termo. A psicóloga Alia Crum, da Columbia Business School, nos Estados Unidos, acostumada a estudar os efeitos placebo e, por associação, o poder da mente humana, definiu duas maneiras pelas quais as pessoas costumam encarar o estresse. Para ela, existem duas visões: a de que ele é algo prejudicial que esgota a saúde e a de que é algo positivo que fortalece a vitalidade. Sua pesquisa indicou que pessoas que acreditam no estresse do bem levam muita vantagem sobre quem tem uma visão negativa. Elas são menos deprimidas e mais satisfeitas com a própria vida, têm mais energia e menos problemas de saúde. Além disso, são mais felizes e produtivas. Isso porque há a percepção de que o estresse é um desafio, e não uma sobrecarga. Assim, são mais confiantes no lidar com essas situações. “É preciso ter desafios, metas e projetos que exijam envolvimento mental, busca de novos conhecimentos e habilidades. Tudo isso traz motivação que nos enche de energia e, consequentemente, melhoram nosso desempenho”, diz Alberto.

Luciane Infanti, de 40 anos, diretora executiva da Accenture, não tem medo de situações assim. Em sua rotina, trabalha com inovação e dá consultoria para a área de saúde. Parte do trabalho é entender as necessidades dos clientes, da cadeia e do mercado. Propor novas soluções é uma constante obrigação – e algo que pode gerar ansiedade. Para ela, o ponto de estresse é o momento quando é desafiada e precisa defender uma decisão. “Em um primeiro contato, essa situação constrange”, diz. Mas, quando consigo absorver as variáveis e pensar sobre elas para reforçar minhas ideias ou me reposicionar, isso traz uma sensação de conquista maravilhosa”, afirma Luciane. Antes de entrar na consultoria, a executiva teve sua própria empresa e trabalhou durante 12 anos em hospitais, experiência que a ajudou a moldar sua rápida capacidade de adaptação e de resolução de problemas. Há pouco mais de dois anos na consultoria, ela diz que este é um período em que os profissionais serão desafiados e terão sua saúde mental testada. “Temos de ter discernimento de que este é um momento de muitos desafios”, afirma. “O estresse é positivo como alavanca de crescimento, mas é negativo quando fere os valores da pessoa.

CORAGEM DE ENCARAR

Abraçar o estresse é uma das propostas de ensino da Hyper lsland, escola sueca de inovação que não tem provas; nem professores. Eles acreditam que as pessoas talentosas do futuro serão “learners”, ou seja, gente curiosa e com facilidade de aprendizado, e não “knowers”, especialistas e detentores de conhecimento. A escola parte de uma abordagem construtivista de aprendizagem. “Acreditamos que os seres humanos constroem o conhecimento e o significado a partir de suas experiências, por isso incentivamos o aprendizado pela prática”, diz Alex Neuman, designer de aprendizado em pesquisa e desenvolvimento da Hyper Island. A educação consiste em ensinar pessoas a alcançar o seu próprio potencial, mas também a fazer isso ao trabalhar em equipe. E tudo isso pode causar nervosismo. Afinal, aprender sozinho, com os próprios erros, e prestando atenção mais na jornada do que no resultado, pode ser estressante. Não à toa, os três pilares da educação da Hyper lsland são: fricção, frustração e fracasso.

Nas dinâmicas da escola, é possível identificar rapidamente quando o estresse entra em cena. Queremos que os estudantes pisem fora do que é confortável e familiar, além de fazer descobertas. Isso significa, inevitavelmente, assumir riscos, lidar com a incerteza e experimentar o

desconhecido”, afirma Alex. Esse é o momento em que o aprendizado mais acontece, eles chamam de “zona de estiramento”. “Ao mesmo tempo, nós não queremos empurrar os alunos para longe demais, até a ‘zona de pânico’, na qual o estresse ou a pressão tornam-se tamanhos que a aprendizagem não acontece”, diz.

Para esse tipo de abordagem, em que a pessoa percebe a situação como desafio e não como ameaça, Kelly cunhou o termo “biologia da coragem”. Durante um curso para executivos realizado em São Paulo em 2014, Mikael Ahlstõm, um dos sócios da Hyper Island, contou que eles adoram quando grupos entram em colapso e fracassam. “Quando algo assim acontece numa empresa, a tendência das pessoas é esconder qualquer tipo de conflito ou fracasso, afirmou Mikael. “Mas justamente nesses momentos que ocorre o aprendizado, e eles devem ser abraçados e discutidos o máximo passível.” Então, da próxima vez que o estresse surgir – o que deve acontecer logo, – tente fazer o exercício da positividade. Isso vai ajudá-lo a encarar os desafios com mais alegria e vontade de aprender.

COMO VOCÊ LIDA COM O ESTRESSE?

Alia Crum, psicóloga da Columbia Business School, estabeleceu dois modos ­ padrão pelos quais as pessoas costumam enxergar o termo. Veja com qual você se identifica mais.

O lado bom do estresse. 2

Passar por estresse…

…esgota minha saúde e vitalidade.

…debilita minha performance e produtividade.

…inibe meu aprendizado e crescimento.

…tem efeitos negativos e deveria ser evitado.

O lado bom do estresse. 3 

Passar por estresse…

…melhora minha performance e produtividade.

…melhora minha saúde e vitalidade.

…facilita meu aprendizado e crescimento.

…tem efeitos positivos e deve ria ser utilizado.

OUTROS OLHARES

MATERNIDADE CONGELADA

Preservar os óvulos é tendência entre mulheres que se veem pressionadas pelo desejo de ser mãe e enfrentam incertezas na vida pessoal e profissional. Entenda o fenômeno e como as empresas estão se adaptando a ele.

Maternidade congelada

Um bom pacote de benefícios é um trunfo do empregador na hora de atrair e manter bons profissionais. Muitas empresas vêm se empenhando para oferecer vantagens que façam brilhar os olhos de seus funcionários. Em 2014, gigantes de tecnologia, como Apple, Facebook e Microsoft, levantaram polêmica ao anunciar que passariam a oferecer um subsídio de 20.000 dólares às funcionárias que quisessem congelar seus óvulos (A mesma iniciativa não faz parte da política dessas empresas aqui no Brasil). O procedimento consiste na coleta e na estocagem dos gametas femininos quando a mulher ainda está em idade fértil (até os 40 anos) para que possam ser usados no futuro quando ela achar oportuno. A preservação é feita em contêineres, em temperatura próxima a 200 graus negativos – dai o congelamento ou a criopreservação – e o material pode ser mantido por tempo indeterminado sem perda de qualidade, garantem os especialistas.

A indicação clássica do processamento é médica. “Mulheres que precisam passar por tratamento de saúde que pode comprometer a fertilidade (quimioterapia ou radioterapia, por exemplo) têm a chance de guardar seus óvulos para tentar uma gestação no futuro”’, afirma a ginecologista Maria do Carmo Borges de Souza, diretora médica do Fertipraxis Centro de Reprodução Humana. Os avanços nas técnicas e os bons resultados apresentados em trabalhos científicos fizeram com que a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva deixasse de considerar experimental o procedimento de congelamento de óvulos em 2013, Isso contribuiu para que, cada vez mais, pacientes quisessem se submeter a ele por motivos que não têm a ver com saúde, mas com a vida social e profissional – como mulheres jovens que desejam preservar a fertilidade e outras que se aproximam do limite da capacidade reprodutiva sem a certeza de querer filhos ou sem um parceiro disposto a ser pai.

Não há dados oficiais de procedimentos desse tipo realizados no Brasil – a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) monitora apenas o número de embriões criopreservados, o que não reflete exatamente o mesmo perfil de público nem motivações iguais. Mas, nas clínicas de reprodução assistida, a procura pela técnica mais do que dobrou nos últimos cinco anos. Na Fertipraxis, por exemplo, foram realizados 213 processos de congelamento de óvulos de 2015 a 2018, ante 102 de 2010 a 2014. A Huntington, uma das maiores clínicas de fertilização de São Paulo, conduziu 103 procedimentos em 2013 e 357 em 2018, um crescimento médio de pelo menos 10% na procura a cada ano.

CONGELAR POR QUE?

A iniciativa de Facebook, Apple e Microsoft ainda gera desconfiança quanto a real intenção por trás de bancar o congelamento de óvulos para as funcionárias. Críticos ao subsídio argumentam que se trata de uma estratégia disfarçada para que elas sigam trabalhando e deixem para pensar em maternidade depois. É que a falsa sensação de autonomia dada à mulher sobre a decisão do momento certo para ter filhos só reforça a ideia de que não dá para conciliá-los com uma carreira bem-sucedida. “É preciso olhar para as políticas de apoio à mãe durante os primeiros cuidados com a criança, como licença- paternidade e maternidade estendidas, horários flexíveis, creche. Esse é o período em que ela encontra a maior dificuldade para desempenhar bem os papéis de mãe e profissional”, diz Rita Monte, coach para mulheres e consultora em processos de mudança de cultura em empresas.

É fato que a maternidade afasta as mulheres do mercado de trabalho. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que praticamente metade das profissionais brasileiras é demitida ou se demite no primeiro ano depois de dar à luz. As justificativas para a saída são várias e vão da opção de se dedicar à nova etapa da vida à dificuldade para criar urna estrutura que permita cuidar da criança sem precisar se dedicar menos ao trabalho. No entanto, a principal motivação de quem opta por congelar a fertilidade está menos na esfera profissional do que na pessoal. Em um estudo recente da Universidade Yale, nos Estados Unidos, com 150 mulheres que preservaram seus óvulos, 85% das entrevistadas apontaram a ausência de um parceiro adequado como determinante para a decisão. Índices semelhantes (sempre acima de 80%) foram revelados em trabalhos anteriores com pacientes belgas e australianas. Para a antropóloga Márcia Inhorn, autora da pesquisa de Yale e estudiosa dos impactos sociais da infertilidade e das tecnologias de reprodução assistida em vários países do mundo, o planejamento de carreira definitivamente não é a razão principal por que as mulheres estão congelando seus óvulos. “A maioria tem de 34 a 39 anos e já conquistou boa parte das metas que tinha para a educação e a carreira”, diz a especialista, frisando que esse mesmo perfil é claramente visto em outros países em que os casos de criopreservação de óvulos vêm aumentando. “Essas mulheres estão chegando ao limite da vida fértil sem um parceiro disposto e veem na tecnologia uma chance de realizar o sonho da maternidade”, diz.

Maternidade congelada. 2

MANUAL DE INSTRUÇÕES

A criopreservação de óvulos representa até 30% da demanda dos centros de reprodução assistida, de acordo com os especialistas consultados nesta reportagem. Entenda como o procedimento funciona.

 

PASSO A PASSO

EXAMES – A primeira etapa é passar por exames de dosagem hormonal para avaliar a reserva    ovariana e determinar que expectativas ter em relação ao procedimento.

 ESTÍMULO – Quando iniciar o ciclo menstrual (até o terceiro dia), a mulher começa um tratamento que dura de oito a dez dias de estimulação ovariana por meio de injeções de hormônios, afim de estimular o crescimento de folículos (estrutura onde o óvulo se desenvolve) e garantir uma boa quantidade de gametas para ser congelados (de 15 a 20 óvulos). É comum sentir cólica, inchaço abdominal, enjoo e indisposição.

COLETA – É feita com anestesia, sedação e uso de uma agulha acoplada a um aparelho de ultrassom transvaginal, que aspira os folículos para ser selecionados. são separados para congelamento os considerados maduros. Se nessa fase não for possível colher o número desejado de óvulos, será necessário repetir o ciclo.

ARMAZENAMENTO – Os óvulos saudáveis são identificados, armazenados em uma espécie de           canudo próprio e transferidos para um contêiner com nitrogênio líquido em temperatura próxima a 200 graus negativos. O material pode permanecer ali por tempo indeterminado sem perder a qualidade, segundo os especialistas – há casos de bebês nascidos de óvulos congelados hã mais de 20 anos. vale saber que no descongelamento é prevista uma perda de 5% a 10% dos gametas. Os sobreviventes passam por fertilização in vitro e, então, são implantados no útero. Como em todo o tratamento de reprodução assistida, a gestação não é garantida.

QUANTO CUSTA – De 15.000 a 20.000 reais (procedimento) mais taxa de manutenção anual de 1.000 reais, em média, para manter os óvulos na clínica.

QUEM PODE FAZER – Mulheres em idade fértil, embora o recomendado seja para aquelas de 30 a 40 anos.

RISCOS – A criopreservação é considerada segura. Já foram levantadas hipóteses de que, por causa do uso de hormônios para a estimulação ovariana, o procedimento poderia elevar o perigo de desenvolver câncer de mama e ovário ou menopausa precoce, mas não há evidências que comprovem a teoria. Na Europa, há relatos de casos de câncer em mulheres que se submeteram ao tratamento. Porém, as ocorrências se deram entre pacientes que vendem seus óvulos (o que é permitido em alguns países) e, por isso, repetiram vários ciclos de estimulação hormonal.

GESTÃO E CARREIRA

O PODER DA EMPATIA

Definida como a habilidade de se colocar na pele dos outros, a empatia é o comportamento mais visado pelo mercado de trabalho hoje. Afinal, sua capacidade de envolver e entender as pessoas a sua volta e o que vai torna-lo um colega mais colaborativo e um líder mais eficiente.

O poder da empatia

Imagine um líder de uma empresa que precisa anunciar à equipe que a companhia passará por reestruturações e muitos serão demitidos. O que permitiria a ele dar essa notícia aos funcionários de forma que eles entendessem o cenário, mas sem acabar com a motivação daqueles que sobrarem? Ou, então, em uma negociação complicada, como fazer para convencer a outra parte de que a proposta vale a pena e é vantajosa para os dois? E, ainda, como entender e prever reações das pessoas à sua volta antes de tomar uma decisão? A resposta para tudo isso pode estar em um a palavra só: empatia. Definido pela habilidade de se colocar no lugar dos outros, esse comportamento vem sendo considerado um dos fatores mais importantes e buscados nos profissionais hoje.

Pode parecer simples, mas, na prática, essa é uma habilidade que não se aprende numa sala de aula. Os elementos que influenciaram a maneira de uma pessoa agir e pensar são inúmeros, como sua origem, crença, história de vida e situações pelas quais passou. Dar conta de perceber esses detalhes faz parte da empatia. “É colocar uma lente para entender as coisas a partir da perspectiva do outro”, diz Ana Pliopas, do Instituto Hudson, especializado em coaching, em São Paulo. E é natural do ser humano ter essa capacidade. Na psicologia, o contrário de empatia é a psicopatia. “Psicopatia é uma disfunção cerebral em que a pessoa tem dificuldade de sentir emoções”, diz Pâmela Magalhães, psicóloga clínica em São Paulo. “Existem graus variados, e o mais severo é o que pode se tornar perigoso. À exceção desses casos, todo mundo tem empatia em menor ou maior grau.

Um estudo liderado pelo cientista italiano Giacomo Hizzolati, na década de 1990 na Universidade de Parma, na Itália, ilustra bem como isso funciona. Os pesquisadores reuniram casais e fizeram um experimento analisando suas respostas corporais. Eles viram que, quando picavam o dedo do marido, a mulher, que assistia, registrava em seu cérebro as mesmas reações do parceiro, como se ela também sentisse a dor. Quanto mais empática a mulher se mostrara em entrevistas anteriores, mais sentia essa dor. Isso é possível graças aos nossos neurônios espelhos, aqueles que nos fazem bocejar quando ninguém ao nosso lado bocejou. “Tudo isso está relacionado à nossa capacidade de repetir ou internalizar sentimentos, medos e receios dos outros”, diz Denis Pincinato, professor na Fundação Instituto de Administração (FIA) e consultor associado da Negociarte, em São Paulo. Inclusive para perceber dificuldades e medos que você nunca teve e que podem ter um impacto para o outro.

E porque isso é tão importante? Pense no trabalho em equipe, um dos pilares de muitas das empresas hoje. Lidar com os outros sempre será um desafio, pois conflitos de interesse, de ideias e falhas na comunicação nunca deixarão de existir. A diversidade, outro ponto cada vez mais reforçado no ambiente corporativo, também traz desafios ao colocar na mesma sala, pessoas completamente diferentes. A empatia, nesse caso, permite enxergar os colegas a partir de uma    perspectiva com menos julgamentos e mais colaboração. Oferecer ajuda a um colega que chega atrasado ou parece confuso, por exemplo, é uma atitude de empatia. “Uma pessoa pode até recusar, mas só o gesto cria uma boa vontade entre os dois”, diz Magui Castro, sócia da The Caldwell Partners, consultoria de recrutamento, em São Paulo. E, mais tarde, aquelas pessoas que souberam manter esse clima de entendimento e de apoio serão as que mais facilmente serão cogitadas durante um processo de promoção.

Além de mais bem-sucedidos na carreira, os mais empáticos se mostram também mais felizes. Segundo um estudo da Isma-BR (International Stress Management Association no Brasil), feito em 2015 com 1.000 profissionais de São Paulo e Porto Alegre, as mulheres que possuem essa habilidade sentem 74 % mais satisfação, e os homens, 71%. A explicação é que, quando ajudamos os outros e nos importamos com eles, nos sentimos mais gratos. Pelo mesmo motivo, o comportamento empático traz também 81% mais motivação para mulheres e 76% mais para os homens. E essa competência também ajuda na habilidade de analisar sistemas complexos do negócio. Muitas vezes, o que prejudica ou ajuda no sucesso de alguma empreitada é a forma como as pessoas envolvidas se sentiram durante o processo – e é comum ignorarmos esses sentimentos. “Se eu não tiver empatia, não vou identificar as partes do outro que afetam o sistema como um todo”, diz Pâmela. Ao entender como a reação dos outros pode interferir em um cenário, as decisões tendem a ser mais bem pensadas e sustentáveis.

HABILIDADE NOVA

Por tudo isso, dá para entender por que o mercado valoriza tanto quem transborda empatia. Entre os headhunters, essa competência salta aos olhos e pode definir uma contratação. “Quando recruto, prefiro a pessoa que demonstra mais empatia a quem tem mais habilidades técnicas”, diz Áurea Imai, sócia da Boyden Executive Search, consultoria de recrutamento, em São Paulo. “Em uma entrevista, avaliamos os resultados que aquela pessoa obteve e como fez isso”. E é aí que irá residir o grau de empatia. Aos olhos dos consultores, quanto mais o profissional consegue mostrar como considerou as pessoas à sua volta em cada um dos projetos que desenvolveu, mais empático ele se torna. E não adianta inventar histórias. Esse comportamento não é algo que você possa afirmar ou falar, mas que deve transparecer nas suas atitudes.

Embora sempre fizesse diferença na carreira e na vida das pessoas, a empatia, como competência, passou a ser mais valorizada na última década. Antes era mais fácil chegar a um cargo de liderança sem se preocupar com isso. Não é à toa, no passado era mais comum (e aceitável) encontrar chefes durões, que comandavam por meio da autoridade. “O mercado não consome mais gente com essa atitude, não contrata, diz Magui. Antigamente, essa liderança funcionava porque conceitos como engajamento e propósito – tão em voga hoje nas empresas – não eram discutidos. Além disso, o conhecimento técnico era mais restrito, o que fazia com que os poucos privilegiados se destacassem apenas por essa competência, abrindo passagem para o topo.

A história hoje é bem diferente. “Antes, era o RH que avaliava e desenvolvia as pessoas, hoje ele desenha a estratégia, mas quem se compromete com isso é o líder”, diz Gustavo Costa, fundador da Unique Group, consultoria de gestão, no Rio de Janeiro. Por isso, saber reconhecer as necessidades que cada pessoa tem para se motivar e por que ela é boa em uma situação e pior em outra é crucial para um líder que precisa desenvolver e perceber quais são os maiores potenciais   para atingir os melhores resultados.

Parte disso tem a ver com o comportamento da geração mais nova, que espera ver no chefe, fonte de inspiração e apoio, e não uma figura de autoridade que causa medo. “Todo mundo quer se sentir pertencente na empresa”, diz Vera Martins, coach e autora de O Emocional Inteligente (Alta Books). Quando vemos que somos compreendidos, pelo chefe e que ele está atento a como nos sentimos, nos engajamos mais no trabalho. Temos a tendência também a nos sentir mais à vontade, porque a empatia abre espaço para diálogo. O medo de sugerir inovações e de discordar do líder diminui, favorecendo a inovação. Quem tem empatia consegue avaliar cenários e notar o que está fazendo sentido ou não para as pessoas”, diz Áurea. “Vejo vários líderes que ficam falando e falando para um público, mas não conseguem convencer porque não sabem ler o que o outro precisa.

O desafio é conseguir criar empatia com pessoas com as quais você não necessariamente se identifica – e nem mesmo conhece direito. Claro, a ideia não é que você se torne íntimo de todos ao seu redor. Além de exaustivo, isso seria impossível. Mas, para conseguir desenvolver uma compreensão empática, é necessário estar aberto e disposto a compreender o outro sem colocar suas próprias ideias e opiniões por cima da interação. Isso exige muita sensibilidade, mas também muita inteligência. Até porque, mesmo que você não sinta aquilo que a pessoa sente, pode entender o que se passa. “Você pode se colocar mentalmente no lugar do outro sem se envolver tanto emocionalmente”, diz Vera. “É uma empatia cognitiva.”

DESENVOLVENDO A EMPATIA

Para aperfeiçoar isso, o primeiro passo é ouvir os outros com atenção. Não vale digitar ou olhar para o celular ao mesmo tempo. Na escuta ativa, você nota e guarda dados sobre a pessoa, não só sobre o tema da conversa”, diz Denis. Pode-se estar discutindo um projeto do trabalho, mas o outro sempre dará sinais sobre si mesmo, de forma involuntária ou não. Um comentário rápido sobre uma experiência pessoal ou uma expressão mais sutil de desconforto são exemplos do tipo de informação que, às vezes, deixamos passar. São fatores que não importam para o projeto em si, mas que revelam muito sobre seu interlocutor. Reparar nisso faz com que você desenvolva uma compreensão melhor das pessoas que o cercam, ajuda a sair do ambiente com o qual você está acostumado e se colocar em situações desconhecidas.

Abrir-se para conversar com quem você normalmente não conversaria é também um passo nessa direção. Há formas de demonstrar aos outros que você está atento e deixá-los relaxados para se expressar, como olhar nos olhos e fazer perguntas pertinentes ao assunto. Mais do que um conjunto de ações, a empatia é uma postura. E, para além da escuta, é preciso ler os sinais não verbais. São gestos, expressões faciais e atitudes que comunicam tanto ou mais do que as palavras.  Diferentemente da comunicação verbal, estes sinais tendem a ser menos propositais e, por isso, ainda mais reveladores. Normalmente, mesmo que não os façamos de forma consciente, todo mundo sabe interpretá-los – e até podemos reagir a eles sem perceber.

Uma pessoa que fala com um tom de voz normal, mas demonstra ansiedade por meio dos seus gestos, como um balançar de pernas constante ou um olhar aflito, poderá nos deixar mais nervosos automaticamente.

É sempre bom lembrar, no entanto, que até uma pessoa mais afinada para perceber detalhes e fazer a escuta ativa pode se enganar. “Vale a pena validar suas impressões perguntando diretamente para o seu interlocutor”, diz Ana. Afinal, as pessoas podem se comportar de forma diferente para situações parecidas. Há quem chore quando está com raiva em vez de sair batendo pé, por exemplo, enquanto outros podem se fechar e se isolar pelo mesmo motivo.

E isso é parte do desafio, porque não há como adotar uma única regra para todo mundo. Engana- se quem pensa que tudo isso demonstra uma postura paternalista ou leniente com os erros dos outros. “A empatia é dar uma chance para a pessoa se preparar ou dizer que não está pronta”, diz Magui. Mas a cobrança por resultado é igualmente firme.”

Desenvolver essa habilidade é mais fácil quando entendemos o que nos leva a ser mais empáticos com algumas pessoas e menos com outras. “Às vezes, o que mais nos incomoda nos outros é o que percebemos de ruim em nós mesmos”, diz Ana. Ou seja, ser mais empático envolve também saber melhor sobre o que atinge a si mesmo. Caso você sinta dificuldade em praticar a empatia, há alguns questionamentos que pode se fazer. “Pergunte-se, por exemplo, o que você ganha não sendo empático, diz Vera. Isso porque muitas vezes, por nos sentirmos ameaçados ou inseguros, preferimos não dar abertura às outras pessoas. A outra pergunta é o que você tem perdido com isso. Aí vale ver quantas relações de confiança você deixou de ter por causa da sua postura. “A empatia ativa é um hábito, precisamos entender o que vamos ganhar com isso para desenvolvê-la, afirma Vera. Não há como fingir ou simular a empatia, por isso a sua vontade de se colocar na pele dos outros é um ingrediente essencial. Para a sua carreira – e para a sua vida.

 

AMPLIE SEU POTENCIAL EMPÁTICO

Durante l2 anos, o filósofo Roman Krznaric, autor d0 livro o poder da empatia, analisou pesquisas, fez uma série de entrevistas e descobriu como as pessoas podem expandir o potencial empático.

1 – DÊ UM SALTO IMAGINATIVO

Faça um esforço consciente para se colocar no lugar de outras pess0as – inclusive de seus “inimigos”- para reconhecer sua humanidade, individualidade e suas perspectivas.

2 – BUSQUE AVENTURAS

Experimente, explore vidas e culturas diferentes das suas por meio de imersão, viagens ou cooperação social.

3 – PRATIQUE A ARTE DA CONVERSAÇÃO

Incentive a curiosidade por estranhos e a escuta radical e tire suas máscaras emocionais.

4 – VIAJE EM SUA POLTRONA

Transporte-se para a mente de outras pessoas com a ajuda da arte, da literatura, do cinema e das redes sociais na internet.

5 – INSPIRE UMA REVOLUÇÃO NOS OUTROS

Gere empatia numa escala de massa para promover mudança social e estender suas habilidades empáticas ao mundo todo.