A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS APOSENTOS VAZIOS DA DEPRESSÃO

Estimativas da OMS apontam a depressão como a doença psiquiátrica mais diagnosticada atualmente: ocupa o quarto lugar entre os maiores problemas de saúde do Ocidente. Um autêntico tratamento psiquiátrico implica reconhecer, enfrentar e respeitar experiências -limite que reavaliam o sentido e o significado de nosso existir e sofrer.

Os aposentos vazios da depressão

O termo depressão assume significados diferentes se utilizado na linguagem comum ou na psiquiátrica. Se na primeira indica o estado de tristeza e desânimo da pessoa diante de acontecimento desagradável, decepção ou luto, em âmbito psiquiátrico designa um quadro clínico preciso (distúrbio depressivo), caracterizado por sintomas biológicos e psíquicos espontâneos, aparentemente desproporcionais em intensidade e duração aos acontecimentos que o provocaram. Essa condição se distingue por sintomas como perda de interesse, astenia, incapacidade de sentir prazer, insônia, falta de apetite, diminuição da libido, facilidade em fatigar-se e alterações cognitivas, psicomotoras e neurovegetativas. Esse estado de ânimo invade por inteiro a personalidade acometida. Um indivíduo deprimido experimenta – às vezes com angústia, outras com gélido desespero – a irremediável negatividade da vida. Mas se em algumas pessoas atinge a existência pessoal (e neste caso podem prevalecer ideias persecutórias, sentimentos de exclusão, inferioridade, indignidade, culpabilidade), outros sentem a própria vida como intolerável. Tudo parece negativo, terrível, irremediável. O mundo se toma um lugar de baixezas e maldades, dominado pela luz sinistra de dor e mal metafísicos.

O distúrbio depressivo – que aqui definiremos intencionalmente também como melancolia – é conhecido desde a Antiguidade. Nas últimas décadas, os conhecimentos sobre etiologia, nosografia, diagnóstico e terapia das diversas formas de depressão progrediram notavelmente. As ciências de base – da bioquímica à biologia molecular, da neurofisiologia à psicofarmacologia – forneceram novos elementos, úteis para a compreensão dos mecanismos patogenéticos, para a elaboração de modelos sobre a transmissão genética, a identificação das áreas e dos circuitos nervosos responsáveis pelas diversas manifestações da depressão. Além disso, o renovado interesse pela observação do paciente e pela descrição dos sintomas levou a uma atenção maior para com o diagnóstico e a uma redefinição dos distúrbios depressivos. Desse modo, foram melhor especificados os diversos subtipos de depressão e, para muitos deles, afinadas modalidades de intervenções personalizadas. Algumas formas atenuadas, outrora definidas como “neuróticas” e tidas como traços estáveis da personalidade, são hoje consideradas manifestações depressivas leves e persistentes, que respondem a terapias. A avaliação da incidência da história familiar do caráter, da personalidade e da adaptação pré-doença permitiu incluir em seu espectro clínico algumas formas bipolares mistas crônicas, cujo quadro é amiúde dominado por delírios, alucinações e distúrbios do pensamento.

Não se pode negar, entretanto, que no âmbito terapêutico foram obtidos importantes progressos. A introdução de novas substâncias para tratamento agudo e preventivo permitiu alcançar, na terapia dos distúrbios do humor, resultados nada inferiores aos de outros setores da medicina. Especialmente, a síntese de antidepressivos com a ação seletiva sobre os diversos sistemas neurotransmissores permitiu que fossem dadas respostas às formas clínicas antes não tratáveis.

O GÉLIDO ABISMO

Em geral, a experiência depressiva se caracteriza por sofrimentos de tamanha intensidade que dificilmente podem ser imaginados por quem não os sentiu. Para quem sofre de depressão, sentir-se não compreendido na própria dor torna mais aguda a sensação de estranheza e de pena de si. Estímulos, conselhos, exortações para reagir e fortalecer-se nada mais fazem que acentuar a desesperada solidão do paciente, sua insustentável responsabilização por alguma coisa que já não controla. Ele percebe, com penosa intensidade, um irreprimível empobrecimento afetivo e, ao mesmo tempo, a perda, inimaginável do contato com um mundo exterior rico e vital.

Embora a perda de energia e vitalidade, as sensações de confusão, incapacidade de concentrar-se, fazer escolhas, trabalhar e amar possam ter intensidades diferentes de pessoa para pessoa, significam, de todo modo, um pano de fundo constante. Além disso, sentimentos de impotência e derrota dominam o cenário. As noites insones, povoadas por medo e mal-estar, são aguardadas com terror. Os dias começam como pesadelo de novas e intermináveis provas a enfrentar. Até as atividades elementares, como levantar-se, lavar-se, passear e outras tantas, custam esforços inimagináveis. Vai ganhando terreno, para usarmos as palavras de von Hofmannsthal, “uma existência nua, exposta à dor, atormentada pela luz, ferida por todo som”. A sucessão de dias que parecem iguais, sem melhoras, revigora a visão pessimista do paciente quanto ao próprio futuro. A postura em relação a esse distúrbio, todavia, muda de indivíduo para indivíduo. Há quem, sem uma adequada consciência da doença não perceba totalmente o que está acontecendo. Alguns sentem que estão doentes, mas recusam ajuda, outros sabem que estão sofrendo de uma doença física, grave, ou ainda lutam contra a doença e procuram ajuda, por vezes de maneiras apelativas e manipuladoras, que causam incompreensão nos que estão ao redor e equívocos quanto a real gravidade da situação. Outros, por fim, conseguem dissimular o distúrbio, esconder a inibição e parecer animados, até inesperadamente surpreenderem parentes e colegas com um gesto suicida, como uma espécie de ato de libertação de um sofrimento, vício incorrigível e desesperançado.

Na depressão, o suicídio é muito frequente. Em 1791, Pinel evidenciou com espanto como os autores – tanto antigos quanto modernos – que haviam descrito todo tipo de ”melancolia nervosa”, tinham se descuidado daquela forma que se caracteriza por um desgosto insuportável pela vida, ou antes, por um desejo irresistível de dar-se a morte, sem que possamos encontrar uma causa. Em Luto e melancolia, Freud interpretou a tendência ao suicídio do melancólico como forma de agressividade contra o próprio Eu, no qual o sentimento de culpa tem um papel central. Basta nos simplesmente notar que, do ponto de vista psicanalítico, podemos identificar essencialmente dois tipos de culpa, uma persecutória, que deriva da pulsão de morte e que tende à auto -repreensão e ao receio de punição; a outra, função da pulsão de vida, que tende à reparação.

Para além das sugestivas e pertencentes hipóteses psicanalíticas, a culpa constitui um elemento psicopatológico nuclear da depressão, motivando um dos mais importantes fatores de transição do apego à vida ao suicídio. Esse, todavia, não seria voltado apenas a interromper a própria vida, dolorosa e sem esperanças, mas, também a libertar o mundo da própria presença, considerada abjeta e nefasta.

Além disso, o sofrimento se torna ainda mais doloroso pela impossibilidade de sua aceitação. É tido como indigno e, até por isto, como numa espiral infinita, na qual o paciente é envolvido pela culpa. Seja com relação a si próprio, aos outros, à vida, aos seus desejos, ao próprio corpo ou à sua resistência, a culpa constitui um elemento central do mundo melancólico. Convencido, como está de que tocou o fundo, o paciente acredita que nunca mais poderá levantar-se. É a culpa que leva os pacientes a fugir do mundo e isolar-se em casa, na certeza de não poder superar a punição.

Naturalmente, uma coisa é o sentimento de culpa, outra é o delírio de culpa. Enquanto o primeiro é a experiência de quem considera, errônea ou acertadamente, estar em culpa, no segundo a certeza de que deve ser punido não deixa espaço a mais nada.

A experiência da culpa, elemento­ chave na patogênese da doença nunca termina porque o paciente está sempre à procura de elementos num passado “culpado”. Esse “estar em culpa” remete o deprimido a um modo peculiar de experimento à morte. No entanto, só alguns melancólicos se definem culpados. Os outros sentem-se devedores pelo não poder, pela incapacidade de agir.

Decisivos, aqui, não são os conteúdos, mas a forma do passado que ocupa toda a vida psíquica. Nesse sentido, se é verdade que a identidade e a estabilidade do Eu de um ser humano lançam suas raízes no passado, então podemos compreender como o esquecimento sobre as próprias culpas, sobre a angústia dos remorsos e as saudades assumam para o melancólico o caráter ameaçador de uma separação do próprio Eu, de uma perda definitiva da própria identidade. De fato, o deprimido busca no passado esse suporte, essa espécie de segurança diante de um mundo que lhe escapa.

TEMPOS DA MELANCOLIA

Todas as experiências psicológicas humanas são marcadas pela presença do tempo. Mas o tempo dos homens não é apenas aquele do relógio que marca as horas em igual medida e que é estranho a toda repercussão interior. Há também um tempo interior. Um tempo vivido, que muda em cada um de nós, de momento em momento, de situação em situação. Um tempo vivo, independente da marcação cronológica das horas. Esse é o tempo da consciência. Quando estamos cansados, tristes ou entediados nossa percepção interior do tempo muda radicalmente com relação a quando estamos contentes ou intensamente interessados em algo. No primeiro caso, uma hora parece longa e interminável, no segundo, breve demais. Tudo isso está fortemente ligado a nossos diversos estados de ânimo e às diversas emoções que se repetem na percepção subjetiva. A alteração da consciência interna do tempo tem um espaço crucial na experiência melancólica. O   paciente assiste impotente à penosa deformação de seu tempo interior. Sem abertura para o futuro, ele desacelera, até parar, na impossibilidade de renovação temporal. Autores como Eugene Minkowski, Erwin Straus e Victor von gebsattel escreveram passagens importantes sobre cada desaceleração e a estagnação do “tempo vivenciado” como expressão crucial da melancolia.

A temporalidade – talvez fosse mais correto falarmos de intemporalidade – é a dimensão que mais apreende a essência da melancolia. Aqui, o tempo do Eu, já não estão no mesmo ritmo que o tempo do mundo, paradoxalmente só pode se salvar ancorando-se no passado cinzento, sem diferenças cromáticas, apartado do presente e do futuro. Desse passado se alimenta-se o presente, vazio e angustiante, que assim se defende do horror do vazio e da experiência do nada que se cumprem na ideia da morte. Aí o tempo se torna instante imóvel, imutável, eterno. Nesse ponto o advir perde todo significado positivo. Prevalece, irrevogavelmente, a noção de ”mal”. Numa vida morta, as lembranças se tomam remorsos e as ações cumpridas, culpas.

Já não podem ser inscritas num projeto, numa esperança. Para o melancólico, a mortalidade é a perda do objeto de amor, a perda do ser como tal. Esse caminhar em direção ao nada é extremamente visível na síndrome de Cotard, na qual o paciente se sente condenado ao “não existir”- uma morte em vida, mesmo sem de fato morrer.

Embora sejam raros, os casos de pacientes de Cotard testemunham, até um grau externo, a impossibilidade de morrer, estando o corpo a tal ponto esvaziado, tão inconsistente que a morte não lhes diz respeito. Esses pacientes, que se definem mortos vivos, dizem sofrer de sua mortalidade, da impossibilidade de morrer, e pedem para ser libertados de destino tão atroz. Alguns consideram a morte real e concomitantemente falam de uma morte que não devora a existência, mas que se acompanha de uma misteriosa sobrevivência a ponto de tornar a própria morte vã. Em outras melancolias falta até a esperança de poder morrer.

Cito as palavras do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard: “Se quiséssemos falar de uma doença mortal no sentido mais estrito, essa deveria ser uma doença cujo fim seria a morte e a morte seria o fim. E essa é precisamente o desespero. Todavia, noutro sentido, ainda mais preciso, o desespero é a doença mortal. De fato, é extremamente improvável que venhamos a morrer fisicamente dessa doença ou que essa doença termine com a morte física. Ao contrário, o tormento do desespero é precisamente o de não poder morrer. Por isso mais se parece com o estado do moribundo quando está agonizando sem poder morrer. Portanto cair na doença mortal é não poder morrer, mas não como se houvesse a esperança da vida: a ausência de toda esperança significa aqui, que não há sequer a última esperança, a da morte. Quando o perigo maior é a morte, espera se na vida; mas, quando se conhece o perigo ainda mais temível, espera-se na morte. Quando o perigo é tão grande que a morte se tornou esperança, então nasce o desespero vindo a faltar a esperança de poder morrer’.

A temporalidade da melancolia, portanto, está fora de qualquer duração, ausente em sua própria essência. A articulação dinâmica de passado, presente e futuro se torna vã mediante uma radical desistoricização. Eis porque tão frequentemente, terminado o episódio, a experiência melancólica é esquecida. Não poderia ser recordada (no sentido de ser reconduzida para as “intermitências do coração”), porque nessa intemporalidade tudo se anula. Todo gesto se debruça sobre um vazio abismal. Mas não se trata de um vazio de futuro, de presente ou de passado. Trata-se de um vazio do passado, do presente, do futuro. Vazio do tempo. Vazio da vida como presença reduzida a corpo desprovido de espírito. Precisamente como a temporalidade o próprio tema da corporeidade se inscreve: no melancólico em uma dramática queda de “doação de sentido, num eclipse da consciência intencional. O deprimido arrasta o próprio corpo, identificando-se inconsciente e plenamente nele, um corpo pesado e lento, já não voltado ao mundo, mas encerrado dentro dos próprios limites. Na experiência melancólica o olhar é radicalmente interiorizado, voltado para dentro, abstraído das coisas. As mãos já não permitem agarrar os objetos distantes do corpo. O paciente é incapaz de chorar, de expressar a tristeza e o desespero, a angústia e a nostalgia. No rosto essa divergência entre os sentimentos como realidades psíquicas e o corpo como lugar de sua expressividade se torna dilacerante O rosto, perdido, se obscurece, não há signo de choro ou sorriso: está petrificado em sua imagem corpórea que não e lança no mundo, mas se consome na própria imanência.

O espaço do deprimido tende a ser desesperadamente vazio, chato, sem relevos, sem perspectivas. As coisas são vividas como isoladas, distantes, inalcançáveis. É um espaço fechado, enrugado, bloqueado, opressor. Por sua capacidade de criar relações e interrogações, o espaço parece uma dimensão aberta à possibilidade de planejamento da existência, um movimento que se torna comunicação, linguagem, interlocução, investimento, projeto. Portanto, mais que de espaço temos de falar de espacialização. O deprimido se insere nos interstícios de um espaço que não é o seu, porque não produziu, o que se consome é uma dramática metamorfose, mortificação, dissolvência da espacialidade.

O ECLIPSE DA ESPERANÇA

Embora na literatura psiquiátrica e psicopatológica seja pouco considerada, a esperança – como postura existencial de base e cifra essencial da historicidade do homem e de seu status existires – tem papel crucial no mundo melancólico. Ele solicita nosso olhar não para a nossa vida interior, mas para o que é independente da ação: em especial, da ação sobre nós mesmos. Ao falar do “caráter profético da esperança, o filósofo francês Gabriel Marcel definiu-a como uma “memória. do futuro”, um “dispor­ se na perspectiva do acontecer”. No polo oposto, o desespero é fechamento à temporalidade, negação de qualquer promessa de amor pelo futuro. Nesse sentido, se esperança é busca carregada de confiança, tendência a ultrapassar passado e presente por um porvir de sentido, o desespero é o tempo fechado da consciência, o questionamento de tudo o que de mais profundo há na existência. Aqui se revela extremamente útil a distinção de Lersch entre desespero biológico e existencial, o primeiro se refere aos fundamentos vitais do indivíduo, o segundo diz respeito à falência dos próprios valores existenciais.

Mas há que se perguntar: pode haver no melancólico uma patologia da esperança”, uma distorção qualitativa do esperar e, em casos extremos, um “esperar delirante”? Uma metamorfose da espera parece evidente nas temáticas delirantes de culpa e de danação, nos quais o que é questionado é a própria possibilidade de alcançar os modos transcendentes da esperança e o sentimento de culpa afeta profundamente o agir do homem e vida psicológica até que todo motus sper é neutralizado e enrijecido num desespero profundo e irrevogável. O melancólico não pode se subtrair a esse “eclipse da esperança”, porque ela investe todo aspecto mundano, pessoal e vital. Esse é o motivo que o torna fixo em sua gélida inércia, indiferente a qualquer espécie de alento, indisponível a qualquer exortação. O futuro desaparece e, com ele, a própria possibilidade de projetar-se, resgatar-se, redimir-se. O êxito é o niilismo absoluto, no qual mesmo os aspectos mais primordiais e vitais são expostos a uma deformação inimaginável – e, por vezes, grotesca. Nesse abismo de sentimentos vitais devem ser procurados alguns dos motivos do suicídio, paradoxal e extrema defesa de uma angústia infindável.

No entanto, a esperança permanece parte essencial da vida do homem: mesmo quando se apresenta de forma contrapolar, como sentimento da falta de sentimento, como um esperar que nada espera. Mesmo diante disso tudo, a esperança sempre tem uma dimensão criadora. Ela consegue força no vazio e nas adversidades sem, todavia, opor-se a nada, sem se lançar em qualquer tensão. Cria, permanecendo suspensa acima da realidade, sem ignorá-la; deixa aflorar mundos inéditos, palavras não ditas. Essa esperança pode crescer também no deserto da angústia e do desespero, do mal de viver e da fadiga. Como uma ponte ela nos acompanha para fora de nossa solidão, colocando-nos em relação com os outros. Como uma ponte devolve ao homem a possibilidade de caminhar sobre os próprios tumultos interiores, de elevar-se acima do tempo que passa, de devolver às lágrimas e à dor que as fazem brotar, um inesperado fragmento de porvir. Naquelas lágrimas, que alcançam o olho vindas dos mares extremos da alma, naquelas lágrimas que mil e mil vezes vimos entre infinitos carrosséis de gestos visíveis e invisíveis, flutuam inquietudes e sonhos despedaçados, a nostalgia do silêncio e das palavras do silêncio. Ao velar a visão elas desvelam a essência do olhar, fazem sair do esquecimento em que o olhar as guardava, a verdade dos olhos, o amor, a alegria, a oração mais do que uma visão científica.

ALÉM DO NATURALISMO

Em Genealogia da moral, Nietzsche escrevia, “Não existe, julgando rigorosamente, ciência ‘sem  pressupostos,’ o pensamento de uma ciência desta feita é impensável, paralógico, uma filosofia, uma ‘fé’ sempre tem de preexitsir, para que dela derive uma direção, um sentido, um limite, um método, um direito à existência”.

Um tratamento psiquiátrico autêntico tem de encontrar o próprio sentido nas questões fundamentais da condição humana, que dizem respeito a todos nós, a alegria e a tristeza, o tédio e o enfado, a melancolia e a esperança, a dor e o desespero. Uma psiquiatria que não saiba aceitar as fronteiras de seu não-conhecimento e, sobretudo, que delega o confronto com as categorias constituitivas de toda experiência psicopatológica a métodos terapêuticos indiferenciados está fadada a falir. Para além de toda absolutização biológica, o emaranhado dos conflitos imanentes ao arquipélago da loucura não pode abrir mão de uma presença humana que ouça e dê assistência.

Escreveu, provocativamente, Romano Giardini: “A melancolia é excessivamente dolorosa e lança suas raízes muito profundamente em nós para que possamos largá-la nas mãos dos psiquiatras”. As chaves de acesso de um autêntico tratamento psiquiátrico – que sempre nos expõe a situações e dimensões existenciais inéditas – estão nos aspectos radicalmente estranhos a tecnologias, rótulos, códigos, números e estatísticas, tão caros ao naturalismo psiquiátrico hoje dominante. O que resta a fazer, então, é inscrever tais experiências num horizonte de sentido antropológico, a única possibilidade é reconhecer, enfrentar e respeitar experiências-limite que colocam em questão o sentido e o significado de nosso existir e sofrer.

 

OS SINTOMAS DA DEPRESSÃO MAIOR

A Associação Psiquiátrica Americana considera que a depressão clínica envolve cinco ou mais dos sintomas abaixo, desde que sejam manifestados quase todos os dias, ao longo de duas semanas. Eles devem incluir pelo menos um dos dois primeiros critérios, causar angústia ou prejudicar as atividades diárias e não podem resultar de medicação, abuso de drogas ou condição médica pré­ existentes. Para os critérios formais, consultar a 4ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

  • Humor deprimido na maior parte do dia (em crianças e adolescentes a irritabilidade pode significar depressão).
  • Diminuição do interesse ou do prazer em relação à maioria das atividades diárias.
  • Acentuado aumento ou diminuição do apetite.
  • Insônia ou sono excessivo.
  • Agitação (evidenciada pelo torcer das mãos) ou lentidão dos movimentos.
  • Fadiga ou falta de energia.
  • Sentimentos autodepreciativos e culpa excessiva.

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UM MAL QUE SE ALASTRA

Do ponto de vista epidemiológico, os dados que concernem a depressão se mostram preocupantes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a depressão atualmente é a doença psiquiátrica mais diagnosticada; ocupa o quarto lugar entre os maiores problemas de saúde do Ocidente, e é a segunda causa de invalidez, precedida apenas pelas doenças cardiovasculares. O chamado distúrbio depressivo maior (antiga depressão endógena), caracteriza-se por pelo menos duas semanas de  humor deprimido ou perda de interesse na maior parte das atividades, acompanhada de ao menos quatro sintomas como sentimentos de desesperança, desvalia, culpa e desamparo, associados a alterações do apetite e sono, fadiga, retardo ou agitação psicomotora, diminuição do desempenho sexual, dificuldade de concentração e raciocínio e pensamentos recorrentes sobre a morte, com ou sem tentativas de suicídio.

A prevalência é de 2,3% a 3.2%, para o sexo masculino e de 4,5% a 9,3% para o sexo feminino. Além disso, o risco de sofrer um distúrbio depressivo maior no decurso da vida é de 7% a l2%, para os homens e 20% a 25% no caso de mulheres. Os fatores de risco aumentam para o sexo feminino (tornando­ se ainda mais elevados no período pós-parto), quando parentes de primeiro grau já sofreram da doença ou ocorreram episódios anteriores de depressão maior. Mulheres são duas vezes mais vulneráveis à distimia do que os homens, ao passo que a depressão maior as atinge três vezes mais.

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DAS FORÇAS NATURAIS À CIÊNCIA

As primeiras referências são atribuídas a Homero, que na Ilíada descreve a melancolia de Belerofonte (“…errou sozinho, através da planície Aloia, consumindo o seu coração, evitando as pegadas dos homens…”). Já o personagem Ajax Telamon vive bruscas mudanças do estado de espírito, indo da superexcitação a um profundo desespero, até chegar ao suicídio. Culturas antigas nos legaram textos que mencionam mudanças de humor de indivíduos que hoje enquadraríamos no aspecto psicopatológico-clínico da depressão. Naqueles tempos, porém, prevalecia uma visão ético-religiosa que não só atribuía a melancolia à intervenção de forças sobrenaturais malévolas, ou divinas, mas a considerava uma forma de punição.

No século IV a. C, Hipócrates, subtraindo esse distúrbio à filosofia e as ciências morais, que na época se preocupavam de seu estudo, situou-o no âmbito da medicina. Formulou uma hipótese etiopatogênica “científica”, descrevendo de forma aprimorada as características clínicas e a evolução do quadro melancólico. O grande médico grego aventou a ideia de que o cérebro seria a  sede de todas as emoções (“De nada mais se formam os prazeres e a serenidade e o riso e a brincadeira, a não ser do cérebro, e da mesma forma as dores, as perdas, a tristeza e o pranto”) e atribuiu a depressão à ação de uma substância endógena  nesse órgão, a bile negra (daí o termo “melancolia”; melan, “negro” e chole “Bile negra”. Sua presença no organismo seria determinada pela umidade e pelas estações.

Aristóteles (século III a.C.) evidenciou uma relação estreita entre personalidade melancólica e criatividade. Ele salientou que artistas, poetas, filósofos e políticos sofriam com mais frequência do distúrbio que as pessoas comuns. No século I d.C. Areteu da Capadócia (que levantou o caráter periódico e por vezes cíclicos desse distúrbio) e depois Galeno (131-201d.C,) aventaram a ideia de uma influência dos fatores genéticos e ambientais no desenvolvimento da melancolia, atribuindo sua origem a uma alteração primária do cérebro.

Durante a idade Média, tanto a abordagem organicista dos antigos pensadores gregos e romanos quanto a hipótese ”humoral” de Hipócrates foram abandonadas. Sob a influência da escola árabe de Avicena (980 – 1037 d. C.) a origem dos distúrbios psíquicos mais uma vez foi atribuído à causas       mágicas e religiosa.  Assim, a melancolia foi restituída ao âmbito moral: não mais como doença, mas como expressão de culpa e pecado a serem imputados à possessão demoníaca., que deviam ser debelados mediante exorcismos e torturas ou, na melhor das possibilidades, com o trabalho e a “força de vontade”. A alguns séculos de distância, Vesálio (1514-1564) tornou a expor a observação objetiva dos pacientes, afirmando a necessidade de um enquadramento científico das diversas formas clínicas. Entre 1700 e 1800, autores como Pinel, Falret, Baillarger, Kahlbaum, Kraft- Ebing e Kraepelin contribuíram para uma sistematização dos distúrbios do humor que influenciou o pensamento psiquiátrico mundial até a primeira metade do século XX.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

Uma consideração sobre “A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS”

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