A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SOMOS TODOS “PSICOSSOMÁTICOS”

Quando as dificuldades enfrentadas são muito intensas ou ocorrem num curto intervalo, sem que tenhamos tempo para nos recuperar, mesmo os mais equilibrados dificilmente conseguem absorver e elaborar os problemas. E o sofrimento se expressa no corpo de alguma forma.

Somos todos psicossomáticos

No dia a dia observamos pessoas que adoeceram gravemente após terem tido um grande problema na vida. Cada vez mais, nos últimos anos, tem sido reconhecido o fato de que fatores psicológicos participam do aparecimento e curso de patologias físicas. Um caso que não deixa margem à dúvida: os pesquisadores americanos D. Phillips e D.G. Smith constataram que, na colheita chinesa da Califórnia, na semana que precede a festa da Colheita da Lua, em setembro, a mortalidade diminui 35% .Na semana seguinte, os índices se reequilibram, numa espécie de “compensação”, e as pessoas voltam a ser vitimadas por acidentes vasculares cerebrais, doenças cardíacas e neoplasias. “Vemos que a expectativa feliz da festa é um fator psicológico que garante um novo alento de vida aos chineses, diminuindo a mortalidade”, escreveu o oncologista francês Claude Jasmin ao analisar o caso.

Reconhecidamente, o estresse tem papel importante no desenvolvimento de doenças, tanto físicas quanto mentais. Esse estado, porém, parece impreciso, às vezes até mesmo para psicólogos. Nesse sentido, a psicossomática tem se mostrado uma opção para a compreensão dos processos mentais envolvidos no adoecimento físico. Curiosamente, essa área surgiu na França e nos Estados Unidos, embora seus formuladores não soubessem das pesquisas um do outro. Os europeus, na verdade, precederam os americanos em nove anos. Em 1963, Pierre Marty, então presidente da Sociedade Francesa de Psicanálise, e seus colaboradores publicaram o artigo O pensamento operatório. Em 1972, o psicanalista Peter Sifneos, professor da Universidade Harvard, introduziu a noção de alexitimia, que se referia praticamente ao mesmo que Marty. Ambos os termos significam que, numa situação difícil da vida (como perda ou separação, falência, ameaça persistente, forte humilhação), é mais comum que voltemos nosso pensamento para o que aconteceu, muitas vezes independentemente de nossa vontade, trazendo lembranças, imaginando consequências e tirando conclusões. Com isso, elaboramos o problema – e não importa se nossas conclusões são as melhores, nem se nosso pensamento corresponde à realidade, o que conta é que nossa mente se ocupe do problema.

No pensamento operatório, no entanto, a mente se volta minimamente ao que aconteceu. A formulação central proposta pela psicossomática é a seguinte: de qualquer forma o indivíduo é afetado pelo problema; se sua mente não o elabora, ele atinge o corpo, o soma, daí o termo somatização.

Particularmente, prefiro a psicossomática de Marty porque nela o pensamento operatório foi se refinando e dando lugar a diversificações e ao conceito de mentalização, oferecendo espaço a gradações. Fala-se hoje em pessoas “melhor” ou “pior” mentalizadas. Podemos pensar em exemplificar com dois indivíduos hipotéticos, A e B, relatando como foi seu dia:

A) Tomei café da manhã ouvindo as notícias.

B) Tomei café da manhã pensando na discussão ontem à noite com meu filho.

A) No trânsito, fiquei ouvindo música e pensando em tudo que ia fazer durante o dia.

B) No trânsito fiquei ouvindo música e uma delas me fez lembrar a vez em que dancei esta música com minha primeira namorada.

A) Fiquei pensando em C, em como será nossa convivência no trabalho, já que fui promovido e ele não.

B) Fiquei pensando sobre que faculdade meu filho deveria cursar e na viagem de formatura dele daqui a quatro anos. Será que vale a despesa?

A) Passei a tarde conversando com clientes. Quando finalmente fiquei só, pensei em como deveria conversar no dia seguinte com D sobre o projeto.

B) Passei a tarde conversando com os clientes.

A) À noite fiquei assistindo TV com minha mulher.

B) À noite fui à casa de minha mãe e me senti culpado de ter ficado pouco tempo lá, mas ando muito ocupado. Quando eu namorava, estava com minha mãe e queria logo ir embora ver minha namorada. No caminho me sentia culpado.

 Podemos perceber que B é mais bem mentalizado em comparação a A, cujo pensamento é voltado a ações e ao momento presente (poucos dias antes, poucos dias depois). O pensamento de B tem autonomia, distancia-se das ações, tece relações (ou associações de ideias), faz incursões pelo passado longínquo ou futuro distante. Em razão das limitações decorrentes da pouca autonomia e do fato de se ater ao presente, a quantidade de pensa­ mentos de B acaba, consequentemente, sendo menor do que a de A. Numa psicoterapia, B não tem muito a dizer. Mas nos momentos difíceis da vida, A e B não mudam o funcionamento mental; o pensamento de B continua sendo sumário – mas em momentos críticos isso prejudica sua saúde física.

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LIMITES TÊNUES

Quando a mentalização é precária e o pensamento é muito unido às ações, a vida onírica também se apresenta empobrecida. Quando dormimos e deixamos de agir, o pensamento se esvai e não há produção de sonhos – eles são muito raros, de tipo simples, sem elementos insólitos e de fácil interpretação, revelando assim a pouca atividade mental na sua construção.

Há algo importante a ser considerado: essa concepção de somatização só é válida para doenças graves (por definição, aquelas em que a possibilidade de morte é quase certa se a medicina não for capaz de intervir). Doenças crônicas muito comuns, que se apresentam geralmente na forma de crises – como asma, enxaqueca, cefaleia tensional, dores nas costas, prisão de ventre, gastrite e úlcera-, não seguem esse esquema, não têm relação com a mentalização, embora cada manifestação corresponda a uma dificuldade psicológica característica do paciente.

Porém, se as dificuldades enfrentadas forem muito intensas, principalmente se surgirem vários problemas simultâneos ou estes se sucederem em curto intervalo, mesmo uma pessoa com mentalização de boa qualidade dificilmente conseguirá absorver e elaborar os problemas e terá grandes possibilidades de somatizar gravemente – o que nos leva a crer que somos todos “psicossomáticos”. É importante destacar, porém, que o aparecimento de doenças graves depende de nossas predisposições genéticas e adquiridas – por exemplo, pelo uso do tabaco, ou de agentes do meio ambiente, como vírus e bactérias.

A personalidade mais vulnerável a somatizações graves foi chamada por Marty de neurose de comportamento. Nos Estados Unidos, alguns anos depois, o psicanalista Otto Kernberg descreveu o mesmo tipo de personalidade, designada borderline, que depois passou para a classificação do DSM- IV. A descrição de Marty, entretanto, continua mais completa por incluir a mentalização. Uma primeira característica dessa personalidade é a impulsividade. Significa que a ação é intempestiva, não há retenção no pensamento e a ação “transborda” em direção ao alvo. Isso ocorre porque o indivíduo é tomado por uma emoção muito intensa. Ora, a emoção fica muita intensa porque não cai na rede dos pensamentos, não é modulada por eles, justamente por haver “pouco pensamento”, ou seja, uma má mentalização. Outra característica do borderline consiste em estar quase permanentemente ligado a coisas externas, assistindo TV, por exemplo, ou fazendo algo.

Somos seres sociais; se não estamos nos relacionando com alguém presente, tecemos relações em nosso mundo interno, imaginando diálogos e as mais diversas situações. Como para o paciente com características borderlines falta esse contato interno, o processo se dá externamente. A pessoa vive temendo separações, e seu ponto fraco para somatizações é justamente a ruptura de relacionamentos. Nessas ocasiões, o indivíduo fica desesperado, até eventualmente encontrar substitutos.

A principal causa da constituição da personalidade borderline está nos maus cuidados com o bebê. Na prática, isso se dá em situações de falta de amor ou incoerência afetiva (na qual sentimentos positivos se alternam com negativos de um momento para o outro), violência física, caos na guarda (a criança passa semanas ou meses com a mãe, outras semanas ou meses com a avó, até poder ir parar num abrigo). Nos casos mais graves, encontramos todos esses antecedentes. Nessas condições de maus cuida dos, a mentalização mal se constitui. O prejuízo pode ser revertido na infância se as condições mudarem, mas depois dessa fase torna-se mais difícil reparar os prejuízos.

Pessoas com mentalização um pouco melhor que os que sofrem com a personalidade borderline podem apresentar neurose de caráter (o termo foi usado por Marty e substituído depois por neurose mal mentalizada). A descrição do psicanalista francês também precedeu a da personalidade narcísica apresentada pelos psicanalistas Heinz Kohut e Otto Kernberg, que também passou para a classificação do DSM- IV. A descrição de Marty é mais abrangente porque parte de formas mais amenas – embora já vulneráveis a somatizações graves – em vez de manifestações nas quais a patologia mental é mais evidente. O DSM­ IV volta-se para quadros sintomáticos mais “evidentes e barulhentos” e assim considera dentro de uma faixa de normalidade formas mais brandas que, no entanto, podem estar correlacionadas com maior vulnerabilidade para somatizações graves.

Na personalidade narcísica o investimento essencial está na formação de um ego ideal, segundo a nomenclatura de Marty – ou self grandioso, conforme Kohut e Kernberg. Ainda na infância o sujeito mostra certa independência, como se não precisasse dos cuidadores.

Na adolescência formam-se fantasias de muito poder, riqueza, beleza e principalmente a necessidade da relação superior-inferior, na qual o narcisista estaria obviamente identificado com o superior. Nesse caso, os cuidados negligentes com o bebê não foram tão ruins quanto no caso do paciente borderline. Aqui, geralmente, o que mais ocorre é falta de amor e dedicação, uma hostilidade encoberta. Compensatoriamente o bebê infla seu self e agarra-se a ele (enquanto o borderline se agarra às pessoas). Como os cuidados não foram de boa qualidade, consequentemente, além do self grandioso, deparamos com uma má mentalização.

Maiores problemas na vida, como falência e traição, por exemplo, ferem o self grandioso. Se o indivíduo não consegue culpar outros ou responsabilizar as circunstâncias, fica arrasado, o que pode ser uma porta de entrada da somatização grave. Mas o próprio ciclo da vida com a chegada da meia-idade e o início do processo de envelhecimento dificilmente é aceito pelo self grandioso, já que a pessoa cultiva a ideia de que estar envelhecendo é sinal de inferioridade, o que pode resultar em somatizações graves.

Um terceiro funcionamento mental propenso ao adoecimento foi chamado por Marty de mentalização incerta. O paciente mostra pouca presença da mente como nas más mentalizações vistas antes, no entanto, um dia a pessoa relata um sonho complexo ou tece relações reflexivas como nas boas mentalizações. Isso, porém, é “sem amanhã” – e o paciente volta por muito tempo à precariedade dos conteúdos mentais. Na realidade, não se trata de uma má mentalização, mas sim de uma repressão maciça do pré-consciente (numa referência a conteúdos que sabemos existirem, diferentemente dos conteúdos inconscientes). O indivíduo não quer saber de si (é como se existisse outro ele dentro dele). Muitas vezes mais voltada a profissões e atividades técnicas, essa pessoa isola seu universo psíquico e tende a ver a psicologia com certo escárnio. Esse tipo de paciente chega à terapia normalmente por insistência de alguém próximo. Se o terapeuta não focar logo essa repressão maciça, a possibilidade de o paciente deixar o tratamento é grande. Como esse indivíduo não apresenta nenhum sintoma “barulhento”, ele ficou excluído do DSM-IV.

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RAÍZES NA INFÂNCIA

Há duas causas da repressão maciça. A primeira e mais comum consiste na educação relativamente afetuosa mas muito severa e aplicada precocemente. Em linhas gerais, é como se o bebê tivesse de aprender a dizer “obrigado” quando ganha algo, antes mesmo de aprender a dizer “mama” e “papa”. Uma segunda causa vem de traumas ocorridos depois dos 2 anos, como a morte de um dos pais, as separações muito tumultuadas entre eles ou o abuso sexual. Não querer pensar no que aconteceu aparece como defesa natural da criança, mas se perdurar isso trará prejuízos ao seu desenvolvimento, já que a defesa pode se cristalizar e se generalizar, resultando na mentalização incerta – infelizmente, na intenção de preservar a criança, muitos cuidadores favorecem esse desdobramento.

Os momentos muito difíceis são acompanhados normalmente de ansiedades difusas. São estados de aflição muito intensos, relativamente justificados pelos fatos. No DSM-IV, caberiam no item que se refere a transtorno de adaptação, e não aos transtornos de ansiedade (pânico, ansiedade generalizada, fobias, transtorno obsessivo ­ compulsivo, reapresentação do trauma), cuja causa aparentemente não é justificada. No paciente bordeline, os estados de desespero são equivalentes da ansiedade difusa, e, no paciente narcísico, os momentos em que se sente arrasado que são equivalentes da ansiedade difusa. Na realidade, a ansiedade difusa propriamente dita ocorre mais nas melhores mentalizações (que podem conduzir a somatizações graves). Também nas melhores mentalizações podemos constatar, antes que a doença se instaure, o que Marty chamou de depressão essencial. Ela é indolor, sem a tristeza e/ou imobilidade que caracteriza a depressão na classificação do DSM-IV. Na manifestação à qual Marty se refere, vemos desaparecer a vida onírica, a pessoa deixa de ter ideias e cai em fórmulas feitas, na repetição do mesmo, em automatismos.

Na psicoterapia, o profissional procura, de imediato, assumir o papel do ego auxiliar da mentalização do paciente, trazendo a dificuldade de vida como tema a ser tratado e examinando os vários aspectos da questão, de forma a chegar gradativamente às partes mais dolorosas, não deixando o assunto esmorecer, que seria uma tendência natural na má mentalização. Ao longo do processo terapêutico, a proposta é ajudar a pessoa a melhorar sua capacidade de mentalização para que possa elaborar os problemas futuros de maneira mais eficiente.

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OUTROS OLHARES

CYBERSLACKING

Observa-se, com uma frequência cada vez maior, uma parcela de funcionários que apresentam comportamentos desadaptativos no uso dos recursos eletrônicos no ambiente de trabalho, causando tanto prejuízos pessoais como organizacionais.

Cyberslacking

Davis (2002) comenta que a Internet modificou substancialmente o ambiente de trabalho, de forma irreparável. Liberman et ai. (2011) sustentam a afirmação de Davis, e ainda apontam uma perfeita sincronia no posicionamento dos autores em um ponto em específico: apesar da ampla disseminação dos recursos eletrônicos, pouco se tem estudado sobre os seus efeitos no comportamento organizacional, revelando a existência de uma área, até então, pouco explorada. Como dito anteriormente, a tecnologia é neutra, e apesar dos variados benefícios desse uso, observa-se, com uma frequência cada vez maior, uma parcela de funcionários que apresentam comportamentos desadaptativos no uso desses recursos eletrônicos no ambiente de trabalho. Esse ponto, em especial, é o que justificou a confecção deste artigo, no qual será enfocado no grupo de colaboradores que utilizam tais elementos tecnológicos de forma inadequada, causando tanto prejuízos pessoais como organizacionais. E isso tem um nome: cyberslacking. O termo equivalente, em português, “cibervadiagem”, não será usado, devido à sonoridade vulgar que essa denominação obteve.

Blanchard e Henle (2008) sugerem que o uso de periféricos eletrônicos no ambiente de trabalho, com propósito estritamente pessoal (atividades que poderiam ser feitas, por exemplo, na residência do trabalhador após o expediente), é denominado cyberloafing, cyberbludging ou cyberslacking.

Atividades que se referem ao minor cyberloafing podem, aparentemente, ser questionadas se são realmente prejudiciais, em especial por ser um hábito frequente de muitos funcionários. Blanchard e Henle (2008) apontam, em resposta a essa possível inquietação: o cyberslacking pode, inicialmente, ser inofensivo, porém, torna-se problemático quando a produtividade do funcionário é afetada e ele não mais consegue controlar o tempo despendido nessa atividade, que se tornou de uso pessoal, não mais empresarial. Em relação ao serious cyberloafing, é possível que o funcionário esteja expondo a empresa a responsabilidades legais (o ciber-sexo no ambiente de trabalho é uma prática condenável).

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CAUSAS DO CYBERSLACKING

Runing-Savitri (2012) e Kim e Byrne (2011) sugerem as possíveis causas do cyberslacking:

  1. A) DIFICULDADE DE AUTOCONTROLE (usuários que possuam dificuldades em controlar o comportamento impulsivo em relação à tecnologia podem estar vulneráveis à manifestação sintomatológica no ambiente de trabalho);
  2. B) PROCRASTINAÇÃO (o hábito de procrastinar, ou seja, “deixar para depois”, induz o funcionário a manter-se disperso dos objetivos do trabalho. Desta forma, é possível que esse profissional engaje-se em atividades que não deveriam ser praticadas no horário de trabalho. Não é objetivo aqui investigar outros fatores intrínsecos relacionados à procrastinação);
  3. C) MONOTONIA NO AMBIENTE DE TRABALHO (funcionários que realizam atividades que, de acordo com eles, sejam consideradas desprazerosas ou repetitivas, que podem levá-lo a buscar recursos mais “interessantes” no horário da jornada de trabalho);
  4. D) OPORTUNIDADE PARA LIBERAÇÃO DO ESTRESSE (funcionários que estejam sobrecarregados de tarefas ou apresentem desequilíbrio emocional podem utilizar os jogos eletrônicos, o celular ou a Internet como estratégia lúdica para sentirem-se mais relaxados. Essa prática, controlada, pode ser incentivada);
  5. E) ESCAPISMO (de forma mais grave, é possível que alguns funcionários utilizem os recursos tecnológicos como uma forma de ausentar-se do enfrentamento de suas obrigações, como uma estratégia de fuga);
  6. F) DEPENDÊNCIA DE JOGOS ELETRÔNICOS, INTERNET E CELULAR (o nível mais complexo de comprometimento do uso da tecnologia é a dependência, caracterizada como a incapacidade do funcionário em controlar o seu tempo de uso da tecnologia. Além disso, ele apresenta alterações emocionais, como irritabilidade e tristeza quando interrompe o uso. Para esse indivíduo, a tecnologia pode se tornar o aspecto mais importante de sua vida, interferindo no seu bem-estar psíquico, refletindo em prejuízos, também, no ambiente de trabalho).

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IMPLICAÇÕESDO CYBERSLACKING

ESGOTAMENTO DO EGO: Hagger et ai. (2010) ressaltam que a autorregulação é a capacidade finita do sujeito em ter controle sobre as respostas dominantes. Quando essa capacidade é enfraquecida, ocorre um significativo prejuízo no auto­controle, levando ao esgotamento do ego. Wagner et al. (2012) relacio naram o cyberslacking ao conceito de autorregulação. Os pesquisadores ressaltaram, em um estudo realizado em Singapura, que funcionários com qualidade de sono prejudicada apresentaram uma tendência maior ao cyberslacking quando comparados aos colegas de trabalho que tiveram uma noite de sono reparadora.

CRENÇAS DISTORCIDAS: funcionários que desconsideram estarem diante de uma problemática (quando na verdade estão) podem estar fazendo parte do grupo de colaboradores com a prática mais debilitante de cyberslacking. Suas crenças a respeito do líder, da possibilidade do anonimato e da conveniência no acesso à Internet podem funcionar como cognições reforçadoras desse hábito nocivo. Apesar de serem pensamentos distorcidos, Kim e Byrne (2011) mencionam que, em algumas empresas, esses são os pensamentos comuns de alguns empregados. De certa forma, os funcionários minimizam os reais riscos desse comportamento, além das consequências negativas que ele pode causar tanto para a sua carreira como para a própria empresa em que trabalha.

Liberman et ai. (2011) também sugerem, em relação às crenças do funcionário, que aqueles que interpretam que a empresa não necessita de que este funcionário esteja envolvido com ela podem apresentar uma tendência maior ao uso inadequado da Internet.

Ávila e Stein (2006) comentam que o Modelo dos Cinco Grandes Fatores considera que a personalidade é constituída por cinco grandes traços: extroversão, socialização, escrupulosidade, neuroticismo e abertura para experiência. Buckner, Castille e Sheets (2012), através desse modelo, relacionaram-no ao uso problemático de tecnologia no âmbito organizacional. Os autores sugerem que investigar a personalidade do funcionário é uma estratégia a ser cogitada pelas empresas, especialmente em como ela se relaciona ao uso de tecnologia no trabalho. De acordo com os pesquisadores, quanto maior o nível de escrupulosidade do funcionário menor é a tendência de que o empregador observe o cyberslacking dentro de sua empresa.

Everton, Mastrangelo e Jolton (2005), em um estudo realizado com 80 empregados, por meio de um questionário sobre comportamentos contraprodutivos na Internet em horário de trabalho, apresentaram que homens utilizam a Internet de forma desadaptativa em maior nível do que as mulheres e que quanto mais jovem o trabalhador, maiores são as chances de cyberslacking. Em relação à personalidade do trabalhador foi identificado que quanto menor a escrupulosidade, maior o nível de utilização da Internet com fins pessoais no local de trabalho, resultado semelhante ao estudo de Castille e Sheets (2012).

Cooper, Safir e Rosenmann (2006) realizaram um estudo com 3.466 participantes. Destes, 18.5% (642 usuários) afirmaram engajar-se em atividades sexuais on-line enquanto estão no ambiente de trabalho. Os resultados, de acordo com os autores da pesquisa, são preocupantes. Além das implicações legais que o funcionário possa precisar enfrentar, ainda há outros pontos negativos, como a diminuição da produtividade e a repercussão negativa desta prática dentro da organização.

Os participantes que utilizam pornografia no ambiente de trabalho mencionaram que são conscientes de que estão engajados em uma atividade considerada ilegal, quando dentro da empresa. Entretanto, afirmam que, como estratégia, escolhem o momento mais oportuno do expediente para o cibersexo.

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QUEM DEVE SER CONTRATADO?

Davis, Flett e Besser (2002) mediaram o uso problemático de Internet no ambiente de trabalho, em um estudo realizado com 211 estudantes de graduação em Psicologia. Foi realizada a aplicação dos seguintes instrumentos: On-line Cognition Scale (OCS) (escala de uso problemático na Internet), Barratt Impulsiveness Scale 11 (BIS-11) (escala relacionada à impulsividade), Center for Epidemiological Studies Depression Scale (CES -D) (escala referente à sintomatologia depressiva na população em geral), UCLA Loneliness Scale (version 3) (escala que mede o sentimento de solidão e a discrepância entre o contato social desejado e o alcançado), Procrastinatory Cognitions lnventory (PCI) (escala que mede a procrastinação), Internet Behavior and Attitude Scale (IBAS) (escala sobre uso problemático da Internet) e, por fim, a Rejection Sensitivity Questionnaire (RSQ) (questionário sobre a temática da rejeição).

Após o preenchimento dos instrumentos, os resultados demonstraram que: nível moderado ou alto de distração, procrastinação e uso problemático de Internet são prognósticos negativos, sendo sinais para possível avaliação do empregador, no momento da seleção. Os autores sugerem que estes participantes, quando se tornarem funcionários, poderão gerar possível prejuízo à empresa devido ao cyberslacking.

Diversas empresas nos Estados Unidos vêm adotando estratégias no combate ao cyberslackíng. Abaixo os resultados de alguns pesquisadores:

a) Mills et ai. (2001): estabelecimento de uma política de gestão de Internet, além da instalação de filtragens em aplicações específicas.

b) Whitty e Carr (2006): uso de testes psicológicos que possam ajudar os empregadores a identificar funcionários potencialmente problemáticos.

c) Anandarajan, Simmers e D’Ovidio (2011): reforçam o aspecto mais subjetivo, quando apontam a necessidade de reformular a percepção dos empregadores e empregados sobre o uso pessoal de Internet no ambiente de trabalho.

d) Frangos, Frangos e Sotiropoulos (2010): aconselham palestras e seminários na empresa sobre o tema, assim como a inserção de estratégias de monitoramento do uso de Internet.

O cyberslacking é um assunto lamentavelmente escasso na literatura nacional. Aparentemente trata-se de um paradoxo a falta de artigos científicos sobre esse tema tomando como referência a importância do que pode ser feito quando esse fenômeno ocorre no ambiente de trabalho. Consideramos, por fim, para as empresas que buscam um olhar prático em relação ao tema (monitoramento e seleção de emprego) que, apesar de ter sido mostrada a existência de modelos que possam dificultar o cyberslacking do funcionário, o prognóstico ainda é negativo.

GESTÃO E CARREIRA

COMO SOMOS EDUCADOS PARA FALHAR NA CARREIRA

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É interessante o fato de a profissão moderna de enfermeiro ter aparecido somente a 150 anos, apesar da doença ser uma condição que sempre nos acompanhou. Cuidadores existiam até então, mas se restringiam aos familiares próximos, amigos, religiosos (freiras, por exemplos) ou, raramente, a voluntários.

Foi então que, no século 19, uma nobre britânica chamada Florence Nightingale se dedicou a cuidar de doentes, acreditando que uma boa educação e princípios científicos poderiam ajudar nessa recuperação. Sua atuação na guerra da Crimeia e consequente redução do número de mortes entre os soldados feridos, foi amplamente divulgada na sociedade britânica. No final do século 19, quase toda a sociedade ocidental adotava a ideia de Florence de ter enfermeiros capacitados em hospitais.

Pela previsão de especialistas, essa profissão ainda tem muito futuro. Empurrada pelo aumento da renda e por uma população que vive mais, se espera que enfermagem seja uma das profissões que mais crescerá no setor de saúde. Estima-se de 80 a 130 milhões de novas posições até 2030, o que representa 2 a 4 vezes mais do que as relacionadas à área de tecnologia. Assim como na saúde, outros setores tradicionais também criarão mais postos do que a tecnologia, como o de varejo, construção e educação.

Todo o ‘buzz’ relacionado à tecnologia e ao futuro do trabalho criou a falsa percepção de que as posições na área serão predominantes no futuro. Elas são uma boa opção de carreira, estão crescendo e irão crescer, mas estão longe de serem predominantes no mercado de trabalho. Pensar dessa forma reduz a ansiedade, principalmente de pais que me perguntam se deverão colocar os filhos em escolas de programação para prepará-los para a vida.

Pensar a carreira no futuro não será tão diferente do que deveria ser hoje. O mundo deverá ter muito trabalho, apesar dos prognósticos relativos à automação e à eliminação de posições. Antigas profissões continuarão a existir, várias vão sumir e outras aparecerão. Um lado positivo é que, em vez de menos teremos mais opções.

As possibilidades não são só em relação ao trabalho em si. O modelo de emprego que conhecemos ainda será predominante por muito tempo, como mostram recentes levantamentos estatísticos. Mas o trabalho do profissional autônomo qualificado, que já tem sido mais aceito por grandes corporações, assim como o trabalho temporário, deve crescer. Ambos se beneficiam das plataformas de negócio que conectam a oferta e a demanda por esses serviços.

Mas, isso não significa que todos serão bem-sucedidos. Excluindo os modelos de gestão econômica ou sistemas políticos que excluem multidões de postos de trabalho, existem tendências que contribuem para aumentar esse risco. A tecnologia tem um papel fundamental nisso. A enfermagem evoluiu muito desde os tempos de Florence. Novas tecnologias permitirão que muitas das tarefas hoje realizadas por médicos sejam transferidas para enfermeiros e realizadas com eficácia mesmo longe de hospitais.

A maioria das profissões não estará na área de tecnologia, mas ela transformará praticamente todas as formas de trabalho. Assistentes digitais, inteligência artificial e sensores inteligentes mudarão a maneira como fazemos as tarefas, como aconteceu com o e-mail na década de 90.

O legal é que não será necessário aprender a programar para isso. Será preciso apenas o mínimo de curiosidade e criatividade para aplicar a tecnologia. E essas são habilidades que temos desde criança até que o sistema de educação nos condiciona a dar as respostas certas para nos sentirmos aceitos. Passamos então a viver sempre sob a ameaça de falharmos. Esse é o fardo que a maioria carrega em suas carreiras e que é reforçado pelas organizações.

Carreiras em sua maioria não são lineares, mas desenvolvidas ao longo do tempo, seja por nossas buscas pessoais ou por influência de fatores externos. O sucesso da transição do mundo do trabalho atual para o futuro requer mais do que capacitação. Ele exige um novo modelo mental para interagimos que seja estimulado pela curiosidade e pela vontade de realizar. Características que devíamos ter à disposição, mas que somos condicionados como sociedade a esquecer.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 21: 9-12

Alimento diário

MÁXIMAS DIVERSAS

 

V. 9 – Veja aqui:

1. Que grande aflição é para o homem ter uma mulher rixosa como sua esposa, que em cada ocasião, e frequentemente sem motivo, irrompe em irritação, e censura, a ele ou aos que estão à sua volta, é nervosa consigo mesma, furiosa com seus filhos e servos, e, em todos os casos, vergonhosa para seu esposo. Se um homem tem uma casa ampla, espaçosa e pomposa, esta esposa irá amargurar o conforto da mesma para ele – uma casa de sociedade (é o significado da palavra), em que um homem pode ser sociável, e receber os seus amigos; a sua esposa o fará, e à sua casa, insociáveis, e inadequados para os prazeres da verdadeira amizade. Ela torna um homem envergonhado da sua escolha e da sua administração, e incomoda e perturba os seus amigos.

2. O que muitos homens são forçados a fazer, sob tal aflição. Eles não conseguem manter a sua autoridade. Um homem sob tal condição não vê propósito em contradizer esta paixão tão irracional de sua esposa, pois ela é desregrada e enfurecida; e a sua sabedoria e graça não permitirão que ele retribua ataque com ataque, nem o seu afeto conjugal permitirá que ele use de qualquer severidade, e por isto ele percebe que o melhor caminho é isolar-se em “num canto de umas águas-furtadas”, e ficar sozinho ali, sem ouvir o clamor dela; e se ele se ocupar bem ali, como pode fazer, este é o mais prudente caminho que pode adotar. É melhor fazer isto, do que deixar a casa e sair com más companhias, por diversão, como muitos, que, como Adão, fazem do pecado de sua esposa a desculpa para o seu.

 

V. 10 – Veja aqui o caráter de um homem muito ímpio.

1. A forte inclinação que ele tem para fazer o mal. A sua própria alma deseja o mal, deseja que o mal possa ser feito e que ele possa ter o prazer, não somente de vê-lo, mas de participar dele. A raiz da iniquidade está na alma; o desejo que os homens têm de fazer o mal é o desejo que planeja e executa o pecado.

2. A forte aversão que ele sente pelo bem: o seu próximo, o seu amigo, o seu parente mais próximo, não agrada aos seus olhos, não consegue obter dele a menor generosidade, ainda que esteja na maior necessidade. E, quando ele está na busca do mal, o seu coração torna-se inteiramente dedicado a isto, e ele não poupará nenhum homem que se ponha em seu caminho; o seu próximo não será considerado melhor do que um estranho, do que um inimigo.

 

V. 11 – Nós já lemos isto anteriormente (Provérbios 19.25), e isto mostra que há duas maneiras pelas quais o simples pode se tornar sábio:

1. Por meio das punições que são infligidas aos que são incorrigivelmente ímpios. Que a lei seja executada sobre um escarnecedor, e mesmo aquele que é simples será despertado e alarmado por isto, e irá discernir, mais do que antes, o mal do pecado, e por meio disto será avisado, e tomará cuidado.

2. Por meio das instruções que são fornecidas aos que são sábios e dispostos a ser ensinados: quando o sábio é instruído pela pregação da palawa (n ão somente o próprio sábio, mas o simples que está peito dele), recebe o conhecimento. Não é injustiça a ninguém aproveitar uma boa lição que era destinada a outra pessoa.

 

V. 12

1. Quando lemos este versículo, ele mostra por que os homens bons, quando chegam a entende r correta­ mente todas as coisas, não irão invejar a prosperidade dos malfeitores. Quando veem a casa do ímpio, que talvez esteja tão cheia de todas as coisas boas desta vida, são tentados à inveja: mas quando a consideram prudentemente, quando a observam com um olhar de fé, quando vão a Deus derrotando os ímpios devido às iniquidades que praticam, que são maldições sobre a sua habitação, o que certamente será a destruição dela, em breve, eles veem mais razões para desprezá-los, ou se apiedar deles, do que para temê-los ou invejá-los.

2. Alguns interpretam de outra maneira: o homem justo (o juiz ou magistrado, a quem é confiada a execução da justiça e a preservação da paz pública ) examina a casa do ímpio, procura nela armas ou bens roubados, faz uma investigação diligente a respeito da família do ímpio e o caráter do que estão a seu redor, para que possa, por meio do seu poder, der­ rotar os ímpios, pela sua iniquidade, e impedir que continuem fazendo o mal, e também para que possa incendiar seus ninhos, nos quais as aves de rapina ou os pássaros impuros são protegidos.