OUTROS OLHARES

COMPULSÃO PELA INTERNET

As redes sociais são uma realidade e estão na nossa vida para o bem e para o mal. Estar plugado constantemente é uma forma de desplugar de “si mesmo”

Compulsão pela internet

Um husky siberiano persegue freneticamente a própria cauda e gira sem parar, outra vez e outra vez. Um gato, toda noite, acorda sua dona mordiscando repetidamente seu ombro ou sua orelha. O que tem isso a ver com a internet? Imagine uma cena de laboratório: Um ratinho branco aciona urna alavanca para receber uma gota de água açucarada, num experimento de condicionamento. Agora troque a alavanca por um celular.

Animais domesticados também desenvolvem compulsão e sofrem de estresse, tédio, ansiedade e depressão. Não só o vício em drogas, mas também o uso compulsivo da internet apresenta-se em pessoas que frequentemente são tomadas por estados de raiva (frustração), ansiedade e depressão.

Se décadas atrás até a propaganda subliminar era empregada para aumentar a venda de produtos a qualquer custo, hoje as empresas de internet gastam bilhões pesquisando como fazer com que você e eu passemos mais horas ainda plugados.

A internet e as redes sociais são uma realidade e estão nas nossas vidas para o bem e para o mal. Não se trata de demonizar as ferramentas. A vida antes seguiu, e segue agora. Porém, atualmente, organizações ocuparam-se de estratégias de como capturar o nosso desejo com fetiches, mas não nos tornamos (totalmente) robotizados e submetidos.

O que o husky, o gato, eu e você temos em comum é o fato de todo mal­ estar emocional disparar mecanismos de defesa (mantenedores de homeostase) de dois tipos: 1- ação, movimento (gastar energia, Reich explica) e 2- desviar a atenção, evitar a constatação, “saber”. Como nos três macaquinhos que cobrem olhos, ouvidos e boca. No caso da internet, estar plugado compulsivamente é uma forma de desplugar de “si mesmo”. Ou seja, não é a internet isoladamente – apesar dos investimentos – que “vicia”. Há a contra­partida no sofrimento emocional presente naquele que desenvolve o sintoma.

Mas há também uma dimensão coletiva envolvida. Heidegger, por exemplo, equivocadamente tornado como crítico à tecnologia, em verdade apontou que a modernidade (e o desenvolvimento tecnológico) foi acompanhada de uma forma coletiva de “ser no mundo” em que a reflexão tornou- se ausente. Reflexão como autorreflexão. Aquilo que é vivido quando se observa em quietude uma fogueira. Reich, por sua vez, demonstrou como a neurose individual tem como contraponto uma neurose de massa na qual a angústia e os mecanismos de evitação da mesma são onipresentes, levando a uma forma de alienação.

Um bom exercício de imaginação é ficar quieto, sem fazer nada (e sem dormir). Ou então ir a um lugar sem energia elétrica, sem a possibilidade de uso de tecnologias, por uma semana. Sem internet.

Em síntese, a internet não “cansa” nada. É a nossa relação com ela que determina sua utilidade ou as desordens e sintomas. O objetivo das grandes empresas de tecnologia só é alcançado, em última instância, em função de nossas eventuais fragilidades emocionais. Por causa da nossa condição humana, e naquilo que partilhamos com os outros animais.

 

NICOLAU JOSÉ MALUF JR. – é psicólogo, analista reichiano. Doutor em História das Ciências. Técnicas e Epistemologia(HCTE/UFRJ) Psicanalista, precursor das psicoterapias corporais.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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