PSICOLOGIA ANALÍTICA

PRECONCEITOS CONTRA SI MESMO

Quando nos sentimos discriminados, somos dominados pela angústia, a mente divaga e sofremos de um esgotamento momentâneo da memória que prejudica a capacidade intelectual. O mais curioso é que as ideias preconcebidas que nos fazem tanto mal são mantidas por nossas próprias crenças.

Preconceitos contra si mesmo

O astrônomo americano Neil Degrasse Tyson obteve seu doutorado em astrofísica na Universidade Colúmbia em 1991. Algo em torno de 4 mil astrofísicos viviam no país naquela época.

Tyson elevou o total de afro-americanos entre eles a parcos sete membros. Em discurso de formatura, ele falou abertamente sobre os desafios que enfrentava: “Na percepção da sociedade, meus fracassos acadêmicos são esperados e minhas conquistas atribuídas a outros”, disse Tyson. “Passar a maior parte da minha vida combatendo essas atitudes representa um imposto emocional que equivale a uma forma de castração intelectual. É um encargo que não desejo para meus inimigos.”

As palavras de Tyson abordam uma verdade desconfortável: estereótipos negativos impõem uma sobrecarga intelectual para muitas pessoas que acreditam ser vistas pelos outros como inferiores. Em muitas situações – escola, trabalho, esportes -, essas pessoas receiam fracassar e, assim, reforçar estereótipos depreciativos. Jovens atletas brancos temem não ter desempenho tão bom quanto seus colegas negros, por exemplo, e mulheres em aulas de matemática avançada têm medo de receber notas inferiores às dos homens. Essa ansiedade – o tal “imposto emocional” ao qual Tyson se refere – é conhecida como ameaça dos estereótipos. Centenas de estudos confirmaram que o fenômeno contribui para o fracasso: as pessoas ficam confinadas a um círculo vicioso em que os baixos resultados aumentam a preocupação, o que prejudica ainda mais o desempenho.

Nos últimos anos, psicólogos ampliaram muito o conhecimento sobre como preconceitos não só sobre os outros, mas também em relação a si mesmo, afetam as pessoas, por que isso acontece e, mais importante, como evitar essa situação. Embora atualmente alguns pesquisadores questionem se alguns estudos laboratoriais refletem com fidelidade a ansiedade no mundo real, destacando que esse seria apenas um dos muitos fatores que contribuem para a desigualdade social e acadêmica, outros cientistas argumentam que esse é um dos fatores que podem ser facilmente mudados – o que tornaria melhor a vida das pessoas. Em estudos realizados em escolas, intervenções relativamente simples – como exercícios de redação para aumentar a autoestima, concluídos em menos de uma hora – produziram efeitos espetaculares e de longa duração, diminuindo a disparidade de resultados e eliminando a ameaça dos estereótipos.

IDENTIFICANDO O RISCO

Foi em 1995 que os psicólogos Claude Steele, da Universidade Stanford, e Joshua Aronson, na época trabalhando na mesma instituição, cunharam o termo ameaça dos estereótipos. Assim como acontece atualmente, há quase duas décadas estudantes negros americanos obtinham, na média, notas piores que seus colegas e mostravam maior probabilidade de abandonar os estudos antes dos brancos em todos os níveis de ensino. As várias explicações para essa desigualdade incluía a ideia perniciosa (e preconceituosa) de que os estudantes negros eram, de forma inata, menos inteligentes. Steele e Aronson não estavam convencidos disso. Eles argumentavam que a própria existência desse estereótipo negativo poderia prejudicar o desempenho dos estudantes negros.

Numa experiência agora clássica eles apresentaram a mais de 100 universitários um teste frustrante. Os voluntários foram divididos em dois grupos. No primeiro, no qual os pesquisadores disseram que o exame não mediria habilidades intelectuais, participantes negros e brancos -com pontuação comparável num dos mais utilizados exames de admissão à faculdade, o SAT (originalmente chamado Scholastic Aptitude Test) – se saíram igualmente bem. Na outra equipe, onde Steele e Aronson informaram aos jovens que o teste iria avaliar sua capacidade intelectual, a pontuação dos alunos negros caiu, mas a dos brancos não. O simples pedido para que os estudantes registrassem sua etnia antecipadamente teve o mesmo efeito.

O estudo foi inovador. Steele e Aronson mostraram que testes padronizados estão longe de serem de fato padronizados: quando apresenta­ dos de forma que evoquem a ameaça dos estereótipos, mesmo que sutilmente, colocam muitas pessoas automaticamente em desvantagem. “Houve muito ceticismo no início, mas isso está diminuindo com o tempo. No começo, mesmo eu não acreditava no quanto esses efeitos eram fortes; eu pensava que mais alguém precisava replicar o experimento”, conta Aronson.

Muitos pesquisadores o fizeram. Até agora, centenas de estudos descobriram evidências da ameaça dos estereótipos nos mais variados tipos de grupos. Ela aflige estudantes de origem mais pobre em testes acadêmicos e homens em tarefas de sensibilidade social. Estudantes brancos sofrem diante de colegas asiáticos em testes de matemática e frente a colegas negros em esportes. Em muitos desses estudos, os mais hábeis enfrentam os maiores reveses. Os que cultivam maior expectativa de sucesso têm mais probabilidade de se aborrecer com um estereótipo negativo e grande probabilidade de apresentar desempenho inferior como resultado.

O grau exato de existência da ameaça dos estereótipos no mundo real continua incerto, provavelmente porque os estudos relevantes enfrentam os mesmos problemas que rondam boa parte dos experimentos de psicologia social. A maioria foi realizada com poucos estudantes universitários – o que aumenta as probabilidades de acasos estatísticos – e nem todos os estudos demonstraram um efeito intenso. Alguns críticos também ressaltam que experimentos são, com frequência, um fraco substituto do mundo real. Paul Sackett, da Universidade de Minnesota, argumenta que, fora do laboratório, a ameaça dos estereótipos pode ser menos comum e mais facilmente superada. Recentemente, Gijsbert Stoet, então na Universidade de Leeds, Inglaterra, e David C. Geary, da Universidade de Missouri- Columbia, examinaram cada estudo sobre ameaça dos estereótipos entre mulheres que realizavam testes de matemática.

A pesquisadora Ann Marie Ryan, da Universidade do Estado de Michigan, identificou algumas razões plausíveis para essas conclusões inconsistentes. Em 2008, ela e a psicóloga Hanna-Hanh Nguyen, então na Universidade do Estado da Califórnia em Long Beach, compararam os resultados de 76 diferentes estudos sobre a ameaça dos estereótipos em estudantes de ensino médio e universitários. Descobriram que no laboratório os cientistas são capazes de detectar a ameaça apenas sob determinadas condições, como quando pedem que voluntários resolvam um teste especialmente difícil, ou em ocasiões em que trabalham com pessoas que se identificam fortemente com seu grupo social.

O QUE É IMPORTANTE?

Na última década, psicólogos deixaram de apenas mostrar que a ameaça dos estereótipos existe e detiveram em entender como ela funciona. Pesquisadores demonstraram que a ameaça opera da mesma forma em diferentes grupos de pessoas. A ansiedade chega, a motivação cai e as expectativas ficam mais baixas. Avançando nessas descobertas, a psicóloga Toni Schmader, da Universidade da Colúmbia Britânica, sugeriu que a ameaça ataca algo fundamental. O alvo mais óbvio seria a memória operacional – habilidades cognitivas que nos permitem reter e manipular temporariamente a informação. Esse conjunto de habilidades é finito e a ameaça dos estereótipos pode esgotá-lo. É possível que as pessoas se tornem psicologicamente exauridas ao se preocupar com os preconceitos alheios e tentando provar que os outros estão errados. Para testar esta ideia, a cientista deu a 75 voluntários um teste difícil: eles tinham de memorizar uma lista de palavras enquanto resolviam equações matemáticas. Ela disse a alguns participantes que avaliaria sua capacidade de memória e que homens e mulheres podem ter diferenças inatas de habilidades. As mulheres, informadas sobre a suposta discrepância, guardaram menos palavras, enquanto os homens não tiveram esses problemas.

O esgotamento da memória operacional cria vários bloqueios ao sucesso. As pessoas tendem a repensar ações que, de outra forma, seriam automáticas e se tornam mais sensíveis a sugestões que possam indicar discriminação. Uma expressão ambígua pode ser equivocadamente entendida como escárnio, e mesmo a ansiedade pode se tornar um sinal de fracasso iminente. A mente divaga e o autocontrole enfraquece. Quando Toni Schmader interrompeu mulheres no meio de um teste de matemática e perguntou o que elas estavam pensando, as que estavam sob a ameaça do estereótipo mostraram probabilidade maior de estarem devaneando.

Mais recentemente, pesquisadores passaram do estudo da ameaça dos estereótipos nos laboratórios para escolas e salas de palestras reais, onde tentaram dissipar ou evitar a ameaça totalmente. “Vejo três linhas de pesquisa: a primeira foi para identificar o fenômeno e até onde ele vai; a segunda olhou para quem experimenta o efeito e seus mecanismos; a terceira traduz esses resultados em intervenções”, diz a cientista. O doutor em psicologia Geoffrey Cohen, também de Stanford, conseguiu resultados particularmente impressionantes. Seu método é de uma simplicidade desconcertante: ele pede que as pessoas considerem o que é importante para elas (popularidade ou habilidade musical, por exemplo) e escrevam por que isso é importante. O exercício de 15 minutos age como uma vacina mental que aumenta a autoconfiança dos estudantes, ajudando-os a combater qualquer futura ameaça dos estereótipos.

Em 2003 Cohen visitou escolas de ensino médio na Califórnia e aplicou seu exercício num experimento controlado de forma aleatória – o teste consagrado em medicina que checa se uma intervenção funciona comparando-a com um placebo. Cohen administrou seu exercício a estudantes do sétimo ano: metade escreveu sobre seus próprios valores e os demais sobre coisas não importantes para eles. O teste foi o duplo-cego, o que significa que nem Cohen nem os estudantes sabiam a que grupo estavam integrados.

No fim do trimestre, estudantes negros que concluíram o exercício reduziram em 40% a defasagem acadêmica entre eles e seus colegas brancos. Melhor ainda, os alunos mais fracos da classe foram os que mais se beneficiaram. Nos dois anos seguintes os mesmos estudantes realizaram duas ou três versões de reforço do exercício original. Apenas 5% dos que tinham notas mais baixas que escreveram sobre seus valores precisaram de aulas de reforço ou repetiram de ano, em comparação com 18% do grupo de controle. Finalmente, as médias de notas dos estudantes negros subiram 0,25 ponto e as dos que exibiam pior desempenho aumentaram 0,40 ponto.

Umas poucas frações de pontos aqui e ali podem não parecer um grande avanço, mas mesmo pequenas mudanças no grau de confiança – positivas ou negativas – têm efeito cumulativo. Crianças que vão mal desde cedo podem rapidamente perder autoconfiança ou a atenção de um professor; em contrapartida, sinais de um progresso modesto podem motivar um avanço muito maior. Ao intervir no início, assegura Cohen, os educadores podem tornar ciclos viciosos em virtuosos.

A tarefa proposta por Cohen é tão simples que Ann Marie Ryan e outros pesquisadores não ficaram inteiramente convencidos dos seus resultados. Desde então o teste tem sido replicado inúmeras vezes. Nos últimos cinco anos o exercício foi usado para “mudar a sorte” de estudantes negros em três escolas de nível médio e para praticamente eliminar a desigualdade entre os gêneros numa classe de física de nível universitário.

Cohen, porém, tem buscado novos meios de ajudar estudantes. Ele colaborou com Greg Walton, também de Stanford, para abordar um isolamento induzido com frequência pela ameaça dos estereótipos. Muitos componentes de grupos minoritários temem que seus colegas acadêmicos não os aceitem. Walton combateu essas preocupações com estudos e citações de estudantes mais velhos, mostrando que esses sentimentos são comuns a todos, independentemente de etnia, e que eles desaparecem com o tempo. “Isso faz com que os jovens reformulem suas próprias experiências por meio das lentes dessa mensagem e não pela da etnia”, considera Walton. Walton e Cohen testaram seu exercício de uma hora de duração com estudantes universitários no primeiro trimestre. Três anos depois, quando os estudantes se graduaram, a disparidade de resultados entre negros e brancos havia caído pela metade. Os jovens negros estavam mais felizes e saudáveis que seus colegas que não participaram do exercício de Walton e nos últimos três anos eles haviam adoecido menos que os colegas do grupo de controle. Walton reconhece que um exercício tão simples pode parecer trivial, mas, para quem está preocupado se será aceito, saber que suas angústias são partilhadas e temporárias é muito significativo. Cohen e Walton trabalham atualmente na ampliação de intervenções simples e baratas. Os dois – assim como Carol Dweck e Dave Paunesku -, também de Stanford, criaram o Project for Education Research That Scales (PERTS), que permite administração rápida de intervenções on-line, combinando programas e avaliando resultados. Esse esforço está na aposta de que desfazer o efeito estereótipo não é panaceia contra a desigualdade ou uma solução definitiva e muito menos única para uma questão psíquica e pessoal tão complexa. Cohen, por exemplo, testou seu exercício de redação apenas em escolas com etnias mistas e admite que não está seguro se funcionaria em outros contextos. Mas o que é animador é a perspectiva de avançar no enfrentamento de situações que trazem sofrimento a tanta gente. Trabalhos recentes sobre o fenômeno do estereótipo oferecem esperança realista de aliviar o problema e subverter crenças arraigadas. Ao diminuir a ameaça, os pesquisadores mostram que nossos próprios preconceitos não têm fundamento. As desigualdades de desempenho entre estudantes negros e brancos ou entre cientistas homens e mulheres não indicam diferenças de capacidade, mas refletem preconceitos que se pode mudar.

Preconceitos contra si mesmo. 2

OUTROS JEITOS DE VER A BELEZA

Pense em uma propaganda de um produto, um carro, por exemplo, e tente descrever a primeira imagem que vem à cabeça – há por acaso mulheres magras e altas, dentro dos padrões de beleza atualmente tão valorizados (e inacessíveis), junto à máquina? Agora busque evocar alguma peça publicitária de veículos adaptados para deficientes. “Se se lembrar de alguma, vai perceber que há somente o carro na imagem. Um anúncio totalmente focado no produto, não no público para o qual é voltado. Apesar de haver cerca de 45 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência, eles ainda não são vistos pelo mercado como consumidores, como parte da economia e da sociedade”, diz a fotógrafa Kica de Castro, criadora de uma agência de modelos exclusiva para deficientes físicos. Atualmente são 81 homens e mulheres agenciados, a maioria com passagem por cursos de moda e teatro, com algum tipo de deficiência, como paralisia cerebral, paraplegia, membros amputados e nanismo.

A seleção para fazer parte do casting é por meio de entrevistas e avaliação do preparo profissional do candidato a modelo – o que não significa que pessoas sem formação voltada para esse mercado, mas com aptidão natural, apesar de mais raras, não possam ser escolhidas. Se o candidato é aprovado na entrevista, a própria agência arca com os custos do material fotográfico, o book, que servirá como amostra. Mais tarde, se chamado para algum trabalho, o modelo paga uma porcentagem à agência, que fica em São Paulo. “No início as pessoas disseram que o projeto não daria certo, mas houve aceitação. Ainda não há tantas oportunidades no Brasil, mas no exterior sim”, diz Kica, que começou a fotografar pessoas com deficiência há quase uma década, quando trabalhava em um centro de reabilitação fazendo fotos nas quatro posições globais (frente, costa e laterais) para prontuários e fichas médicas. As fotografias de moda foram uma maneira de se aproximar dos fotografados e ajudá-los a relaxar. Segundo Kica, as pessoas chegavam cabisbaixas, ficavam seminuas, e era evidente a baixa autoestima delas nesse momento.

“Depois de uma conversa com uma amiga psicóloga, comprei várias quinquilharias na rua 25 de Março (centro de comércio popular em São Paulo) e passei a dizer, antes das fotos, que estava fazendo um trabalho para um editorial de moda e os convidava para se enfeitar e participar.

Eram uns poucos minutos que os ajudavam a fazer as fotos médicas com mais satisfação”, diz Kica, que pouco depois começou a fazer books particulares a pedido dos fotografados, tipo de trabalho que ainda continua a fazer. Nenhuma das fotos é tratada com programas de edição de imagem, como o Photoshop, que geralmente é usado para retocar “imperfeições” das modelos como, aliás, também acontece em outros trabalhos fotográficos.

Preconceitos contra si mesmo. 3

NO FIM, TODOS SAEM PREJUDICADOS

A psicologia caracteriza o preconceito como a presença, profundamente arraigada na memória, de associações negativas vinculadas a pessoas de culturas estrangeiras. Estudos realizados em muitos países evidenciam que todo ser humano nutre várias reservas e age em consonância com elas. Nesse contexto, a violência praticada contra estrangeiros, que em muitos casos culmina com assassinatos, é apenas a ponta do iceberg. Como mostra um teste idealizado pelos psicólogos sociais Andreas Klink e Ulrich Wagner, das universidades alemãs Jena e Marburg, respectivamente, o comportamento discriminatório se manifesta principalmente em situações cotidianas.

Com a ajuda de uma estudante de psicologia, os pesquisadores propuseram a seguinte situação: na calçada, a jovem pergunta qual o caminho até a estação rodoviária. A maioria dos transeuntes ofereceu informações à moça e só uns poucos mal-educados ou apressados a ignoraram. Um pouco mais tarde, ela retornou ao local para fazer a mesma pergunta, mas com uma diferença: a garota vestia roupas orientais e um véu na cabeça. Resultado: o número de pessoas que ignoraram a suposta estrangeira mais que duplicou.

Em outro experimento, os dois psicólogos solicitaram a pessoas com nomes estrangeiros que respondessem a anúncios imobiliários e de emprego. A proposta da dupla era observar se haveria algum sinal de repúdio por parte dos funcionários que analisavam os currículos e as propostas para alugar imóveis. E de fato houve: estrangeiros eram preteridos. A causa, evidente, era uma só: preconceito.

Os estereótipos, entretanto, não dificultam a vida apenas de pessoas e grupos estigmatizados. Os psicólogos sociais americanos Robert A. Baron e Donn Byrne observam que pessoas com atitudes preconceituosas tendem a se sentir extremamente expostas a conflitos e enfrentam medos muitas vezes exagerados e desnecessários. Sentem constante temor, por exemplo, de ser atacadas ou molestadas por pessoas supostamente hostis, de classe social ou cor de pele diferente da sua. Ou seja, essa postura redunda em considerável prejuízo para a qualidade de vida dos preconceituosos.

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OUTROS OLHARES

CELEBRAÇÃO SEM SUSTO

O bilionário mercado de festas de formatura, que custam em média 600.000 reais, atraiu o interesse de uma fintech paulistana, a Keeper. Ela gere o dinheiro das turmas e já fatura 20 milhões de reais.

Celebração sem susto

O administrador paulista Caio Zenatti, de 32 anos, até hoje lembra em detalhes de sua festa de formatura do ensino médio. Ele estudou no Bandeirantes, um dos colégios mais tradicionais de São Paulo, e fez parte da comissão que organizou o evento. As celebrações de encerramento de curso costumam reunir 5.000 pessoas, contando os alunos e seus familiares. Os próprios estudantes contratam empresas especializadas em eventos e escolhem quanto vão pagar por mês para ter a celebração dos sonhos. Na formatura das faculdades, a dificuldade de organização e de gestão do dinheiro se mantém. Zenatti começou a acompanhar de perto o mercado de formaturas e seus gargalos e viu que havia oportunidade ali. Em 2014, criou a Keeper, startup de arrecadação e gestão do dinheiro de alunos de cursos universitários com a finalidade de pagar a festa de formatura. “Notamos que havia urna lacuna de negócios que administrassem de forma transparente os recursos financeiros depositados pelos alunos que vão usar o dinheiro para a formatura”, diz Zenatti.

A empresa, lançada no final de 2014, já atendeu mais de 200 turmas de formandos de universidades, como a Católica de São Paulo, a Unicamp e a Mackenzie. No ano passado, a receita da Keeper chegou a 20 milhões de reais. A meta é dobrar em 2019. O negócio ganhou corpo há quatro anos, quando Zenatti conheceu Ricardo Buckup, de 39 anos, fundador de uma das maiores empresas de festas de formatura do país, a B2, de São Paulo. Ambos frequentavam a Endeavor, ONG que oferece apoio a empreendedores. Buckup já havia percebido que existia uma demanda por negócios que se dedicassem exclusivamente a gerenciar o dinheiro dos formandos. Os valores são coletados durante ao menos dois anos para bancar festas que custam em média 600.000 reais. O mercado de festas de formatura e casamento fatura cerca de 17 bilhões de reais por ano no país. Mais de 1 milhão de universitários se formam todos os anos. Desses, ao menos 40% fazem festas de formatura. Mas é um negócio em que são comuns as histórias de empresas que quebram ou não conseguem entregar o produto prometido, um problema que se acentuou nos últimos anos com a retração econômica e o aumento da inadimplência. O mercado é pulverizado, e está nas mãos de centenas de companhias regionais, que passaram por dificuldades nos últimos anos. Empresas como a Celebração Eventos, do Piauí, e a Original, de Goiânia, faliram em 2018, cancelando mais de 100 festas de formatura que estavam programadas para os próximos anos.

Como os clientes são jovens acostumados a realizar transações online, os sócios decidiram criar uma plataforma virtual. Os empreendedores chamaram Guilherme Mori para participar do negócio. Mori foi coordenador da área de análise de dados e estratégia da 99 (antiga 99 táxis), aplicativo de transporte que, no ano passado, se tornou a primeira startup brasileira a atingir um valor de mercado de 1 bilhão de dólares. No início, todos os clientes vinham por meio de indicações da B2, que já existe há 16 anos e é uma das líderes do setor. Para expandir a base de usuários, os empreendedores investiram em campanhas em mídias sociais e na comunicação direta com os consumidores. A plataforma permite simulações de festas de diversos jeitos e de quanto é preciso pagar mensalmente para chegar lá. As regras de como será aplicado o dinheiro e o resultado das operações financeiras podem ser acessados, em tempo real, no site da Keeper. É dada preferência a investimentos conservadores, de bancos tradicionais, com perfil de baixo risco. A startup fica com cerca de 5% sobre o valor total depositado pelos formandos. Os rendimentos são devolvidos aos formandos – em média, chegam a 0,5%ao mês.

A Keeper é um exemplo de como as empresas do tipo fintech, as startups financeiras, abrem terreno em nichos de mercado cada vez mais específicos. Hoje, o Brasil já tem algumas centenas de fintechs. A metade delas foi criada de 2016 para cá e, como costuma acontecer em negócios muito novos, apenas 12% conseguiram conquistar faturamento anual superior a 10 milhões de reais, segundo um estudo da consultoria PwC. Nos Estados Unidos e na Europa, startups de serviços financeiros receberam mais de 40 bilhões de dólares de investimento em 2018, de acordo com urna pesquisa da consultoria KPMG. “O mundo está assistindo a uma expansão desses serviços, que atendem a necessidades específicas de certos públicos e contam com ferramentas de aproximação com os clientes”, diz Oliver Cunningharn, sócio em inovação e transformação digital em serviços financeiros da KPMG no Brasil. “Mesmo quem inova num segmento logo ganha novos concorrentes.” A festa da Keeper deve ganhar novos convidados em breve. Para os formandos, quanto mais opções, melhor.

Celebração sem susto. 2

GESTÃO E CARREIRA

A INOVAÇÃO QUE VEM DE PARCEIROS

Em tempos de dificuldade crescente para inovar a portas fechadas, grandes empresas se aproximam de startups para buscar soluções para seus problemas, gerar novos negócios e transformar a cultura interna.

A inovação que vem dos parceiros

A lentidão da justiça brasileira, cujo excesso de burocracia costuma retardar a conclusão dos processos, é uma velha conhecida das empresas. O setor jurídico do banco Itaú, no entanto, está cada vez menos preocupado com esse problema. Isso porque a área ganhou no ano passado um reforço tecnológico: uma parceria com a startup Mediação Online levou as demandas judiciais a um ambiente integralmente digital, facilitando a resolução de casos que envolvam pessoas físicas e empresas. O banco passou a usar uma plataforma da Mediação Online para resolver pendências financeiras dos clientes. Após um período de avaliação de cerca de um ano, com mais de 700 mediações, o Itaú fechou uma parceria com a startup para a gestão de 5.000 casos por mês. O banco avalia que, para cada real investido na parceria, já teve um retorno de 103 reais.

O aumento da eficiência na área jurídica é apenas um dos resultados obtidos pelo banco desde a criação do centro de empreendedorismo tecnológico Cubo Itaú em 2015. Instalado em São Paulo, o prédio abriga mais de 300 pequenas empresas e serve de espaço para coworking e geração de negócios com grandes corporações que buscam inovação. “Não há receita de bolo para a transformação digital. As startups são ferramentas para facilitar esse processo”, diz Renata Zanuto, executiva responsável pelo relacionamento com as startups do Cubo. Em três anos, o Itaú já realizou mais de 70 projetos com startups residentes no cubo. “Grande parte delas não é ligada à área financeira, mas impacta na transformação de processos internos do banco”, afirma Reynaldo Gama, responsável por fomentar os negócios entre grandes empresas e as startups do Cubo.

O que o Itaú está colocando em prática é o que se chama de inovação aberta, um conceito formulado no início dos anos 2000 pelo americano Henry Chesbrough, professor na Universidade da Califórnia. A expressão se refere à disposição de uma empresa em aceitar cooperação externa, seja de startups, seja de instituições de ensino, seja de governos, para desenvolver novas tecnologias em produtos e processos. Foi o caso do revolucionário iPod, lançado pela Apple em 2001, mas com parte de sua tecnologia desenvolvida pela startup americana PortalPlayer. Hoje, a ideia de inovação aberta passa por uma ampliação: engloba o corporate venture capital – prática mais ligada a investimentos de grandes companhias em startups ou de criação de uma startup interna. Mais recentemente, surgiu o conceito de corporate – startup engagement, algo que vai além da criação de novos negócios. “As grandes empresas querem trabalhar em diversas modalidades com as startups, e não necessariamente ser donas delas”, afirma Bruno Rondani, presidente da 100OpenStartups, uma plataforma que conecta grandes organizações às pequenas inovadoras. “A ideia é unir para criar mais valor”.

A contratação de serviços de startups é apenas uma das possibilidades de parcerias com grandes empresas. A indústria química Basf, por exemplo, aposta na estratégia de aceleração. Em uma parceria com a aceleradora ACE, a empresa alemã criou o programa AgroStart e, por meio dele, investiu em mais de dez startups, trazendo a inovação para dentro de casa. “A iniciativa é voltada para melhorar, de uma forma digital, a eficácia da aplicação de agro- defensivos e as tecnologias de análise de solo”, afirma Manfredo Rübens, presidente da Basf para a América do Sul. Hoje, por exemplo, a empresa usa drones para identificar situações de risco em lavouras. Após a análise, o aparelho transmite dados a uma equipe da Basf, que envia recomendações para que o agricultor resolva o problema de forma eficiente.

A Basf está satisfeita com os resultados que vem obtendo com a inovação aberta. E quer mais. Há cerca de duas semanas, inaugurou em São Paulo um centro colaborativo de experiências científicas digitais, batizado de Onono. “É um lugar onde confrontamos clientes e funcionários com as novas tecnologias e a digitalização”. diz Rübens. Ele acredita que o Brasil tenha um ambiente propício para transformações na cultura da empresa. “Já trabalhei na Alemanha, nos Estados Unidos e no Brasil. Por aqui, as mudanças são muito mais reconhecidas como oportunidades e menos como ameaças aos funcionários do que em outras regiões do mundo”.

Essas transformações, claro, acabam afetando os clientes finais em sua relação com a tecnologia. De olho na evolução das formas de pagamento, a empresa de serviços financeiros Visa fechou uma parceria, no início de abril, com a empresa de entregas Rappi na terra natal da startup: a Colômbia. Juntas, elas vão lançar um cartão de débito. A ideia é substituir o dinheiro vivo em transações pequenas. A Visa também tem centros de inovação espalhados pelo mundo – um deles em São Paulo -, além de um programa de aceleração de startups desde 2017. De lá para cá, mais de 50 empresas de inovação receberam investimentos. “As parcerias quebram o mito de que os bancos são rivais das fintechs”, diz Percival Jatobá, vice-presidente de produtos da Visa. “O envolvimento com startups nos permite também estabelecer nossa marca no ecossistema, além de sermos instigados por seus modelos de pensamento”.

Não são apenas as startups que enriquecem o ecossistema da inovação. Na indústria de alimentos BRF, a experiência positiva com pequenas empresas levou a corporação a ficar ainda mais receptiva às ideias externas. Depois de criar o programa b.Connect em 2016, para se aproximar das startups, a BRF aprimorou a iniciativa e lançou, em fevereiro deste ano, o brfHU, que reúne novos parceiros. “Entendemos que havíamos deixado de fora uma parte relevante do modelo de conexão: instituições de ensino superior, de ensino técnico e empresas de tecnologia em geral”, diz Sérgio Pinto, gerente executivo de inovação da BRF. “Colocando todos os parceiros em uma única avenida, o diálogo fica mais fácil”. No novo programa, a BRF lançou um site onde publica desafios em áreas diversas, como pesquisa e desenvolvimento, recursos humanos e vendas. “Há muitas ações bacanas na academia e no mercado. O que faltava era conexão”, diz Pinto. Para a BRF e outras empresas que perceberam os benefícios da inovação aberta, não falta mais.

A inovação que vem dos parceiros. 2

ABERTAS PARA APRENDER – E FAZER NEGÓCIOS

Algumas formas de cooperação entre grandes empresas e startups

 RECONHECIMENTO

Para construir uma reputação de marca inovadora, a empresa pode promover competições de inovação, oferecer mentorias para startups ou compartilhar espaços de trabalho.

QUEM FAZ: O Itaú mantém o Cubo, espaço que abriga startups. Elas têm acesso livre para eventos promovidos no local, e o banco pode fazer parcerias com fornecedoras mais inovadoras.

COCRIAÇÃO

Para resolver problemas de clientes ou ter parceiros inovadores, as empresas podem atrair startups e manter rotinas de exposição a alguns de seus desafios.

QUEM FAZ: a Visa passou a receber startups e clientes para discutir inovação. Assim ajudou por exemplo, o Bradesco a criar um atendimento automático em rede social.

ACELERAÇÃO

Em parceria com aceleradoras de startups, a empresa pode lançar seu próprio programa para ajudar as novatas a crescer, com foco em temas que considera estratégicos.

QUEM FAZ: a empresa química Basf lançou em 2018, o programa AgroStart e, desde então, acelerou dez startups. Os novos serviços ajudam os produtores rurais a detectar problemas nas lavouras.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 20: 29-30

Alimento diário

MÁXIMAS DIVERSAS

 

V. 29 – Isto mostra que tanto os jovens como os velhos têm seus benefícios, e por isto cada um deles deve, de acordo com suas capacidades, ser útil para o público, e nenhum deles deve invejar ou desprezar o outro.

1. Que os velhos não desprezem os jovens, pois são fortes e preparados para a ação, capazes de desempenhar atividades e atravessar dificuldades contra as quais os velhos e fracos não conseguem lutar. A glória cios jovens é a sua força, com a condição ele que a usem bem (no serviço de Deus e da sua nação, e não dos seus desejos), e de que não se orgulhem dela, nem confiem nela.

2. Que os jovens não desprezem os velhos, pois são graves, e apropriados para os conselhos, e, embora não tenham a força que têm os jovens, ainda assim têm mais sabedoria e experiência. Deus honrou o velho, pois a sua cabeça branca é a sua beleza. Veja Daniel 7.9.

 

V. 30 – Observe:

1. Muitos precisam de severas repreensões. Alguns filhos são tão obstinados que seus pais não conseguem lhes fazer o bem, sem severa correção; alguns criminosos precisam sentir o rigor ela lei e da justiça pública; métodos gentis não funcionarão com eles: eles elevem ser castigados com severidade. E o Deus sábio percebe que os seus próprios filhos, às vezes, precisam de aflições muito intensas.

2. As repreensões severas, às vezes, fazem um grande bem, da mesma maneira como uma substância corrosiva contribui para a cura de um ferimento, corroendo o inchaço. A vara expulsa até mesmo aquela tolice que estava presa no coração, purificando o mal que havia ali.

3. Frequentemente, aqueles que mais precisam de severas repreensões, são os que as menos suportam. Tal é a corrupção da natureza que os homens detestam ser repreendidos severamente por seus pecados, tanto quanto detestam ser espancados até que doam seus ossos. A correção é dolorosa para aquele que abandona o caminho, mas, apesar disto, é boa para ele (Hebreus 12.11).