PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUE COISA FEIA!

Numa sociedade em que as queixas em relação à aparência e a busca pela perfeição do corpo e da pele são tão frequentes, algumas pessoas passam a supervalorizar em si mesmas “falhas” físicas – mínimas, comuns e às vezes até inexistentes – que as incomodam profundamente, a ponto de se considerarem deformadas.

Que coisa feia!

Aos 17 anos, sem motivo aparente, o jovem S. passou a se incomodar com os cabelos cacheados, considerando-os um sério problema. Decidiu alisá-los. Durante um ano, passou por procedimentos químicos semanais, que só interrompeu depois de danificar seriamente os fios, deixando-os alaranjados. Anos mais tarde, ao ver seu reflexo na vitrine de uma loja, percebeu que seu nariz era muito grande e torto. Depois disso, só conseguia pensar nesse “terrível defeito” e passava horas diante do espelho.

O rapaz optou então pela cirurgia plástica. Mas uma semana após a operação estava de volta ao espelho – e percebia cada vez mais falhas. Para piorar, arrependera-se da cirurgia. Isso não o impediu de procurar novamente o médico para remoção da cartilagem das orelhas. Deprimido, já não trabalhava nem estudava. Meses depois, ele reconheceu seus sintomas em um livro sobre transtorno dismórfico corporal (TDC), também chamado de dismorfia, um quadro no qual a pessoa se torna patologicamente preocupada com uma característica física imaginada ou pouco perceptível em sua aparência. A preocupação excessiva em relação à própria aparência costuma ser associada ao transtorno obsessivo compulsivo (TOC), à ansiedade e à depressão e, nos casos mais graves, ao risco de suicídio.

O distúrbio é surpreendentemente comum. De maneira geral, os pacientes com o transtorno sofrem por características faciais, como acne, cicatrizes, excesso de pelos ou forma de seu nariz e de seus lábios. Também podem rejeitar partes específicas do próprio corpo, como seios e quadris, ou se sentirem insatisfeitos em relação à altura e aos genitais. Muitos acreditam ser repulsivos, ainda que sejam considerados atraentes ou até mesmo com beleza acima da média.

Essa convicção perturbadora pode trazer diversos prejuízos. Em geral, aqueles que sofrem do TDC gastam diversas horas diariamente na frente do espelho enquanto examinam a aparência, conferem a pele com os dedos ou adotam outros comportamentos compulsivos que tomam o tempo do trabalho, da família ou de atividades importantes. Capturados pelo próprio reflexo, muitos perdem a noção de tempo e acabam demitidos por atrasos constantes. Pesquisadores estimam que pelo menos durante uma semana aproximadamente30% dos pacientes com TDC não conseguem sair de casa; 30% apresentam algum transtorno alimentar e 25%, em média, tentam o suicídio. O abuso de álcool e drogas ilícitas também é bastante presente nessa população.

É inegável que fatores psicológicos como fragilidades egoicas, dificuldade de apropriação da própria identidade, baixa autoestima e absorção idealizada de modelos socialmente construídos sobre beleza e perfeição estão na base do distúrbio. Recentemente, porém, pesquisadores descobriram que pacientes com TDC também apresentam percepção visual distorcida, o que sugere que no futuro essas pessoas poderão ser beneficiadas por tratamentos que desenvolvam o sistema visual.

Originalmente, o transtorno dismórfico corporal era conhecido como dismorfofobia (medo da feiura), um termo cunhado pelo psiquiatra italiano Enrico Morselli em 1891. Ele havia tratado 80 pacientes preocupados com deformidades imaginadas que interferiam excessivamente na vida cotidiana. Em 1980, a dismorfofobia apareceu na terceira edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM). O termo “transtorno dismórfico corporal” substituiu o antigo na versão de 1987, após a constatação de que o estado estava mais relacionado a convicções irracionais do que a fobias.

Apesar de ser considerado oficialmente como um transtorno psiquiátrico, o TDC – também conhecido como complexo de Térsites, por causa do guerreiro descrito na Ilíada, de Homero, como o “homem mais feio do exército grego” – é relativamente desconhecido, mesmo entre psicólogos e médicos. Não raro, pacientes com a doença são diagnosticados com depressão, ansiedade, transtornos alimentares ou até mesmo com os três tipos de distúrbio de uma vez.

E frequentemente os profissionais não percebem que o TDC pode ser a causa de todos esses sintomas.

Por outro lado, é comum indivíduos com TDC falarem pouco sobre o problema porque não o reconhecem como um distúrbio menta l, pois acreditam que são simplesmente feios. Muitos também têm vergonha de citar seus comporta­ mentos estranhos numa consulta médica. Como resultado, não raro esperam de três a 13 anos pelo diagnóstico correto. Nesse tempo, muitos procuram a ajuda de cirurgiões plásticos. Mas, assim como no caso do jovem S., esse tipo de intervenção não resolve porque não consegue alcançar a raiz do problema. Já num processo psicoterápico ou analítico esses temas invariavelmente terminam vindo à tona, por isso é tão importante buscar atendimento psicológico.

É comum que o TDC surja na puberdade, quando mudanças radicais no corpo podem contribuir com sentimentos de inadequação relacionados à autoimagem. A maioria dos pacientes afirma ter sentido os primeiros sinais da doença nesse período.

Fatores como crescer num lar que coloca ênfase excessiva na beleza física ou ter vivido situações traumáticas como bullying e repetidas críticas sobre características físicas, como peso e manchas faciais, também podem contribuir para o aparecimento dos sintomas dismórficos. Em um estudo de 2007, o psicólogo clínico Ulrike Buhlmann e seus colegas da Escola Médica da Universidade Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts constataram que voluntários com TDC disseram sofrer provocações sobre a aparência mais frequentemente do que participantes do grupo de controle que não tinham o distúrbio.

É provável, porém, que fatores biológicos, como genes e química cerebral, predisponham uma pessoa a essas inseguranças – embora dificilmente, por si sós, determinem o aparecimento do quadro. Seguindo a abordagem neurológica, alguns pesquisadores acreditam que o distúrbio esteja relacionado a alterações nos níveis do neurotransmissor serotonina no cérebro, um problema semelhante ao que acontece na depressão, que atinge aproximadamente 70% dos pacientes com TDC. Há alguns anos, a psiquiatra Katharine A. Phillips e seus colegas da Escola de Medicina Alpert da Universidade Brown relataram em dois estudos separados que a maioria dos pacientes com TDC apresenta melhora após o tratamento com antidepressivos que inibem a recaptação de serotonina por células cerebrais. Porém, sem acompanhamento psicológico, que permita ao paciente ressignificar a própria imagem e lidar com os efeitos que a distorção da própria imagem lhe causou ao longo dos anos, os efeitos da medicação não se sustenta.

QUEM PROCURA ACHA

Nos últimos anos, alguns pesquisadores começaram a questionar se a combinação entre uma personalidade vulnerável e um ambiente desfavorável poderia explicar o distúrbio. Embora na maioria dos casos a resposta seja sim, surgiu recentemente a hipótese de que o transtorno esteja relacionado, pelo menos em parte, a um problema perceptivo. Em um estudo coordenado pelo  psiquiatra José A. Yaryura-Tobias, do Instituto Biocomportamental em Great Neck, de Nova York, foi pedido a três grupos de dez voluntários cada – um com pacientes com TDC, outro com pessoas com TOC e um terceiro com participantes emocionalmente saudáveis – que fizessem alterações, se julgassem necessário, em uma figura computadorizada mais precisa de seu próprio rosto para corresponder ao que acreditavam representá-los. Metade dos pacientes com TDC e TOC modificou as figuras, ao passo que ninguém do grupo de controle propôs mudança significativa. Os dados sugerem que algumas pessoas com o distúrbio não percebem o próprio rosto da mesma forma que a maioria.

Evidências apontam que pacientes com TDC podem ser visualmente mais “sintonizados”. Em um estudo publicado na Abnormal Psychology, o psicólogo Ulrich Stangier e seus colegas da Universidade de Jena, na Alemanha, apresentaram brevemente uma figura de um rosto feminino junto com cinco representações alteradas digitalmente da mesma imagem a 21 voluntárias com TDC, 20 pacientes com doenças de pele desfigurantes e 19 participantes sem nenhum distúrbio – e pediram que julgassem o grau de deturpação. Nos rostos manipulados, os olhos eram mais espaçados, os cabelos mais claros, o nariz era maior e havia espinhas e cicatrizes adicionais. As voluntárias deveriam escolher entre cinco níveis de distorção que variaram de “baixo” a “extremo”. Os pesquisadores constataram que as pacientes com TDC julgavam melhor o grau de manipulação da imagem do que as demais, o que sugere que tinham percepção mais aguçada.

Curiosamente, essa capacidade apurada pode resultar numa assimilação deturpada. O psicólogo Thilo Deckersbach e seus colegas da Universidade Harvard publicaram um estudo em que pediram a pessoas com TDC que copiassem uma figura complexa e, em seguida, que a duplicassem de memória. Os pacientes demonstraram baixo desempenho (desenharam muitos detalhes, mas sem capturar a figura de forma geral) quando comparados com indivíduos emocionalmente saudáveis. Embora tenham mostrado pensamento estratégico pobre na tarefa, o principal problema pode ser a ênfase exagerada em detalhes visuais, o que ajuda a explicar por que se preocupa m tanto com “defeitos” minúsculos em sua aparência.

Feusner e a neurocientista cognitiva Susan Bookheimer, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, encontraram evidências que reforçam a tese. Os pesquisadores utilizaram a ressonância magnética funcional para observar o cérebro de 12 pacientes com TDC e 12 indivíduos saudáveis enquanto viam três versões de várias fotografias de faces: comuns, borradas e achatadas, mas altamente detalhadas.

Os voluntários sem o distúrbio processaram os rostos comuns e os borrados em áreas do hemisfério direito do cérebro, região responsável pela decodificação de características visuais de maior escala; o lado esquerdo foi ativado somente quando viram as imagens detalhadas. Já aqueles com TDC usaram o hemisfério esquerdo para interpretar todas as fotografias. “Eles processam todas as figuras como se fossem altamente detalhadas. É como se o cérebro tentasse extrair nuances que não existem”, observa Feusner.

Os resultados sugerem que o TDC pode estar relacionado, em parte, a alterações no processamento da informação visual. Afinal, é possível pensar que a capacidade de apreciar a beleza tem valor evolutivo. Um corpo atraente pode, em alguns casos, estar associado ao estado de saúde. Ou seja, a “feiura” indicaria menor aptidão. É possível que a habilidade de escolher a pessoa “mais bonita” como parceira tenha aumentado as chances de transmitir bons genes para a prole. Nesse sentido, o TDC representa uma versão extrema desse talento. “Mas ainda não sabemos se pessoas com TDC nascem com dificuldades no processamento visual ou se o distúrbio deflagra o problema”, admite Feusner.

O ROSTO DOS OUTROS

Considerando que alterações no processamento visual contribuem com o TDC, no futuro terapias poderão ser desenvolvidas para ajudar pacientes a enxergar as coisas de forma mais global usando o lado direito do cérebro. Feusner acredita que a exposição repetida a imagens borradas, vistas à distância ou visualizadas por apenas uma fração de segundo, por exemplo, poderia forçar o cérebro a adotar essa estratégia.

O psiquiatra afirma que medicamentos também podem alterar o lado do cérebro usado para processar informações visuais. Estudos preliminares sugerem que benzodiazepínicos favorecem a transferência da atividade neural para a direita durante uma tarefa do processamento visual, mas os efeitos colaterais são inegáveis. A saída seria o uso de drogas alternativas que podem agir de maneira similar, causando menos danos.

Contudo, especialistas concordam que o problema não é totalmente visual. Levando em conta que nove entre dez pacientes com TDC afirmam também examinar a aparência alheia, principalmente as características que mais detestam em si mesmos, uma pesquisa desenvolvida por Buhlmann e seus colegas mostrou que pessoas com o distúrbio não enxergam as mesmas distorções que veem em si no rosto dos outros. Indivíduos que sofriam de dismorfia classificaram fotografias de outras pessoas (consideradas “atraentes” pelos pesquisadores) como significativamente mais bonitas do que fizeram outros grupos sem o distúrbio. Isso sugere que a percepção detalhada sobre os outros não evoca a mesma resposta emocional negativa relacionada à própria aparência.

De fato, alguns profissionais tratam o TDC abordando aspectos emocionais, como o perfeccionismo e o medo de rejeição, focando as percepções distorcidas e sugerindo ações para ajudar os pacientes a abandonar hábitos destrutivos. Em alguns casos, são instruídos a pedir um retorno sobre a própria aparência para outras pessoas, como amigos, familiares ou até mesmo estranhos. Psicólogos cognitivo-comportamentais apostam que comentários alheios positivos, ou pelo menos neutros, podem ajudar o paciente a desenvolver uma autoimagem melhor e mais realista. No entanto, essa técnica mais uma vez coloca o referencial de auto aceitação fora da pessoa. Nesse sentido, psicoterapias comportamentais podem ser úteis num primeiro momento, mas os processos terapêuticos mais eficientes ainda parecem ser aqueles que permitem a reelaboração das vivências mais profundas. Lidar com as próprias faltas abre possibilidade efetiva de aceitar que aquilo que se considera imperfeito no próprio corpo não impede a pessoa de ser atraente, merecedora de afeto e de relacionamentos saudáveis.

Que coisa feia!. 2

EM BUSCA DA IMAGEM PERFEITA

Em tempos de selfies e outras formas de auto exposição, em especial nas redes sociais, a preocupação exacerbada com a própria imagem parece cada vez mais presente. E o resultado disso se vê nos consultórios médicos. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica revelam que o número de procedimentos estéticos aumentou 10% em 2014, no Brasil, o que significa aproximadamente 1 milhão de cirurgias plásticas realizadas. Embora na opinião de alguns profissionais como a dermatologista Luciana Conrado, doutora em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o termo “dismórfico” não seja necessariamente o mais adequado para descrever o transtorno, ela reconhece que a insatisfação é a “massa de trabalho” dos profissionais que atendem pessoas em busca de correções físicas. “O limite é tênue, mas em certos casos, a diferença entre a maneira que o indivíduo vê o próprio corpo e a maneira como os outros o enxergam é muito distante”, observa a médica, pós-graduada em psicossomática psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae.

O interesse por compreender melhor o que estava por trás da preocupação exagerada com um defeito pequeno ou inexistente apresentada por alguns pacientes que chegavam ao seu consultório a motivou a estudar esse “problema secreto”, que muitas vezes os pacientes escondem e, não raro, os próprios profissionais têm dificuldade de identificar e manejar. Segundo ela, na população em geral, 2%das pessoas apresentam o transtorno; entre pacientes dermatológicos 7% se enquadram no diagnóstico e quando consideramos os que buscam tratamentos cosméticos esse percentual chega a 14%, um índice considerado bastante alto.

Para chegar a esses resultados, a dermatologista desenvolveu uma pesquisa, inspirada no estudo da psiquiatra americana Katherine Phillips, para a conclusão de seu doutorado, em 2009, levando em conta o enquadre diagnóstico, a epidemiologia e a avaliação do nível de crítica dos voluntários, usando testes psiquiátricos para fazer a avaliação. Na ocasião, entrevistou 350 pessoas: 150 pacientes dermatológicos, outros 150 que haviam procurado tratamento cosmético e 50 provenientes da ortopedia, que compuseram o grupo de controle. Luciana Conrado salienta ainda que não apenas dermatologistas e cirurgiões plásticos recebem essas pessoas, mas também otorrinolaringologistas, oftalmologistas, dentistas e mesmo profissionais que trabalham com estética devem ficar atentos aos clientes que nunca parecem satisfeitos e continuam pedindo novas intervenções. Ela defende o atendimento multiprofissional para esses pacientes. Trabalhando na Universidade Justus Von Liebig, em Giessen, na Alemanha, ela acompanhou o tratamento de pessoas com o transtorno que recebiam atendimento diversificado: acompanhamento dermatológico e psiquiátrico, medicação para conter a obsessão, sessões de terapia de grupo e arte terapia. Ainda que seja difícil falar em cura definitiva, o acompanhamento focado na diminuição da percepção do suposto defeito pode trazer grande alívio ao paciente.

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ESPELHO, ESPELHO MEU …

Em sua clínica em São Paulo, a médica Noemi Wahrhaftig, membro da Sociedade Europeia de Dermatologia e Psiquiatria, costuma receber com frequência pessoas ansiosas por fazer tratamentos estéticos que as tornem mais jovens e belas. Recentemente, porém, ela se surpreendeu quando uma paciente de 40 anos desatou a chorar copiosamente em sua frente, profundamente angustiada com a constatação de que estava envelhecendo. A dermatologista acredita que a mulher apresente um subtipo de dismorfia conhecido como síndrome de Dorian Gray, numa alusão ao personagem de Oscar Wilde que faz um pacto com o demônio no intuito de manter a juventude enquanto um retrato seu, cuidadosamente escondido, se deforma com o passar do tempo.

A médica reconhece, porém, que sua própria angústia diante do pedido de muitos pacientes de se submeter compulsivamente a procedimentos estéticos não é muito comum entre profissionais

que trabalham com procedimentos cosméticos – e sua atitude crítica, por vezes, provoca estranhamento entre seus pares. “Vivemos em uma sociedade que nos cobra sermos assépticos, sem cheiro, com dentes brancos, sem pelos ou poros abertos, com cabelos lisos, sem manchas ou marcas na pele e isso me incomoda”, comenta. “Muitos pacientes cultivam a fantasia de que um médico os tornará perfeitos, mas sofrem com a insatisfação numa busca que continua, continua…”. E ainda que o corpo se transforme, permanece a rejeição por si mesmo.

OUTROS OLHARES

EDUCAÇÃO LIDERA STARTUPS BRASILEIRAS

A má notícia: num ranking de 21 cidades do planeta, São Paulo, com 62 edtechs, está em 18º lugar. Pequim tem 3.000

Educação lidera startups brasileiras

Fintechs? Que nada. Num levantamento feito pela Associação Brasileira de Startups, em parceria com o Centro de Inovação para a Educação Brasileira, o segmento que lidera em quantidade é o da educação, as chamadas edtechs. Elas representam 7,8% do total de startups. O mapeamento mostrou a presença de edtechs em 25 dos 26 estados brasileiros. “São 364 startups de educação mapeadas no Brasil, acredito que esse número possa chegar a 600 no total”, diz Thiago Chaer, CEO da Future Education, aceleradora de startups com sede no Brasil e escritório no Canadá. “Existe um movimento no mundo de repensar a educação, de repensar o papel dos professores e dos pais, é aí que surgem oportunidades para essas edtechs.”

O crescimento das edtechs é fenômeno mundial. Mas o Brasil ainda ocupa um lugar modesto nesse ranking. Em julho de 2018 a Navitas Venture, empresa australiana pioneira no setor de startups de educação, fez uma pesquisa em 21 cidades do planeta. São Paulo, com 62 edtechs, ficou apenas no 18º lugar. Pequim, com 3.000 edtechs, lidera a lista. Outra cidade chinesa, Xangai, aparece em segundo lugar, ao lado de Nova York, com 1.000 edtechs – para chegar perto do topo São Paulo precisaria multiplicar por quase 50 suas edtechs. Para Chaer, a boa notícia é que o mercado está aquecido e vai continuar assim, inclusive com cada vez mais participação de fundos de investimentos.

Apesar de todo o otimismo com as edtechs, ainda existem barreiras para um crescimento maior. Como 80% das escolas de ensino básico são públicas, a aquisição de tecnologia ainda é muito baixa por causa da burocratização e da pouca estrutura. Junte-se a isso a questão comportamental dos professores, que precisam se adaptar às novas tecnologias. Mudar essa postura será decisivo, diz Pedro Filizzola, CEO da Samba Tech, que licencia a tecnologia de vídeos educacionais para universidades e cursos preparatórios. “É preciso uma mudança de mentalidade, mas temos visto com bons olhos a flexibilização do governo em relação ao modelo de ensino a distância”, diz Filizzola. “O que a gente tem percebido é a preferência pelo modelo híbrido, complementando o ensino presencial, que tem gerado maior engajamento dos alunos.”

Quem consegue furar o bloqueio e entrar na educação pública consegue bons resultados. É o caso da startup Mira Educação, que criou o aplicativo Mira Aula para ajudar a combater a evasão de alunos. As ferramentas são oferecidas gratuitamente para as escolas. Não há necessidade de se usar wifi ou 3G. Com apenas alguns toques, o professor registra a presença ou ausência e as mensagens são enviadas para os pais, que também recebem o conteúdo das aulas e as avaliações. Recentemente, a edtech entrou no ranking das empresas mais amadas do Brasil, que foi criado pelo site Love Mondays, em 2013. Foi a primeira vez que uma startup que cria ferramentas para a educação pública apareceu no ranking. Exemplos assim não passam mais sem chamar
a atenção.

Os chineses, por exemplo, já estão colocando dinheiro no Brasil. Desde o ano passado, a Microduono, edtech com projetos de eletrônica e de robótica, trabalha com 30 instituições de educação. A meta é que até o fim deste ano ela esteja em mais de 500, tornando o país o seu terceiro mercado em cinco anos. Por isso se tornou comum funcionários de consulados e embaixadas buscarem informações para empresas de seus países investirem no Brasil. “Nós já fomos procurados pelas embaixadas de Austrália e Dinamarca”, afirma Chaer. “O País é uma forte opção para eles, principalmente na educação básica, um grande mercado.” Sua empresa, a Future, já ajudou a criar 32 edtechs em três anos, captando R$ 3,1 milhões e atingindo 50 mil alunos, mais de 1.500 professores e 600 escolas. Um caminho que ainda parece longo, mas altamente promissor.

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DOS GAMES PARA A SALA DE AULA, A REINVENÇÃO DA SAMBATECH

A Samba Tech nasceu criando jogos para celular, em 2004, e foi a pioneira na distribuição de vídeos na América Latina. Nos últimos dois anos, a startup percebeu que grupos educacionais estavam procurando por segurança e qualidade, e começou a investir nesse setor. Hoje, metade dos clientes já vem dessa área, casos da PUC Minas, Kroton e Estácio de Sá. O portfólio da empresa, que era de 200 clientes, superou os 300.

“A revolução do ensino começa pelo vídeo”, afirma Pedro Filizzola, CEO da Sambatech. “A gente oferece soluções inovadoras de segurança para que não haja pirataria, e qualidade para que a experiência do aluno seja a melhor possível.” Mas isso, o próprio Filizzola diz, não garantia a atenção. “Claro que o conteúdo, que é propriedade intelectual das instituições, precisa ser atraente para fazer um bom casamento com a tecnologia e reter a atenção do aluno.”

O empresário calcula que nos próximos 5 anos, 50% dos cursos educacionais no país serão feitos a distância. Hoje o ensino superior, por exemplo, já alcança mais de 1 milhão de alunos. “As matrículas para os cursos presenciais estão caindo e há um crescimento nos cursos a distância. Há casos como o de cursos preparatórios para o Enem em que o ensino 100% on-line funciona muito bem”, afirma. “Mas em cursos universitários, o sentimento de pertencer e de ter contato com outras pessoas é fundamental. Nesse caso, a tecnologia é usada para complementar o ensino presencial.”

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RECONHECIMENTO FACIAL E ROBÔS NA SALA DE AULA

A USP inovou no vestibular deste ano e utilizou a biometria facial no processo seletivo da Fuvest para aumentar o controle de segurança do exame e agilizar a identificação dos vestibulandos. A tecnologia substituiu a coleta da impressão digital feita em papel. O sistema foi criado por um time de profissionais com mais de 15 anos de experiência em biometrias que desenvolveu, com a equipe técnica da Fuvest, um aplicativo que compara as faces dos candidatos presentes com as fotos das matrículas. A Full Face, startup brasileira especializada em biometria facial, percebeu que havia essa demanda no setor educacional e começou a atuar no segmento. A empresa desenvolveu um algoritmo facial que transforma a imagem original em números, o que traz mais segurança e privacidade. No sistema, não existe a foto da pessoa, mas um registro com 16 mil dígitos. “O processo fica mais rápido, porque ocupa menos espaço”, diz Danny Kabiljo, CEO e fundador da Full Face. “Trabalhamos com a autenticação de alunos em provas online, presença em salas de aula e controle de acesso pelas catracas.”

CANTA, DANÇA, CONVERSA 

Assim como o reconhecimento facial, os robôs também têm invadido as salas de aula. A Somai é a representante oficial no Brasil do robô NAO, criado por franceses. No Recife, a máquina de 57cm interage com 40 mil alunos e uma em cada dez escolas municipais já usa o robozinho, que surgiu no ensino fundamental e hoje é utilizado no ensino médio. O NAO é uma máquina que dança, canta, anda e conversa. Equipado com câmeras, microfones, autofalantes e vários sensores, entre eles sensores táteis, de pressão e sonares. Tudo isso permite que reconheça face, voz e expresse emoções, fazendo com que a programação da sua capacidade de interação seja contínua. Os robozinhos também estão sendo utilizados para ajudar crianças com déficit de atenção, síndrome de down, autismo e para quem tem Alzheimer. Matar aula será cada vez menos divertido.

GESTÃO E CARREIRA

SOLIDÃO PROFISSIONAL

A solidão profissional é o preço que se paga pelo desenvolvimento da carreira, mas também o resultado pela forma como nos relacionamos com as pessoas no ambiente corporativo e pode ser um desastre na trajetória profissional.

Solidão profissional

Para o professor Luciano Salamacha, da Fundação Getúlio Vargas, “a relação dentro de uma empresa faz com que a troca de experiências com vários profissionais, da mesma área ou setores coligados, ajude no crescimento profissional e pessoal e nas tomadas de decisões mas, principalmente no aumento de conhecimento na própria área de atuação. É o principal pilar do crescimento numa empresa”.

Pessoas do mesmo nível hierárquico dividem dúvidas, angústias e insatisfações, além de receber ou dar conselhos sobre o trabalho mas, à medida que um profissional alcança postos de chefia ou liderança, o seu círculo de relacionamento muda.

O número de pessoas com quem se pode ter o feedback é menor. Quanto mais promoções o profissional recebe menor é o número de pessoas que estarão no mesmo nível na empresa e como gestor não pode dividir certas decisões ou acontecimentos com todos.

Salamacha alerta que quanto mais alto for o cargo exercido na estrutura organizacional maior é chance de se sentir solitário, por isso, esse fator acomete mais profissionais de cargos mais altos como presidência, CEO. A solidão profissional cresce na mesma proporção em que aumenta o poder de decisão na empresa e uma forma de combater esse efeito, existe hoje dentro das corporações o Mentor, uma das atribuições do professor Salamacha. O mentor é um consultor externo que pode com isenção, dar conselhos aos profissionais de cargos mais altos numa companhia.

O professor também afirma que pessoas com dificuldade em se relacionar com os colegas no trabalho também podem sofrer os efeitos da solidão profissional. Pessoas extremamente fechadas, às vezes, são mal compreendidas e até excluídas pelos grupos. Pessoas que trabalham sozinhas em home office também podem sofrer de solidão profissional e acabam se desestimulando, perdem a graça em trabalhar, mesmo com tantas vantagens que pode trazer esse tipo de atividade, cada vez mais comum nas grandes cidades com prestadores de serviços e profissionais autônomos.

Salamacha alerta para esse fenômeno que pode influenciar a performance no trabalho. O professor de gestão de empresas da FGV, especialista em carreira diz que pessoas que se sentem sozinhas passam a ficar inseguras por falta de referência, de informação. A insegurança, por sua vez, afeta muitas vezes o desempenho em tomadas de decisões simples.

O professor, que integra conselhos de administração em grandes empresas diz que já assistiu muitos gestores errar ao terem que decidir pequenas questões, mas diante de um impasse mais polêmico, acabam tomando medidas mais duras.

Salamacha afirma que no mundo corporativo, muitos bons profissionais acabam se perdendo nos melhores momentos de suas carreiras porque não reconheceram que necessitavam de ajuda e aconselha: “reveja suas relações, perceba se sente só e infeliz, tome uma atitude mais saudável para sua vida profissional e tenha certeza que terá mais sucesso”.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 20: 17-20

Alimento diário

MÁXIMAS DIVERSAS

 V. 17 – Observe:

1. Pode ser agradável, à carne, aceitar o pecado: o pão da mentira, a riqueza obtida por meio de fraude, por mentira e opressão, pode ser doce para um homem, e ainda mais doce por ser obtida de maneira ilícita; tal é o prazer que a mente carnal sente com o sucesso de seus projetos ímpios. Todos os prazeres e benefícios do pecado são o pão da mentira. Eles são roubados, pois são frutos proibidos; e enganarão os homens, pois não são aquilo que prometem. Durante algum tempo, no entanto, ficam debaixo da língua, como um doce bocado, e o pecador se considera bem-aventurado neles. Mas:

2. Amargos se tornarão. Posteriormente, a boca do pecador se encherá de pedrinhas de areia. Quando a sua consciência for despertada, quando ele vir que foi enganado, e perceber a ira de Deus contra ele, pelo seu pecado, como será, então doloroso e desconfortável a lembrança desse pecado! Os prazeres do pecado duram apenas algum tempo, e são seguidos pela angústia. Algumas nações puniam os malfeitores, misturando areia ao seu pão.

 

V. 18 – Observe:

1. É bom, em todos os aspectos, agir com deliberação, e ponderar, pelo menos em nosso próprio pensamento, e, em questões importantes, consultar nossos amigos, antes de decidir, mas particularmente pedir o conselho de Deus, e implorar que Ele nos oriente, e observar a orientação que vier dele. Esta é a maneira de estabelecer nossas mentes e nossos propósitos, e de sermos bem sucedidos em nossos negócios; ao passo que tudo o que é feito apressadamente e com precipitação se torna o motivo de um arrependimento constante. Dedique tempo à ponderação, e, no cômputo final, você agirá mais depressa.

1. É particularmente sensato que sejamos cautelosos ao fazer guerras. Considere, e aconselhe-se, se a guerra deve começar ou não, se isto será justo, se será prudente, se nós seremos um páreo para o inimigo, e capazes de dar continuidade a ela, quando for tarde demais para a retirada (Lucas 14.31); e, uma vez iniciada, considere como e com quais estratégias deverá ter continuidade, pois a administração é tão necessária como a coragem. Recorrer à lei é uma maneira de ir à guerra; por esta razão, é algo que deve ser feito com conselhos prudentes (Provérbios 25.8). A lei entre os romanos era nem insistir na guerra, nem fugir dela

V. 19 – É perigoso conviver com dois tipos de pessoas:

1. Os mexeriqueiros, ainda que sejam aduladores e, por palavras agradáveis, se insinuem nos relacionamentos dos homens. São pessoas sem princípios as que vivem difundindo estórias que provocam discórdias entre vizinhos e parentes, que semeiam, nas mentes das pessoas, inveja de seus governantes, de seus ministros, e uns dos outros, que revelam segredos que lhes são confiados ou que, por meios ilícitos, vêm a conhecer, e que, sob o pretexto de adivinhar os pensamentos e as intenções dos homens, dizem quais deles são realmente falsos. “Não te relaciones com estas pessoas, não lhes dês ouvidos, quando contam suas estórias e revelam segredos, pois podes ter certeza de que trairão os teus segredos também, e contarão estórias sobre ti”.

2. Os aduladores, pois normalmente são mexeriqueiros. Se um homem o adula, o lisonjeia e elogia, suspeite que ele tem algum mau propósito em relação a você, e fique vigilante; ele tomará de você aquilo que servirá para que ele invente uma estória para outra pessoa, para prejudicá-lo, por isto, com o que afaga com seus lábios, não te entremetas. Os que amam muito o seu próprio louvor, e que o compram pagando muito caro, depositarão a sua confiança em um homem, e lhe confiarão um segredo, porque ele os adula.

 

V. 20 – Aqui temos:

1. Um filho desobediente que se tornou muito ímpio gradualmente. Ele começou desprezando seu pai e sua mãe, ignorando suas instruções, desobedecendo às suas ordens, e se enraivecendo com suas repreensões, mas chegou a tal nível de atrevimento e impiedade, a ponto de amaldiçoá-los, de se dirigir a eles com linguajar obsceno e ultrajante, e de desejar o mal àqueles que foram essenciais para a sua existência e que tiveram tantos cuidados com ele; ele faz isto desafiando a Deus e à sua lei, segundo a qual, este era um crime punível com a morte (Êxodo 21.17, Mateus 15.4), e uma violação a todos os laços de dever, afeto natural e gratidão.

2. Um filho desobediente que se tornará muito infeliz, no final: “Apagar-se-lhe-á a sua lâmpada e ficará em trevas densas”; toda a sua honra cairá por terra, e ele perderá para sempre a sua reputação. Que nunca espere nenhuma paz ou consolação em sua mente, nem prosperidade neste mundo. Os seus dias serão abreviados, e a sua lâmpada se apagará, de acordo com o inverso da promessa do quinto mandamento. O relacionamento com a sua família será rompido, e a sua descendência será uma maldição para ele. E isto será a sua eterna ruína: a lâmpada da sua felicidade ficará na mais negra das trevas (este é o significado da palavra), aquela que é eterna (Judas 13, Mateus 22.13).