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ANIMAIS MÁGICOS

O homem não é a única espécie que faz uso de artimanhas visuais; aves, répteis e insetos recorrem a estratagemas para se disfarçar ou criar percepções equivocadas, a fim de enganar tanto possíveis pretendentes quanto potenciais predadores e até aqueles que desejam transformar em sua próxima refeição.

Animais mágicos

Nas florestas da Austrália e da Nova Guiné, vive uma criatura muito curiosa. Do tamanho de uma pomba, a ave é brilhante na arte da construção, mas também no ilusionismo. O pássaro-pavilhão (Chlamydera nuchalis) – um primo dos corvos e das gralhas – tem um ritual de acasalamento elaborado, marcado pela habilidade do macho de criar uma perspectiva forçada. Como é isso? Durante todo o ano ele constrói e mantém com muito cuidado sua “obra arquitetônica”: um corredor com cerca de 60 centímetros de comprimento feito com gravetos, que dá para um pátio decorado com seixos, conchas e ossos, com pouca variação de cores (veja imagem ao lado). Algumas espécies acrescentam também flores, frutas, penas, tampinhas de garrafa, cascas de nozes, brinquedos abandonados e qualquer outro objeto encontrado que sirva de ornamento. O macho toma enorme cuidado para arrumar os objetos de acordo com o tamanho, de modo que as peças menores fiquem mais perto da entrada do caramanchão e os itens menores, mais longe.

A estrutura exuberante não é um ninho. Seu único propósito é atrair a fêmea para o acasalamento. Uma vez completa a construção, o macho faz uma apresentação no pátio para a visitante, instalada no meio do corredor para a apreciação do espetáculo.

O pássaro canta, dança e desfila, brincando com alguns objetos que escolhe para impressionar sua potencial companheira. O ponto de observação da fêmea é bastante estreito, de modo que ela percebe os objetos que cobrem o pátio como se fossem todos do mesmo tamanho. Essa perspectiva forçada faz com que as prendas oferecidas pareçam grandes e, portanto, mais tentadoras.

Os objetos, e o próprio macho, são percebidos como se fossem maiores do que realmente são graças a um efeito visual chamado pelos cientistas de ilusão Ebbinghaus, que faz com que as coisas pareçam superdimensionadas quando são circundadas por objetos menores. É como diz aquela máxima: se quer parecer mais alto, ande em companhia de pessoas mais baixas que você. Em 2012, os ecólogos Laura Kelley e John A. Endler, ambos então na Universidade Deakin, na Austrália, confirmaram que entre os pássaros-pavilhão que viviam em Queensland, o grau de desempenho do macho ao criar essas ilusões constitui um prognóstico para o sucesso do acasalamento. Embora o comportamento da ave seja curioso, os pássaros-pavilhão são somente um dos muitos animais que empregam regularmente a duplicidade visual para permanecerem vivos e se reproduzirem. O fato de a ilusão visual não ser incomum no reino animal talvez ajude a explicar por que tantas culturas têm histórias de bichos trapaceiros – como o coelho que cria estratagemas para enganar a tartaruga ou o lobo nas fábulas de Esopo, ou mesmo o coiote dos mitos dos nativos indígenas americanos. Como costuma acontecer, porém, a realidade ultrapassa a ficção: as adaptações constituem argumentos para dizer que as ilusões não são simplesmente erros de percepção, mas também estratégias capazes de promover vantagens significativas. Alguns animais fazem mudanças em seu ambiente, como os pássaros-pavilhão, mas muitos outros transformam sua aparência ou comportamento para enganar um inimigo potencial ou uma refeição inocente. Analisamos aqui as três principais ilusões de que os animais lançam mão para alterar sua aparência – criptismo, disfarce e mimetismo – e pesquisamos alguns dos exemplos mais extraordinários de cada um.

Animais mágicos. 2

Alguns animais são menos atraentes aos predadores, pois se assemelham a objetos familiares inanimados ou não comestíveis. Por exemplo, a larva da borboleta gigante rabo-de-andorinha (Papilio cresphontes) (2) se disfarça de fezes de passarinho, assim como a aranha-da-teia-arredondada (Cyclosa ginnaga). A larva da mariposa feathered thorn (Selenia dentaria)  (1) se disfarça de galho. A semelhança não está na forma e na cor: o inseto também se posiciona em um ângulo muito semelhante ao dos galhos na planta hospedeira. De modo semelhante, pássaros do gênero Nyctibius, com a plumagem da cor de casca de árvore, se camuflam como projeções de árvore ao permanecer imóveis durante o dia. Algumas espécies têm a flexibilidade de se assemelhar a diversos objetos pouco palatáveis em seu ambiente. Lulas, com sua pele de polvo, têm talentos de camuflagem incríveis e são capazes de mudar a cor de sua pele de repente. Podem se disfarçar prontamente de pedras ou algas. Assim como o camaleão, as larvas da mariposa peppered (Biston betularia) também são capazes de variar sua coloração para se assemelhar a diferentes galhos vizinhos. Alguns predadores também fazem uso desse truque. O louva-a-deus-fantasma (Phyllocrania paradoxa) (3) se disfarça de folhas mortas para enganar insetos incautos – e transformá-los em refeição.

Animais mágicos. 3

MIMETISMO

Manchas ocelares – círculos concêntricos que se assemelham a olhos de vertebrados – são frequentes entre as mariposas e borboletas, mas podem também ser pequenos e localizados somente perifericamente ou ser grandes e centrais. As manchas menores podem desviar a atenção dos predadores da cabeça ou outras partes vitais do corpo. Já as maiores se assemelham aos olhos do inimigo do predador, o que sugere que servem para intimidar potenciais atacadores. No livro infanto juvenil O caso da borboleta Atíria (coleção Vagalume,Ática, 1996), a autora, Lúcia Machado de Almeida, se valeu dessa característica noromance policial que se passa no mundo dos insetos. Na história, o assassino usa disfarces para cometer crimes.Em 2014 o biólogo Sebastiano DeBona, pesquisador da Universidade de Jyväskylä, na Finlândia, e seus colegas concluíram que o mimetismo dos olhos – enão a conspicuidade de uma mancha ocelar – era responsável por evitar predadores.Para chegar a essa conclusão, os cientistasbiólogos fizeram um experimento: mostraram várias imagens numa tela de computador a passarinhos da espécie great tits (Parus major), que se alimentam de borboletas. As fotografias incluíam corujas (quese alimentam de great tits) e borboletas dediversos tipos. Algumas das imagens de borboletas apresentavam manchas ocelares que pareciam naturais, outras não tinham nenhuma, e um terceiro grupo exibia manchas manipuladas digitalmente, com o mesmo contraste de cor que as manchas reais, mas se assemelhavam menos a olhos. Resultado: os pássaros produziam respostas aversivas equivalentes quando se tratava de manchas ocelares miméticas e dos olhos verdadeiros da coruja. E respondiam de modo menos radical aos olhos modificados. Os animais miméticos descritos são criaturas inofensivas que, em virtude de seu som, aparência, comportamento ou odor, enganam seus predadores fazendo com que sejam tomados por espécies repugnantes ou nocivas. Um exemplo disso é a mosca-das-flores, que imita os padrões e cores da abelha. Os predadores que aprenderam a se afastar de picadas doloridas serão motiva-dos a deixar esse mímico em paz.

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 CRIPTISMO

Alguns animais se mesclam ao seu ambiente para passar despercebidos pelos predadores. Essa técnica, chamada criptismo, conta com o fato de o outro animal não perceber o enganador. Em contraste, criaturas que se disfarçam ou imitam não são difíceis de detectar, porém o animal que os vê os toma por outra espécie ou por um objeto inanimado. Há uma série de modos em que os animais crípticos, como essa esperança-do-líquen (acima), evitam detecção por meio da camuflagem. Graças à coloração e aos padrões que se confundem em sua pele ou no exoesqueleto, muitas criaturas efetivamente desaparecem no pano de fundo. Outras empregam ainda comportamentos crípticos, escondendo-se em tocas ou cobrindo-se com sedimentos.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.