PSICOLOGIA ANALÍTICA

AS INJÚRIAS DA FELICIDADE

O mundo não é uma brincadeira de criança sem risco. A vida adulta exclui a imaginação lúdica saudável e dá lugar às crenças inerentes aos pensamentos positivos rumo ao futuro.

As injúrias da felicidade

Já dizia o poeta: “Não quero ter razão, quero ser feliz!” Em tempos de promessas, virada de ano, tempos difíceis, mudanças, de crises existenciais e outras mais, cada um recorre a algo a que possa se segurar. Muitos recorrem à onipotência do pensamento chamado de positivo, combatendo o negativo como se o querer consciente fosse um milagre retilíneo uniforme. Ainda que este tipo de pensamento designado de positivo pela consciência tenha seu lugar e suas funções confortantes para muitas pessoas, ele não é definidor de mundo.

Não se trata de ser pessimista o fato de saber que o mundo não gira ao redor do umbigo do pensamento, mas se trata de encarar a angústia magna existente para o ser falante. Ao falar, indagar, inserir a linguagem que corta o todo naturalizado do mundo, o ser humano se depara com a intrínseca angústia de não ser todo. Falar é assumir que é faltante, viver é isso, fazer da falta um bom motivo para fazer algo de tudo. A falta pode ser adereço central do desejo se a tomarmos como faísca de linguagem.

Muitos, na sua essência faltante, em sua euforia de querer ser mais em meio à sociedade do espetáculo feliz, das imagens do todo, da ditadura do sorriso de prótese, acabam se angustiando ao saber que a felicidade plena é inconivente com o modo humano de ser. Para estes, a felicidade surge como mercadoria promissora, onde vendem os pergaminhos, bulas, treinos, itens e tudo mais que for necessário para irem tamponando o que não tem tampa, mas tem borda. Ao apostar todas suas fichas nesses indícios prometidos e fracassar perante o delineado esperado, o sujeito inaugura nova rotina de angústia em resposta ao exercício da castração que ameaça o Eu.

A angústia, em Psicanálise, é um sinal de alerta a ser escutado. Ela vem, estrangula o dito não dito, agita o ser por falar tocando diretamente na víscera real do corpo que habitamos. A angústia chama para a vida ao lembrar da morte: e agora? O sujeito tem que se haver com sua condição. Não dá para se estabilizar na angústia, pois ela é o afeto que não brinca em serviço. A angústia, que rasga de dentro para fora, mostra que não se foge de si mesmo. É imprescindível encará-la, ainda que a vontade seja a de sair correndo, sem rumo, lenço e documento.

Escutar a si mesmo é tarefa árdua, difícil, inefável e laboriosa, pois não se trata de escutar o rasante dos pensamentos tão somente, uma vez que por eles inclusive nos enganamos e maquiamos em fantasias o que não vai bem. Escutar a si mesmo é aceitar sua dolorida condição. Daí, numa Psicanálise, as pessoas que esperavam tudo aconchegante saírem com labirintite psíquica. Em pensamentos, reformulamos o mundo de forma afável, somos carismáticos conosco mesmos, maquiamos narcisicamente nossa condição, ensimesmamos fetiches de salvação. Penso, logo egoísmo. Necessitamos ir além das defesas pensantes que criamos se desejamos romper com as rígidas repetições que nos alinham no sofrer. Na dinâmica da vida é preciso fazer o luto da onipotência, permitindo indagar o pensamento, aceitando a condição faltante. Não será sem suporte, certamente será com medidas paliativas, cada um com as suas, tal como aponta Freud: “A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós, proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas” (Freud, 1930).

Cada pessoa deverá analisar quais medidas paliativas lhe servem em seu propósito de vida.

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CIVILIZAÇÃO

Em se tratando de civilização, Freud afirma que uma das condições centrais para que esta exista, ainda que manquejando, é a de que “o homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança” (Freud, 1930). Desse modo, suportar as pequenas diferenças e se ouriçar nas relações é condição sine qua non para viver em civilização. Por ouriçar, entendamos, conforme Schopenhauer aponta em sua escrita dos porcos­ espinhos na noite de inverno: caso estejam muito próximos, se ferem e sangram, podendo morrer pela proximidade sufocante e perfurante dos espinhos. Se muito distante, podem morrer pelo frio. Portanto, se faz necessária uma distância encontrada que não seja muito próxima ou tão longínqua.

Aqueles passos que sonhamos para alcançar a felicidade, aqueles conselhos que indicam o caminho, os manuais do que fazer e como fazer que garantem sucesso jogam com nosso desamparo. Aqui se encaixa bem um postulado de Freud, em O Mal-estar na Civilização: “Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem que descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo” (Freud, 1929). A vida humana é singularmente inventiva, não há roteiro, manual, passo a passo, nada que garanta. A felicidade, sempre em pedaços, é feita, construída, às vezes aparece de surpresa, e esta vai além do cair nas artimanhas da sedução de soluções rápidas.

É confortante deslocar as resolutivas dos problemas ao poder do pensamento ou a alguém. O outro nada pode por nós, pode “com nós”. E apostar no pensamento mágico é se portar como se fôssemos bebês com a onipotência de seu choro: chora­ se, esperneia-se, basicamente não se faz mais do que isso e o mundo nos atende. Os pensamentos mágicos são derivados de nossas experiências da tenra infância. Desde os primórdios, o pensamento mágico demarca presenças, nos credos, rituais tribais e mitos fundadores. Chora-se e magicamente aparecem quentinho copo de leite, seio com afeto, soluções mirabolantes, acaloramentos, nutrientes afetivos e vitamínicos. Eis aqui o protótipo do credo no pensamento mágico onipotente. Econômico e até então eficaz. Até então.

Até então, pois a posteriori o princípio de realidade surge e demarca que castrações nos chamam ao movimento. Pelo atemporal do inconsciente (o inconsciente tem um peculiar tempo psíquico, no qual memórias amalgamam e reinventam noções de passado, presente e futuro), muitos ainda estão enraizados nesse badalar da vida psíquica, crianças de várias adultas idades. O infantil em nós é por toda vida. Por esse motivo, pelos traçados da infância, ao lado disso tudo, o que se está colocando é a onipotência de uma carência que existe em nós: de um outro que cuide de nós, que faça por nós, que nos acolha, que nos indique e que nos ensine a caminhar, que segure nossa mão, alguém que nos salve ainda que saibamos não se tratar de salvação. Demandamos amor e buscamos enrijecer o poder a um outro da verdade, cremos nele, não por ele, mas pelo amor dele: “Uma criança sente-se inferior quando verifica que não é amada, o mesmo se passa com o adulto” (Freud, 1936).

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PRINCÍPIO DE REALIDADE

A identificação, o espelho, a tentativa imitante, ecolalias do fazer constituem papel fundamental no desenvolvimento do sujeito frente ao seu mal-estar. Desenvolver aponta que primeiro se envolve e depois se “desenvolve” para herdar algo e fazê-lo teu. Do princípio de prazer, no qual se desenvolvem desejos e fantasias, advém, em um porvir existencial, o princípio de realidade, no qual se desenvolve o ajeitar-se em meio às ameaças de castração do mundo social. O princípio de prazer é pulsionalmente mortífero, visa o princípio de nirvana.

O advento do princípio de realidade não anula o princípio de prazer. Segundo Freud, “a substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade não implica a deposição daquele, mas apenas sua proteção” (Freud, 1911). A partir desse motivo, dentre outros, é que somos desmedidas e incomensuráveis vezes guiados por nós mesmos para lá, onde não sabemos que sabemos. Um saber que escapa à razão pensante e que diz pelos rastros repetitivos dos experimentos da vida cotidiana. Em busca de algo outrora perdido para sempre manifestamos dizeres em lapsos da língua, do corpo, da memória, por pilhérias, trocadilhos e chistes, além de dizermos em metáforas, nos sonhos e sintomas. O inconsciente diz de um saber que relutamos saber que sabemos, uma resistência que adoece produzindo estrangulados dizeres sintomáticos. Quanto mais o sujeito tenta negar a si mesmo, mais ele se afirma sem perceber. O inconsciente é dinamizado por processos primários que escapam à lógica do tempo cronológico, à realidade externa, à caracterização de bem e bom, é afirmativo e ainda ausenta contradições mútuas. As características do inconsciente, como podemos perceber, diferenciam-se, e muito, dos pensamentos. Secundariamente é que emerge, organizando-se para a consciência e os outros, o escopo pensante. Uma psicanálise não é para fazer pensar alinhavado, e sim causar ondas para que algo mude, ainda que o sujeito nem saiba de onde aquilo veio. No pensamento, assim como na confissão, fala-se o que se sabe, e no inconsciente, pela associação livre sob transferência, o sujeito diz mais do que sabe, até prega em si mesmo surpresas acerca de quem se é.

Portanto, compreendemos que os pensamentos são fabricados a partir de processos primários de cada um, sendo este um dos caminhos a escutar, destrinchar e seguir rumo a algo dito em suas entrelinhas. O pensamento é um derivado secundário da vida psíquica, tem sua importância, compete sabermos de qual modo ele se encaixa na psicopatologia da vida cotidiana do sujeito. Ele advém como produto condensado e alinhavado de elementos que desconhecemos que sabemos, “ah, sei lá!”, dizem comumente as pessoas, apontando que em algum lugar sabem, mas não percebem onde e de que modo, mas, ao inverso do que podemos imaginar, o inconsciente que não é inconsequente, “parece que não está em mim essa coisa”, “fiquei cego na hora’ “não sei, tem algo em mim”, “quando vi, já tinha feito’ é linguagem nossa e somos por ela responsáveis. Escutar é ético, na medida em que coloca o sujeito nas rédeas do responder às suas mazelas e delícias.

Acerca dos pensamentos, podemos pensar (ironia) que eles, os pensamentos, são coberturas da razão. A razão é uma cobertura de algo, o dito senso comum já o aponta ao dizer que tal pessoa “está coberta de razão”. Usam e abusam dessas coberturas, como drogas, mesmo, viciosas. O pensamento está certeiramente nas procrastinações, assim como a razão está nas defensivas ante os afetos. Os pensamentos estão na busca lógica pela felicidade plena inalcançável por excelência.

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INJÚRIAS DO PENSAMENTO

Freud (1915) postula que “o pensamento é o ensaio da ação”. Um ensaio que desmedidas vezes aniquila a ação. Como numa festa marcante, num show, compra-se o ingresso meses antes, por exemplo, pensa­ se como será bom, deleita- se, traça-se o que fazer, com quem fazer e como fazer, gozam-se maravilhas no pensamento, perdem-se noites de sono e quando está para chegar a hora já se esvaziou aquela expectativa criada e um desânimo emerge. O pensamento aqui não saiu do ensaio e ficar nele garante ao sujeito que a ação não atrapalhe a delícia construída por ele. Outro exemplo do pensamento como realização em si mesmo, se assim podemos dizer, é quando uma pessoa vai caminhando em direção ao seu patrão, e o patrão em direção à pessoa, e ela pensando: “Vou pedir aumento, vou pedir aumento, vou pedir…” o patrão passa e ela “eu deveria ter pedido aumento, deveria ter pedido!” O pensamento estava montado, ela sabia o que fazer, mas algo maior na história daquela pessoa fez com que ela, frente a um lugar de poder, recuasse em seu propósito.

Outra forma de utilizar o pensamento como modo de ser feliz, ou de despistar tristeza, ou de tentar se garantir que se prova ineficiente ou demasiado limitado é quando a pes­ soa tenta conduzir sentimentos pelo pensamento. Até dizem “vai namorar com ele mesmo? Pensou direito?”, “Gosta dela mesmo? Tem que pensar duas vezes”. Como se uma forma de pensamento, de interpretação fosse capaz de garantir uma felicidade e prevenir o sujeito de embaraços. Na lógica reacional, há quem, em luto, sofrendo pelo término, diga a si mesmo e reafirme reiteradas vezes: “Não vou me apaixonar, não vou me apaixonar, não vou…” e quando menos se espera, quando percebe, já está sendo levado a uma relação. Algo aqui escapa. Algo conduz. Esse fetiche do pensamento, como forma motriz de garantia de felicidade, tem a consequência de limitar o sujeito. Obviamente, o pensamento é importante. No entanto, é mais óbvio ainda termos que indagar o óbvio para não ficarmos reféns do mundo. Como ser senhor de seus pensamentos é uma interessante questão. Pensamentos lapidados, sedutores, sem furos servem para? Acomodar-se em demasia assassina o desejo, estrangula a fabricação de si. Na obsessividade do pensamento podemos falar em um “penso, logo desisto”. Para outros, “penso, logo procrastino”. E, ainda, “penso, logo suporto”. Tudo isso não anula a epígrafe famosa do “penso, logo existo”, porém é preciso saber que existimos fora do pensamento.

Por essas supracitadas vias podemos pensar em ao menos dois usos distintos do pensamento: aquele ao qual se é levado pela ilusão e ao qual se é impelido ao se mover, devido ao surgimento de um desassossego. Um pensamento que finda e um pensamento que funda o comprometimento. A diferença está na posição do sujeito. No primeiro, o sujeito se coloca como passivo da atuação, refém das conspirações do universo, sufoca sua existência singular e se faz objeto dos rotacionais movi­ mentos de forças maiores. Ativa um suposto e confortante controle, pois sabe o que fazer por e com ele. Este controla tudo pela mente, pelo seu credo, nada pode fazer além disso, de aceitar, de receber, logo nada faz para que se realize, deixa à mercê do querer alheio da força maior chamada de destino. Anula em si que destino é construção e que estamos fadados a repetição se não tratarmos de analisá-lo. Desvirtua o seu desejo, sequer deseja, pois desejar é ser rotacional em outro ritmo e ali não se permite tal injúria.

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REFLEXOS

No segundo modo de pensamento, o reflexivo, que visa reflexos do interno, que desacalenta e cria movimentos pelos furos existentes, o sujeito se coloca incomodado e encara o ato, vai ao fazer, se vira, assume-se como senhor, em parte, de sua casa, arca com as consequências, responde aos efeitos, responsabiliza-se por mudar o que, na outra lógica estaria fadado a, abandona a queixa e parte rumo à tentativa que soluciona, estando, assim, ativo na atuação que nasce de um pensamento e passivo perante o resultado, pois tudo pode acontecer, não se sabe o que virá, como virá e de onde, mas não objetaliza-se recuando do viver. Em ambos os modos de pensar temos ilusões que o sujeito cria, uma do alcance da possibilidade castrada e outra de que forças maiores reservam vanglórias a si. A ilusão é uma medida paliativa que nos habita desde cedo na vida. Em uma ilusão, na da vanglória que ele tanto merece, e cria justificativas racionais para tal, a felicidade em seus pedaços está no pensamento de que dará certo e pronto, fala por ânsia fantasmagórica. Na outra ilusão, a de pensar que nem tudo pode e por isso deve estar apto a viver lutos se der errado, a felicidade é uma aposta que poderá surgir ou não nos pedaços das realizações deste porvir. De todo modo, a ilusão nos move da imagem está­ tica a um drama e por esse drama é que o ser humano ilude a si mesmo, o que não significa ser um erro, não é isso. É um arranjo que deve ser avaliado na singularidade. Para ter ilusão é preciso ter alguma história. Podemos tomar a ilusão como uma das formações distorcidas do desejo: “Quando digo que todas essas coisas são ilusões, devo definir o significado da palavra. Uma ilusão não é a mesma coisa que um erro, nem tampouco um erro. […] O que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos. […] As ilusões não precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis, ou em contradição com a realidade” Freud, 1927).

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SINTOMA DA CAUSA E EFEITO

Cura em Psicanálise: queijos no divã. Muito se diz do tratamento psicanalítico, tratamento existencial sob transferência – vínculo clínico. A Psicanálise trata sintomas? Sim, mas não tão somente aqueles psiquiátricos. São sintomas singulares, não para serem eliminados, mas sim tratados, escutados. Esses sintomas dizem do sujeito, o organizam desorganizando-o, eliminá-los é emudecer o existir. Se o sujeito não reinventa outro modo de lidar com seu profundo mal-estar fica ruim com o sintoma e pior sem ele, o desamparo assola, pois o sujeito perde parte falante de si. Trata-se, então, de escutá-lo para fazer falar de outro modo. Fazer falar o sintoma é ser causa de desejo. São sintomas que se entregam à transferência. O sujeito em seu inconsciente aceita ser tratado: sim, toma! E entrega seus dizeres rumo à possibilidade de desembaraçar-se dos conflitos da confusão de língua. Tendo um irredutível do ser, a Psicanálise possibilitando a reinvenção singular do sujeito, com seus pares e ímpares, não busca uma cura no sentido médico do termo. É o sujeito que utiliza o bisturi da língua para operar sua relação com o destino flexibilizando repetições. Então qual cura é possível? A cura do queijo. Queijo curado é aquele maturado pelo tempo dele, o tempo lógico se faz importante e mediante contatos externos e borbulhas internas eles fazem sua consistência e sabor serem únicos. Queijo curado depende do corte. do manejo, fica com seus furos e particularidades. Queijo curado tem história, necessita de cuidados e responde a eles. Queijo curado é queijo que, com o modo de se relacionar com o que lhe toca, clima, bactérias, material que suga salmoura ou não, luz, cria uma crosta fiel à sua necessidade e consegue resistir cada vez mais ao mundo aberto e seus perigos. Vive melhor em locais nos quais antes apodrecia, ficava amargo. Aprende a lidar com o que o circunda. Essa é a cura, a construção de uma nova capacidade de lidar com o mundo sob a essência antiga, transformação, não sem dificuldades!

OUTROS OLHARES

A EDUCAÇÃO RESISTE

Estudantes, pais e professores realizam protestos contra o desmonte do sistema de ensino iniciado por Jair Bolsonaro. O apoio de instituições internacionais de renome fortalece a luta para impedir a implantação da doutrina de alienação desejada pelo governo.

A educação resiste

A causa uniu gerações, categorias e trouxe de volta às ruas na semana passada o saudável barulho do protesto. Em locais distintos do Brasil, pais, estudantes e professores de instituições federais de ensino protagonizaram as primeiras manifestações contrárias ao desmonte da educação brasileira colocado em curso pelo governo de Jair Bolsonaro. Na manhã da segunda-feira 6, enquanto o presidente participava da cerimônia em comemoração aos 130 anos do Colégio Militar do Rio de Janeiro, do lado de fora do local centenas de alunos, acompanhados pelos pais, gritavam por mais recursos à educação. Na mesma hora, em Salvador, estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA) faziam uma passeata pela preservação do ensino. No dia seguinte, foi a vez de São Paulo sediar mais um ato. Entre universitários, articula-se uma greve para breve. Assim, de maneira ainda tímida, a sociedade começa a reagir contra o ataque sistemático da administração Bolsonaro tendo como alvo os principais centros de produção de conhecimento e palcos de livre pensar do País.

Os movimentos do governo neste sentido começaram há três semanas. Primeiro, Bolsonaro e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, anunciaram que reduziriam as verbas destinadas à Filosofia e à Sociologia, duas áreas das Ciências Humanas. Uma semana depois, os dois divulgaram que cortariam em 30% os recursos destinados às Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal da Bahia e Universidade Federal Fluminense (UFF) sob o argumento de que elas estariam fazendo “balbúrdia” e que apresentavam performance acadêmica aquém da desejada. No dia seguinte, a redução foi estendida a todas as federais.

A educação resiste. 2

DOUTRINA DA ALIENAÇÃO

Bolsonaro deseja implantar no País a doutrina da alienação. Durante a campanha eleitoral, defendeu o Escola Sem Partido, programa de alas conservadoras da sociedade cuja meta é tirar dos colégios o que considera “doutrinação política e ideológica em sala de aula.” Na prática, querem impedir o exercício da crítica em sala de aula. A perseguição às universidades é mais um passo nesta direção. As instituições foram criadas para abrigar a geração de conhecimento, feita a partir do livre trânsito de ideias e sem segmentação de áreas. Hoje, mais do que em qualquer outro tempo, sabe-se que a produção científica deve ser interdisciplinar. Os diferentes campos da ciência – e incluem-se aí os de Humanas – combinam-se para criar e compreender e explicar o mundo em toda a sua complexidade. O pensamento é livre e múltiplo.

Na terça-feira 7, durante depoimento à Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, no entanto, o ministro Weintraub demonstrou que está longe de entender algo que deveria ser básico para alguém em sua posição. Entre outras temeridades e depois de confundir o nome do escritor Franz Kafka, autor do livro O processo, com kafta, conhecido prato de origem árabe, o ministro disse que a expansão do ensino superior registrada nos últimos anos era “uma tragédia.” De fato, nem todo curso criado recentemente prima pela qualidade. O problema é que a onda de novos cursos ocorre no setor privado, com a abertura de instituições que servem mais de caça-níquel do que centro de aprendizado. Esta é de fato uma questão importante a qual o governo deveria estar atento. Mas o foco de Bolsonaro é exatamente o contrário: as instituições nacionais públicas de grande tradição histórica e política.

Essas universidades são as principais geradoras de conhecimento e de formação de quadros do País. Cerca de 95% da produção científica brasileira é feita por elas, quase sempre a custo de muito esforço pessoal dos cientistas para que os estudos avancem. Mesmo trabalhando em condições piores do que os colegas das universidades internacionais, os brasileiros alcançaram conquistas importantes em todas as áreas. Para ficar em uma das mais recentes: em 2016, a pesquisadora Celina Turchi apareceu entre os dez cientistas mais importantes daquele ano na lista da revista Nature, uma das mais prestigiadas do mundo. Ela comandou uma equipe internacional responsável pela descoberta da associação entre o vírus da zika e a microcefalia.

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SEM ÁGUA NEM LUZ

No laboratório do professor Amilcar Tanuri, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, são desenvolvidos alguns dos estudos essenciais para o entendimento de doenças como a própria zika, a febre amarela e outras graves ameaças à saúde pública. Os cortes anunciados por Bolsonaro atingirão em cheio seu trabalho, assim como o de seus colegas de universidade. Toda a infra-estrutura necessária para que ele trabalhe, como boas condições do prédio, água, luz, segurança e coleta de lixo depende do dinheiro que o presidente e seu ministro prometeram tirar. Se hoje sua pesquisa já está prejudicada por falta de recursos para resolver problemas como goteiras e equipamentos quebrados, dentro de um ou dois meses pode ficar inviável. “Como vamos conseguir trabalhar sem água, energia elétrica?” A pergunta é simples. E a resposta, a serem mantidos os cortes, também é: não vão.

Entre os trabalhos conduzidos pelo time de Tanuri estão o desenvolvimento de novas drogas contra vírus e o entendimento de como eles circulam pelo país, informação chave para a prevenção de epidemias. A pesquisa é um exemplo dos benefícios que as universidades trazem ao país. Sem o conhecimento a ser proporcionado pelo laboratório de Tanuri ­— e de outros que seguem linha de estudo semelhante — e sem a compreensão do comportamento das pessoas diante da necessidade de se prevenir, respostas que surgem de investigações na área das Ciências Humanas, o Brasil continuará à mercê de doenças que há muito deveriam ter sido controladas.

O governo Bolsonaro, no entanto, joga com a ignorância da população a respeito da riqueza produzida nas universidades. Aposta na estratégia de difundir mitos, como o de que elas são abrigos de jovens ricos interessados mais em bagunça do que em estudo. O objetivo é minar instituições de onde justamente pode vir uma oposição inteligente e combativa. Uma das formas de impedir que a tática prevaleça é investir na difusão da importância das universidades para o País. e mostrar aos brasileiros o quanto custa e custará ao Brasil sucateá-las. “Precisamos fazer isso com urgência. Levamos décadas para construir uma rede de ensino e pesquisa acadêmicas e sua desconstrução está sendo muito rápida” , afirma o cientista Stevens Rehen, professor da UFRJ e um dos mais respeitados neurocientistas do País. Em solidariedade ao Brasil, dezenas de acadêmicos de universidades internacionais do porte de Yale e Harvard, nos EUA, e Oxford, na Inglaterra, assinaram um manifesto em repúdio às ações do governo. Contou muito para a reação estrangeira os ataques às Ciências Humanas e à figura do educador Paulo Freire (1921-1997). Um dos mais célebres pensadores da Educação do mundo, Freire é patrono da educação brasileira. Bolsonaro pretende dar o título a outro.

Nenhum país civilizado prescinde de educação e ciência. E isso só é garantido quando o Estado — e não somente governos – faz a opção clara por este caminho. Nesta semana, a Alemanha anunciou que irá aumentar as verbas para pesquisa em 3% ao ano pela próxima década, percentual que já vinha sendo aplicado anualmente, desde 2006, para reajustar os recursos destinados aos trabalhos científicos naquele país. Não é à toa, portanto, que a nação europeia seja uma das maiores potências mundiais da atualidade. Qual parte a administração Bolsonaro ainda não entendeu?

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GESTÃO E CARREIRA

CLIMA ORGANIZACIONAL: O QUE É E COMO TRABALHA-LO?

Clima organizacional - o que é e como trabalha-lo

Atualmente, o conceito de clima organizacional vem ganhando cada vez mais espaço dentro das empresas, pois é um fator que pode influenciar diretamente no desempenho de seu negócio.

Pesquisas da área de gestão de pessoas indicam que colaboradores com índices de motivação baixos, utilizam apenas 8% de sua capacidade de produção. Já nos setores e/ou empresas onde há colaboradores motivados este mesmo índice pode chegar a 60%.

Há algumas décadas a administração de empresas vem dando atenção a este tema, buscando entender como a qualidade do ambiente de trabalho pode afetar de forma significativa o desempenho dos trabalhadores.

Nesse sentido, o clima organizacional pode ser entendido como a forma com que um funcionário percebe a organização em que trabalha, podendo influenciar a sua motivação e satisfação positiva ou negativamente.

Cada organização possui um clima organizacional diferente, ou seja, cada uma possui uma atmosfera psicológica e características únicas.

A dificuldade em se determinar o clima organizacional está no fato de ele ser algo subjetivo e percebido de forma distinta por diferentes pessoas.

Para medir este clima nas organizações é tradicionalmente utilizado uma Pesquisa de Clima Organizacional, que é um instrumento voltado para análise do ambiente interno a partir do levantamento de suas necessidades.

Este processo cria uma base de informações, identificando e compreendendo os aspectos positivos e negativos que impactam no clima, orientando na definição de planos de ação.

É importante dizer que a Pesquisa de Clima deve sempre estar coerente com o planejamento estratégico da organização e deve contemplar questões de diferentes variáveis organizacionais, algumas delas são:

  • O trabalho em si;
  • A integração entre as pessoas e os departamentos;
  • Salário e Benefícios;
  • Estilo Gerencial;
  • Comunicação;
  • Desenvolvimento Profissional;
  • A imagem da empresa;
  • Processo decisório;
  • Condições físicas de trabalho;
  • Trabalho em equipe;
  • Orientação para resultados;
  • Estabilidade no Emprego;
  • Relacionamento entre Empresa x Sindicato x Funcionários;
  • Disciplina;
  • Participação;
  • Segurança;
  • Objetivos Organizacionais.

Cabe ressaltar que não existe uma Pesquisa de Clima padrão, pois cada empresa tem sua realidade, linguagem e cultura. Por isso, é importante que haja profissionais qualificados para a aplicação desse processo.

Quando a pesquisa de clima é bem realizada, entre os inúmeros benefícios que a empresa pode obter estão: o aumento produtividade, uma maior retenção de talentos, a promoção do crescimento e desenvolvimento dos colaboradores, otimização da comunicação, aumento da satisfação dos clientes internos e externos, e acima de tudo, a qualidade de vida no trabalho.

 

IVAN JACOMASSI JUNIOR – É Administrador. Pós-Graduado em Administração de Empresas pela FGV com extensões em Auditoria, Direito Tributário e Gestão e Direito Público.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 20: 5-8

Alimento diário

MÁXIMAS DIVERSAS

 

V. 5 – Aqui está escrito que a sabedoria de um homem lhe será útil para sondar outras pessoas e mergulhar nelas:

1. Para obter o conhecimento delas. Embora os conselhos e desígnios dos homens sejam tão cuidadosamente es­ condidos por ele, de modo que são corno águas profundas que não podemos compreender, ainda assim há aqueles que, com insinuações furtivas, e perguntas que parecem estranhas, conseguem extrair deles tanto o que fizeram corno o que pretendem fazer. Portanto, os que desejam guardar seus conselhos devem não somente se revestir de determinação, corno manter sua guarda.

2. Para obter o conhecimento por intermédio delas. Alguns são muito capazes e apropriados para dar conselhos, tendo excelente habilidade de ser fiéis, de identificar o ponto crucial de uma dificuldade e de aconselhar de maneira pertinente, mas são modestos, e reservados, e não são expansivos; eles têm muito conhecimento, mas não o divulgam. Neste caso, um homem de inteligência o extrairá, corno o vinho de um recipiente. Nós perdemos o benefício que poderíamos ter pela convivência com homens sábios, por falta de habilidade de ser inquisitivos.

 

V. 6 – Observe:

1. É fácil encontrar os que fingem ser bondosos e caridosos. Muitos homens se dizem homens de misericórdia, se vangloriam do bem que fizeram e do bem que pretendem fazer ou, pelo menos, do afeto que têm por fazer o bem. Muitos homens falam muito sobre a sua caridade, generosidade, hospitalidade e piedade, elogiando a si mesmos, corno os fariseus, e a menor bondade que realizarem, a apregoarão, e falarão dela corno algo grandioso.

2. Mas é difícil encontrar os que são verdadeiramente bondosos e generosos, que fizeram e que ainda farão mais do que mencionaram ou mais do que solucionar aquilo com que se preocuparam, que estejam prontos a ouvir, que serão verdadeiros amigos diante de urna necessidade; urna pessoa que mereça tamanha confiança é como um cisne negro.

 

V. 7 – Aqui se observa, para a honra de um homem bom:

1. Que ele faz o bem para si mesmo. Ele tem determinadas regras, pelas quais, com mão firme, ele se governa: o justo anda na sua sinceridade; ele mantém uma boa consciência, e tem a consolação disto, pois é a sua alegria. Ele não está sujeito a inquietudes, seja por tramar o que fará ou por refletir sobre o que fez, corno os que são propensos a andar na falsidade.

2. Que ele faz o bem à sua família: “Bem-aventurados serão os seus filhos depois dele”, pois serão bem sucedidos, por causa dele. Deus tem misericórdia armazenada para a semente dos fiéis.

 

V. 8 – Aqui temos:

1. O caráter de um bom governante: é um rei, que merece ser assim chamado, aquele que se assenta no trono, não como um trono de honra, para obter tranquilidade, e imponência, e obrigar os homens a manter distância, mas como um trono de juízo, para que possa fazer justiça, fazer compensação aos ofendidos e punir os transgressores, um rei que faz do seu trabalho o seu deleite, e que não tem outro prazer comparável a este, que não transfere o cuidado e as preocupações a outras pessoas, mas que toma pessoalmente conhecimento dos assuntos, e vê com seus próprios olhos tanto quanto é possível (1 Reis 10.9).

2. O feliz resultado de um bom governo. A presença do príncipe expulsa a iniquidade; se ele inspecionar pessoalmente os seus assuntos, os que são subordinados a ele serão reverentes e impedidos de agir mal. Se os nobre s forem homens bons, e usarem o seu poder como podem e devem, quanto bem poderão fazer, e quanto mal poderão impedir!