PSICOLOGIA ANALÍTICA

OS DIFERENTES GRAUS DE AUTISMO

A psicóloga e neuropsicóloga Camilla Mazetto ressalta que o trabalho com distúrbios de aprendizagem, transtornos de comunicação, desenvolvimento cognitivo e socioemocional parte do conhecimento acumulado no campo das neurociências.

Os diferentes graus de autismo

Especializada em avaliações compreensivas para indivíduos com transtornos do espectro autista (TEA) ou com dificuldades de comunicação social e de desenvolvimento global, a psicóloga Camilla Mazetto trabalha com duas metodologias terapêuticas principais: a terapia de troca e de desenvolvimento (TED) e o método Ramain.

Criada para atender as necessidades de crianças pequenas com distúrbios de comunicação e interação, como nos quadros de autismo, a TED é uma abordagem de origem francesa e de natureza neurodesenvolvimental, sendo seus efeitos positivos ratificados por estudos científicos clínicos e de neuroimagem cerebral.

O Ramain segue princípios atuais das neurociências e é indicado para crianças, adolescentes e adultos com distúrbios emocionais, de aprendizagem e desenvolvimento. Tanto o método Ramain quanto a TED são metodologias de ampla fundamentação científica e alinhadas às pesquisas de ponta em neurociências.

Além de psicóloga, Camilla é neuropsicóloga, pós­ doutora em Psicopatologia e Processos de Saúde pela Universidade Sorbonne Paris Cité e doutora em Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP).

Atualmente reside em Nova Iorque, onde realiza seu segundo mestrado pela Universidade de Nova Iorque (NYU).

“Minhas atividades envolvem a avaliação e o atendimento clínico a crianças com suspeitas de transtornos de neurodesenvolvimento, orientação a famílias, supervisão e formação de profissionais. Além disso, sou pesquisadora pela Universidade Sorbonne Paris Cité em parceria com a Universidade de São Pau­ lo. No Brasil, coordeno as atividades de formação e de intervenção clínica na TED, na Cari Psicologia e Educação”, revela.

SUA ESPECIALIDADE É TRATAR CRIANÇAS INDIVIDUALMENTE OU EM GRUPO, COM TRANSTORNOS DE DESENVOLVIMENTO, DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM E INTEGRAÇÃO SOCIAL, O QUE REMETE À INDIVÍDUOS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA). O QUE VOCÊ DIRIA QUE HÁ DE NOVIDADES NO TRATAMENTO DESSAS PESSOAS?

CAMILLA: O tratamento de crianças com TEA e outras dificuldades de desenvolvimento, como as citadas acima, vem se tornando cada vez mais baseado em pesquisas científicas que buscam validar a efetividade das intervenções. Atualmente, o trabalho com distúrbios de aprendizagem, transtornos de comunicação, desenvolvimento cognitivo e socioemocional parte do conhecimento que foi sendo acumulado no campo das neurociências. Compreender como o cérebro se desenvolve para permitir que as crianças aprendam a se comunicar e se relacionar com o ambiente e com as pessoas é essencial para as terapias e tratamentos mais atuais na área. Hoje, conhecemos o conceito de plasticidade neuronal, que é a capacidade que o cérebro tem de se modificar a partir das experiências vividas pelo indivíduo. Dessa forma, as intervenções na área dos transtornos de desenvolvimento buscam influenciar o desenvolvimento do cérebro de modo positivo, para vencer as eventuais dificuldades observadas no comportamento da criança. Também é uma tendência atual buscar intervir o mais cedo possível, já que os estudos recentes descrevem respostas muito positivas quando as crianças iniciam o tratamento em idade precoce. Nos últimos anos temos observado um interesse crescente por abordagens que consideram o ambiente natural da criança, seus interesses e habilidades e que buscam estimular o exercício das funções neuropsicológicas de modo mais espontâneo e menos baseado no treino de habilidades. Pais, educadores e professores também são orientados nessa mesma direção, sendo que o trabalho com uma equipe multi­disciplinar continua a ser relevante para as abordagens mais atuais na área.

VOCÊ TRABALHA COM DUAS MÉTODOLOGIAS TERAPÊUTICAS PRINCIPAIS: A TERAPIA DE TROCA DE DESENVOLVIMENTO (TED) E O MÉTODO RAMAIN. PODE EXPLICAR, EM LINHAS GERAIS, O QUE É A TED?

CAMILLA: A terapia de troca de desenvolvimento, ou thérapie d’échange et developpement (TED) no original em francês, é uma das abordagens pioneiras em considerar o autismo como uma condição decorrente de alterações no desenvolvimento neurofisiológico. A TED considera que as particularidades de comportamento que caracterizam essa condição seriam a consequência de uma “insuficiência na modulação cerebral”. Esse funcionamento alterado do sistema nervoso central produz perturbações maiores, que afetam as funções neuropsicológicas fundamentais, resultando em dificuldades no desenvolvimento global da criança.  A TED foi criada no Departamento de Psiquiatria da Universidade de Tours, na França, há aproximadamente 40 anos, e introduzida no Brasil há mais de 15 anos. Num primeiro momento, ela foi aplicada a crianças portadoras de distúrbios autísticos graves, e depois passou a ser usada também com crianças que apresentavam outros transtornos do desenvolvimento. A TED segue uma perspectiva desenvolvimental e neurofuncional, buscando desenvolver as capacidades de base para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional: comunicar, trocar com o outro, estar atento, imitar, adaptar-se ao ambiente. São essas habilidades que ajudarão a criança a aproveitar plenamente as outras intervenções educativas e terapêuticas coordenadas, que ela pode realizar em seguida. A TED é uma abordagem naturalística por excelência, que considera os processos de “aquisição livre” e de “curiosidade fisiológica” para a aprendizagem e o desenvolvimento. Em outras palavras, a TED apoia-se no prazer compartilhado entre criança e terapeuta para mobilizar as funções de base à comunicação social, sem recompensas ou punições. Uma maneira simples para entender a TED é pensar na terapia como uma “ginástica da interação”, que a criança realiza a intervalos regulares, com um terapeuta disponível e tranquilo, paciente em relação ao seu ritmo de desenvolvimento, mas ativo em suas solicitações e fiel a seu objetivo de ampliar as possibilidades de interação da criança. Pelo exercício constante dessas funções de base, tanto na terapia quanto no ambiente familiar, a criança passa a apresentar comportamentos mais adaptados, além de ampliar suas possibilidades de comunicação. A TED não é uma técnica educativa ou comportamental. Desde sua origem, é uma prática com embasamento científico, apoiada em estudos clínicos e em exames neurofuncionais que avaliam o alcance de sua influência sobre os processos comunicativos e de interação social, na intervenção precoce.

É CORRETO DIZER QUE A PROPOSTA DA TED É AJUDAR A CRIANÇA A EXERCITAR AS FUNÇÕES NEUROPSICOLÓGICAS MAIS FRÁGEIS, PRECOCEMENTE, PERMITINDO A ELA DESENVOLVER AS CAPACIDADES DE BASE PARA O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO E SOCIOEMOCIONAL?

CAMILLA: Sim. Os objetivos da terapia e as funções-alvo são feitas a partir de uma avaliação multidisciplinar com a utilização de instrumentos (escalas e testes) especificamente adaptados para essa população. Atualmente, coordeno a pesquisa para a validação brasileira da Bateria de Avaliação Cognitiva e Socioemocional (BECS), que é uma escala criada na França para investigar os pontos fracos e fortes do desenvolvimento de crianças com TEA. A BECS será publicada em breve no Brasil pela Editora Hogrefe, sendo que nosso estudo está sendo realizado em três regiões brasileiras, com um grupo controle de crianças típicas e outro grupo com crianças dentro do espectro. É uma escala que permite construir os objetivos terapêuticos na TED e pode ser utilizada para acompanhar a evolução da criança na terapia. Ela também é muito útil para orientar os pais.

NA PRÁTICA, COMO ELA FUNCIONA, OU SEJA, O QUE É FEITO EFETIVAMENTE COM O PACIENTE?

CAMILLA: A primeira etapa de uma intervenção em TED é a avaliação neurofuncional e desenvolvimental, realizada por uma equipe multidisciplinar. Em seguida, o projeto terapêutico personalizado é elaborado, sendo sistematicamente reajustado em função da evolução da criança. Diversas sessões de 30 a 45 minutos, aproximadamente, podem ser propostas por semana. O tratamento é potencializado no ambiente familiar e escolar, sendo que pais, cuidadores e professores podem transpor os princípios da terapia para todas as situações de vida da criança. Durante a sessão de TED, a criança é solicitada e acompanhada em diferentes brincadeiras adaptadas a seu nível de desenvolvimento, considerando seus interesses e habilidades. As sessões se passam em uma sala sem objetos ou decorações que possam distrair a criança e as sequências de brincadeiras são apresentadas em um ambiente de tranquilidade, disponibilidade e reciprocidade, evitando qualquer invasão sensorial do meio externo. A única fonte de interesse é o adulto, que solicita claramente a atenção da criança, convidando-a a compartilhar, de maneira estruturada e organizada, as diferentes atividades com ele. O objetivo não é o do desempenho, mas, principalmente, o da participação da criança nas atividades, privilegiando-se o bem-estar e o sucesso. O adulto procura perceber quando a criança começa a se distrair ou se agitar, e a brincadeira pode então ser completada mais rapidamente. Se o terapeuta não pôde antecipar a ruptura, ele retoma a atividade com a criança para ajudá-la a terminar, com um apoio mais intenso. Por outro lado, a mais discreta manifestação de interesse ou tentativa de resposta por parte da criança é encorajada. Quando sobrevêm momentos de agitação, o adulto não expressa seu desacordo, ignora os comportamentos desadaptados e segue a sequência de trocas, continuando a solicitar a criança. Por sua calma e paciência, o terapeuta consegue, assim, facilitar uma comunicação mais adaptada. A ordem de sucessão das atividades ao longo de uma sessão é cuidadosamente organizada em função das reações e comportamentos da criança. Essa ordem pode variar de uma sessão a outra, ou mesmo no interior de uma mesma sessão. Em geral, para evitar os momentos de indisponibilidade da criança, os momentos de maior relaxamento e as atividades mais sustentadas se alternam. Fazer suceder as atividades em uma ordem anteriormente definida, mas variável, tem como objetivo introduzir a cada vez um interesse novo, sem inquietar a criança. As atividades propostas respondem aos objetivos terapêuticos: praticar esse ou aquele domínio funcional anteriormente percebido como frágil. Por exemplo, para melhorar a atenção sustentada, repete-se regularmente, de uma sessão a outra, uma atividade que interesse particularmente a criança, buscando ampliar o tempo de participação e troca. As atividades tornam-se mais e mais complexas de acordo com a evolução da criança, mas quando parecem difíceis ela é ajudada, acompanhada e sustentada. Tudo é feito para evitar o fracasso e o desencorajamento, e para que a participação da criança seja motivada pelo prazer compartilhado em cada nova situação de interação. As atividades são propostas uma a uma. A duração de cada atividade (de poucos minutos) deve ser adaptada continuamente às possibilidades de atenção e de concentração da criança, o objetivo sendo o de aumentar o tempo de atenção sustentada ao longo das sessões.

QUE TIPO DE PROGRESSOS VOCÊ CONSEGUE OBTER COM ESSA METODOLOGIA?

CAMILLA: Diversos estudos realizados tanto no Brasil quanto na França e em outros países que implementaram a TED (tal como Itália, Líbano, Bélgica e Canadá ) sugerem ganhos significativos do ponto de vista desenvolvimental e comportamental, além de evidenciarem mudanças nos processos neurológicos subjacentes: o funcionamento do cérebro de pacientes autistas passa a ser mais parecido com o de indivíduos com desenvolvimento típico em áreas tais como a percepção visual e auditiva. Além disso, as pesquisas e a observação clínica colocam em evidência uma diminuição dos comportamentos desadaptados das crianças em diferentes domínios funcionais: a atenção, a imitação, o contato com o outro e a comunicação, associada a uma clara melhora de suas capacidades cognitivas e socioemocionais. A observação clínica também sugere que crianças que iniciam a terapia precocemente chegam a superar muitas das dificuldades características do autismo, e que esses ganhos se sustentam ao longo do tempo. Há uma ampliação nítida das capacidades de comunicação, interação social e regulação das emoções e do comportamento.

COMO SE DEFINE O MÉTODO RAMAIN?

CAMILLA: O método Ramain é uma intervenção psicoterapêutica, que também pode ser considerada neuropsicológica, que se baseia em uma visão multidimensional do ser humano. Nessa metodologia os fatores intelectuais, sociais, emocionais e motores são trabalhados em conjunto, sendo que o objetivo do método é facilitar o desenvolvimento global da pessoa por meio da estruturação mental. O método foi desenvolvido por Simone Ramain, por volta da década de 1960, na França, sendo hoje impulsionado pela associação internacional que leva seu nome. O Ramain se passa em grupo, em sessões estruturadas que seguem um programa de exercícios especialmente adaptado a cada etapa de desenvolvimento, os chamados dossiers. As atividades envolvem a atenção, a percepção, a compreensão, o raciocínio, a motricidade, a emoção e as relações sociais. Algumas situações ocorrem com materiais especiais a serem manipulados pelo paciente. Outras envolvem atividades ligadas ao cotidiano e à criatividade e outras situações propostas focam a percepção de si por exercícios de movimento corporal. Por essa razão é que muitas vezes o Ramain é considerado um método de psicomotricidade. No entanto, seu objetivo é mais amplo, sendo que o método considera a experiência no aqui e agora como o meio privilegiado para provocar o desenvolvimento global da pessoa. No caso de crianças, jovens e adultos com autismo, o Ramain favorece a adaptação social, a flexibilidade mental, a quebra de automatismos (estereotipias mentais e de comportamento), a ampliação dos interesses e a regulação das emoções. No Ramain, todas as atividades são integradas e ajudam a harmonizar o funcionamento cerebral, o que permite uma expressão melhor das potencialidades da pessoa.

EM QUE SITUAÇÕES É ACONSELHÁVEL USAR O MÉTODO?

CAMILLA: Como o método Ramain é formado por diversas programações de exercícios (dossier) que se adaptam ao nível de desenvolvimento de cada indivíduo, ele pode ser utilizado em diversos contextos e com populações variadas. Pode ser aplicado em escolas, para facilitar os processos de aprendizagem e de desenvolvimento socioemocional, e também no contexto clínico, com o objetivo de ajudar pessoas com dificuldades emocionais, intelectuais e motoras a desenvolverem seu potencial e autonomia. Há experiências com o método Ramain também em contextos organizacionais. No caso específico do TEA existe um dossier especificamente voltado às crianças do espectro, além de outras programações que podem ser utilizadas com jovens e adultos com essa mesma condição.

O RAMAIN SE UTILIZA DE VÁRIOS EXERCÍCIOS PROGRAMADOS, OS QUAIS SÃO UTILIZADOS DENTRO DE UMA LINHA PSICOPEDAGÓGICA PRÓPRIA. QUE TIPOS DE EXERCÍCIOS SÃO ADOTADOS?

CAMILLA:  Em linhas gerais, os exercícios Ramain podem ser divididos em três grandes domínios:   aqueles que favorecem os processos sensoriais e perceptivos, aqueles que envolvem a percepção  de si mesmo pelo movimento corporal e aqueles que envolvem o raciocínio, ou seja, as funções  neuropsicológicas mais superiores, tais como a abstração e as funções executivas (aquelas que   nos permitem tomar decisões, planejar ações e regular nosso comportamento). A variedade de exercícios é grande, e eles tomam significado no contexto criado pelo terapeuta, pelo próprio indivíduo e pelo grupo, sendo que são apenas pretextos para que o sujeito experimente maior compreensão de si e para que os processos de estruturação mental possam ocorrer. No caso de crianças pequenas com distúrbios de desenvolvimento, a estruturação mental ocorre pela integração dos exercícios ao longo das sessões. Por exemplo, em uma determinada sessão um exercício de triagem de frutas pode ser apresentado, no qual as crianças podem explorar critérios como tamanho, forma e textura, frutas que se comem com casca ou sem, ou qualquer outro critério que favoreça a percepção e a flexibilidade mental. Em uma sessão posterior, um exercício de ditado pode ser proposto com fotos de frutas, no qual as crianças irão encontrar imagens iguais às frutas apresentadas e organizá-las sobre a mesa, seguindo critérios de organização previamente definidos. Finalmente, uma ida ao mercado favorecerá uma experiência adaptativa e social, seguida da realização de uma salada de frutas em grupo, na qual a integração de funções comunicativas, intelectuais, motoras e emocionais será trabalhada. Essa é apenas uma das muitas situações propostas, sendo que as atividades e os materiais são muito variados e envolvem também as habilidades de motricidade fina e global, por exemplo.

Os diferentes graus de autismo. 2.

EM QUE O RAMAIN DIFERE DA TED?

CAMILLA: O método Ramain segue uma programação de exercícios estruturados, enquanto na TED as atividades são propostas seguindo objetivos individualizados e os interesses da criança. A TED é voltada para a intervenção precoce, sendo que as brincadeiras são de natureza socioemocional. Já no Ramain, as sessões são bastante variadas, mas os exercícios apresentados seguem uma programação previamente estabelecida, que garante a integração das funções neuropsicológicas. O Ramain pode ser utilizado com crianças, adolescentes e adultos, com ou sem distúrbios, dado que as diversas programações se adaptam ao nível de desenvolvimento da pessoa.

AMBOS PODEM SER UTILIZADOS POR QUAISQUER PESSOAS QUE TENHIAM OS PROBLEMAS JÁ MENCIONADOS?

CAMILLA: Sim. A avaliação inicial irá ajudar a determinar qual intervenção é a mais indicada, considerando o nível de desenvolvimento da criança. No entanto, ambas só podem ser realizadas por profissionais certificados. A certificação é garantida pelas instituições brasileiras e internacionais responsáveis pela difusão dos métodos: Cari Psicologia e Educação (São Paulo), Instituto Simonne Ramain (Paris), Université François Rabelais (Tonrs).

EXISTE ALGUM LIMITE DE IDADE PARA A APLICAÇÃO DE AMBOS OS MÉTODOS E A PARTIR DE QUE IDADE PODEM SER USADOS?

CAMILLA: A TED é utilizada principalmente com crianças pequenas a fim de intervir no momento em que a plasticidade cerebral é mais importante. Ela é uma intervenção precoce, adequada a crianças a partir de um ano e meio. Apesar disso, não há um limite de idade estabelecido para a TED, dado que seus princípios gerais podem ser transpostos a diversos contextos e podem ser adaptados a idades mais avançadas, quando necessário. O método Ramain é indicado para crianças com idade de desenvolvimento a partir de 4 anos, podendo ser utilizado ao longo da vida.

OS MÉTODOS PODEM SER USADOS NOS DIFERENTES GRAUS DE AUTISMO?

CAMILLA: Sim. Ambos os métodos podem ser utilizados nos diferentes graus de autismo, sendo que o programa terapêutico individualizado é determinado após uma avaliação multidisciplinar e discussões em equipe.

OS DOIS MÉTODOS PODEM SER APLICADOS EM PACIENTES COM OUTRAS PATOL0GIAS QUE NÃO ESSAS DESCRITAS ACIMA, NO ASPERGER, POR EXEMPLO?

CAMILLA: Sim. Por se basearem em uma perspectiva desenvolvimental e também neurofuncional, ambas as metodologias podem ser utilizadas no trabalho com diversos distúrbios. A TED é geralmente indicada a crianças pequenas com suspeita de atrasos de desenvolvimento e de comunicação, dificuldades de interação social e de regulação emocional, além dos TEA. Já o Ramain pode ser utilizado com crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem, distúrbios de ansiedade ou depressão, alterações de pensamento e disfunções executivas, entre outros.

EM QUE MEDIDA AS FAMÍLIAS E O AMBIENTE ESCOLAR COLABORAM COM O ÊXITO DO TRATAMENTO NESSAS DUAS FRENTES?

CAMILLA: A família e a escola são essenciais para determinar o êxito das intervenções. Em qualquer abordagem psicoterapêutica, os aspectos psicossociais devem ser contemplados, de modo a potencializar a evolução da criança e seu desenvolvimento. Nesse sentido, tanto a TED quanto o Ramain devem ser acompanhados de sessões de orientação sistemática aos pais e à escola.

A APLICAÇÃ0 DAS METODOLOGIAS AJUDA A CRIANÇA EM SEU DESENVOLVIMENTO ESCOLAR?

CAMILLA: Por focar a integração neurofuncional, ambas as metodologias favorecem a integração escolar. No caso de crianças pequenas em TED, a ampliação das possibilidades de comunicação, regulação emocional e atenção compartilhada favorecem a adaptação social e as aprendizagens na escola. Do mesmo modo, o método Ramain ajuda a criar as condições necessárias para o desenvolvimento escolar pela integração dos aspectos afetivos, intelectuais, motores e sociais. O Ramain coloca ênfase na autonomia pessoal e no desenvolvimento das habilidades de flexibilidade e espontaneidade que permitirão à pessoa se colocar de modo mais adaptado nos diversos contextos de sua vida.

APESAR DE SEREM OBJETO DE ESTUDOS CIENTÍFICOS NACIONAIS E INTERNACIONAIS, POR QUE ESSAS METODOLOGIAS AINDA SÃO POUCO CONHECIDAS PEL0 PÚBLICO EM GERAL?

CAMILLA: Acredito que a difusão desses métodos no Brasil é dificultada por diversos fatores. Em primeiro lugar, observamos uma tendência muito forte em seguir propostas desenvolvidas nos Estados Unidos, que se anunciam como as únicas intervenções com eficácia comprovada. No entanto, há pouca atenção a outras abordagens que também se baseiam em evidências científicas, tais como a TED e o Ramain, cuja difusão científica foi feita em grande parte em língua francesa. Além disso, o ensino dessas metodologias é garantido pelas associações internacionais que regulam sua prática, e não estão presentes ainda de modo sistemático nas universidades brasileiras.

 

OUTROS OLHARES

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Quando esbarrar com uma criança agitando-se freneticamente sem música, saiba que está diante de uma das dancinhas do Fortnite, o jogo que virou febre entre a garotada

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Durante um mês inteiro, o pequeno Gael, de 6 anos, repetiu diariamente uma dancinha esquisita: com os bracinhos esticados, lançava os quadris de um lado para o outro cada vez mais rápido, e ai de quem estivesse no caminho. Questionado pelo pai, o fotógrafo Gabriel Esteves, Gael explicou que a coreografia, reproduzida por todos os colegas no recreio da escola, vinha de um game que ele jamais jogou, por ser dirigido a meninos mais velhos. Fortnite, nome do tal game, não tem nada a ver com dança: é um jogo de estratégia no qual até 100 participantes on-line, por meio de seus avatares, batalham pela sobrevivência atirando sem parar em uma ilha deserta. Mesmo sendo gratuito, já rendeu à desenvolvedora Epic Games mais de 2,5 bilhões de dólares com a venda de acessórios virtuais para os personagens. Faz-se dinheiro também com as dancinhas – pôr um avatar para dançar custa de 5 a 10 dólares. A dança é usada, nos smartphones e computadores, para comemorar vitórias e provocar adversários, já que o jogo não permite diálogo entre oponentes. Aos poucos, as coreografias foram se descolando das telas e viraram febre entre a meninada de carne e osso.

O fenômeno Fortnite chegou a tal proporção que a Netflix, ao divulgar o balanço semestral na quinta 17, admitiu que sua maior concorrência deixou de ser empresas que oferecem streaming – o inimigo, agora, são os games. “Nós competimos mais com Fortnite (e perdemos) do que com a HBO”, diz o relatório. A receita bilionária do jogo fez florescer também um curioso e ruidoso mercado de processos pelos direitos autorais sobre as coreografias – sim, sobre as coreografias! Algumas delas – são 81 até agora – de fato replicam danças que a internet viralizou. Floss, a preferida de Gael, ganhou o mundo depois que seu autor, Russel Horning, de 17 anos, foi convidado a se apresentar no programa Saturday Night Live. Outro sucesso espetacular, a movimentada Orange Justice foi criada por um garoto que enviou seu vídeo para um concurso de dança promovido pela própria Epic Games, dona do Fortnite. O dançarino que rebola sem mostrar o rosto, conhecido como orange shirt kid (garoto da camiseta laranja), não ganhou o prêmio, mas o furor causado levou a empresa a incluir a dança no jogo.

As mães dos dois meninos americanos entraram na guerra dos direitos autorais sem chance de vencer. Segundo o advogado carioca Sylvio Guerra, especialista no assunto, a autoria de uma dança só é protegida por lei quando existe uma descrição por escrito de seus movimentos, registrada em cartório. “Se tiver providenciado essa, digamos, partitura coreográfica, o criador terá de ser remunerado”, explica Guerra. Quem também tenta tirar uma casquinha dos lucros bilionários da Epic Games é o ator americano Alfonso Ribeiro, autoproclamado “dono” de uma coreografia exibida por seu personagem, Carlton, na série Um Maluco no Pedaço. Ela virou a dancinha Fresh, entre as mais pedidas do Fortnite.

Não é incomum que referências do universo dos games extrapolem para o mundo real e caiam nas graças de quem nunca pegou em um controle. Em um movimento recente nesse sentido, no jogo contra o México na Copa do Mundo de 2018, Neymar intrigou as redes ao liderar uma comemoração de gol interpretada a princípio como imitação do choro do personagem Quico, da série Chaves. O braço no rosto tinha, na verdade, ligação com o movimento dos avatares do popularíssimo jogo Counter Strike, do qual Neymar é fã, diante da explosão de uma granada. Considerando-se que o Brasil abriga uma população de mais de 62 milhões de gamers, muita modinha nova ainda há de vir por aí. É um fenômeno de nosso tempo, que mistura negócios e diversão – e, de vez em quando, alguns processos judiciais.

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GESTÃO E CARREIRA

CRITÉRIOS SOCIAIS RELEVANTES

Efetividade organizacional é um tema em alta. As empresas que evidenciam a preocupação com seu ambiente alcançam resultados financeiros e pessoais.

Critérios sociais relevantes

Em décadas passadas, as definições de efetividade organizacional discutiam o grau em que uma organização conseguia realizar suas metas, pois este era um dos critérios de efetividade organizacional mais amplamente utilizados pelos pesquisadores. Uma organização era considerada como efetiva conforme realizasse seus objetivos propostos, nessa visão conhecida como “abordagem dos objetivos.” Essa concepção, no entanto, foi criticada por ser considerada vaga e até contraditória, uma vez que os objetivos podem divergir entre os diferentes constituintes da organização, que percebem e reagem de formas diferentes em seu jeito de atuar, planejar e compreender as diversas situações.

Com as mudanças que se seguiram na Psicologia Social, o enfoque da efetividade organizacional se voltou para a interação da organização com seu ambiente, ou seja, entendendo que fazemos parte de diferentes sistemas e o sucesso depende da habilidade da organização lidar com os recursos do ambiente e com as pessoas que vão compor importante capital na empresa. Dessa forma, com a emergência da teoria dos sistemas, as organizações passaram a ser entendidas como sistemas abertos e os constructos de efetividade e meio ambiente foram interligados; quer dizer, uma organização efetiva deve conciliar o ambiente externo e o desempenho interno organizacional, com a ênfase centrada na capacidade de adaptação da organização diante de um contexto de profundas e permanentes modificações.

Acreditamos que a orientação socio­ técnica não pode ser esquecida, dando viabilidade econômica e social ao sistema organizacional. As crenças dos empregados quanto à capacidade da organização alcançar os objetivos, em termos da quantidade e da qualidade propostas, representam o desafio que cada colaborador terá que enfrentar e se refletem em como ele avalia o seu papel nesse sistema, considerando a capacidade de planejamento humano e estratégico da organização. Existe um lado interno do sistema que se preocupa com a dimensão de adaptação e posicionamento de recursos para que o trabalho possa fluir e depende de investimentos na qualificação dos empregados, ofertas de treinamentos, participação dos empregados nas decisões que os afetam e o cuidado de não dar espaço ao estresse negativo, que só promove desentendimentos e um clima pouco produtivo.

Manter a qualidade do ambiente interno na empresa é essencial para a satisfação dos colaboradores. O clima organizacional pode ser definido como o conjunto de percepções compartilhadas entre os colaboradores sobre os diferentes aspectos do ambiente interno de uma empresa, influenciando diretamente na atuação e desempenho desses na organização.

A percepção sobre o clima é assim formada com base na interação entre características pessoais e organizacionais, sendo constituída por valores situacionais específicos relacionados aos aspectos da organização que são mais significativos para os sujeitos. O clima organizacional pode ser visto como uma avaliação sumária de eventos baseados na interação entre eventos reais e a percepção destes.

Nos tempos de hoje, pessoas e organizações precisam se preparar para um mundo mutante, complexo, incerto. Se antes o crescimento profissional dependia de entidades organizacionais, que promoviam a segurança de uma carreira pelo tempo dedicado a ela, agora o sucesso profissional depende de competência pessoal, porque as regras se alteram e seguir fazendo o mesmo de sempre é oposto ao crescimento. O novo modo de crescer psicossocialmente depende de você mesmo: ninguém pode fazer acontecer o seu projeto pessoal, e se ele está ligado ao trabalho que você desempenha, ao crescer seu ambiente se desenvolve também e a efetividade no trabalho acontece. Você, e mais ninguém, é responsável pelo seu sucesso, pela sua capacitação para realizar seus sonhos de vida profissional. Por outro lado, o papel do gestor em apoiar o desenvolvimento de talentos e a fixação deles na organização é um desafio importante.

Quando se trabalha como equipe, dispostos a aprender a cada momento com as experiências que surgem, os ganhos são extraordinários. Com base no aprendizado na prática, junto àqueles que se debruçam sobre os mesmos interesses, podem-se vivenciar novas percepções e criar novos significados. Hoje, não é possível crescimento sem atitude dinâmica: repetir apenas o que dava certo não é suficiente, porque a “fila anda” e o ser humano se supera e isso não é uma exceção, é um movimento constante, diante das inúmeras possibilidades que se tem através da globalização, de recursos tecnológicos, mas que jamais irão superar a capacidade humana de dar continuidade a esses recursos.

 

LUÍZA ELENA L. RIBEIRO DO VALLE – é psicóloga, doutora em Ciência no Departamento de Psicologia Social (USP/SP.) Mestre em Psicologia Escolar e Educacional (PUC-Campinas). MBA Executivo em Psicologia Organizacional (AVM Brasília), extensão em Gestão de Pessoas (FGV). Formação em Coaching (Lambert), especialização em Psicologia Clínica (CFPJ na linha Cognitivo-Comportamental, consultora em Psicopedagogia, autora de livros.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 19: 5–7

Alimento diário

AS DESVANTAGENS DA POBREZA

 

V. 5 – Aqui temos:

1. Os pecados ameaçados – dar falso testemunho em juízo e mentir na conversação normal. Os homens não poderiam chegar a tal nível de impiedade a ponto de dar falso testemunho (quando a culpa por uma mentira é adicionada à de perjúrio e ofensa), se não tivessem se permitido falar falsidades, sob a forma de brincadeira e zombaria, ou sob o pretexto de fazer o bem. Assim os homens ensinam a sua língua a falar a mentira (Jeremias 9.5). Aqueles que se atreverão a mentir devem ser considerados, com razão, culpados da maior iniquidade que é o falso testemunho, sempre que forem tentados a isto, ainda que pareçam detestá-lo. Os que podem engolir uma palavra falsa fraudam suas consciências, de modo que um juramento falso não os fará engasgar.

2. A ameaça, propriamente dita: eles não ficarão impunes; eles não escaparão. Isto indica que aquilo que lhes dá a ousadia no pecado é a esperança da impunidade, sendo um pecado que comumente escapa à punição dos homens, ainda que a lei seja rígida (Deuteronômio 19.18,19). Mas não escapará à justa justiça de Deus, que é zeloso e não permitirá que o seu nome seja profanado; nós sabemos onde todos os mentirosos terão a sua sorte eterna.

 

V. 6 e 7 – Estes dois versículos são um comentário sobre o versículo 4, e mostram:

1. Como os que são ricos e nobres são cortejados e adulados, e têm servos em abundância. O príncipe que tem poder em sua mão, e primazias à sua disposição, tem sua porta e sua antecâmara cheia de suplicantes, que estão prontos a venerá-lo pelo que podem conseguir. Muitos suplicarão o seu favor; e se considerarão felizes com isto. Mesmo os nobres são humildes suplicantes perante o príncipe. Quão ansiosos, então, devemos ser pela benevolência de Deus, que é muito superior à de qualquer príncipe terreno. Mas, aparentemente, a liberalidade irá além da própria majestade, para conquistar respeito, pois há muitos que cortejam o príncipe, mas cada homem é amigo daquele que dá presentes; não somente aqueles que receberam ou que esperam presentes dele estarão como amigos, prontos a servi-lo, como os outros também, como amigos, o recomendarão. Os esbanjadores, que são tolamente desprendidos do que possuem, terão muitos parasitas que os elogiarão, enquanto seus bens durarem, mas os deixarão depois que tiverem gastado tudo. Os que são prudentemente generosos têm interesse pelo que lhes pode ser útil; os que são considerados benfeitores exercem urna autoridade que poderá lhes dar urna oportunidade de fazer o bem (Lucas 22.25).

2. Como os que são pobres e humildes são desprezados. Os homens podem, se quiserem, cortejar o príncipe e os nobres, mas não podem pisar sobre os pobres e olhá-los com desdém. Mas isto frequentemente acontece: todos os irmãos do pobre o aborrecem; até mesmo seus próprios parentes o evitam, porque ele passa necessidade e espera alguma coisa deles, e porque eles o consideram como uma mancha para a sua família; e então, não é de admirar que outros dos seus amigos, que não são seus parentes, se afastam dele, saem do seu caminho. O pobre os busca com palavras, esperando, com o seu importunismo, levá-los a tratá-lo com bondade, mas tudo em vão; nada têm para ele. Eles o buscam com palavras (assim alguns interpretam), para se desculparem por não lhe darem alguma coisa; eles lhe dizem que ele é ocioso e impertinente, que ele se levou à pobreza, e por isto não deve ser aliviado; como Nabal disse aos mensageiros de Davi: “Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Muitos servos há hoje, e cada um foge a seu senhor”. Que os pobres, portanto, façam de Deus seu amigo, que o busquem com suas orações, e Ele não lhes deixará desprovidos.