PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUANDO O ASSÉDIO É MORAL

A prática da violência psicológica no ambiente laboral sujeita a pessoa a muitas situações que podem causar ou potencializar vários distúrbios emocionais.

Quando o assédio é moral

O trabalho, do ponto de vista emocional, é um ato organizador, tanto que a falta de vontade de trabalhar pode ser entendida como ausência de vivacidade, ou seja, aponta para algo que não vai bem no campo emocional do sujeito. O ato de trabalhar expõe o indivíduo a certas tarefas que o mantêm em uma atividade de rotina e em contato com os demais. Ao mesmo tempo que se estabelece mais ou menos relação social, dependendo do tipo de trabalho que exerce, também coloca a pessoa em trabalho contínuo consigo próprio, por meio da intimidade com seus potenciais, e põe a mente em funcionamento, saindo da inércia; e isso é muito positivo.

A capacidade de trabalhar é vista como algo que retira o sujeito do princípio de prazer e o expõe ao princípio de realidade. O próprio trabalho é a realidade, que o vincula à necessidade de manutenção e provimento da própria existência, tanto na esfera financeira quanto no contexto social. Há uma necessidade de adequar as pulsões sexuais e agressivas   que precisam conviver com as regras e normas estabelecidas no ambiente laboral. E justamente por esse contexto, a capacidade de trabalho pode ser considerada como um aspecto importante para a manutenção do equilíbrio da economia psíquica.

Mas como fica para uma pessoa que precisa se confrontar diariamente com um ambiente hostil no qual sua capacidade é fortemente atacada?

Desde que surgiram as primeiras relações de trabalho já podia ser observado o assédio. Mas foi devido às amplas mudanças no ambiente organizacional, com o avanço tecnológico no mundo, e à possibilidade de se poder falar a respeito é que esse assunto passou a ser amplamente discutido. As pessoas ganharam voz e com isso também a coragem para falar sobre o tema.

Embora as relações perversas sempre tenham existido, tanto no ambiente de trabalho quanto no ambiente familiar, atualmente tem havido espaço para se discutir sobre o sofrimento ao qual uma pessoa pode ser submetida, ferindo sua autoestima e sua capacidade de se relacionar consigo própria e com os outros. O rendimento tende a baixar e o sujeito pode até mesmo ficar debilitado, fazendo com que a situação ataque friamente sua saúde mental.

Quando uma pessoa ultrapassa a barreira da dignidade do outro diante de sua existência sendo insistente e inconveniente, estamos falando de assédio. Observa-se que atitudes como essa em que se expõe o outro a situações constrangedoras durante o exercício de seu trabalho, frequentemente, ocorrem em relações em que há subordinação hierárquica. Isto é, quando pessoas que exercem funções de liderança abusam da autoridade interferindo psicologicamente de forma negativa nos liderados, uma maneira clara de terror psicológico e violência psíquica.

A prática de assédio moral patrocinado pela opressão impõe ao sujeito uma série de perigos, uma vez que pode causar ou potencializar vários distúrbios emocionais e até mesmo psiquiátricos, entre eles a depressão e/ou o transtorno de ansiedade, porque destrói a capacidade de trabalho e a resistência psicológica das vítimas.

Pode parecer simples, mas não é à toa que se observa que pessoas envolvidas em tramas emocionais em seus trabalhos acrescidas da pressão constante por metas e, adicionado a isso, o assédio, podem ser submetidas a um grau de sofrimento elevado que pode levar ao suicídio. É bem verdade que a forma como cada um consegue lidar, suportar e conviver com situações emocionais intensas e muito particular, avaliando a relação com os próprios mecanismos de defesa.

O que se observa é que os assediados são pessoas que estão mais disponíveis às mudanças, mais abertas às críticas e particularmente mais democráticas. Curiosamente são mais empáticas, éticas e com capacidade de liderança informal. Pode parecer estranho, mas os agressores ficam intimidados com esse tipo de personalidade porque em seu caráter são desprovidos de características empáticas e, justamente, se sentem ameaçados por essas características, já que não as tem e querem destruí-las, retirando assim de seu radar a ameaça que isso lhes causa.

Quanto mais o ambiente de trabalho for desorganizado e mal estruturado, mais propenso à atuação de um líder perverso, basta encontrar uma brecha e ele ampliará sua necessidade de realização pelo desejo de poder. As técnicas são sempre as mesmas, perceber quais são os medos e aproveitar as fraquezas do outro. O assediado pode chegar ao ponto de se sentir tão confuso que poderá ainda dar razão ao agressor, isso é muito comum. Seu papel é minar as características positivas do sujeito e aniquilá-lo emocionalmente.

Embora o assunto seja antigo, ainda existe escassa bibliografia a esse respeito. O papel do psicólogo sempre será o de combater qualquer ato de violência psicológica; e uma empresa bem estruturada poderá se utilizar de um psicólogo organizacional que tenha sido treinado para que situações como essas sejam detectadas e banidas, com o intuito de preservar o bem-estar dos funcionários e a saúde organizacional. Entretanto, uma vez que uma denúncia sai da esfera organizacional e passa para a esfera jurídica, o psicólogo jurídico ou forense, por ser atuante no campo do Direito, terá maiores condições de atuar como assistente técnico da parte em casos em que se observa maior necessidade de entendimento sobre a dinâmica da personalidade humana; em casos em que se observa a necessidade de perícia psicológica ou do conhecimento técnico do profissional da Psicologia para assessoria.

O assédio moral costuma ser sutil, e esses pontos mais obscuros o psicólogo, através dos estudos e de sua experiência, possui maior habilidade para detectar, elaborar quesitos e avaliar delineando no processo jurídico aspectos antes não observados.

 

RENATA BENTO – é psicóloga e psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada à IPA – lnternational Psychoanalytical Association, à Fepal – Federación Psicoanalítica de América Latina e à Febrapsi – Federação Brasileira de Psicanálise.

Contato: renatabento.psi@gmail.com

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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