GESTÃO E CARREIRA

A ARMADILHA DO BOM QUEIJO

O comportamento perigoso da acomodação, pela sensação de conforto e estabilidade, pode limitar em muito a real produção que um profissional poderia ter em sua carreira.

A armadilha do bom queijo

Pessoas simplesmente param de buscar crescimento porque, por comparação, se encontram em melhor posição que seus pares. O olhar, no entorno, vicia como uma armadilha invisível, criando uma ilusão de faixa de chegada: “Cheguei ao máximo de minha carreira!”. Essa frase finalista pode estagnar uma vida que poderia contribuir mais com a empresa, família, sociedade e (obviamente) consigo mesmo.

Sabemos, pela programação neurolinguística e os informes dos neurocientistas, que o cérebro adora novidades, mas detesta mudanças. Vivemos buscando padrões para explicar tudo o que nossos sentidos podem captar. Por isso é difícil dormir com uma torneira pingando: não há padrão perfeito entre uma gota e outra, o que gera um ruído sem cadência rítmica. O cérebro não gosta muito de coisas sem um padrão previsível.

Assim, sempre que for possível detectar uma relação confortável entre produção e rendimento (retorno financeiro), com certa estabilidade previsível, é possível ocorrer uma paralisação pela busca de crescimento profissional. Esse perfil é muito comum em servidores públicos de uma forma geral, mas também existe em bom tamanho em todos os perfis de atuação dos seres humanos, desde os pequenos comerciantes aos renomados profissionais liberais.

A justificativa mais encontrada, quando se questiona o indivíduo sobre sua escolha em deter o próprio desenvolvimento profissional, é que ele – responde-se prontamente – não é ganancioso, ou que não vive apenas em busca de retorno financeiro. A frase campeã é: “Prefiro qualidade de vida a uma vida só de trabalho!”.

Não há nada de errado nisso e são boas falas, na verdade, o problema é que podem não corresponder à plena verdade dos resultados que poderiam ser alcançados caso existisse a motivação certa.

Durante o lançamento de uma campanha para a aquisição de casa própria no Estado do Rio de Janeiro pelo valor de R$ 1,00 (isso mesmo: um único e mísero real por uma casa popular), um grupo de amigos psicólogos trabalhava na captação de possíveis futuros moradores. O perfil procurado eram moradores de rua, pessoas que viviam em condições sub-humanas e moradores de comunidades carentes. Um dia encontraram uma família que residia sob uma ponte em um valão fora do perímetro urbano, e não havia argumentação suficiente que convencesse a família a deixar a arriscada condição de vida. Em dado momento, o chefe da família argumentou que isso iria gerar despesas que eles não tinham até o momento, como: IPTU, conta de água, de luz e até mesmo gás. O psicólogo, então, como última forma de convencimento, disse: “Mas aqui, de vez em quando, ocorrem cheias, e a água chega a cobrir até mesmo a pista sobre a ponte”. O senhor fechou o semblante, abaixou a cabeça e terminou a conversa com o seguinte argumento: “É só uma vez por ano!”.

Nós, seres humanos, estamos muito bem preparados para defender as crenças que temos como verdade pessoal. Por isso temos guerras. Como, então, uma empresa deve agir em seu corpo laboral a fim de estar sempre motivando o crescimento de seus colaboradores?

Os treinamentos são bem-vindos sempre. No entanto, quando o foco é provocar a busca pelo crescimento, deve-se ter o cuidado de saber direcionar o resultado para a própria instituição, quando for o caso de uma empresa, ou para o amplo mercado quando o foco forem os profissionais liberais.

Pode ser que sua empresa não lhe ofereça essa oportunidade, e a única forma de estar nela é ficando justamente no seu lugar, mantendo essa conhecida segurança. Caso surjam o desconforto e a necessidade de escalar novos degraus, o jeito é deixar de fazer parte da instituição. Por isso, eventos motivacionais dentro das instituições devem ofertar quais possibilidades estão disponíveis em seu próprio ambiente. Caso contrário, o risco de perder elementos será inevitável.

Outro exemplo de como isso pode ser danoso: quando uma grande empresa pública foi privatizada no Rio de Janeiro, na década de 1980, um grupo de recrutadores visitou todas as unidades pelo interior do estado fazendo a seguinte pergunta aos antigos funcionários: “Há quanto tempo o senhor está nessa função?”. A linha de corte foi os que estavam estacionados há mais de dez anos. Não interessava à nova administração pessoas sem ambição. Para ela, isso era um forte indicativo de falta de proatividade.

Uma avaliação pessoal deve ter uma agenda recorrente. Em nossa cultura é normal essa checagem ocorrer no final ou começo de um novo ano ou nos aniversários natalícios. Muitos planos, várias metas e uma curta memoria para mudança. Basta lembrar dessa frase que elaborei em um de nossos livros: “A única constante na vida é a mudança constante na vida”. Se prepare para crescer mais um pouco ainda hoje!

A armadilha do bom queijo. 2

JOEL DE OLIVEIRA – é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam, Tenha as Soluções; Jogos para Gestão de Pessoas; Maratona para o Desenvolvimento Organizacional; Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida e Saiba Quem Está à sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.