PSICOLOGIA ANALÍTICA

LUGAR DE CRIANÇA É EM FAMÍLIA

A separação crônica da mãe deixa várias marcas no cérebro, modificações que levam a problemas cognitivos, ansiedade crônica e hiper-reatividade a estresses na vida adulta.

Lugar de criança é em família

Mãe é aquela pessoa de quem a gente espera sempre o melhor: colo, carinho, conforto, segurança. O que fazer, então, com uma criança ativamente maltratada pela mãe, ou sem mãe, pai ou família para abrigá-la? Transferir seu cuidado a instituições tem sido a norma – mas o que o cérebro da criança precisa para se desenvolver normalmente é de uma família, ainda que não a sua.

Um estudo recente comparou crianças romenas de 8 anos de idade, institucionalizadas quando tinham entre 6 e 31 meses de idade e adotadas ou não aos 2 anos, com outras crianças também romenas nunca institucionalizadas. Se a adoção pareceu rápida o suficiente…em termos de desenvolvimento cerebral, pouco pareceu importar. O estudo mostrou um volume da substância cinzenta cortical, onde ficam os corpos dos neurônios, cerca de 10% menor nas crianças que foram institucionalizadas no começo da vida, não importa se depois adotadas ou não, em comparação com crianças criadas por suas próprias famílias desde o começo.

Uma redução semelhante acontece na substância branca cortical das crianças institucionalizadas – aquele conjunto de feixes que interligam zonas diferentes do córtex e fazem o cérebro funcionar como um todo integrado. O amadurecimento funcional do córtex cerebral, portanto, fica para trás nas crianças institucionalizadas, mesmo que adotadas. Somem-se a isso outras evidências, como a taxa elevada de transtornos de ansiedade na vida adulta, e constata-se que a institucionalização deve ser apenas um último recurso.

Os resultados do estudo, contudo, dão margem a uma interpretação errada: de que adotar também não adianta. Adianta, sim – e a mensagem é justamente que crianças órfãs ou abandonadas precisam ser adotadas imediatamente, mesmo que por famílias temporárias, de preferência uma que saberá lhes dar carinho e atenção. A evidência mais impactante vem de… bebês ratos, que são facilmente “institucionalizáveis” em laboratório, recebendo contato com ratas-mães apenas para se alimentarem – ou sendo entregues aos cuidados de ratas­ mães adotivas.

A diferença entre o cuidado apenas burocrático e a adoção por uma mãe carinhosa ou, ao contrário, por uma mãe ausente, é evidente até mesmo com os ratos. A separação crônica da mãe deixa várias marcas no cérebro, modificações que levam a problemas cognitivos, ansiedade crônica e hiper-reatividade a estresses na vida adulta. Mães adotivas tão pouco presentes e atenciosas quanto uma cuidadora institucional ajudam um pouco, mas não muito (embora, para o cérebro, qualquer mãe seja melhor do que nenhuma mãe- mas isso é outro assunto).

Em comparação, ser criado por uma mãe-rata adotiva carinhosa, que vive recolhendo sua cria para deitar em cima dela e lamber seus filhotes, é tudo de bom para esses bichinhos e seus cérebros. E mais: ratinhas criadas por mães carinhosas, adotivas ou não, mesmo se filhas biológicas de mães que as desprezaram, se tornam adultas com bem menos problemas de ansiedade – e, quando chega sua vez, mães também carinhosas. Dar carinho ao seu filhote adotado, portanto, é investir desde já no bem-estar dos seus netos.

Por fim, pais, não se sintam excluídos. Estudos com ratos são necessariamente feitos com as mães porque os ratos pais… não dão a mínima para os filhotes. Mas vocês, homens, são diferentes: podem escolher fazer a diferença para seus filhos, biológicos ou adotivos, dando-lhes muito carinho e atenção…

 

SUZANA HERCULANO-HOVZEL – é neurocientista, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autora do livro Pílulas de neurociência para uma vida melhor (Sextante, 2009).

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OUTROS OLHARES

“É APENAS O COMEÇO”

Depois do decreto das armas, que terá impacto irrisório no nível alarmante de violência no país, Bolsonaro anuncia que o próximo passo é permitir o porte.

É apenas o começo

Jair Bolsonaro estava exultante na terça-feira 15/01, quando se dirigiu ao púlpito montado no 2º andar do Palácio do Planalto. O microfone falhou três vezes até que ele conseguisse pronunciar a frase de efeito que ensaiara. “Para lhes garantir o legítimo direito à defesa, eu, como presidente, vou usar esta arma aqui”, disse, sacando uma caneta Bic do bolso, com a qual assinou o decreto que facilita a posse de armas no Brasil. Pouco depois, numa evidência de que a operação de marketing estava previamente montada, o Palácio do Planalto divulgou um vídeo promocional que mostrava a caneta como a arma que deu aos “cidadãos de bem” o direito que lhes era sonegado.

A expectativa de aplausos pelo primeiro passo no cumprimento de um ponto programático da campanha de Bolsonaro, no entanto, não se realizou. O presidente foi criticado pelos que se opõem à liberação de armas, o que era previsível – mas também pelos próprios armamentistas, que consideraram o decreto suave demais. As alterações que a prosaica caneta do presidente fez em um decreto anterior, de 2004, são substantivas: na prática, a liberação da posse àqueles que vivem em estados com taxa de homicídios superior a 10 para cada 100.000 habitantes incluiu todo mundo, os 26 estados e o Distrito Federal. A licença ainda é um processo burocrático demorado – e muito caro. Este, porém, pode ser apenas o começo. O governo espera que seus aliados no Congresso levem a pauta armamentista adiante – e no horizonte está o direito não só à posse (ter uma arma em casa), mas ao porte (carregá-la na rua).

Uma pesquisa do Datafolha feita em 18 e 19 de dezembro mostrou que, mesmo entre os eleitores de Bolsonaro, só uma minoria de 31% é a favor da flexibilização das regras para a posse de arma. Mas é uma pauta que agrada aos seguidores mais aguerridos do presidente, aqueles que estão sempre eletrizados nas redes sociais. “Esse é apenas o primeiro passo”, anunciou o presidente no Twitter, para acalmar os que julgaram o decreto excessivamente tímido. Os passos seguintes serão dados no Legislativo. Parlamentares da chamada “bancada da bala” preparam um pacote de medidas que prevê direito ao porte, redução de tributos sobre armamentos e munições, anistia a donos de armas sem registro, diminuição da idade mínima de compradores de armas de 25 para 21 anos e abertura do mercado para empresas estrangeiras. Rogério Peninha Mendonça (MDB-SC), aliado do presidente, é o autor do projeto de lei que prevê a revogação do Estatuto do Desarmamento. O texto já foi aprovado em todas as comissões da Câmara e só precisa da boa vontade do presidente da Casa para entrar em votação. Rodrigo Maia (DEM-RJ), se reeleito para o cargo com o apoio do PSL, sabe que sofrerá pressões para resolver a questão. “No passado, nós penávamos para fatiar os projetos e tentar pelo menos aprovar o porte rural – e nem isso foi possível. Agora, o cenário mudou. Vamos fazer cabelo, barba e bigode”, celebra o líder da Frente Parlamentar de Segurança, Capitão Augusto (PR-SP).

Para ser aprovado, o projeto de lei precisa de maioria simples – metade mais um do plenário da Câmara e do Senado. Nos cálculos da consultoria Arko Advice, a base de apoio de Bolsonaro, formada basicamente pela bancada BBB (da bala, do boi e da Bíblia), conta com cerca de 250 parlamentares. Mas a tarefa não será tão simples. Primeiro, porque a prioridade máxima do governo é a reforma da Previdência, que deve render desgaste. Segundo, porque a opinião pública não é majoritariamente favorável. Terceiro, porque o porte não é consenso nem entre os aliados –   parte da bancada evangélica é contra e o ministro da Justiça, Sergio Moro, já disse que não há “nenhum movimento” em sua pasta nesse sentido. “Uma coisa é falar de posse, que está restrita à casa. Outra coisa é o porte, que atinge o coletivo e invade a liberdade dos outros”, diz Ilona Szabó, diretora do Instituto Igarapé, entidade que analisa a segurança pública, sediada no Rio de Janeiro.

Especialistas ouvidos consideram o decreto de Bolsonaro positivo em um sentido: definiu critérios mais objetivos para autorizar a posse de arma. Antes, a concessão da licença dependia só da decisão subjetiva de um delegado da Polícia Federal. Mas a ampliação da validade do registro de cinco para dez anos é problemática, pois enfraquece a fiscalização sobre as armas. “Muita coisa pode acontecer em dez anos. Pode-se responder a um processo, cometer um crime, ter a arma roubada”, diz Melina Risso, doutora em administração e governo pela FGV.

O direito a ter uma arma de fogo em casa pode ser defendido pelo princípio abstrato da liberdade individual. Mas é um equívoco sugerir, como Bolsonaro tem feito em entrevistas, que a medida trará melhoria efetiva à calamitosa segurança pública do Brasil país que tem batido a marca de mais de 60.000 homicídios por ano. Armas legais nem sempre são usadas para fins legais – metade das mulheres assassinadas pelo parceiro em 2016 foi vítima de armas de fogo. Com frequência, a arma registrada cai na mão de bandidos – 70% do armamento apreendido com criminosos na Região Sudeste em 2014 era de fabricação nacional e de comercialização permitida.

A posse da arma em casa também não protege o proprietário nos casos mais comuns de crime: em São Paulo, o estado mais populoso da federação, dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que apenas 2,5%dos roubos foram feitos em residências e 5,9% em estabelecimentos comerciais –   o restante acontece na rua. Ainda assim, os números de homicídio em casa são expressivos. Um levantamento nacional na base do Datasus, realizado pelo Instituto Sou da Paz, revela que, em 2016, catorze pessoas, em média, morreram por dia em casa por arma de fogo, e 87% dos casos se deram em circunstâncias criminais (a base não distingue entre casos de violência doméstica e de latrocínio). Os dados gerais revelam, portanto, que o epicentro da violência está na rua, e não em casa, razão pela qual o decreto de Bolsonaro terá efeito irrisório sobre o nível alarmante do faroeste brasileiro.

A ideia de que uma arma pode salvar seu proprietário é duvidosa. O índice de sucesso dos que tentam a autodefesa é baixo. O consultor de segurança e ex- capitão do Bope Rodrigo Pimentel está convicto de que o direito à posse (ou ao porte) não facilitará a autodefesa do cidadão comum. “Se você não vai ter tempo para treinar, nem adianta ter arma em casa. Eu sempre digo: vai comprar uma arma para quê? Para matar sua mulher numa briga ou para seu filho se matar numa crise de depressão”? Nos Estados Unidos, o país com a maior proporção de armas por domicílio, um estudo da escola de medicina de Stanford concluiu que há o dobro de mortes de crianças por arma nos estados onde as leis são mais flexíveis. Todo ano, cerca de 2.700 crianças e adolescentes morrem nos Estados Unidos vítimas de tiro. No Brasil, no início de 2019, um acidente em casa tirou a vida do menino Jackson Silva, de 11 anos. A família vive em um sítio na cidade de Olho d’Água Grande, no interior de Alagoas, e mantinha uma espingarda calibre 12 para proteção da residência. O irmão mais novo de Jackson pegou a arma quando o pai, Jadielson Silva, estava fora, trabalhando – e acertou o irmão no rosto. “Não entendo porque meu moleque foi pegar aquela arma em cima do guarda­ roupa”, lamenta-se o pai. No ano passado, pouco depois do Dia das Crianças, em 14 de outubro, Jheison Lopes Silveira, também de 11 anos, teve o mesmo destino trágico em uma chácara em Guarantã do Norte, em Mato Grosso. Um primo seu quis lhe dar um susto com uma arma de pressão. Disparou contra uma porta – mas o “chumbinho” ricocheteou e atingiu Jheison debaixo do braço, rompendo uma veia do coração. “Tive vontade de morrer no lugar do meu filho”, diz o pai, o eletricista Dione da Silva Pereira, que comprara a arma de segunda mão, por 1.000 reais. O juiz João Marcos Buch, de 49 anos, é um raro sobrevivente de acidente com arma de fogo na infância. Foi atingido no rosto pelo irmão, que brincava com a espingarda do pai, no início dos anos 1980, em Porto União, Santa Catarina. Por ser juiz – na Vara de Execução Penal, em Joinville -, João Marcos tem direito ao porte de arma. Mas ele é contra a facilitação do porte para civis.

“Não é armando a população que vamos reduzir a violência. Já condenei muitas pessoas por crimes de latrocínio, roubo, homicídio, e as armas, na maioria dos casos, eram de origem lícita”, diz. Uma pesquisa da consultoria Ideia Big Data revela que só 8% dos brasileiros têm plano de comprar uma arma neste ano. Os aspirantes à arma própria podem ser poucos, mas são entusiasmados. Em um clube de tiro na Zona Oeste de São Paulo, o professor universitário Gustavo Molina Figueiredo, de 27 anos, diz que a eleição de Jair Bolsonaro – em quem ele votou – o estimulou a buscar uma arma legal, agora facilitada pelo decreto. “Acho interessante ter a posse, para proporcionar mais segurança à família. Espero nunca precisar, mas, se um dia tiver necessidade, quero saber atirar corretamente”, afirma. Gerente de contas em uma empresa de consultoria, o paulistano Felipe Szuster, de 26 anos, chegou ao mesmo clube de tiro no início da noite da terça­ feira 15, acompanhado do irmão, Fernando, de 20 anos, que ganhou dele de presente um pacote de tiros no estande. Felipe Szuster também pretende entrar com a papelada para conseguir sua arma até o fim do ano. Planeja deixar a casa dos pais em breve, já com seu “brinquedo” – uma pistola automática, de preferência. São brasileiros que acreditam na arma como instrumento de defesa individual. No campo das estatísticas, porém, o quadro é mais complexo. A taxa de homicídios no Brasil vinha subindo ano após ano até a aprovação do Estatuto do Desarmamento, em 2003. A partir daí, passou a cair, indo de 29,1 para 25,5 em 2005, quando foi realizado o referendo sobre a comercialização de armas. De 2005 para 2016, o índice voltou a subir gradativamente, chegando ao mesmo patamar de 2003. O que explica o sobe e desce? Armamentistas usam o estudo para corroborar a tese de que o estatuto, que pretendia conter os homicídios, fracassou. Já os Desarmamentistas olham para a mesma pesquisa e enxergam números positivos: sem o estatuto, calcularam eles, a taxa de homicídios poderia ser 17% maior.

O principal ponto do estatuto, que poderia ser determinante na redução dos homicídios, não foi implementado – a aplicação de tecnologia e integração dos bancos de dados do Exército e das polícias Federal, Militar e Civil para o monitoramento de armas e munições. “Armas são diferentes de drogas. Elas nascem legais e são completamente passíveis de rastreamento. A gente só não monitora porque não quer”, diz llona Szabó, do Instituto Igarapé. Atualmente, coloca-se uma única identificação em lotes gigantes de munição, o que pouco contribui para o esclarecimento dos crimes. Munições do lote UZZ-18, comprado pelo Exército da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) em 2006, foram usadas para matar a vereadora Marielle Franco, para promover uma chacina em São Paulo e para realizar um assalto aos Correios de Serra Branca, cidade do interior da Paraíba. O lote tinha 2,4 milhões de balas. Se o lote identificado fosse menor, de no máximo 10.000 balas, seria possível aferir o momento em que saiu das mãos da polícia para o crime organizado. Atualmente, existe tecnologia até para colocar um GPS em cada arma e munição. O lobby da indústria armamentista alega que esses dispositivos aumentam demais o custo de seus produtos.

Professor da FGV, autor do Mapa da Violência e pesquisador do Ipea, o economista Daniel Cerqueira considera que uma arma é muito mais um instrumento de ataque do que de defesa e, inserida num ambiente urbano, ameaça outras pessoas. Para ele, a ciência é clara em dizer que, quanto mais armas em circulação, mais homicídios são praticados. A caneta Bic, diz Bolsonaro, é sua arma. Mas não serão canetas que estarão nas casas do país. Serão revólveres, pistolas, carabinas e espingardas que, a depender da vontade do Congresso, em breve também poderão estar na cintura dos brasileiros.

 É apenas o começo. 2

 

É apenas o começo. 3

 

É apenas o começo. 4

GESTÃO E CARREIRA

COMO SE TORNAR UM LIDER ESTRATÉGICO

Um passo a passo para ajudar você a sair da gestão operacional e alcançar uma liderança relevante e inspiradora.

Como se tornar um lider estratégico

Três etapas bem definidas separam um líder comum de um estratégico. O chefe mediano sofre as dores do crescimento de carreira não sabe lidar com as imposições do novo cargo e lamenta pelas tarefas que não deve mais fazer. Há muitos profissionais nessa situação. Poucos são os que aprenderam a manejar os recursos de que dispõem nessa nova fase da vida.

A boa notícia é que há uma trilha pela qual passa toda pessoa que sobe de cargo. A descoberta é de um grupo de pesquisadores brasileiros e pode aprimorar o exercício da liderança. Gabriela Almeandra Dutra, Tatiana Almeandra Dutra e Joel Dutra estudaram 300 executivos do Brasil durante quatro anos e perceberam que existem três estágios até alguém se tornar um gestor estratégico: a consolidação no cargo, a construção da arena política e a ampliação da complexidade. O resultado da análise foi compilado no livro Gestão de Pessoas: Realidade Atual e Desafios Futuros (Atlas, 189 reais).

Apesar dos diferentes estilos de comando e das peculiaridades de cada fase, há um denominador comum. “A fonte de poder do líder é mais sua contribuição com pares subordinados e parceiros e   menos o cargo ou a hierarquia”, diz Joel Dutra, professor livre-docente na Universidade de São Paulo.

Os pesquisadores identificaram outro aspecto: o fato de que as deficiências não estão no conhecimento técnico, mas no comportamento. Segundo o professor Joel os modelos econômicos   do país sempre foram voltados ao mercado interno e não são muito competitivos. “Por isso, valorizamos habilidades técnicas em detrimento das gerenciais”. O cenário começou a mudar na década de 90, com a abertura do País. Contudo, só em 2010 se intensificou a busca por pessoas que atendessem às exigências comportamentais. Hoje, o líder (seja de uma companhia tradicional, seja um empreendedor), tem de encarar o dilema de entregar o resultado imediato, num ambiente instável e com poucos recursos, enquanto pensa na estratégia de longo prazo, num panorama em constante transformação. No meio disso, deve entender de psicologia, se comunicar de forma clara, compreender os mecanismos de motivação e produtividade do time. Como resume Joel: “A liderança se assenta na capacidade de conciliar expectativas divergentes”.

Quem consegue manejar esses elementos com maestria se torna um gestor estratégico, aquele que é sensível ao contexto, atento às mudanças de cenário e disposto a redesenhar o modelo de trabalho quando necessário.

RITUAIS SAGRADOS

Ninguém nasce sabendo chefiar – um líder se torna líder à medida que é apresentado aos desafios do comando. Logo, qualquer um pode aprender a ser um chefe inspirador. Mas é preciso praticar. Uma boa técnica é o que o professor Joel chama de ritual: uma sequência de ações que devem ser executadas repetidamente com a intenção de exercitar alguma habilidade. Por exemplo, alguém que tenha dificuldade em escutar a equipe pode pedir que um subordinado seja seu “gatilho”. Toda vez que esse funcionário se dirigir ao gestor, ele se esforçará para ouvi-lo, sem interrupção, e repassará a conversa assegurando-se de que conseguiu entender o que foi dito.

A ideia por trás do exercício é que os gestores devem continuamente se expor a novas situações para se preparar para os próximos estágios de desenvolvimento. “As características que fazem com que se tenha sucesso em uma fase não vão levá-lo adiante. É preciso continuar crescendo e estar consciente sobre as mudanças de comportamento para dar o próximo passo”, afirma Howard Yu professor de administração e inovação na escola de negócios suíça IMD. Também é sagrado que o chefe se conheça profundamente. Primeiro, você deve se consolidar como líder de si mesmo, desenvolver sua identidade ter consciência de seus valores, de seus princípios, criar uma base de liderança sólida”, diz João Lins, professor diretor do MBA in Company da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Tomados esses cuidados, é hora de iniciar a trilha rumo à liderança estratégica. A seguir, o passo a passo para ajudar quem está nessa jornada.

 

FASE 1 – CONSOLIDAÇÃO

NOVATO NA FUNÇÃO

O primeiro passo na trilha da liderança é se consolidar na nova posição. “Essa é uma das etapas mais difíceis de transpor porque o gestor tem dificuldade em se desvincular das atribuições da posição anterior. Naturalmente ele se sente mais confortável lidando com a complexidade de trabalhos que já domina, afirma Joel. Outros impeditivos são o apego e a arrogância. “O líder não   delega, porque acha que ninguém na equipe tem capacidade de fazer melhor que ele”, completa o professor. Por isso, nessa fase, as competências críticas são: foco no resultado, desenvolvimento da equipe e delegação.

A virada de chave só acontece quando o líder entende que tem de deixar de realizar as tarefas operacionais e passar a entregar resultados por meio do trabalho do time. “Desenvolver os subordinados para ganhar confiança e passar as atividades mais operacionais gradativamente é o primeiro passo para a consolidação. O próximo é utilizar o tempo investindo em relações interpessoais, afirma João, da FGV. E é assim que o gestor vai se sentir mais confortável no cargo e conquistar a equipe. “O foco sai do ‘eu’. E ele cria um ambiente para que os outros o respeitem não só por seu conhecimento técnico, mas por sua habilidade de interagir”, afirma Anderson Sant’Anna professor das áreas de organizações e comportamento organizacional da Fundação Dom Cabral.

Além do aprendizado ativo, como os rituais que o próprio líder pode estabelecer existem no mercado ferramentas que auxiliam no autoconhecimento e no posterior desenvolvimento de competências críticas. “Assessment e coaching ajudam nessa direção, mas nada substitui a autocrítica. Exponha-se a essas situações e tente refletir sobre elas”, diz João.

Outra dica é o profissional adotar um mentor que podem ser colegas executivos ou líderes seniores que tenham vivenciado uma carreira semelhante. “Num bate-papo, eles trazem à tona questões para você refletir, dão conselhos e trocam figurinhas sobre situações similares pelas quais já tenham passado”, afirma André Freire, sócio-diretor da Exec consultoria especializada em recrutamento de executivos e desenvolvimento de liderança.

 

FASE 2 – CONSTRUÇÃO DA ARENA POLÍTICA

ENCONTRANDO ALIADOS

A segunda etapa é marcada pelo ganho de espaço político entre pares e superiores. É o momento em que o gestor começa a circular em outras esferas e ganha notoriedade pelo trabalho desempenhado. Nessa fase é essencial criar ou aumentar as interfaces. “Para crescer, o líder tem de aprender que existe um campo além de sua área e que é preciso influenciar as pessoas nesses lugares”, afirma Anderson, da Fundação Dom Cabral. As competências importantes são a ampliação sistêmica e a abertura e sustentação de parcerias.

Essa é a hora de ganhar aliados. “Levante a mão para se voluntariar a participar de projetos de grande relevância para a companhia. Dessa forma você cria relacionamentos e passa a ser visto como um indivíduo capaz de construir pontes entre diferentes partes da organização”, diz Howard, do IMD que lembra: “Ninguém sabe cada detalhe, mas é bom conhecer quem sabe o quem sabe o quê”.

Participar de projetos multidisciplinares é complexo pois em geral o líder já tem um volume significativo de atividades para executar. “No curto prazo, isso implica mais trabalho para o gestor e sua equipe. Por isso essa etapa só é iniciada após a consolidação da posição, quando o profissional já aprendeu a delegar e está pronto para assumir novos desafios, afirma Joel.

Mesmo assim, em alguns casos o volume de tarefas faz com que os chefes fujam de situações desse tipo, o que é péssimo. Para André, da Exec, muitas vezes o profissional fica escondido na área dele, pensando: “Já tenho muita coisa para fazer. Tomara que ninguém pense em mim para essa missão. Mas agir assim é errado. “O líder tem de se envolver com outros departamentos e ajudar outras pessoas para ser visto”, afirma o especialista. Às vezes dá para fazer isso em momentos de descontração. “As oportunidades podem surgir num almoço ou café, num bate-papo para ouvir onde dói nas outras áreas”.

Relacionar-se bem com os colegas, além de ajudar em uma visão geral do negócio, também é essencial para futuras promoções. “Nas organizações, a capacidade de articulação e o reconhecimento por parte dos pares são valorizados durante os processos sucessórios”, afirma Joel.

 

FASE 3 – AUMENTO DA COMPLEXIDADE

MAIS EXIGÊNCIAS

Uma vez que tenha se desapegado das tarefas as quais estava acostumado, desenvolvido a equipe e formado seus aliados políticos, o líder chega à fase mais complexa. Ele passa a receber ordens de seus superiores e assume projetos ou processos que o levam a interagir com agentes mais exigentes – como o C-level ou o conselho de administração da companhia. A terceira etapa é caracterizada por uma verticalização. Aqui as competências importantes são a ampliação da visão estratégica e o desenvolvimento de sucessores para ocupar os espaços que o gestor deixará ao assumir novas atribuições e responsabilidades.

Esse período ocorre se o líder tiver ampliado seu espaço político. “Dificilmente o gestor receberá delegação se não tiver conseguido construir legitimidade, reconhecimento e trânsito entre seus pares”, diz Joel. À medida que o profissional vai ganhando visibilidade, os demais líderes enxergam nele a pessoa certa para resolver um desafio. Contudo para que assuma as missões e possa se sentar numa cadeira estratégica tão logo a oportunidade apareça, é imprescindível que o executivo tenha formado alguém para sua atual posição.

O principal desafio nesse momento é o chefe ampliar a visão estratégica, aquela para além dos muros da organização. “Os líderes de maior sucesso são curiosos sobre o que está acontecendo fora da empresa. Dessa forma, ele pode se preparar e antever uma mudança”, diz Howard. A dica é observar diversos setores, uma vez que você pode encontrar soluções diferentes em outras indústrias e inovar.

Aqui, a autoridade se legitima por uma visão de futuro e pela preocupação com a sustentabilidade do negócio. “Esse olhar pode ser treinado com viagens, conhecendo modelos de gestão inspiradores, frequentando fóruns e eventos, a fim de conhecer como determinado tema está sendo tratado e como pode repercutir dentro da organização”, diz Anderson.

E, por fim, para dar o último passo rumo ao topo; o profissional deve ter serenidade emocional (estômago) e ambição – para si e para o negócio. “Ele precisa ter o desejo de levar o negócio para o próximo nível, e não apenas o de sustentar a companhia onde ela está”, diz Howard.

Como se tornar um lider estratégico. 2

CHEFES DO FUTURO

Dez conselhos para quem está aprendendo a liderar.

1 – Desenvolva uma percepção fina sobre o tipo de líder que deseja ser. Lembre-se de que tudo começa com o autoconhecimento.

2 – Trabalhe seus pontos fracos e potencialize e evidencie os fortes.

3 – Busque um mentor. Bata um papo com aquele chefe que o inspira.

4 – Participe de projetos com profissionais de senioridades diferentes para ampliar sua habilidade de articulação.

5 – Compartilhe conhecimentos e troque favores. Quanto mais redes construir, mais sustentável será sua carreira.

6 – Desenvolva seu poder de comunicação. Voluntarie-se para falar ou apresentar algum indicador em determinadas reuniões e fóruns.

7 – Coloque em prática a gestão de pessoas, nem que seja de maneira informal, treinando um estagiário, por exemplo.

8 – Demonstre energia e proatividade. Deixe transparecer sua sede de mudança. Não tema tentar de novo, mesmo que cometa erros.

9 – Esteja sedento por mais responsabilidades e as assuma sempre que houver oportunidade.

10 – Tenha visão do todo e aprenda a trabalhar em equipe. Ninguém constrói o resultado da empresa sozinho. E seja resiliente. Mesmo que seja difícil, não desista.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 16: 31 – 33

Pensando biblicamente

A SOBERANIA DA PROVIDÊNCIA DIVINA

 

V. 31 – Observe:

1. As pessoas mais velhas devem ter, como maior preocupação, ser encontradas no caminho da justiça, no caminho da religião e da piedade séria. Tanto Deus como o homem as procurarão nesse caminho; espera-se que os que são mais velhos sejam bons, que a multidão de seus anos tenha lhes ensinado a melhor sabedoria; portanto, devem ser encontrados nesse caminho. A morte virá; o Juiz se aproxima; o Senhor é chegado. Para que sejam por Ele encontrados em paz, devem ser encontrados no caminho da justiça (2 Pedro 3.4), servindo assim (Mateus 24.46). Que os idosos sejam velhos discípulos; que perseverem até o fim no caminho da justiça, no qual começaram a andar há muito tempo, para que possam, então, ser encontrados nele.

2. Se as pessoas mais velhas forem encontradas no caminho da justiça, a sua idade será a sua honra. A velhice, desta maneira, é honrosa, e exige respeito (Diante das cãs te levantarás, Levítico 19.32); mas, se for encontrada no caminho da iniquidade, a sua honra será perdida, a sua coroa, profanada, e atirada ao chão (Isaias 65.20). As pessoas mais velhas, portanto, se desejarem preservar a sua honra, devem ainda se apegar à sua integridade, e então os seus cabelos brancos serão, realmente, uma coroa para elas; elas são merecedora s de dupla honra. A graça é a glória da velhice.

 

V. 32 – Isto nos recomenda a graça da mansidão, da longanimidade, que bem nos convirá, a todos, particularmente às cabeças grisalhas (v. 31). Observe:

1. A sua natureza. Ela é tardia em irar-se, não se inflama facilmente, não se ressente de provocações, dedica algum tempo para considerar antes de permitir que a nossa paixão irrompa, para que não transgridamos os limites devidos, ela nos leva a ser tão lentos em nossos movimentos rumo à ira, de modo que possamos facilmente ser interrompidos e apaziguados. Ela nos capacita a ter o domínio sobre os nossos próprios espíritos, nossos apetites e sentimentos, e todas as nossas tendências, mas particularmente as nossas paixões, a nossa ira, conservando-a sob orientação e controle, e a administração rígida da religião e da razão justa. Devemos ser senhores da nossa ira, como Deus é.

2. A sua honra. Aquele que obtém e conserva o controle de suas paixões é melhor do que o valente, melhor do que aquele que depois de um longo cerco conquista uma cidade, ou depois de uma longa guerra subjuga uma cidade. Aqui está alguém melhor do que Alexandre ou César. A conquista de nós mesmos e das nossas paixões desenfreadas exige a sabedoria verdadeira, e um controle mais firme, constante e regular, do que a conquista de uma vitória sobre os exércitos de um inimigo. Uma conquista racional é mais honrosa para uma criatura racional do que uma conquista brutal. É uma vitória que não traz nenhum dano a ninguém; não sacrifica vidas nem tesouros, mas apenas alguns desejos vis. É mais difícil; portanto, mais glorioso, reprimir uma insurreição em casa, do que resistir a uma invasão de fora; na verdade, os ganhos da mansidão e da longanimidade são tais que, por elas, nós somos mais do que vencedores.

 

V. 33 – Observe:

1. A divina Providência ordena e designa aquelas coisas que, para nós, são perfeitamente casuais e fortuitas. Nada acontece por acaso, nem um só evento é determinado por um destino cego, mas tudo acontece pela vontade e conselho de Deus. Deus está intimamente envolvido naquilo de que o homem não participa.

2. Quando são feitos apelos solenes à Providência, pelo lançar de sortes, para decidir aquele problema do momento que não poderia ser decidido de outra maneira, nem tão bem decidido, Deus deve ser buscado em oração, para que o resultado seja apropriado (A sorte perfeita, 1 Samuel 14.41; Atos 1.24); e, uma vez decidido o assunto, devemos aquiescer satisfeitos com o fato de que a mão de Deus estava nele. e que esta mão o orientou, pela sabedoria infinita. Todas as disposições da Providência a respeito dos nossos assuntos devem ser consideradas como sendo a decisão da nossa sorte, a determinação do que entregamos a Deus, e devem ser apropriadamente conciliadas.