GESTÃO E CARREIRA

ESSA TAL DE BLOCKCHAIN

O que é exatamente essa tecnologia e por que ela virou lugar-comum no mundo dos negócios

Essa tal de blockchain

O nome blockchain veio a público pela primeira vez em 2008, quando Satoshi Nakamoto, o criador do Bitcoin, publicou um artigo sobre o funcionamento da criptomoeda e da tecnologia que daria suporte a ela, a blockchain. Até hoje, ninguém sabe a real identidade de Satoshi: o programador desapareceu da internet em 2012, sem rastros. Embora seu paradeiro seja uma incógnita, ele deixou um legado e tanto.

Se ainda existem incertezas sobre o destino das moedas digitais, não falta esperança para a blockchain. Segundo estudo da consultoria americana Gartner, a tecnologia movimentará 3 trilhões de dólares pelo mundo, até 2030. Isso pressupõe imaginar que, em pouco mais de uma década, até 20% da infraestrutura necessária para o funcionamento da economia mundial estará suportada por essa plataforma.

Outra pesquisa, da consultoria PwC, feita no ano passado com 600 executivos de 15 países, mostrou que 84% das organizações já têm ao menos algum tipo de envolvimento com o assunto. “Ninguém quer ficar para trás. É fácil entender o porquê. “A prova de falsificação, um sistema de blockchain bem projetado não só elimina intermediários, reduz custos e aumenta a velocidade de muitos processos de negócio como oferece maior transparência e rastreabilidade”, aponta o relatório da PwC.

Mas, afinal, o que é essa inovação? E por que ela se tornou praticamente onipresente nas discussões sobre negócios? Para entender melhor, é preciso se voltar ao sistema financeiro, onde reside a origem das criptomoedas e do sistema por trás delas. Hoje, o banco intermedeia as transações que você faz, cobrando taxas pelo serviço em troca de segurança. Já no mundo do Bitcoin não há mediador. Toda a transação, de ponta a ponta, ocorre dentro do sistema blockchain: os dados da movimentação ficam gravados em blocos sequenciais de informações – daí o nome, em inglês: block (“bloco”) e chain (“cadeia”) -, e quem legitima as operações não é mais uma única companhia (ou pessoa), e sim uma rede de usuários com acesso aos códigos. Mal comparando, os registros na rede blockchain funcionam corno no Google Docs. Eles podem ser visualizados nos computadores de vários usuários simultaneamente. “No modelo tradicional, alguém confiável precisa assegurar a conclusão dos registros. Numa rede blockchain, isso é feito de forma colaborativa, compartilhada e descentralizada”, diz Marcos Kalinowsky, professor do departamento de informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

De acordo com o pesquisador, há ainda outra vantagem significativa: os blocos de informações são criptografados e é praticamente impossível adulterá-los. Retornando à comparação do Google Docs, as pessoas possuem uma cópia do documento, mas não conseguem editá-lo.

E isso é ouro para instituições que trabalham com operações que envolvem risco de fraude. Um atestado disso é que os maiores bancos do mundo, como JP Morgan e Goldman Sachs, já têm projetos em andamento para implantar processos de blockchain.

DESTINO PROMISSOR

Com tantos predicados, há motivos de sobra para acreditar que a inovação se alastrará para áreas além da financeira. Seus princípios são aplicáveis a qualquer tipo de negócio e podem ser usados para atestar desde a origem de uma pedra preciosa até a proteção da internet das coisas (IoT). Com bilhões de dispositivos conectados, especialistas em segurança cibernética acreditam que a blockchain será essencial para ajudar a manter a integridade desse enorme fluxo de informações.

A startup GOBlockchain, que oferece treinamento, consultoria e soluções no tema, é um exemplo de como os usos da ferramenta são versáteis. Entre os produtos que ela já desenvolveu está uma rede para ratificar certificados de cursos. “No sistema, eles são validados tanto por quem estudou quanto pela instituição de ensino, o que evita fraudes. Profissionais de RH também conseguem verificar as informações do currículo de um usuário antes de ele ser contratado”, diz Henrique Leite, fundador da companhia. Segundo ele, a demanda surge de várias áreas de negócios. “Recentemente, fizemos um estudo para uma imobiliária e apontamos soluções como depósito-caução em criptomoedas com a possibilidade de financiamento coletivo. Também estamos implementando soluções para o agronegócio.”

Na visão otimista, não são apenas as empresas que ganham com esse tipo de inovação, mas os consumidores. O raciocínio é o seguinte: se somente uma instituição detém a validação de um dado, isso é facilmente manipulável. “Essa tecnologia consegue envolver todos os atores de uma cadeia para validar informações contidas e interligadas pela rede. A rastreabilidade é maior, assim como a transparência”, diz Maurício Magaldi, líder de serviços em blockchain para a América Latina da IBM.

Importante dizer que são as companhias que desenham e desenvolvem as próprias redes, baseadas nos procedimentos inaugurados por Satoshi. “Blockchain é a tecnologia. O conjunto de regras da rede é o protocolo, criado com base em um consenso entre participantes”, esclarece Maurício; Isso possibilita, inclusive, que o cliente final tenha acesso à rede. Basta que a organização em questão tenha interesse nisso. Nesses casos, quem está na ponta deixa de ser um agente passivo e passa a ter um conhecimento relevante na hora de decidir por uma marca ou empresa, por exemplo.

Um modelo de empresa que já usa esse tipo de tecnologia é a Blockforce. A startup, fundada no início de 2018, funciona como uma plataforma de financiamento para projetos com impacto social. “Uma pessoa que quer produzir cerveja artesanal pode ter dificuldade de obter empréstimo. Na rede que desenhamos, se o projeto movimenta a economia social e é lucrativo, ela consegue captar investidores. A vantagem para quem investe é ter as informações rastreáveis e auditáveis no mesmo lugar”, diz o fundador André Salem, de 29 anos, que antes de empreender atuou em grandes companhias de tecnologia. Os aportes são feitos em criptomoedas e podem ser convertidos em real por meio de casas de câmbio especializadas. Hoje, a rede tem 1.000 usuários, entre empreendedores e investidores, que realizam transações (como aportes e participação nos lucros) via rede blockchain – sem intermediação.

NEM TUDO SÃO FLORES

Embora a expectativa seja de que a blockchain mude radicalmente a forma como os negócios atuam, no fundo é incipiente. Hoje, as redes não abarcam um número relevante de atores, e a troca de informações ainda não acontece de forma efetiva – o que atrapalha análises mais objetivas sobre seu potencial e impacto.

Outro desafio, segundo Maurício, da IBM, é estabelecer as regras dentro de cada rede. “Estamos falando se ela vai, por exemplo, colocar determinadas informações como públicas ou privadas. Para os participantes chegarem a um consenso, é preciso criar uma governança compartilhada, o que não é simples”.

Existe também a questão da vulnerabilidade do sistema, que depende de software e, como qualquer programa de computador, pode falhar.

Martha Bennett, analista especializada em tecnologia na empresa global de pesquisas Forrester Research, diz que os estudos apontam que a ausência de “milagres”, ou seja, resultados revolucionários no curto prazo, levará muitos tomadores de decisão do mundo corporativo a “jogar fora a água do banho junto com o bebê, bloqueando investimentos em blockchain”. “Os visionários seguirão em frente. Já aqueles que esperavam uma resposta imediata desistirão”, afirma. Outro ponto sensível é a falta de regulamentação. Ainda não existem medidas antitruste que impeçam que um pool de companhias negocie dentro de uma rede blockchain e controle mercados, por exemplo.

PROCURAM-SE PROFISSIONAIS

Mesmo com pontos obscuros, a tecnologia tem feito subir a demanda por especialistas na área. No LinkedIn há, mundialmente, mais de 12.000 vagas que requerem conhecimento no tema. A busca é tanto por programadores, gente capaz de desenhar sistemas de blockchain inteligentes e eficazes, quanto por executivos, pessoas que entendam de negócios e consigam vislumbrar usos interessantes para a ferramenta em seu segmento de atuação. Em casos assim, estratégicos, não é preciso nem entender de códigos. Basta ter conhecimento sobre o conceito e suas aplicabilidades.

Carlos Rischioto, de 40 anos, líder da plataforma de blockchain da IBM, reúne os dois perfis. Há 15 anos atuando no segmento de tecnologia, passou a trabalhar com blockchain dois anos atrás. De lá para cá, ele, que é formado em ciência da computação, conta que passou a chamar mais a atenção do mercado.

“Tive ofertas recentes de emprego em concorrentes e empresas interessadas em aplicar a tecnologia em seus negócios. Fiquei na IBM porque sinto que ainda posso crescer aqui”, diz. O profissional acredita que, para ser bem-sucedido, é preciso estar antenado na evolução da tecnologia. “Curiosidade e autodidatismo são essenciais, pois os cursos que existem hoje e estão disponíveis não ensinam tudo. Uma boa dica é participar de redes que utilizem blockchain para entender como funciona. “Quem fizer isso terá grandes chances de encontrar emprego nos próximos anos.

Essa tal de blockchain. 4.jpg

COMO FUNCIONA?

Entenda de que maneira acontece a transferência de dados na tecnologia blockchain:

O PASSO A PASSO

As transações são verificadas por meio de consenso entre os participantes, que podem visualizar e confirmar códigos. Como o sistema é criptografado, há segurança dos dados e não é preciso um intermediário para regular.

1 – Uma pessoa pede para fazer uma transação

2 – Essa transação é transmitida por meio de rede de computadores descentralizada, que a valida de acordo com o status do usuário e em algoritmos.

3 – Para que uma transação seja verificada, pode ser preciso usar criptomoedas, tokens ou outro tipo de dado digital.

4 – Uma vez verificado, o registro em questão é combinado com outros registros, formando um novo bloco de dados.

5 – Esse novo bloco é adicionado à cadeia de informações existente e não pode ser alterado nem excluído.

6 – A transação chega ao fim.

Essa tal de blockchain. 3

10 USOS DA BLOCKCHAIN QUE VOCÊ NEM IMAGINA

A inovação pode ser aplicada em diferentes indústrias. Veja algumas delas:

1 – CONTRATOS INTELIGENTES

Como a blockchain automatiza transações com base em condições ou eventos predeterminados, pode ser aplicada em contratos de compra e locação de bens e até em testamentos. A documentação ficaria na rede, sem ser adulterada, podendo ser verificada de maneira segura.

2 – LOGÍSTICA

Os blocos de dados permitem o acompanhamento de mercadorias e peças ao longo de toda a cadeia de abastecimento e o monitoramento do ciclo de vida de um produto. Isso ajuda na gestão do estoque em diferentes indústrias, do agronegócio às joalherias.

3 – ÁREA FISCAL

Os processos fiscais e contábeis podem se tornar mais confiáveis e rápidos por meio das checagens automatizadas de segurança do sistema.

4 – ROYALTIES E LICENÇAS

A blockchain traz agilidade nos pagamentos de royalties e na execução de licenças, além de aumentar a confiança de quem vende direitos autorais – pois os dados são registrados nos diversos computadores da rede e não podem ser alterados.

5 – CONTROLE DE IDENTIDADE

Com essa tecnologia, é possível atestar a identidade na criação de documentos, no gerenciamento de credenciais e no cadastro de pessoas em programas de recompensa de marcas, por exemplo.

6 – VOTAÇÕES

Como os dados de uma cadeia blockchain são imutáveis e verificados pelos próprios usuários, a tecnologia traria segurança para eleições eletrônicas.

7 – DIREITOS TRABALHISTAS

As informações em blockchain podem aumentar a transparência dos contratos de prestação de serviço em toda a cadeia de produção, o que ajudaria a evitar explorações como trabalho escravo ou infantil. A coca­ cola, ao lado do governo americano, está desenvolvendo um sistema desse tipo.

8 – SAÚDE

Pacientes, médicos, farmácias e hospitais conectados à uma rede blockchain teriam acesso a informações mais seguras sobre tratamentos e histórico de pacientes.

9 – INTERNET DAS COISAS

A cisco, líder mundial em ti e redes, está desenvolvendo um aplicativo que monitora redes de internet das coisas (IoT) por meio de blockchain. O objetivo é aumentar a segurança da tecnologia, já que no futuro praticamente tudo estará conectado, do chuveiro à cafeteira.

10 – PRESTACÃO DE SERVIÇOS

As chaves de segurança usadas na rede blockchain podem ser aplicadas para dar mais confiabilidade em serviços de reparos domésticos ou de automóveis. Um cliente pode liberar o acesso de um prestador à distância e determinar que tipo de equipamento ele pode acessar ou não.

NEGÓCIOS EM TRANSFORMAÇÃO

No ano passado, a PwC realizou uma pesquisa com 600 executivos globalmente para verificar como anda a aplicação da tecnologia nas empresas. Confira os resultados:

Essa tal de blockchain.2

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.