PSICOLOGIA ANALÍTICA

O PODER DA REFLEXÃO

A metacognição, capacidade de mergulhar nos próprios pensamentos e acompanhá-los, pode ser muito útil na hora de resgatar uma memória ou aprender um idioma com mais facilidade.

O poder da reflexão

A britânica Judith Keppel estava a uma única resposta de distância para embolsar 1 milhão de libras. Na fase final de um programa de TV muito popular na Inglaterra, faltava enfrentar o último desafio para se tornar a primeira vencedora do jogo. Precisava responder à pergunta: “Que rei foi casado com Leonor de Aquitânia?”. Após uma breve conversa com o apresentador, Chris Tarrant, ela afirma: “Henrique II”. Ele retruca: ” É sua resposta final?”. Sem titubear, ela confirma. A plateia irrompe em aplausos. Judith acertou.

Naquela noite, ela recorreu a um recurso valioso para não vacilar: sua capacidade metacognitiva. O termo cunhado pelo psicólogo John Flavell na década de 70 refere-se à nossa habilidade de avaliar os próprios pensamentos. Essa prática pode ser muito útil na hora de nos lembrar prontamente de uma senha, resgatar uma memória infantil ou aprender outro idioma com mais facilidade. Trata-se de um tribunal interno que controla a solidez de nossas representações mentais, como a memória e o discernimento. A metacognição permitiu a Judith responder com impressionante segurança.

A capacidade de refletir sobre nossos pensamentos é uma característica fundamental, já que por meio dela identificamos nossas limitações e as compensamos. Um estudante despreparado para uma prova de química, por exemplo, pode dedicar horas extras para revisar orbitais atômicos. A metacognição também entra em cena quando ajustamos um alarme para nos lembrar de algo que podemos esquecer ou fazemos uma lista de afazeres para dar conta das demandas do dia.

Mas essa capacidade não existe só para detectar dificuldades. Também nos ajuda a avaliar nossos pontos fortes, como quando abandonamos as boias de braço depois que aprendermos a nadar ou deixamos as rodinhas de apoio assim que nos sentimos seguros para andar de bicicleta. A metacognição reforça a sensação de que podemos passar para o próximo desafio quando estamos prontos, sem perder tempo para chegar aonde queremos.

Em última análise, serve como base para a aprendizagem e o sucesso. Quando prejudicada, no entanto, costuma afetar o desempenho escolar ou profissional. Podemos ter mais dificuldade para reconhecer uma má decisão e o melhor caminho a seguir. Alguns distúrbios psiquiátricos podem interferir na metacognição, impedindo a pessoa de identificar seus próprios problemas. No entanto, novas técnicas que ajudam a medir essa habilidade em laboratório e relacioná-la com funções cerebrais ajudam pesquisadores a compreender seus mecanismos e por que correm o risco de falhar. Algumas ferramentas podem ajudar a seguir o conselho de Sócrates aos atenienses, “conhece­te a ti mesmo”, com o treino da metacognição e a aperfeiçoar nossas capacidades.

A OPÇÃO PELO ATALHO

Especialista em desenvolvimento infantil, Flavell propõe que a metacognição seja compreendida como um aspecto da introspecção, indispensável à aprendizagem. Em um teste de memória, por exemplo, ele observou que “adultos que haviam estudado por um tempo e afirmavam estar preparados, de fato estavam, enquanto crianças pequenas nas mesmas condições frequentemente se enganavam em relação ao próprio desempenho”.

Os dados sugerem que durante o desenvolvimento cerebral certas áreas ou redes neurais vão se tornando mais sólidas, o que gradualmente nos torna aptos para julgar a própria capacidade de aprendizagem com maior precisão. No entanto, os pesquisadores enfrentaram um dilema para estudar essa hipótese em laboratório: como testar a maneira como enxergamos nossos próprios pensamentos?

Não há marcadores claros da metacognição, por isso meus colegas e eu decidimos usar um atalho: medimos o grau de confiança de algumas pessoas para defender suas ideias e verificamos se a certeza se justificava. O cotidiano está repleto de cenas sobre as quais nos equivocamos. Um cozinheiro inexperiente que acredita que um jantar com vários amigos no qual deixa queimar o salmão e se esquece de arrumar a salada pode não ter boa metacognição. Em meus estudos, a tarefa proposta é muito mais simples do que preparar refeições. Os participantes se sentam na frente de uma tela de computador e observam dois grandes círculos, cheios de pontos, piscar brevemente: o objetivo é decidir qual figura geométrica está mais preenchida. A maioria dos voluntários não acha essa atividade tão fácil. O meu interesse, porém, não é ter a resposta correta, mas saber o grau de segurança que os participantes têm para sustentar sua opinião. Repetimos o experimento várias vezes, até que observamos um padrão. Ter alta confiança somente quando acertamos, e vice-versa, significa que nossa metacognição está apurada. Testes similares podem medir essa habilidade relacionada a outros aspectos do comportamento, como memória e aprendizagem.

Os resultados sugerem que a precisão metacognitiva varia amplamente entre a população. Alguns parecem conhecer pouco sobre os próprios pensamentos, enquanto outros demonstram excelente capacidade de autoavaliação mental. No entanto, é importante notar que isso não prediz o desempenho. Podemos ter pouca noção das próprias habilidades, mas fazermos excelente uso delas.

Nos últimos anos, pesquisadores têm trabalhado na identificação de mecanismos neurais que regulam a metacognição. As primeiras pistas vieram de um paciente com um dano neurológico bastante específico. Em meados da década de 80, o neurocientista Art Shimamura fazia seu pós-doutorado com a orientação do psicólogo Larry R. Squire, da Universidade da Califórnia em San Diego. Os dois investigavam pacientes com amnésia que haviam sofrido lesões no hipocampo (região importante para a memória), quando observaram um padrão curioso nos dados. A maioria apresentava problemas de memória, mas apenas alguns estavam cientes disso. Aqueles que não se davam conta da dificuldade que enfrentavam (baixa metacognição) sofriam da síndrome de Korsakoff, um distúrbio da memória frequentemente associado ao alcoolismo. Os pacientes não só desenvolveram amnésia por danos causados no hipocampo, mas também pelas lesões no lobo frontal, o que levou os pesquisadores a suspeitar que essa região estivesse envolvida na regulação da metacognição. Para confirmar a hipótese, junto com a neurocientista Jeri Janowsky, Shimamura e Squire examinaram sete pessoas com lesões nos lobos frontais, mas com as regiões associadas à memória preservadas. Eles observaram que de fato a metacognição estava prejudicada nesses pacientes. Os cientistas mostraram a eles uma lista de frases e lhes perguntaram a probabilidade de reconhecê-las depois, ao que responderam com imprecisão. No entanto, se lembravam claramente do que estava escrito. Esses foram os primeiros estudos a mostrar a metacognição como uma função cerebral independente e não apenas em parte integrante de habilidades cotidianas.

O lobo frontal abrange uma vasta área neural. Meus colegas e eu procuramos identificar mais precisamente as regiões associadas à metacognição. Em 2010, publicamos uma pesquisa em que propusemos essa ideia. Em outro estudo, em parceria com os neurocientistas Geraint Rees,

Rimona S. Weil e outros colegas da Universidade College London, mostramos brevemente duas imagens para alguns voluntários e perguntamos qual parecia ser mais brilhante. Na sequência, eles relataram o grau de confiança na própria resposta. Após diversos testes, calculamos um escore metacognitivo para cada participante.

Para afastar qualquer interferência que pudesse ser causada por alguma alteração na percepção visual, cuidamos para que nossos pacientes fossem igualmente capazes de identificar a figura mais reluzente. Eles forneceram a resposta correta em aproximadamente 70% das vezes. Depois de pontuarmos erros e acertos, submetemos os voluntários a exames de neuroimagem e observamos, naqueles com metacognição mais apurada, maior concentração de matéria cinzenta no córtex pré-frontal anterior, uma região cerebral desproporcionalmente maior em seres humanos do que em outros primatas. A massa cinzenta consiste principalmente em células neurais, diferentemente da substância branca, com axônios delgados que se estendem do corpo celular e transmitem impulsos elétricos para outros neurônios. Pessoas com maior capacidade metacognitiva também tinham áreas de matéria branca mais densa conectando o córtex pré-frontal anterior ao restante do cérebro.

Outros estudos com neuroimagem sugerem que a atividade neural no córtex pré-frontal anterior é mais fortemente correlacionada com a confiança em pessoas com melhor metacognição. Além disso, estimular essa área com pulsos magnéticos interfere temporariamente no funcionamento dos neurônios, o que pode prejudicar essa habilidade sem afetar outros aspectos da percepção ou da tomada de decisão.

Estávamos curiosos, porém, para determinar se as áreas que identificamos estavam associadas a julgamentos simples também desempenhariam algum papel em decisões complexas. Com os neurocientistas Benedetto De Martino, Ray Dolan e Neil Garrett, então da Universidade College London, elaboramos um experimento mais próximo de uma situação real, ainda que dentro de um escâner cerebral. Pedimos aos participantes que escolhesse entre dois petiscos: batata frita ou chocolate. Em seguida, eles relataram o grau de segurança de ter tomado a melhor decisão. Depois que saíram do aparelho, disseram o quanto estariam dispostos a pagar para cada uma das guloseimas e, novamente, classificaram a autoconfiança em relação à escolha, dessa vez, considerando a quantia mencionada.

VOCÊ SABE QUE SABE?

O procedimento que elaboramos nos ajudou a distinguir a atividade cerebral que sustenta nossas ações da que regula nossos pensamentos sobre como agimos. Nem todos disseram que pagariam mais para o item preferido (a resposta aparentemente lógica}. No entanto, para alguns, seu comportamento inconsciente era mais claro do que para outros. Como constatamos em 2013, essas pessoas demonstravam conectividade mais forte entre o córtex pré-frontal anterior e uma região do cérebro associada a cálculos. Apesar de não fazerem necessariamente as melhores escolhas, pelo menos tinham maior clareza sobre isso.

No entanto, não sabemos ainda como o córtex pré-frontal anterior contribui com a metacognição nem por que maior volume cerebral nessa região interfere na capacidade de observar os próprios pensamentos. No entanto, os resultados são o primeiro passo para identificar como aprimorar essa habilidade imprescindível. Médico s usam o termo anosognosia (em grego, sem conhecimento da doença} para descrever a pessoa com um distúrbio neurológico que a impede de saber sobre seu problema de saúde. Isso pode se dar em vários níveis. Por exemplo: um pai que não percebe sua própria doença ou a de um filho pode afetar significativamente as relações familiares, interferindo na realidade compartilhada em que as trocas sociais são construídas. Pacientes com demência não se dão conta de que perdem a memória progressivamente. Isso dificulta procurar ajuda, lembrar-se de tomar os medicamentos ou reconhecer que talvez não dirijam mais com a mesma segurança. Esquizofrenia, dependência química e acidente vascular cerebral também interferem na metacognição.

Não se pode deixar de lado, porém, a visão psicanalítica de que há pessoas que, defensivamente, desenvolvem mecanismos de negação. Nessa perspectiva, até poderiam reconhecer suas dificuldades, mas seriam relutantes em admiti-las a profissionais da área da saúde ou mesmo a pessoas da família. É tênue o limite entre essa defesa e a baixa metacognição que pode ser consequência de algumas doenças. Muitos dependentes de álcool, por exemplo, não consideram a bebida um problema, mesmo que compreendam que o excesso é prejudicial. Há consenso entre médicos e psicólogos que tratam de toxicodependência de que um dos maiores desafios no tratamento é lidar com a resistência de pessoas que precisam de ajuda mas não reconhecem a necessidade de intervenção terapêutica.

Ainda não está claro se metacognição e anosognosia são dois lados da mesma moeda, mas sabemos que estão intimamente relacionadas. Pacientes com esquizofrenia sem consciência da própria doença, por exemplo, tendem a ter o lobo frontal menor do que aqueles que reconhecem ter o distúrbio – o mesmo padrão observado nos indivíduos saudáveis com metacognição prejudicada. Considerando que doenças psiquiátricas podem provocar múltiplos efeitos no cérebro, é provável que a anosognosia esteja relacionada a alterações em redes neurais.

Talvez cheguemos à conclusão de que esse problema neurológico seja simplesmente um tipo de dificuldade metacognitiva. Estudos recentes sugerem que a capacidade de introspecção pode variar e a anosognosia pode ser uma de suas facetas. Pesquisas recentes reforçam a hipótese de diferenças na atividade cerebral associadas com a metacognição da memória e com a metacognição da percepção. Meus colegas da Universidade de Nova York e eu também observamos que pessoas com danos no córtex pré-frontal anterior apresentam dificuldade com a metacognição perceptual, mas parecem não ter problemas para julgar suas memórias com precisão.

UM MINUTO PARA ENTENDER

Em 1990, os cientistas começaram a desenvolver pesquisas para descobrir como aprimorar essa habilidade. Um estudo em pequena escala sobre os efeitos da clozapina (droga antipsicótica) em pessoas com esquizofrenia apontou que a medicação ajudou a melhorar a compreensão dos pacientes sobre seus sintomas clínicos após seis meses de tratamento. O remédio também interrompeu manifestações esquizofrênicas, por isso os pesquisadores não conseguiram determinar em quais aspectos a metacognição interferiu positivamente.

Mais recentemente, o psicólogo Robert Hester e seus colegas da Universidade de Melbourne, na Austrália, descobriram que o metilfenidato poderia aumentar essa capacidade em voluntários sadios. Nesses experimentos, os participantes realizaram uma tarefa em que deveriam detectar, sob pressão de tempo, uma cor difícil de ser percebida e detectar quando acreditavam ter cometido um equívoco – um julgamento metacognitivo. Aqueles que tomaram o medicamento reconheceram mais seus próprios erros de forma consciente do que participantes que ingeriram outras drogas, como antidepressivos comuns. O problema do uso desses produtos, entretanto, não se reduz a sua eficácia, já que ainda não estão claros seus efeitos colaterais.

A estimulação elétrica cerebral também pode ajudar a melhorar a metacognição. Utilizando a mesma tarefa do experimento anterior, uma equipe da Universidade Trinity College, em Dublin, constatou que disparar uma corrente elétrica fraca pelo córtex frontal de voluntários idosos aumenta a consciência dos próprios erros. O estímulo excita temporariamente os neurônios, o que pode colocar o lobo frontal em estado de alerta, aumentando a capacidade metacognitiva. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer para compreendermos melhor como as drogas ou a estimulação cerebral pode melhorar nossa capacidade de raciocinar sobre nossos próprios pensamentos.

Já a meditação é um excelente método disponível para aprimorar a habilidade de julgar as próprias ideias. Um estudo deste ano, conduzi­ do pelos psicólogos Benjamin Baird e Jonathan W. Schooler, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara mostrou que duas semanas de prática meditativa aumentaram a metacognição de voluntários durante um teste de memória (mas não em uma tarefa que envolvia discriminação visual). A técnica milenar pressupõe o desenvolvimento da capacidade de manter o foco ao se concentrar nos próprios estados mentais o que tende a aprimorar a habilidade de avaliar a si mesmo. De fato, diversos estudos apontam que a meditação pode provocar mudanças na estrutura, nas funções e na conectividade do córtex pré-frontal anterior. Isso sugere que a técnica pode induzir a neuroplasticidade em circuitos cerebrais estimulados por ela e envolvidos na metacognição. A hipótese, porém, é especulativa: por enquanto, não há provas concretas de alterações neurais que persistem após melhora na metacognição.

Estratégias psicológicas simples ajudam a fortalecer essa habilidade na sala de aula. No início dos anos 90, o falecido psicólogo Thomas Nelson e seu aluno John Dunlosky, então da Universidade de Washington, relataram um efeito intrigante. Voluntários que foram convidados a refletir, depois de uma pequena pausa, sobre o próprio desempenho em uma tarefa em que deveriam aprender uma lista de palavras, demonstraram maior noção sobre suas ideias do que aqueles que deveriam responder imediatamente. Desde então, muitos estudos replicaram esses resultados. Ou seja: incentivar os alunos a ponderar por algum tempo antes de decidir se estudaram o suficiente para um teste que está por vir pode colaborar com a aprendizagem de uma forma simples e eficaz

Eles também podem ter melhor discernimento se puderem criar palavras-chaves sobre os temas explorados. O psicólogo Keith Thiede, especialista em educação, pesquisador da Universidade Estadual de Boise, observou que solicitar aos alunos que escolhessem termos que resumissem determinado tópico os ajudou a desenvolver melhor precisão metacognitiva. Isso também os auxiliou a dividir melhor o tempo de estudo e a se concentrar mais nos conteúdos menos compreendidos.

No entanto, o insight sobre a própria condição nem sempre é bem-vindo na opinião do psicólogo. Em alguns cenários, seria até inapropriado. Um paciente com Alzheimer, por exemplo, poderia se angustiar ainda mais se tivesse consciência da deterioração progressiva de sua memória. Essa e outras questões éticas devem ser consideradas na medida em que a neurociência metacognitiva amadurece. E nesse processo dois pontos se destacam:

1. muitas vezes experimentamos nossos sentimentos e pensamentos de forma bastante frágil;

2. alterações na habilidade metacognitiva interferem no autoconhecimento e nas tomadas de decisão. Em casos extremos, como nos transtornos psiquiátricos, a pessoa costuma ter dificuldade de se conectar com a realidade social compartilhada. Ajustar o “foco da lente” – com a ajuda da neurociência cognitiva, da psicologia e de modelos computacionais- pode ser crucial para diminuir o sofrimento de muitas pessoas.

OUTROS OLHARES

OS NOVOS DESTINOS PARA O ALUGUEL DE BARRIGAS

Mulheres dos EUA e do Leste Europeu começam a substituir indianas e tailandesas na preferência de brasileiros que não conseguem gerar seus filhos.

Os novos destinos para o aluguel de barrigas

A enfermeira obstétrica Rose Teles Silva, de 43 anos, e o marido Roberto já tinham dois filhos de 12 e 16 anos e pretendiam ter uma menina. Problemas de saúde, porém, obrigaram Rose a fazer uma histerectomia e ela ficou sem o útero. Ela e Roberto pensaram em uma adoção, mas a saída que o casal acabou encontrando para realizar seu sonho foi contratar os serviços de uma empresa especializada em tratamentos de barriga de aluguel no exterior. Com seu próprio material genético, sem necessidade de doadores, eles encontraram uma mãe substituta na Ucrânia. A filha Clarissa nasceu no dia 30 de março de 2018, na capital Kiev. Foi um processo sem traumas. “O mais complicado é a parte emocional, porque você está distante da mãe de aluguel e fica à espera de alguma notícia”, diz Rose. “Mas tudo aconteceu como me falaram que ia acontecer, eu recebia boletins de pré-natal a cada quinze dias e Clarissa chegou com 41 semanas”.

Não existe legislação no Brasil que permita o aluguel da barriga ou de qualquer outra parte do corpo. Por aqui, quem quiser um útero de substituição tem que encontrá-lo numa parente de até terceiro grau. É a chamada barriga solidária, que não pode envolver nenhum tipo de pagamento pelo serviço. Para alugar um útero só mesmo em outros países. E para isso há empresas que cuidam de todos os trâmites jurídicos e das questões médicas envolvidas no processo, incluindo a escolha da mãe de aluguel. No Brasil, apenas uma empresa desse tipo tem um escritório ativo, a israelense Tammuz, contratada por Rose e Roberto. Fundada pelo ex-consul de Israel em São Paulo, Roy Rosenblatt-Nirr, a empresa atua em 38 países e já gerou mais de 800 bebês. Roy adquiriu experiência no assunto e se familiarizou com o processo porque ele e o marido Ronen decidiram, há nove anos, ter dois filhos por meio de barriga de aluguel, na Índia. Nasceram a menina Rotem e o menino Saar.

O mercado de barriga de aluguel é pequeno, mas crescente. No Brasil, já são 47 bebês nascidos no exterior por meio da Tammuz, que tem outros 44 processos em andamento. Entre 2017 e 2018, houve um crescimento de 35,3%, de 17 para 23, no número de crianças brasileiras nascidas em úteros de substituição no exterior. A maioria dos casais que buscam o serviço tem mais de 35 anos e todos já passaram por algum tratamento de fertilidade. “É um negócio que está crescendo no Brasil e no mundo inteiro. A diferença é que no exterior há um crescimento na demanda por casais gays e no Brasil prevalecem os héteros”, diz Rosenblatt-Nirr.

Os principais destinos para quem busca uma barriga de aluguel atualmente são Estados Unidos, Ucrânia, Albânia e Rússia. Outros países como Tailândia, Índia e México criaram limitações para estrangeiros. O maior mercado para barriga de aluguel é os Estados Unidos, onde se registram pelo menos metade dos casos do mundo e se aceitam qualquer tipo de casal ou homens e mulheres solteiros. Na Ucrânia e na Rússia há restrições para solteiros e casais homossexuais. É bom saber, de qualquer forma, que comprar serviços de barriga de aluguel custa caro. Nos Estados Unidos, gasta-se cerca de US$ 110 mil para ter um filho dessa forma e na Ucrânia o valor gira em torno de US$ 65 mil.

Os novos destinos para o aluguel de barrigas. 2

ELE QUER TER DIREITOS DE UMA GRÁVIDA

O médico Wagner Scudeler, de 40 anos, contratou os serviços de uma barriga de aluguel nos Estados Unidos e, como pai solteiro, quer ter os mesmos benefícios da Previdência Social de uma mulher grávida. Demitido no final de agosto pela Fundação ABC, Scudeler entrou com uma ação contra a antiga empregadora em que reivindica estabilidade durante o período de gestação da mãe substituta e uma licença paternidade nos moldes da maternidade, de pelo menos quatro meses. “Acabei sendo demitido quando eles ainda não sabiam que minha barriga de aluguel já estava grávida”, diz. “Para mim é um processo moral. Considero que fui discriminado por ser homem, porque se eu fosse uma mulher eles teriam me reintegrado”. Scudeler pede uma indenização de R$ 440 mil. A mãe de aluguel está de 28 semanas.

Ele acredita que, depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu tanto a existência da união homoafetiva como da família monoparental, um genitor solteiro também pode ter os mesmos benefícios de uma família tradicional. Se um pai solteiro adotar uma criança, ele tem direito a quatro meses de licença. “No meu caso é como se eu estivesse adotando o meu próprio filho”, diz. Segundo a Fundação ABC, as causas da demissão não estão associadas com a barriga de aluguel e a empresa só teve as informações sobre a gravidez nos Estados Unidos depois que Scudeler foi demitido.

Os novos destinos para o aluguel de barrigas. 3

GESTÃO E CARREIRA

SAI O DATA VENIA, ENTRA O BIG DATA

A tecnologia e seus impactos na sociedade chegaram até o mercado de direito. Veja o que muda para profissionais e escritórios.

Sai o data venia, entra o big data

O Brasil é um dos países com o maior número de advogados no mundo. De acordo com levantamento da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em 2016 eram 1 milhão de profissionais. Por aqui, a alta complexidade jurídica e o excesso de burocracia fazem do direito um terreno fértil. Por ano, o mercado jurídico privado fatura cerca de 50 bilhões de reais. Engana-se, porém, quem acredita que o setor tradicional esteja blindado das transformações que sacodem outros segmentos. O surgimento de novas carreiras, o uso de tecnologias para acelerar tarefas que levavam horas e até mesmo novos modelos de cobrança são alterações já perceptíveis no dia a dia das firmas e dos departamentos jurídicos. “Embora demorada, já conseguimos perceber que o universo da advocacia tem sido alterado em busca de se tornar mais célere e se alinhar com o mundo lá fora. Não podemos usar abotoaduras e falar latim quando todos usam emoji”, afirma Bruno Feigelson cofundador do Future Law centro de inovação voltado para o direito.

TEMPOS MODERNOS

Uma das mudanças perceptíveis no dia a dia dos escritórios de direito é a adoção de novas ferramentas para dar agilidade aos trabalhos repetitivos que antes demandavam muito tempo dos profissionais. Pesquisas de jurisprudência gestão dos processos em andamento, elaboração de peças generalistas são algumas das tarefas que, aos poucos, estão sendo executadas por robôs. Até o Supremo Tribunal Federal tem o seu. Batizado de Vitor, a ferramenta criada em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), começou a ser utilizada em agosto de 2018 para identificar e categorizar os temas que sobem para o STF.

No Tozzini Freire, um dos maiores escritórios do Brasil, que emprega 660 profissionais, há um ano e meio as maquinas começaram a ser usadas, em fase de testes, para gerar relatórios de auditoria legal, atividade realizada no processo de apuração da situação regulatória, fiscal e contábil das empresas. Com base em machine learning, a solução deu tão certo que passou a ser adotada como oficial no final de janeiro. “Esse tipo de função, quando feita por um profissional, demandava muito trabalho. Com o software, esperamos fazer o mesmo em menos tempo e de forma mais eficiente”, afirma Fernando Serec, CEO do Tozzini Freire.

Além do investimento em tecnologia, o escritório também decidiu criar um programa de inovação, o Think Future, que realiza debates mensais sobre temas que estão surgindo na área jurídica, como cidades inteligentes, questões legais dos carros autônomos e privacidade de dados. Os encontros são regados a pizza e refrigerante, lembrando o ambiente de startups. “A ideia é que a gente explore não só a tecnologia, mas tudo o que pode mudar em nossos serviços”, completa Fernando.

UM NOVO PERFIL

O posicionamento do Tozzini Freire revela uma tendência na advocacia, que está às voltas com o surgimento de novos debates e legislações. A natureza jurídica de um robô relações laborais entre motoristas e empresas, como Uber e 99, ou limites éticos da biotecnologia são alguns dos assuntos que os advogados vão precisar saber, por exemplo. “Antigamente, as leis duravam 40, 50 anos, mas os fatos sociais estão exigindo a criação de normas em uma velocidade muito rápida. Para acompanhar o profissional vai precisar de atualização constante”, afirma Bruno, do Future Law.

E foi exatamente para entender o que estava acontecendo no mercado que, no final de 2018 a advogada Camila Sardo, de 29 anos, buscou dois cursos de extensão em temas que até algum   tempo atrás não estariam em seu radar: resolução online de disputas e future thinking. Atuando há dois anos na área de direito empresarial na Raizen, empresa de produção de açúcar etanol e bioeletricidade, a jovem percebeu que poderia utilizar a prática de negociação, regulamentada pela Lei de Mediação, em 2015, para ganhar agilidade em alguns acordos que chegavam a levar meses. “O curso ajudou a entender a capilaridade desse dispositivo e a observar as melhores práticas. Hoje. usamos uma ferramenta chamada Sem Processo e chegamos a fechar disputas em um dia”, afirma Camila, que admite ter ficado receosa no início. “O direito é uma carreira mais conservadora, não temos muita margem para o risco, então no começo bate uma desconfiança”, diz. Atualmente, por causa dos cursos, a profissional está envolvida em um projeto de inovação para outras áreas do departamento jurídico da Raizen. “É importante encarar essas mudanças como oportunidade para não ficar estagnado”, completa.

De acordo com Camila Dable, da Salomon Azzi, consultoria especializada em recrutamento de advogados, além das mudanças geradas por transformações externas, as bancas e as empresas também estão em busca de um perfil de profissional mais colaborativo. que saia do “juridiquês” e consiga traçar estratégias que levem em conta o impacto nos negócios. Em épocas de crise, as companhias ficam mais zelosas com os custos financeiros e não podem mais demorar meses em uma questão ou colocar dez advogados em um projeto. “Hoje, os profissionais de direito precisam ajudar na tomada de decisões importantes, e não atuar apenas como meros conselheiros. Por isso, embora sejam especialistas, eles têm de enxergar áreas sinérgicas. Por exemplo, na aquisição de uma empresa, não basta ser alguém com conhecimento de fusões e aquisições, é preciso observar questões trabalhistas, tributárias, ambientais”, afirma Camila.

MAIS PERTO DAS STARTUPS

Não é de hoje que as grandes corporações de tecnologia têm se tornado clientes e influenciado a dinâmica dos escritórios de direito tradicionais.

O pinheiro Neto, por exemplo, mantém uma equipe interdisciplinar, com cerca de 60 advogados, para atender empresas do setor há oito anos. “Percebemos que tínhamos de atuar de forma diferente com esses clientes. São contratos, linguagem e forma de se vestir próprias”, diz Alexandre Bertoldi, sócio- gestor do escritório Pinheiro Neto. A relevância dessas organizações para os negócios do escritório, que hoje representam de 10 a 15 de seus 5 principais clientes, levou a firma a abrir uma unidade, em julho, no Vale do Silício. “Realizamos viagens e visitas constantes, então reso0lvemos criar um escritório lá”, afirma Alexandre.

Com o protagonismo cada vez maior de startups na economia, os escritórios também começam a olhar para empresas de tecnologia menores, que, mesmo não faturando bilhões, possuem potencial de crescimento. Desde 2014, por exemplo, o Tozzini Freire contratou a aceleradora ACE para se aproximar do ecossistema de startups. Além de utilizar o espaço de coworking WeWork e da incubadora InovaBra, do Bradesco, os advogados passaram a dar palestras e a participar de eventos do setor. Para atender esses clientes – iniciantes e, geralmente, sem muito capital -, o escritório, fundado em 1976, precisou flexibilizar o método de pagamento. As convencionais cobranças por hora, que não caberiam no bolso dos empreendedores, foram substituídas por um modelo em que a startup paga um preço menor no meio (quando ainda estão se consolidando) e o restante é acertado quando recebem um aporte de investimento ou abrem capital na bolsa de valores. Nesses quatro anos, cerca de 100 startups foram atendidas nesse formato pelo Tozzini Freire. “São companhias pojantes e muitas já deixaram de ser startups”, afirma Fernando Serec.

Outro exemplo é o escritório de advocacia Braga, Nascimento e Zílio, que foi além na hora de flexibilizar a cobrança de honorários para as startups. A banca, que tem 28 anos de existência e até 2016 nem sequer possuía uma área de inovação, há dois anos criou um departamento focado apenas em atender empreendedores, aceleradoras e investidoras e lançou uma moeda própria, o BNZ Points. Operando por meio de um atendimento pré-pago, os clientes adquirem pacotes da moeda virtual a partir de 2.000 pontos e sabem de antemão quantos BNZs o serviço custará. “É bem transparente. No modelo por hora os clientes não sabem exatamente quanto será cobrado e sempre sai mais caro.

Além disso, conseguimos atender negócios em fases muito iniciais, que têm bastante demanda, mas não conseguem contratar bancas tradicionais”, afirma Arthur Braga Nascimento, filho de um dos fundadores do BNZ e idealizador da área de inovação. Com mais de 100 clientes, Arthur pretende expandir as operações do braço de empreendedorismo para o exterior, abrindo um escritório em Miami e em Nova York até o final de fevereiro.

DO OUTRO LADO DO BALCÃO

Se o ecossistema de startups pode gerar oportunidades de negócio para os escritórios tradicionais de direito, as legaltech ou lawtechs, startups de tecnologia voltadas para serviços jurídicos também são uma boa opção para advogados que querem empreender. Com 102 milhões de processos em tramitação gastando cerca de 1,3% do PIB com o setor, de acordo com o relatório do Conselho Nacional de Justiça, o mercado é grande o suficiente para quem está dos dois lados do balcão.

Criada em outubro de 2017 a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (Ab2L) já reuniu mais de 100 empresas do ramo. “Muitos profissionais ficam alarmados com a chegada da tecnologia no setor. Realmente, tarefas mais básicas processuais, muitas vezes realizadas por advogados juniores, serão efetuadas por softwares. Entretanto essas mesmas soluções podem gerar novas formas de trabalho”, afirma Emerson Fabiani, coordenador do Programa de Pós­ Graduação em Direito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Segundo ele a tendência é que as ferramentas disponíveis hoje focadas em litígios de grandes volumes como questões de direito do consumidor devem se expandir para temas mais estratégicos. “Já existem soluções que ajudam a fazer pesquisas de mercado, o que pode afetar a área de fusões e aquisições por exemplo” diz.

De olho nesse potencial, a empreendedora Michelle Morcos, de 35 anos fundou a startup de negociação de acordos Justto em 2015. Advogada de formação, a paulistana trabalhou durante dez anos em escritórios de advocacia, na área de direito empresarial. “Ouvia bastante reclamação de clientes sobre a lentidão do Judiciário e como era caro realizar ações como arbitragem, que não dependiam do sistema forense. Em 2010, vi uma reportagem que dizia que a General Electric economizava 1 milhão de dólares por ano com arbitragem online. Isso acendeu uma luzinha”, afirma. Michelle reuniu 200.000 reais em economias e, junt o com o marido, o também advogado Alexandre Viola, lançaram, em 2013, o embrião da Justto: a Arbitranet, primeira câmara de arbitragem online. A ideia, embora inovadora, não ganhava escala. “Somos advogados então não entendíamos nada de marketing vendas, não sabíamos como colocar uma empresa para rodar”, diz Michelle.

Ainda conciliando os dois empregos, em 2015 os empreendedores conheceram a aceleradora ACE em um evento. Sem nenhum cliente, resolveram participar do processo de aceleração da organização, que durava seis meses. “Isso foi um divisor de águas, entendemos o que era um modelo de negócio, o mercado e as reais necessidades dos consumidores. Percebemos que, embora a Arbitranet funcionasse para alguns conflitos, os escritórios buscavam ferramentas para outros, como contestação e litígios trabalhistas.” O resultado foi a criação de outra solução, em 2016: uma plataforma de negociação de acordos. Aí nasceu a Justto. Michelle e Alexandre largaram os empregos, se mudaram para São José dos Campos, passaram a se dedicar inteiramente ao projeto. “Em termos de remuneração, o impacto foi bem alto, tivemos de mudar o padrão de vida e nos adaptar”, diz. Depois de duas rodadas de investidores anjos e um aporte de 2,5 milhões de reais em setembro de 2018, por meio de um programa do BNDES, a startup hoje tem 22 funcionários e 70 clientes, como Natura, CVC e Kroton. “Comparando com quando começamos, em 2013, percebemos que as companhias e os escritórios estão muito mais abertos à tecnologia do que antes”, diz Michelle. Abertura e flexibilidade devem ser as palavras de ordem para os profissionais de direito nos próximos anos, seja para quem quer empreender, se especializar ou mudar a forma como trabalha.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 16: 20 – 24

Pensando biblicamente

OS BENEFÍCIOS DA SABEDORIA

 

V. 20 – Observe:

1. A prudência conquista respeito e sucesso para os homens: o que lida com sabedoria com uma questão (que é senhor da sua profissão e mostra que entende daquilo que empreende, que é atencioso em seus negócios, e, quando fala ou escreve sobre qualquer assunto, o faz de maneira pertinente), achará o bem, terá uma boa reputação; será alguém diligente.

2. Mas é apenas a piedade que garantirá a verdadeira felicidade aos homens: Os que lidam prudentemente com uma questão, se forem soberbos e se apoiarem no seu próprio entendimento, ainda que possam encontrar algum bem, não terão uma grande satisfação nisto, mas aquele que confia no Senhor, e não na sua própria sabedoria, é bem-aventurado, e será bem sucedido no final. Alguns entendem que a primeira parte do versículo se refere à piedade, que é, na verdade, a verdadeira sabedoria: o que atenta prudentemente para a palavra (a Palavra de Deus, Provérbios 13.13) achará o bem, nela, e por ela. E o que confia no Senhor, na sua palavra, à qual obedece, será bem-aventurado.

 

V. 21 – Observe:

1. Aqueles que têm a sabedoria genuína terão credibilidade, isto lhes conquistará prestígio, e eles serão considerados homens prudentes e sérios, e haverá deferência para com o seu juízo. Faça o que for sábio e bom, e terás louvor por isto.

2. Os que, com sua sabedoria, têm uma firme elocução, que transmitem seus sentimentos com facilidade e graça, transmitem a sua sabedoria, e têm palavras à vontade – e o bom linguajar, bem como o bom senso, aumenta o ensino; eles difundem e propagam o conhecimento aos outros, e realizam uma boa obra com isto, e desta maneira, aumentam o seu próprio conhecimento. Eles acrescentam doutrinas, aprimoram conhecimentos, e prestam serviço à comunidade do ensino. A qualquer que tiver, e usar o que tem, ser-lhe-á dado.

 

V. 22 – Observe:

1. Sempre há algum bem a ser obtido de um homem sábio e bom: O seu entendimento é uma fonte de vida, que sempre jorra, e nunca se esgota; ele tem algo a dizer, sobre todas as situações, que é instrutivo, e útil para os que farão uso do fruto de seu entendimento; ele extrai coisas novas e velhas do seu tesouro; no mínimo, o seu entendimento é uma fonte de vida para ele mesmo, dando-lhe abundante satisfação; nos seus pensamentos, ele satisfaz e edifica a si mesmo, senão a outros.

2. Não há nada de bom a ser obtido de um tolo. Até mesmo a sua instrução, os seus discursos preparados e solenes, são apenas estultícia, como ele mesmo que é tolo, e tende a fazer com que os outros sejam como ele. Quando ele faz o melhor de si, é apenas tolice, em comparação até mesmo com as palavras comuns de um homem sábio, que fala melhor à mesa do que um tolo na cadeira de Moisés.

 

V. 23 – Salomão tinha elogiado a eloquência, ou a doçura dos lábios (v. 21), e parecia preferi-la à sabedoria; mas aqui, ele se corrige, por assim dizer, e mostra que, a menos que haja um bom tesouro interior que apoie a eloquência, ela vale muito pouco. A sabedoria no coração é a questão principal.

1. É ela que nos orienta a falar, que ensina a boca sobre o que falar, e quando, e como, de modo que o que é dito possa ser apropriado, pertinente, e oportuno; não fosse assim, ainda que o linguajar seja muito elegante, seria melhor que nada fosse dito.

2. São a força de raciocínio e de argumentação que respaldam o que falamos, e acrescentam ensino às nossas palavras; sem ambos, ainda que algo seja expresso com boas palavras, será rejeitado, como algo insignificante. As expressões estranhas e singulares agradam os ouvidos e satisfazem os caprichos, mas é a doutrina nos lábios que deve convencer o juízo, e dominá-lo, e para isto a sabedoria no coração é necessária.

 

V. 24 – As palavras suaves aqui elogiadas são as que o coração do sábio ensina, e às quais acrescenta doutrina (v. 23), palavras de conselho oportuno, instrução e consolação, palavras extraídas da Palavra de Deus, pois era isto que Salomão tinha aprendido, com seu pai, a considerar mais doce do que o mel e o favo de mel (Salmos 19.10). Estas palavras, para aqueles que sabem como saboreá-las:

1. São doces. São como o favo de mel, doces para a alma, que prova nelas que o Senhor é piedoso e misericordioso; nada é mais gratificante e agradável para o novo homem do que a Palavra de Deus, e as palavras que são tomadas emprestadas dela (Salmos 119.103).

2. São saúde. Há muitas coisas agradáveis que não são benéficas, mas estas palavras agradáveis são saúde para os ossos, para o homem interior, e também são doces para a alma. Elas fazem com que se alegrem os ossos que o pecado quebrantou. Os ossos são a força do corpo, e a boa palavra de Deus é um meio de força espiritual, que cura as doenças que nos enfraquecem.