PSICOLOGIA ANALÍTICA

A FUNCIONALIDADE DAS EMOÇÕES POSITIVAS E NEGATIVAS

É preciso compreender o que há de mais recente a respeito da experiência emocional e esclarecer aspectos referentes à funcionalidade e à disfuncionalidade das emoções “positivas e negativas”.

A funcionalidade das emoções positivas e negativas

Definir emoção é uma tarefa que exige algumas considerações prévias. Do ponto de vista do senso comum, as emoções são experiências vividas em primeira pessoa e, por isso, quando são referidas, o são pela perspectiva subjetiva de quem as experimenta. Quando observadas no outro, através das expressões faciais e corporais, muitas vezes são definidas por analogia com a experiência de quem observa. Reeve refere-se à emoção como um constructo psicológico que coordena as dimensões subjetiva, biológica, propositiva e social. Como fenômeno multidimensional, a emoção só pode ser definida como um sistema sincronizado que coordena sentimento, ativação biológica, propósito (direção a metas) e expressão social.

Este artigo aborda o que há de mais recente sobre a experiência emocional. Iniciaremos introduzindo as dimensões da emoção para em seguida esclarecer aspectos relacionados à funcionalidade e à disfuncionalidade das emoções “positivas e negativas”.

DIMENSÕES DA EMOÇÃO

Do ponto de vista da ciência, o aspecto subjetivo é apenas um dos modos de se ter acesso à emoção. Para os cientistas, a emoção é um constructo que envolve o entrelaçamento de variáveis subjetivas e objetivas, incluindo aspectos corporais, sociais e motivacionais.

SENTIMENTO

Aspecto subjetivo da emoção, refere-se à consciência fenomenológica do sujeito que se emociona. Envolve os processos cognitivos de construção e atribuição de significado ao evento emocional. Nesse sentido, implica os processos de percepção, processamento avaliativo e memória que conferem à experiência o significado e a importância pessoal característicos da emoção. Podemos entender o sentimento como a emoção vista de dentro, a partir do olhar do sujeito que a experimenta.

ATIVAÇÃO CORPORAL

Envolve a ativação dos sistemas fisiológicos responsáveis pelo preparo e regulação corporal para a adaptação ao evento emocional. O preparo do corpo para a ação necessária à adaptação implica o recrutamento dos sistemas corporais que respondem pelo funcionamento das vísceras e dos músculos.

MOTIVAÇÃO

Representa o componente pro­ positivo da emoção. Envolve o direcionamento da ação emocional em relação às metas implicadas na emoção. Pode ser investigada objetivamente através da observação da conduta.

EXPRESSÃO

Aspecto comunicativo e social da emoção. Envolve o comportamento não verbal da emoção, inclusive as expressões faciais, a para-linguagem, a postura corporal e os gestos.

ALGUMAS TEORIAS

De acordo com Ekman, os seres humanos nascem com seis emoções básicas, que têm valor de sobrevivência para a espécie: raiva, tristeza, medo, nojo, alegria, surpresa. Existem indícios (como estudos que revelam que crianças cegas e surdas de nascimento apresentam as expressões faciais das emoções citadas) que comprovam que as expressões faciais são inatas e não aprendidas socialmente.

Dessas emoções, quatro delas são negativas (raiva, medo, tristeza e nojo), uma é positiva (alegria) e a outra é neutra (surpresa). Isso evidencia que os circuitos de emoções negativas já se encontram prontos quando nascemos, ou seja, temos muito mais emoções negativas inatas do que positivas.

Para Plutchik, existem oito emoções básicas: raiva, medo, tristeza, nojo, surpresa, interesse, confiança e alegria. Segundo o autor, essas emoções representam um gatilho de comportamento com elevado valor de sobrevivência. As emoções básicas ou primárias para ele podem combinar-se, produzindo uma gama variada de outras emoções.

De acordo com Haidt, as reações às situações desagradáveis e às ameaças são mais facilmente percebidas, fortes, e inibem as respostas a situações prazerosas e às oportunidades. No processo de seleção natural, os peixes, por exemplo, reagem mais intensamente ao perigo do predador do que a uma oportunidade de comida.

Segundo o autor, a mente humana reage com mais rapidez, força e persistência a episódios. Assim, simplesmente não podemos perceber tudo como sendo bom, porque nossa mente foi projetada para reagir mais intensamente a ameaças, violações e limitações.

TEORIA EVOLUTIVA

Segundo Seligman, sentimentos positivos em relação a uma pessoa ou objeto provocam aproximação, enquanto sentimentos negativos geram afastamento.

Para o autor, a teoria evolutiva mostra que as emoções negativas funcionam como defesa contra ameaças externas. Por exemplo, tristeza e depressão geram retraimento e desistência; ansiedade e n1edo levam à preparação para luta ou fuga, geran1 proteção; raiva causa disposição para atacar.

As emoções positivas têm papel importante na evolução. Elas fortalecem nossos recursos intelectuais, sociais e físicos, criando reservas que podemos utilizar quando aparecem oportunidades e ameaças. Quando estamos em estados emocionais positivos, somos vistos como mais amáveis e atraentes e as relações sociais têm mais chances de se desenvolverem e se solidificarem. Segundo Fredrickson, emoções positivas estão associadas a:

Expansão do foco de atenção;

Ampliação do uso da informação capturada;

Aumento da criatividade;

Uso de estruturas mais gerais de conhecimento;

Ampliação de escopo da ação;

Construção de recursos físicos e psicológicos a serem usados no futuro;

Construção de recursos sociais para relações positivas com aqueles que funcionam em reciprocidade;

Proporcionam um escudo contra depressão e doenças;

Aumentam a expectativa de vida.

A emoção positiva aumenta a imunidade. Pessoas com emoção positiva alta desenvolvem menos resfriados do que as com emoção positiva média. E estas, por sua vez, têm menos resfriados do que as pessoas com emoção positiva baixa.

Emoções positivas constroem e reforçam forças pessoais, criam bons hábitos mentais, constroem e solidificam relações significativas e melhoram a saúde física. Elas reduzem os níveis de hormônios ligados ao estresse e liberam mais dopamina e opiáceos. Segundo Fredrickson, emoções positivas criam uma espiral ascendente de emoções positivas, ou seja, experiências de emoções positivas ampliam repertórios de pensamento-ação momentâneos que constroem recursos pessoais duradouros, os quais transformam as pessoas e geram aspirais ascendentes.

Para a autora, emoções negativas limitam as ideias sobre ações possíveis e propiciam retração social. As emoções positivas ampliam as ideias, geram flexibilidade e abertura cognitiva e comportamental, melhoram a solução de problemas, criatividade e facilitam as interações sociais. Por exemplo, a alegria desperta a necessidade de brincar e ser criativo. O interesse estimula a exploração e o aprendizado.

Para Portella, é importante trabalhar emoções positivas para ampliar a cognição, assim fica mais fácil o trabalho com estilo atributivo, reestruturação de crenças disfuncionais e fortalecimento de crenças funcionais.

Fredrickson define dez formas de positividade ou estados positivos que “colorem” o dia a dia das pessoas. São elas: alegria, gratidão, serenidade, interesse, esperança, orgulho, diversão, inspiração, admiração e amor.

Em suma, emoções positivas melhoram a qualidade de vida, ampliam a cognição, constroem forças pessoais e solidificam as relações significativas. No entanto, ao contrário do que o senso comum supõe, as emoções negativas também têm suas funcionalidades e possuem, inclusive, valor de sobrevivência para nossa espécie.

RAIVA

Os teóricos do desenvolvimento Sternberg e Campos fizeram uma metáfora para equiparar a raiva dos bebês aos sentimentos que possivelmente geram raiva em crianças e adultos : “Segurar seus braços de modo que ele não consiga se libertar”, ou seja, algum tipo de obstáculo ou entrave à persecução dos seus objetivos faz com que a raiva seja muitas vezes ativada.

Ativar a raiva pode ser benéfico. O prejudicial é quando ela extrapola os limites de nosso controle, torna-se fúria e nos leva a reagir de forma inadequada ao contexto, levando-nos a reagir de forma agressiva despropositadamente.

Para Strongman, a raiva não deve ser sentida como negativa, pelo contrário, deve ser vista como funcional, pois proporciona ao indivíduo energias para a sua defesa. Ou seja, inclui a organização e regulação de processos fisiológicos e psicológicos relacionados com a autodefesa e com o domínio, além da regulação dos comportamentos sociais e interpessoais.

Ekman destaca funções úteis dessa emoção, como, por exemplo, agir para promover mudanças ao se deparar com uma injustiça ou defender a integridade física ou moral de si mesmo ou de alguém estimado.

Ainda para o mesmo autor, o que nos motiva a regular nossa raiva é o nosso interesse em continuar a relação com a pessoa de quem sentimos raiva. Se a pessoa é nossa amiga, cônjuge ou filho, tendemos a regular a raiva, uma vez que acreditamos que, se continuarmos a senti-la e não nos controlarmos, poderemos danificar inevitavelmente o nosso relacionamento com eles. Daí ser de suma importância sermos capazes de gerir a nossa raiva.

Nesse sentido, a raiva é a emoção que as pessoas têm mais dificuldade em regular. Contudo, é a “mais sedutora das emoções negativas, em que o monólogo autojustificativo interior a alimenta, enche a mente com os argumentos mais convincentes para lhes dar largas”, dando energia ao indivíduo.

 FUNCIONALIDADE NAS NEGOCIAÇÕES

Numa série de estudos, os participantes tiveram a tarefa de vender pelo maior preço possível um celular e esse mesmo montante arrecadado nas negociações se reverteria em ganhos para seus próprios bolsos. No entanto, alguns foram escalados para atender compradores irritadiços e outros para atender compradores alegres ou neutros; o resultado foi que os compradores mais irritados conseguiram maiores abatimentos, diminuindo assim os dividendos dos vendedores. O estudo sugere que pessoas com raiva eram vistas como poderosas e de alto status na situação.

 FUNCIONALIDADE NO AUMENTO DA CRIATIVIDADE

Os psicólogos usaram o teste de utilidade do tijolo para medir a criatividade e fizeram experimentos com dois grupos que foram submetidos a dois testes, o primeiro somente para suscitar feedbacks negativos ou positivos, e o segundo, sim, era o teste da criatividade com os tijolos. Ocorreu que os que tiveram feedbacks irritados (negativos) se saíram melhor do que os que tiveram os feedbacks neutros ou positivos.

CULPA

Parte dos estudos de Tangney) nos ajuda a ter um olhar mais amplo e menos estereotipado acerca dessas emoções (culpa e vergonha).

A vergonha e a culpa fazem parte de um conjunto de emoções autoconscientes, que surgem a partir da autorreflexão e da autoavaliação. São emoções negativas relevantes para o indivíduo, que ocorrem em resposta a fracassos ou transgressões e cumprem uma função importante tanto em nível individual como relacional. Esta autoavaliação poderá estar implícita ou explícita, pode ser consciente ou inconsciente. No entanto, de uma maneira ou de outra, a pessoa é o objeto dessas emoções.

Aumento da fibra moral e a motivação para sermos mais conscienciosos.

Um treinador de futebol que possa estar tendo problemas com o estilo de conduta de algum joga­ dor pode unir o time e iniciar um discurso a fim de conscientizar todos sobre a importância da colaboração mútua, para que se chegue a um bom resultado, direcionando seu discurso propositadamente para inflar certa dose de culpa naqueles que não estão sendo coesos com o time; ele assim consegue acionar um poderoso gatilho interno nos desviantes, que desejarão colaborar ainda mais para compensar os erros.

CULPA E ARREPENDIMENTO CONSTRUTIVO

Segundo estudos publicados pelo Bureau of Justice dos Estados Unidos, o índice de presos libertos que voltam a cometer transgressões chega a 67%. Tangney explica que os presos com tendência à culpa sofriam mais pelos atos cometidos e eram mais motivados a se confessar, pedir perdão e reparar os problemas que causaram e, após serem libertados, apresentavam menor probabilidade de serem presos novamente.

TRISTEZA

Em nossa cultura ocidental, o hedonismo acaba fazendo com que rechacemos mais avidamente a vivência de certos estados tidos como “negativos”, assim como é o caso da tristeza. Contudo, segundo Vaillant, eles são extremamente úteis, pois as emoções negativas trazem benefícios a curto prazo.

Para Ekman, a mensagem comunicada por intermédio da tristeza é: “Estou sofrendo; console-me e me ajude”. Complementa o autor dizendo que “quando nos sentimos tristes é que somos capazes de enriquecer a experiência do que a perda significa, permitindo ao indivíduo reconstruir os seus recursos e conservar a sua energia”.

Segundo Melo, a tristeza tem função adaptativa, pois é capaz de levar o sujeito a avaliar as fontes dos problemas, a procurar suporte social e a favorecer o estreitamento das relações com os outros. A tristeza ainda aparenta ser uma emoção­ chave para o desenvolvimento da capacidade de empatia, dado que a inibição comportamental e a lentificação que a acompanha favorecem e dão espaço para que o indivíduo se coloque na perspectiva do outro.

Para Goleman, a tristeza “força uma espécie de retirada reflexiva das atividades da vida, deixando-nos num estado de suspensão para chorar a perda, meditar sobre o seu significado e, finalmente, fazer os ajustamentos psicológicos necessários e os novos planos que permitirão à nossa vida prosseguir”.

ANSIEDADE

A ansiedade é um sistema de resposta cognitiva, afetiva, fisiológica e comportamental complexo que é ativado quando eventos ou circunstâncias são consideradas altamente aversivas, porque são percebidas como eventos imprevisíveis, incontroláveis, que poderiam potencialmente ameaçar os interesses vitais de um indivíduo.

Viver sem esse “sistema de reposta” seria prejudicial aos seres humanos e a história de nossa evolução nos ensina isso. Contudo, não só nas eras remotas como nos dias atuais a ansiedade, em doses passageiras e adequadas ao contexto, nos motiva, energiza e nos ajuda a alcançar nossos objetivos. Uma vida sem ansiedade seria enfadonha e colocaria nossa mente num estado de hibernação.

É nos momentos ansiosos que conseguimos acessar as relíquias remanescentes em nosso disco rígido, propiciando um aumento da percepção, inclusive uma ampliação da visão, capaz de enxergar a uma grande distância, além de uma amplificação da audição, capaz de sintonizar com maior clareza ruídos aleatórios vindos de uma determinada direção, uma maior capacidade de solução de problemas.

 

O LADO NEGATIVO

Em 1991, Ed Diener e seus colaboradores fizeram um estudo sobre o custo das emoções positivas e encontraram vários pontos em que a experiência positiva muito intensa pode ter um custo:

EFEITO CONTRASTE – Esse efeito ocorre quando a euforia emocional tira o brilho de outros eventos. Exemplo: ganhar um milhão de reais na loteria faz com que achar cem reais na rua ou ganhá-los numa raspadinha pareça sem valor;

EFEITO DE TRANSFERÊNCIA – Esse efeito ocorre quando as pessoas amplificam mentalmente as experiências positivas e automaticamente amplificam as negativas. Pessoas que dão pulos de alegria por causa de uma vitória são vulneráveis a um sentimento de perda total ao sofrer uma derrota.

Algumas pesquisas, citadas por Todd B. Kashdan e Robert Biswas-Diener, sugerem, ainda, que nem sempre estados emocionais positivos são proveitosos, e que reconhecer isso nos dá certa vantagem frente aos que tendem somente a evitar as emoções tidas como negativas ou desagradáveis. Algumas delas:

A FELICIDADE PODE INTERFERIR COM O SUCESSO A LONGO PRAZO – Shigehio e seus colaboradores internacionais compilaram verbetes de felicidades em 30 países e viram que em 24 deles a felicidade estava associada à sorte, acaso ou destino. Justamente um dos países mais pragmáticos ficou na minoria desses seis que não atribuíam à sorte o seu bem-estar e qualidade de vida. A felicidade era tida como resultado de um bom planejamento e trabalho árduo para se ter saúde, emprego, parceiros e lazer.

PESSOAS FELIZES SÃO MENOS PERSUASIVAS – Para persuadir alguém, você tem que convencê-lo de que sua ideia é melhor que a de outra pessoa e que tem mérito. Não adianta tão somente um sorriso ou transmitir boas emoções, isso na verdade pode gerar efeito oposto, diminuindo a credibilidade e levando a suspeitas.

Saber comunicar a mensagem de forma concreta e detalhada não é característica de pessoas cheias de emoções positivas. Estas tendem a passar por cima de detalhes e se fixar numa imagem geral, o que em certas situações da vida pode ser vantajoso emocionalmente. Na questão de persuasão, vimos que não é o caso, pois as pessoas respeitam autoridades nos assuntos e se predispõem a seguir a liderança de peritos.

Em pesquisas nas quais juízes teriam que avaliar os argumentos referentes a questões do cotidiano, verificou-se que pessoas infelizes criaram argumentos muito mais fortes que as felizes. Resultado: a qualidade dos argumentos das pessoas infelizes era 25% mais eficaz e 20% mais concreta do que a das pessoas felizes.

“Aquele que transforma embeleza todas as emoções, sejam de melancolia, de tristeza, prazer ou dor, vive na perfeita alegria:’ Graça Aranha (um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1897).

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.