PSICOLOGIA ANALÍTICA

IMAGINAÇÃO TURBINADA

o universo fantástico dos heróis das histórias em quadrinhos nos ajuda a entender a capacidade do cérebro de apreender informações e fazer distinções entre elas.

Imaginação turbinada

“Universos inteiros cabem confortavelmente dentro do crânio. Não apenas um ou dois, mas infinitos mundos podem ser acomodados nesse osso oco, escuro e molhado sem quebrá-lo”, disse o escritor de histórias em quadrinhos escocês Grant Morrison. De fato. Personagens de quadrinhos vivem numa espécie de realidade ampliada, um lugar onde é possível transcender nossas capacidades naturais. Quem já esteve num evento de cosplay certamente encontrou pela frente zumbis, personagens de mangá e diversos vilões e heróis. Há alguns meses, vários desses apaixonados por esse mundo de fantasia transpiravam sob a maquiagem no clima quente do verão do Arizona enquanto caminhavam pela convenção Phoenix Comicon. Nos quatro andares dessa imensa estrutura, que se espalha pelo espaço subterrâneo de vários quarteirões da cidade, estavam demônios carregando arcos, martelos medievais e sabres de luz.

Nem sempre, porém, nos damos conta de que as histórias dos super-heróis dizem respeito a dramas humanos em larga escala: o Super-Homem voa para resgatar o planeta de um fim trágico. O Homem-Aranha escala edifícios para escapar de vilões. E, nós, reles mortais, temos um poder do qual nem sempre nos damos conta: um sistema nervoso que oferece, entre tantas outras coisas, muitas maneiras de participar desse universo fantástico. Nossos olhos podem captar em abundância cores, luzes e movimentos, traduzidos pelo cérebro como algo inteligível. Os sistemas perceptual e cognitivo dependem em grande parte da busca, da identificação e do destaque de contrastes – um princípio também fundamental para histórias em quadrinhos, que utilizam como tema central a luta do bem contra o mal.

O ganhador do Nobel de fisiologia Haldan Keffer Hartline, da Universidade Rockefeller, identificou essa capacidade do cérebro nas células nervosas da retina, que reveste a superfkie interior dos olhos humanos. Ele observou que a excitação de um neurônio leva à inibição de outros ao redor com os quais compete. Ou seja: resposta neural mais intensa a estímulos visuais anda de mãos dadas com o bloqueio de impulsos antagonistas próximos. Hartline chamou essa atividade de “inibição lateral”.

O processo de excitação versus inibição amplia os contornos de objetos enquanto os comparara. Cálculos similares operam na parte exterior do sistema visual com o objetivo de alcançar praticamente todas as áreas cerebrais. A inibição lateral também pode desempenhar um papel na forma como comparamos ideias e argumentos. É provável que distinguir o mundo (aumentando as diferenças entre as coisas)

seja uma “obrigação neural”. Não somos capazes de perceber vermelho-esverdeado ou amarelo-azulado, por exemplo, porque as cores correspondentes são processadas como tipos opostos de informação pelos neurônios visuais. São como óleo e água para a mente. No salão de exposição da Phoenix Comicon, um dos nossos criadores de quadrinhos favorito, Dennis Calero, afirmou que a gestão de dualidades também é crucial para histórias de super-heróis. É comum encontrar protagonistas com personas opostas: os leitores geralmente se identificam com Clark Kent e Peter Parker em vez de Super-Homem e Homem-Aranha. E a figura do vilão tem o mesmo peso. Sem uma mente maligna convincente, as histórias fracassam. A oposição entre luz e trevas dá forma à narrativa.

As imagens a seguir brincam com a ideia de heróis e superpoderes. Desafiam nossos circuitos visuais e cognitivos para classificar figuras como possíveis versus impossíveis. A ambiguidade inerente à percepção visual que você está prestes a conhecer torna essa tarefa digna do Homem de Aço.

Imaginação turbinada. 2 CAMUFLAGEM DE CAMALEÃO

O artista chinês Liu Bolin (acima), usa seu corpo como tela para desaparecer. Ele e sua equipe chegam a passar dias se preparando para uma sessão de fotos. Bolin já se misturou com grandes construções históricas, livrarias e até com uma escavadeira com a mesma facilidade de transformação da metamorfo Megan Morse, da publicação Teen Titans, que pode controlar sua estrutura molecular para se esconder em qualquer ambiente. E enquanto ele se esconde, nossos olhos se esforçam para encontrar o artista. A pintura reduz o contraste entre as extremidades de seu corpo e o fundo, subvertendo os princípios de inibição lateral que nos ajudam a encontrar os contornos das outras imagens.

Imaginação turbinada. 3 A MENINA QUASE INVISÍVEL

Sue Richards, também conhecida como a Mulher Invisível do famoso Quarteto Fantástico, pode manipular ondas de luz para desaparecer. Essa imagem produzida pela fotógrafa Laura Williams, de 21 anos, moradora de Cambridge, na Inglaterra, é fantástica. À primeira vista, o cérebro não hesita em perceber a garota como parcialmente invisível, em vez de concluir que, indubitavelmente, o cenário é impossível.

Todos temos modelos mentais do corpo humano, por isso podemos deduzir que ela está sentada atrás do espelho – e não que seja uma cabeça sem corpo, apenas com os membros. No entanto, a capacidade do sistema visual de vincular a paisagem do fundo da imagem com o interior do espelho (que obviamente reflete o que está na frente, e não atrás) é ainda mais poderosa do que os esquemas corporais do cérebro. Este tipo de costura perceptual, que a Gestalt, ou psicologia da forma, de origem alemã, chama de “lei da boa continuação”, supera as hipóteses mentais sobre a forma do corpo humano. Como resultado, num primeiro momento imaginamos uma menina parcialmente invisível sentada atrás de uma moldura vazia em vez de percebermos a paisagem refletida.

Imaginação turbinada. 4

TEIA DE ENGANOS

Distinguir um herói de um vilão pode ser uma questão de perspectiva. Na imagem do mestre da arte 3D Kurt Wenner, exibida na Universal Studios do Japão para comemorar seu 10º aniversário em 2011, apenas quem observa de determinado ângulo (muito parecido com o seu ponto de vista enquanto lê este post) consegue ver o Homem-Aranha entre os prédios de Nova York se preparando para disparar teias na direção do equilibrista. Da perspectiva de quem anda na armação de fios é possível enxergar o super-herói como realmente é: uma enorme pintura no chão. A ilusão, chamada de pintura anamórfica, aproveita a maneira como o sistema visual usa pistas, como sombreamento, perspectiva e tamanho relativo dos objetos, para produzir a percepção da distância, forma e profundidade.

Imaginação turbinada. 5

SUPERPAI

A fotógrafa italiana Giulia Pex tem uma série de imagens chamada Pai, você é meu super-herói favorito, que combina desenhos, ilustrações e fotografias para mostrar a maneira como ela enxerga os superpoderes paternos. Os artistas sabem que linhas num desenho ou numa pintura servem como atalhos visuais para o contorno de um objeto e que os percebemos por meio da inibição lateral. Além disso, neurônios nos primeiros estágios do processamento visual não são capazes de distinguir entre uma forma sólida e um quadro vazio. Como resultado, os olhos aceitam facilmente desenhos feitos com traços, mesmo quando são oferecidas apenas as bordas. De fato, o esforço extra necessário para interpretar a imagem pode tornar esse tipo de figura até mais atraente para o sistema visual, fazendo com que nossa atenção seja capturada por um longo tempo. Aqui, Giulia Pex engana nossos neurônios estimulando-os com linhas: elas formam o desenho de uma capa com detalhes suficientes para nos fazer enxergar o status de super-herói de seu pai.

Imaginação turbinada. 6

SUBINDO PELAS PAREDES

A instalação interativa Bâtiment, do artista Leandro Erlich, exibida na edição de 2004 do festival La Nuit Blanche, em Paris, é composta de uma detalhada fachada que fica no chão. Com um grande espelho angular à frente, a face do prédio é refletida na vertical, assim como os visitantes, que podem fazer poses, parecendo estar pendurados às janelas com os dedos ou escalar paredes ao estilo do Homem-Aranha. Similar ao mural de Wenner, essa ilusão tem a ver com a perspectiva, o que permite aos visitantes uma experiência assustadora e impossível.

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OUTROS OLHARES

LOROTA LUCRATIVA

Propaganda da Empiricus, empresa de análise de investimentos, vira fenômeno no YouTube graças a uma papagaiada mentirosa da agora famosa Bettina.

Lorota lucrativa. 2

Poucos conseguiram passar os últimos dias alheios a Bettina Rudolph. Ela apareceu antes dos gols da rodada, de episódios antigos de novelas, até da Galinha Pintadinha, e virou um fenômeno do YouTube. Na manhã da terça-feira 12, a jovem administradora deu o primeiro passo para ficar conhecida ao dizer orgulhosamente para a câmera que havia se tomado milionária aos 22 anos de idade. “Comecei com 19 anos e 1.520 reais. Três anos depois, tenho mais de 1 milhão. Simples assim”, ela afirma, no vídeo, e explica seu método: “Eu comprei ações na Bolsa de Valores”. Bettina não é uma atriz lendo um roteiro de ficção. Ela trabalha como redatora publicitária na Empiricus, empresa que vende análises de investimento. Visto mais de 20 milhões de vezes, o vídeo provocou incredulidade óbvia, reações raivosas contra a jovem, debates sobre machismo, memes para todos os gostos, um funk em sua homenagem, uma notificação do Procon à Empiricus e também a ilusão da riqueza fácil em 1,1milhão de pessoas. E o número de interessados que se cadastraram no site da Empiricus na última semana sonhando enriquecer como Bettina.

O problema é que, como a própria Bettina admitiu depois que o assunto explodiu nas redes sociais, a conta dos 1.042.000 reais inclui muito mais do que um investimento certeiro em ações: ela economiza metade do salário todos os meses e 100% dos bônus anuais que recebe no emprego. Além disso, ganhou 35.000 reais do pai (que também pagava suas contas) e junta outras fontes de renda não esclarecidas, que usou ao longo desse período em novos aportes. ”Tanto no Japão quanto nos Estados Unidos, um caso como esse seria passível, no mínimo, de revogação da licença da empresa”, afirma Alexandre Kawakami, advogado especialista em mercado de capitais e compliance, referindo-se à papagaiada promovida pela Empiricus. A Bolsa de Valores de São Paulo vive um ótimo momento. Na segunda-feira 18, o Índice Bovespa, que reúne as ações negociadas no pregão, atingiu a inédita marca de 100.000 pontos. A boa fase atrai a atenção de milhares de brasileiros que nunca investiram na vida, interessados em aumentar os rendimentos com a compra e a venda de ações. A B3 (nome oficial da bolsa) terminou 2018 com mais de 813.000 pessoas autorizadas a negociar no pregão, uma elevação de 31% em relação ao ano anterior. Só nos primeiros dois meses de 2019, esse número já pulou para 920.000. É gente que está arriscando uma parte de seu patrimônio e tem direito a uma informação confiável e segura.

A Empiricus é uma entre várias empresas que auxiliam potenciais investidores a compreender o funcionamento do mercado de ações – e fazem indicações de papéis que podem, no seu entender, trazer rendimentos a quem apostar neles. Trata-se de um negócio legítimo que, para se manter idôneo, precisa de regras, como qualquer ramo empresarial. E a Empiricus faz o que pode para burlar essas regras. ”A CVM (Comissão de Valores Mobiliários, órgão regulador do mercado) pode aplicar diversas penas pelo descumprimento de suas normas, que vão de simples advertências a multas de até 50 milhões de reais”, explica Otavio Yazbek, ex-diretor da CVM.

Fundada há dez anos por Felipe Miranda e três amigos, a Empiricus nasceu oficialmente como uma casa de análise de investimentos. Em 2017, justamente por causa de suas propagandas enganosas, Miranda mais dois de seus principais analistas foram suspensos pela Apimec, entidade que autorregula o trabalho de analistas e profissionais de investimento. Em vez de corrigir seu comportamento, o fundador mudou o objeto social da companhia e ela passou a ser uma ”empresa de comunicação”, que produz conteúdo de orientação em investimentos para 350.000 assinantes. Com a alteração, a empresa entrou com uma liminar para dar baixa em seu registro na CVM – e assim ficar livre da fiscalização do órgão. A medida, considerada uma manobra para burlar a fiscalização, foi derrubada nos tribunais em dezembro de 2018, mas ainda não há decisão final. Enquanto o caso não se encerra, a CVM aguarda para tomar qualquer atitude, pois, afinal, a Empiricus se desfiliou de seus quadros. O Conar, que regulamenta a atividade publicitária, não instalou processo contra o anúncio. Miranda afirma que não respeita a CVM como órgão regulador e que submeter seus relatórios ao crivo da instituição, como toda empresa de análise de investimentos é obrigada a fazer, seria “censura”. Verdade seja dita, nem a CVM atuou com rigor no caso: a Empiricus responde a quinze procedimentos da época em que ainda era filiada – nenhum resultou em punição.

Felipe Miranda nega que Bettina esteja mentindo na propaganda. “Fazemos um marketing histriônico, exagerado, mas nunca mentiroso”, diz. Ele acredita que, se campanhas de cerveja podem mostrar mulheres de biquíni quando se abre uma latinha, a Empiricus pode prometer ganhos irreais. Miranda está feliz com a repercussão do vídeo. Só teme pela segurança de Bettina, a quem recomendou que passe um tempo em casa e ofereceu guarda-costas. Enquanto as autoridades seguirem ignorando o caso, Miranda continuará enriquecendo – mesmo que não invista real em ações.

Lorota Lucrativa

Assista ao famoso vídeo sobre o investimento de Bettina.

https://www.youtube.com/watch?v=ugQtUDRtkAk

GESTÃO E CARREIRA

NÃO SEJA CRIATIVO

“O importante é não parar de questionar. A curiosidade tem sua própria razão de existir”.  Albert Einstein

Não seja criativo

Este é um artigo da série sobre criatividade e neste post ficamos de conversar sobre mindset.

Este termo quer dizer configuração neural. A tradução literal do inglês para o português é mentalidade. Aqui estou falando sobre mindset para a criatividade, ou seja, o quanto sua mentalidade está disposta a criar.

No ambiente dos negócios, criatividade diz respeito a ter novas ideias, novas formas de fazer ou de gerir e pode significar não só a sobrevivência, como o protagonismo da empresa em relação aos seus resultados no mercado.

Configurar uma nova mentalidade significa racionalizar como ações levam a resultados e mudar primeiro o modo de pensar, para mudar o modo de agir. Configurar mentalidade para a criatividade significa entender que todo ser humano pode ser criativo – se quiser – já que criatividade se trata de uma habilidade e todas as habilidades podem ser desenvolvidas pelo humano, repetindo, se ele quiser.

Antes de falar mais sobre mindset, vou falar como não ser criativo. Se bem que, entender o que não funciona também ajuda a configurar a mente. É fato que inúmeros fatores no ambiente atrapalham o desenvolvimento da criatividade, mas hoje vamos conversar apenas sobre o que está no seu controle direto: a sua mentalidade, independentemente do contexto.

Então fique atento em como não ser criativo:

PREOCUPE-SE COM AS CRÍTICAS:

Um dos fatores que mais prejudicam o início do processo criativo é quando você se preocupa demais com o que vão dizer sobre as suas ideias e por vezes chega até a se intimidar em expô-las. Não funciona. Linus Pauling – um grande criativo, ganhador de um prêmio Nobel na área de química na década de 1950 – já dizia que para ter uma boa ideia, tem que ter muitas e também jogar muitas fora. Fale, exponha, arrisque-se. Não tenha vergonha de criar.

SINTA-SE CONFORTÁVEL:

Acreditar que já chegou ao resultado ótimo é um dos fatores que mais atrapalham ter novas ideias. Criatividade pressupõe inquietação, movimentação, insatisfação. A pessoa criativa não se acomoda. Olhe para as ideias com generosidade, mas com desafio. Será que algo pode ser feito ainda melhor?

PREOCUPE-SE (DEMASIADAMENTE) COM AS REGRAS:

Todas as grandes criações que mudaram o mundo precisaram romper algum tipo de regra. A regra tem a intenção linda de organizar. Quando ela ultrapassa essa intenção e começa a enrijecer, é hora de conseguir ver através da regra e questioná-la. Tente, negocie, proponha novas regras. Questione.

TENHA PRESSA:

O cérebro é uma máquina intrigante! Ele funciona analogicamente a um fogão a lenha: precisa aquecer. Para ter uma boa ideia, pare um pouco e entenda que você precisa engolir a pergunta para o cérebro lhe dar a resposta.

Então faça-se a pergunta e desfoque, dê um tempo. Vá ler outras coisas. Vá fazer outras coisas. Vá limpar algo, correr, andar de bicicleta. Até ir dormir vale. Mas dê um tempo interno para o desafio. O que vem de resposta não é “Eureka!”, as grandes ideias não são brilhantes, incríveis e “do nada”. Grandes ideias são resultado de toda a lenha que você pacientemente disponibiliza ao fogão.

Sim, a pessoa criativa é um pouco pentelha. Um pouco bagunçada. Bastante questionadora. Ela é curiosa, flexível, autoconfiante, otimista. É bem isso mesmo. Seja bem-vindo! Então, para começar a configurar o seu mindset para ser uma pessoa cada vez mais criativa, comece eliminando os pressupostos e, antes de se configurar para ser, evite fazer aquilo que atrapalha ser.

 

CECÍLIA BETTERO – é administradora, empresária em consultoria e treinamento gerencial. Pesquisadora na área de criatividade, mestranda em ciências da comunicação na Universidade Fernando Pessoa em Portugal – w.w.w.ceciliabettero.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 13: 5-14

Pensando biblicamente

O JUSTO, EXCLUSIVAMENTE FELIZ

 

V. 5 – Observe:

1. Onde reina a graça, o pecado é odioso. É o caráter inequívoco de todo homem justo o fato de que ele detesta a mentira (isto é, todo pecado, pois cada pecado é uma mentira, e particularmente toda fraude e falsidade nos negócios e no convívio), não somente pelo fato de que ele não dirá uma mentira, mas porque ele abomina a mentira, por um princípio reinante e enraizado de amor à verdade e à justiça, e de conformidade com Deus.

2. Onde reina o pecado, o homem é odioso. Se os seus olhos estivessem abertos e a sua consciência desperta, ele odiaria a si mesmo e se arrependeria, no pó e na cinza; no entanto, ele odeia a Deus e aos homens bons; e, em particular, é a mentira que o torna assim, e não há nada que seja mais detestável do que ela. E, ainda que ele possa pensar em abandoná-la, por algum tempo, ainda assim ele será dominado pela vergonha e pelo desprezo, no final, e enrubescerá ao mostrar seu rosto (Daniel 12.2).

 

V6 – Veja aqui:

1. Os santos protegidos da destruição. ”A justiça guarda ao que é sincero no seu caminho”, que tem intenções honestas em todos os seus atos, que adere conscientemente às regras sagradas e eternas da equidade, e que lida com sinceridade com Deus e também o homem. A sua integridade o guardará das tentações de Satanás, que não prevalecerá sobre ele; e das ofensas dos homens maus, que não o atingirão para lhes fazer nenhum dano real (Salmos 25.21).

2. A ruína assegurada para os pecadores. Em relação aos que são ímpios, até mesmo a sua iniquidade será destruída, no final, e eles ficam à mercê dela, enquanto isto não acontece. Eles são corrigidos, destruídos? É a sua própria iniquidade que os corrige, que os destrói; e eles a suportarão.

 

V. 7 – Esta observação é aplicável:

I – Às propriedades materiais dos homens. O mundo é um grande enga­ no, não somente as coisas do mundo, mas os homens do mundo. Todos os homens são mentirosos. Aqui está um exemplo em dois terríveis males, sob o sol:

11. “Há quem se faça rico, não tendo coisa nenhuma”; estes compram e gastam corno se fossem ricos, fazem grande alvoroço e exibição corno se tivessem tesouros escondidos, quando, talvez, se todas as suas dívidas fossem pagas, não valeriam um centavo. Isto é pecado, e será urna vergonha; muitos arruínam assim as suas famílias e trazem vergonha à sua profissão de religião. Os que vivem acima do que têm preferem estar sujeitos à sua própria soberba, e não à providência de Deus; eles terminarão de urna maneira condizente com os seus atos.

2. E “há quem se faça pobre, tendo grande riqueza”; estas pessoas são consideradas pobres, porque vivem sordidamente e mesquinhamente abaixo do que Deus lhes deu, e preferem enterrá-lo, em lugar de usá-lo (Eclesiastes 6.1,2). Nesta atitude há urna ingratidão para com Deus. urna injustiça para com a família e os próximos, e falta de caridade para com os pobres.

 

II – Aos seus bens espirituais. A graça é a riqueza da alma; a verdadeira riqueza; mas os homens normalmente a deturpam, seja intencionalmente ou por engano, devido à ignorância sobre si mesmos.

1. Há muitos que são hipócritas declarados, que são realmente pobres e vazios de graça, e ainda assim se julgam ricos, e não se convencerão da sua pobreza, ou se fingirão de ricos, e não reconhecerão a sua pobreza.

2. Há muitos cristãos temerosos, que são espiritualmente ricos, e cheios de graça, e ainda assim se consideram pobres, e não se deixarão persuadir de que são ricos, ou, pelo menos, não o reconhecerão; por suas dúvidas e temores, suas queixas e lamentações, se tornam pobres. O primeiro engano destrói no final; este é um fato perturbador durante a vida do homem.

 

V. 8 – Nós somos propensos a julgar a bem-aventurança dos homens, pelo menos neste mundo, por suas riquezas, e que eles são mais ou menos felizes, conforme possuam uma maior ou menor quantidade dos bens neste mundo; mas aqui, Salomão nos mostra que grave engano é este, indicando que podemos ser reconciliados com uma condição ele pobreza e não ambicionar ou invejar os que têm abundância.

1. Aqueles que são ricos podem ser respeitados por alguns por causa de suas riquezas; para equilibrar tal fato, é importante mencionar que são invejados por outros, e atacados, e suas vielas correm perigo; assim, eles precisam resgatá-las com as suas riquezas. “Não nos mates a nós; porque temos no campo tesouros escondidos” (Jeremias 41.8). Sob o governo de alguns tiranos, ser rico já seria crime suficiente; e quão pouco um homem deve ser agradecido à sua riqueza, quando ela serve somente para redimir aquela viela que, ele outra maneira, não teria sido exposta!

2. Se aqueles que são pobres forem desprezados e ignorados por alguns que deveriam ser seus amigos, ainda assim, para contrabalançar isto, serão também desprezados e ignorados por outros , que seriam os seus inimigos, se tivessem algo a perder: “O pobre não ouve as ameaças”, não é censura­ do, repreendido, acusado, nem se mete em dificuldades, como os ricos; pois ninguém pensa que vale a pena notá­los. Quando os judeus ricos foram levados cativos à Babilônia, os pobres da terra ficaram para trás (2 Reis 25.12). Não produziam nada, a cada sete anos.

 

V9 – Aqui temos:

1. A consolação dos homens bons – próspera e duradoura: ”A luz dos justos alegra”, isto é, aumenta e lhes traz felicidade. Mesmo a sua prosperidade exterior é sua alegria, e muito mais os dons, graças e consolações, com que suas almas são iluminadas: elas brilham, cada vez mais (Provérbios 4.18). O Espírito é sua luz, e lhes traz uma plenitude de alegria, e se alegra por fazer­ lhes o bem.

2. A consolação dos homens maus murcha e morre: ”A candeia dos ímpios se apagará”, melancólica, como uma vela em um jarro, e logo os tais estarão em completa escuridão (Isaias 50.11). A luz dos justos é como a do sol, que pode ser eclipsada e encoberta por nuvens, mas continuará; a dos ímpios é como um fogo que eles mesmos acenderam, e que imediatamente será apagado; ele é facilmente extinto.

 

V10 – Observe:

1. “Da soberba só provém a contenda”. Você deseja saber donde vêm as guerras e pelejas? Elas se originam desta raiz de amargura. Qualquer que seja o peso que outros desejos tenham nas contendas (paixão, inveja, cobiça), a soberba tem mais peso; é a soberba que semeia discórdia e não precisa de ajuda. A soberba torna o homem impaciente na contradição de suas opiniões ou de seus desejos, impaciente com a competição e a rivalidade, impaciente pelo desprezo, ou qualquer coisa que pareça indiferença, e impaciente com concessões, por causa de um convencimento de certo direito e verdade de sua parte; e consequentemente surgem contendas entre parentes e vizinhos, contendas em estados e reinos, em igrejas e sociedades cristãs. Os homens se vingarão, não perdoarão, porque são soberbos.

2. Os que são humildes e pacíficos são sábios e bem aconselhados. Os que pedem conselhos, e os aceitam, que consultam suas próprias consciências, suas Bíblias, seus ministros, seus amigos, e não fazem nada de uma forma impensada são sábios, tanto em outras situações como nesta, porque se humilham, se curvam e cedem, para preservar a tranquilidade e evitar contendas.

 

V. 11 – Isto mostra que os ricos vestem o que ganham.

1. Aquilo que é obtido de maneira ilícita nunca será bem usado, pois o acompanha uma maldição que o desgastará, e as mesmas disposições corruptas que predispõem os homens às maneiras pecaminosas de obtê-los os predispõem às maneiras igualmente pecaminosas de gastar: ”A fazenda que procede da vaidade diminuirá”. Aquilo que é obtido com esquemas como estes não é lícito, nem convém aos cristãos, pois somente servem para alimentar a soberba e a luxúria; aquilo que é obtido com jogos de azar pode ser considerado como obtido da vaidade tão verdadeiramente como o que é obtido por meio de mentiras e fraudes, e sendo assim diminuirá. A riqueza obtida ilicitamente dificilmente será desfrutada pela terceira geração.

2. Aquilo que é obtido pelo trabalho e com honestidade terá aumento, em lugar de diminuir: será um sustento, será uma herança; será uma abundância. Aquele que se esforça, trabalhando com as suas mãos, aumentará tanto o que tem a ponto de ter o que repartir com o que tiver necessidade (Efésios 4.28); e, quando for este o caso, o que ele tem aumentará cada vez mais.

 

V. 12 – Observe:

1. Nada é mais angustiante do que o desapontamento de uma expectativa, ainda que não pela coisa em si mesma, por uma negativa, mas no tempo da sua realização, por uma demora: ”A esperança demorada enfraquece o coração”, tornando-o debilitado, impaciente e irritado; mas a esperança destruída mata o coração, e quanto mais intensa a expectativa, mais dolorosa a frustração. É, portanto, sensato que não nos prometamos grandes coisas das criaturas, nem nos alimentemos com quaisquer vãs esperanças deste mundo, para que não sejamos vítimas da nossa própria frustração; devemos nos preparar para nos desapontarmos com aquilo que esperamos, para que a frustração seja mais fácil de ser suportada, e não devemos ser precipitados.

2. Nada é mais agradável do que desfrutar, por fim, daquilo que desejamos e esperamos por muito tempo: o desejo chegado coloca o homem em um tipo de paraíso, um jardim de prazer, pois é árvore de vida. A infelicidade eterna dos ímpios será agravada por suas esperanças frustradas; e a felicidade do céu será mais bem-vinda aos santos, tendo em vista que eles a desejaram longamente e fervorosamente, como a coroa de suas esperanças.

 

V. 13 – Aqui temos:

1. O caráter de alguém que está destinado à ruína: O que despreza a Palavra de Deus, e não tem consideração nem veneração por ela, nem se permite ser governado por ela, certamente perecerá, pois despreza aquilo que é o único meio de curar uma doença destrutiva, tornando-se odioso para aquela ira divina que certamente será a sua destruição. Aqueles que preferem as regras carnais aos preceitos divinos, e as seduções do mundo e da carne às promessas e consolações de Deus, desprezam a sua palavra, dando preferência àquelas coisas que competem com ela, e isto será a sua justa ruína: eles não aceitam advertências.

2. O caráter de alguém que certamente será feliz: O que teme o mandamento, que tem respeito e temor por Deus, que tem consideração pela sua autoridade, e reverência pela sua Palavra, que teme desagradar a Deus e sofrer as punições que são anexas aos mandamentos, não somente escapará à destruição, mas será galardoa­ do, pelo seu piedoso temor. Em guardar os mandamentos há grande recompensa.

 

V. 14 – Podemos interpretar, aqui, a doutrina dos sábios e justos como os princípios e regras pelos quais eles se governam, ou (o que é equivalente) as instruções que eles dão aos outros, que são como uma lei para os que estão ao seu redor; e, sendo assim:

1. Eles serão constantes fontes de consolação e satisfação, como uma fonte de vida, da qual fluem correntezas de água viva; quanto mais próximos estivermos dessas regras mais eficazmente asseguraremos a nossa própria paz.

2. Eles serão proteções constantes dos laços de Satanás. Os que seguem os preceitos desta lei serão mantidos afastados dos laços do pecado, e assim poderão desviar dos laços da morte, aos quais se apressam os que abandonam a doutrina do sábio.