PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUANDO A HOMOSSEXUALIDADE FOI PROSCRITA PELA PSICANÁLISE

Considerada doença ou transtorno mental, a preferência por pessoas do mesmo sexo foi historicamente colocada à margem do movimento psicanalítico institucionalizado; muitas vezes, homossexuais que se candidatavam à formação de analista eram repudiados.

Quando a homossexualidsad foi proscrita pela psicanálise

Este ano parte dos países ocidentais celebrará os 50 anos da “revolta de Stonewall”, em junho de 1969, considerada a retomada contemporânea da luta pelos direitos das minorias sexuais. No Brasil, a parada do Orgulho Gay, que já faz parte do calendário oficial de muitas cidades, especialmente São Paulo, é uma referência ao evento. Na ocasião, gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros resistiram aos maus-tratos que sofriam de policiais e, durante seis dias, ocorreram vários conflitos nas proximidades do bar de Nova York. Depois disso, o movimento de emancipação gay tomaria como um de seus alvos o próprio Código Penal, assim como a religião, a psiquiatria e também a psicanálise.

Nos anos 70, a psicanálise havia atingido seu auge de popularidade e influência, especialmente nos Estados Unidos. Reverenciada como representante da autoridade em saúde mental, era praticamente indiscernível da psiquiatria médica. De 1952 a 1973, o célebre Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM), hoje na quinta edição, servia na época como testemunha de uma relação muito próxima entre esses dois domínios. Em suas duas primeiras versões, o DSM era marcado pela nosologia psicanalítica, contestada a partir da elaboração de sua terceira versão em diversos pontos – um deles, a definição da homossexualidade como transtorno mental. A “patologização” da homossexualidade era, assim, a expressão de uma psicanálise que pouco lembrava suas bases libertárias. Figuras respeitadas da disciplina freudiana se engajavam em práticas de “conversão” de homossexuais e de difusão de discursos demonizadores acerca da homossexualidade.

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A REGRA NÃO ESCRITA

À conquista do espaço público pela fala gay aliaram-se denúncias que abalariam as estruturas armadas para recalcar, sob o signo do silêncio, a presença de homossexuais em instituições tradicionalmente conservadoras, como o Exército, a Igreja, os cursos de medicina psiquiátrica e os institutos de formação psicanalítica. Em uma conferência nos Estados Unidos em 1972, um homem disfarçado com uma máscara, adotando a alcunha de Doctor H. Anonymous, disse após ter exposto a necessidade de esconder-se de seus pares por ser gay: “Há psicanalistas atuantes entre nós que completaram uma formação psicanalítica sem sequer mencionar sua homossexualidade a seus analistas”. Esse primeiro gesto político do psiquiatra mascarado inaugurou a “saída do armário” e repercutiu no universo psicanalítico.

A estratégia da visibilidade foi a via pela qual se fez explícita a regra silenciosa de proibição do ingresso de homossexuais assumidos na formação psicanalítica. A Associação Psicanalítica Internacional (IPA), instância reguladora dos institutos de formação desde sua fundação, em 1910, nunca editou nenhuma norma explícita que proibisse a candidatura de um pretendente à formação assumidamente homossexual. Todavia, as reações tempestuosas dos psicanalistas de diversas nacionalidades à homossexualidade tornada pública de Richard lsay – psicanalista americano, primeiro a “sair do armário”-, bem como daqueles que atenderiam a seu chamado à visibilidade, denunciam que a homossexualidade foi historicamente colocada às margens da psicanálise institucionalizada.

Em nenhum outro país além dos Estados Unidos houve a expressão pública de psicanalistas homossexuais formados pelos institutos filiados à IPA. Todavia, a orientação para a proibição é explícita em muitas denúncias e depoimentos de psicanalistas ou candidatos homossexuais rejeitados em diversos países, publicados após os eventos que marcaram a década de 70, inclusive em veículos tradicionais de divulgação psicanalítica.

No Brasil, uma reunião internacional de psicanalistas ocorrida em 2008 mostra ser consensual a opinião de que não só havia uma atitude da IPA orientada para a rejeição desses candidatos, mas de que também teorias psicanalíticas nas quais a homossexualidade era o signo de uma doença eram imediatamente levadas em conta pelos encarregados da seleção de candidatos à formação. A exclusão de homossexuais não era, portanto, um assunto exclusivo da psicanálise americana, como muitos então faziam crer.

E quais eram as teorias que viam a homossexualidade como uma patologia? Comecemos pelos primórdios. É difícil sintetizar em poucas linhas o pensamento freudiano acerca da homossexualidade masculina, e toda tentativa de obter uma compreensão unívoca resultou em algo enviesado e forçoso, seja com o intuito de encontrar uma unanimidade conservadora ou mesmo libertária. Para Freud, a homossexualidade é, assim como a heterossexualidade, derivada da bissexualidade original, produto de uma série de restrições no desenvolvimento psicossexual, conforme encontramos em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905. A crença na sexualidade “perverso-polimorfa”, típica da criança, é a matriz das reflexões de Freud acerca das limitações que resultam na preferência manifesta de alguns pela relação sexual com pares do mesmo sexo biológico.

Desde os gregos e seus efebos até a fuga da competição com o pai, passando pelo narcisismo no ensaio sobre Leonardo da Vinci, a homossexualidade segundo Freud não assume um caráter diagnóstico, nosológico ou descritivo definitivo. Ao final de sua vida, em 1935, temos ainda o testemunho dado por uma carta escrita em resposta à mãe de um homossexual, na qual lemos: “A homossexualidade não é seguramente uma vantagem, mas não é nada de que se deva envergonhar; não é um vício, não é uma degradação, não pode ser classificada como uma doença. Nós a consideramos uma variação da função sexual produzida por certa inibição do desenvolvimento sexual”.

O aspecto multifacetado da teoria freudiana serve como um índice de como seu legado não oferece uma compreensão definitiva da homossexualidade masculina, sempre pensada, repensada e contraditada de acordo com a questão que se apresentava especialmente a partir de seus casos clínicos. De sua obra, portanto, não se pode derivar seguramente qual seria sua opinião acerca do ingresso de homossexuais nas instituições psicanalíticas, até mesmo se levarmos em conta que sua última teorização mantinha a homossexualidade como uma “interrupção no desenvolvimento”. O que Freud pensava acerca disso fica claro em uma carta de 1921 em que discute com um discípulo justamente a sina de um médico rejeitado à formação psicanalítica por ser homossexual. Freud escreve: “Sua indagação, caro Ernest, a respeito da prospectiva qualidade de homossexuais como membros foi por nós considerada e discordamos de você. Com efeito, não podemos excluir tais pessoas sem outras razões suficientes, assim como não podemos concordar com suas perseguições legais. Sentimos que uma decisão em tais casos deve depender de um cuidadoso exame de outras qualidades do candidato”.

Mesmo que Freud tenha nutrido e exposto tal opinião, a posteridade psicanalítica negou a homossexuais a possibilidade de formarem-se nos institutos vinculados à IPA. Some-se a isso um recrudescimento da teoria da homossexualidade masculina como patologia e também de um moralismo praticamente ausente no texto freudiano. Uma tradição, inaugurada por Melanie Klein, muito popular após a morte de Freud, foi conceber a homossexualidade como resultado de uma perturbação pré-edípica do desenvolvimento que a avizinhava da psicose e dos transtornos borderline, muito aquém da resultante de um drama edípico conforme Freud pensava. E não seria nada raro, justamente a partir da década de 40, encontrarmos psicanalistas respeitados de diversas nacionalidades tecendo opiniões degradantes acerca da homossexualidade, bem como anunciando terem encontrado o mecanismo subjacente a toda escolha homossexual, quase sempre concebida como um erotismo equivocado em relação à aquisição do único e verdadeiro amor representado pela heterossexualidade genital e reprodutiva, e tal escolha homossexual seria, por vezes, passível de “cura” por meio da análise.

Dessa forma, a psicanálise adotava um discurso, em termos formais e ideológicos, semelhante aos da Igreja e de outras instâncias sociais normativas que traçavam as fronteiras entre os comportamentos socialmente aprováveis e os outros, marginalizados. Assim, emerge como uma consequência lógica o afastamento dos homossexuais do posto daqueles que se qualificavam como porta-vozes e vigias da normalidade (os psicanalistas), por meio do repúdio compulsório ou da assimilação mediante o segredo e o silêncio. O que caracterizava propriamente a política do “não pergunte, não conte” – ou don’t ask, don’t tell, como foi chamada no Exército americano – era também; aplicável aos dispositivos de transmissão e formação psicanalítica. Mas, quanto ao veto de homossexuais entre seus membros, como a instituição psicanalítica tornou-se equivalente ao Exército e à Igreja?

Para Freud, a psicanálise tinha como destino inevitável provocar oposição e despertar rancor, devido à posição de crítica cultural que assumira desde seus primeiros avanços. Punha-se, assim, ao lado de outros personagens e movimentos marginais da cultura dominante, como os de liberação sexual encabeçados pelo médico alemão Magnus Hirschfeld, homossexual, fundador do Instituto Psicanalítico de Berlim. Porém, já na década de 70, a psicanálise havia se tornado, nas palavras de um de seus representantes, “legítima, respeitável, bem como apática e presunçosa, atraindo aqueles que encontram segurança na conformidade e na propriedade”. No cerne desse percurso das bordas da cultura dominante ao centro está uma estrutura de poder arcana e dogmática. Para garantir que a psicanálise “original” e “legítima”, regulada pela IPA, fosse ensinada e praticada da mesma forma em todos os lugares, o mesmo sistema de formação deveria ser posto em operação. Michael Balint, notório crítico desse sistema, apontava para o fato de que nada na psicanálise era submetido a um recalque tão pronunciado quanto o próprio sistema de formação, e a resultante eram o dogmatismo e a proibição do pensamento.

Em síntese, a formação psicanalítica era caracterizada, do alto, pelos analistas didatas, os membros mais antigos e poderosos dos institutos; os candidatos desejosos de se formarem psicanalistas, depois de uma série de entrevistas iniciais, deveriam submeter-se a uma análise de tempo determinado com os didatas, bem como a uma série de supervisões de casos clínicos por eles atendidos. Um dispositivo hierárquico que operava pelo controle estrito das características dos candidatos, como se pode perceber, produziu um sistema cada vez mais normalizador, em que as personalidades não conformistas do passado cederam lugar a personalidades excessivamente obedientes.

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A REGRA ENFIM ESCRITA

A resultante desse sistema de difícil oposição era que os jovens ingressantes no freudismo não tinham alternativa a não ser aceitar os parâmetros de seus antecedentes, e um veículo dessa aceitação era identificarem-se a seus analistas sob o risco de terem de abandonar o processo, não havendo outra formação além daquela legitimada pela IPA. E os parâmetros eram justamente aqueles de uma cultura que, progressivamente, demonizava a homossexualidade. Desde o recrudescimento da homofobia no mundo ocidental com o advento da Segunda Guerra Mundial, e de uma psicanálise adaptativa e conformista nos Estados Unidos, a aversão tornou-se o modelo dominante também na IPA.

Não por acaso, as críticas mais duras e efetivas ao sistema de formação psicanalítica coincidiram com o momento em que as denúncias de exclusão de homossexuais começaram a ser expressas – as sociedades psicanalíticas francesas, por exemplo, chegaram ao extremo de abolir a análise didática. Ambas as esferas estão intimamente relacionadas e começam a mudar também em um contexto de crise da psicanálise em âmbito mundial, até com a perda da influência de que antes gozava. Nesse contexto, a psicanálise americana, antes o exemplo mais claro da homofobia psicanalítica, tornou-se rapidamente uma bandeirante da libertação homossexual e, após ter estabelecido regras explícitas de não discriminação de homossexuais, forçou a IPA a emitir ela própria uma política de não discriminação, adotada em 2002 e hoje visível em seu conjunto de regras de procedimentos nos seguintes termos: “Na base de seu compromisso com valores éticos e humanísticos, a IPA se opõe a discriminações de qualquer tipo. Isto inclui, mas não se limita a qualquer discriminação baseada em idade, raça, gênero, origem étnica, crença religiosa ou orientação homossexual”.

 

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OUTROS OLHARES

O ANTAGONISMO ENTRE “SER” E “TER”

anos estudiosos apontam que ter e ser são conceitos diferentes de existência do indivíduo e de sua interação com o mundo, colocando em situações antagônicas “poder e posse” e “afetividade e sentimentos”.

O antagonismo entre ser e ter

“A atitude inerente ao consumismo é a de engolir o mundo todo”, escreveu Erich Fromm. E quando o indivíduo renuncia a essa postura e opta pelo desfrute moderado dos benefícios da cultura material? Bem-vindo à simplicidade voluntária, filosofia de vida que rediscute a oposição ter e ser sob outro ponto de vista.

Certos conceitos formulados em áreas do conhecimento ultrapassam os muros científicos e ganham as ruas, tornando-se quase de domínio público. A Psicologia e a Psiquiatria estão repletas deles: “depressão”, “pânico” e “bipolaridade” são exemplos de um vocabulário que se popularizou nos últimos anos para, não raro, rotular fenômenos bastante diferentes daqueles consagrados na academia e na clínica. Muitos não lembram, mas outro clichê repetido com frequência pelo grande público tem origem no trabalho de um psicanalista alemão chamado Erich Fromm: a oposição entre ter e ser.

Fromm serviu-se dos conceitos de Karl Marx para, em meados da década de 1970, apontar que ter e ser constituíam dois modos diferentes de existência do indivíduo e de interação com o mundo. No primeiro, privilegiar-se-iam o poder, a posse e a superioridade sobre os demais; no segundo, os relacionamentos, a afetividade e o sentimento. A predominância de um ou de outro em um indivíduo ou sociedade não derivaria apenas de questões como personalidade e criação familiar, senão que do sistema económico vigente. O capitalismo, evidentemente, seria o cenário ideal para a hegemonia do ter, o que ajuda a explicar o tributo de Fromm a Marx em sua elaboração teórica.

Na mesma época em que Fromm opunha ter e ser, norte-americanos de diversas regiões faziam sua opção pelo segundo. Ser, àquela época, significava renunciar aos apelos sedutores do capitalismo mais avançado do mundo em prol de uma vida menos dedicada ao trabalho e ao consumo, e mais ancorada no tempo livre e nos relacionamentos afetivos. Uma vida mais simples, em resumo.

Batizada de simplicidade voluntária, a escolha dessas pessoas refletia uma exaustão com o capitalismo norte-americano, exigente ao extremo quanto à saúde física e emocional de seus cidadãos, bem como a tentativa de inaugurar formas de viver menos materialistas. Deslocando do ter para o ser as fontes de contentamento, acreditava-se poder trilhar um caminho mais alcançável e democrático de felicidade e realização pessoal.

Quarenta anos depois do ter versus o ser e da simplicidade voluntária terem ganhado os holofotes, cabe perguntar: que balanço é possível fazer de suas trajetórias? O antagonismo proposto por Fromm faz sentido de fato ou constitui um reducionismo grosseiro? Adotar um a vida mais simples, no sentido propugnado pelos pioneiros norte-americanos dos anos 70, é o caminho para uma existência mais plena e feliz? Aliás, o que se entende por felicidade atualmente? São essas questões que procuramos discutir.

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COMPRAR E ACUMULAR

ter versus ser de Erich Fromm avançou pelos anos 80, 90 e 2000. De um lado, foi abraçado pela parcela das Ciências Sociais interessada em temas ligados ao consumo e ao chamado “mundo dos bens”. Se, de acordo com Fromm, “eu sou = o que tenho e o que consumo”, para o antropólogo Russel Belk, emérito estudioso da cultura material, “(…) nós consideramos nossos pertences como partes de nós. Nós somos o que temos e possuímos. Segundo Belk, aliás, nossos pertences ajudariam a desenvolver nosso senso de ser, funcionando como sua extensão. Desse modo, se o self representaria a identidade do ser humano, o “eu”, a extensão do self constituiria também aquilo que pertence a cada um, ou seja, o “eu” e o “meu”.

De outro lado, a proposição de Fromm ganhou prosseguimento nas mãos de estudiosos do comportamento humano oriundos de disciplinas tão diversas quanto a Psicologia, a Economia e a Sociologia. Nas quase quatro décadas que separam a primeira edição de Ter ou Ser? dos dias de hoje consolidou-se um campo de pesquisas que procura estimar a influência do ter (ou seja, da afluência material) sobre o ser (a expressão de satisfação com a vida e de estados de ânimo positivos). Nos círculos científicos, essa vertente de estudos desdobrou-se em duas: uma, de análise da relação entre renda e bem-estar subjetivo (popularmente chamado de “felicidade”); outra, de avaliação do impacto da importância conferida às posses e do apego aos objetos (o chamado “materialismo”) em dimensões subjetivas da existência.

Na primeira vertente, um apanhado sintético permite afirmar que dinheiro e felicidade andam juntos, sim, mas só até determinado ponto. Quando se trata de deixar a pobreza e migrar para os estratos médios de uma sociedade, ou partir desses para chegar à riqueza, renda e bem-estar subjetivo caminham de mãos dadas. Aumentar rendimentos sem mudar de classe social, permanecendo em um patamar intermediário ou mesmo elevado, no entanto, não provoca majorações expressivas no quesito satisfação com a vida.

A explicação mais aceita para esse fenômeno é relativamente simples. Qualquer incremento de renda que permita a uma família deixar a pobreza é bem-vindo animicamente, uma vez que aumenta a distância para uma situação de vulnerabilidade. Em casos assim é o crescimento absoluto da receita individual ou familiar que se encarrega de promover maior bem-estar, ao passo que, uma vez instalados num patamar intermediário ou superior, a felicidade dependeria de elevações relativas dos ganhos econômicos. Isto é, o indivíduo precisa perceber – e avançando mais que seus pares, o que é notoriamente mais difícil de ocorrer. Nossa psique, quando se trata de dinheiro, seria mezzo absoluta, mezzo comparativa, portanto.

No caso do materialismo, repetidos estudos indicariam que aqueles que atribuem mais importância aos bens – e, por consequência, a eles se apegam com mais facilidade – costumam apresentar autoestima menor e ser menos felizes. O motivo? Especula­ se que o materialismo decorra de uma insegurança individual, funcionando como compensação a uma privação vivida na infância. Porém, como na sociedade contemporânea as posições sociais são instáveis, e os julgamentos de valor, efêmeros, o materialismo seria incapaz de fornecer garantias emocionais perenes ao indivíduo, e mesmo de responder a quaisquer anseios mais profundos do ser humano –   revelando-se, desse modo, uma solução pouco mais do que temporária ou ilusória para tal insegurança.

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CONTEXTO SOCIAL

Todo esse processo não ocorreria sem a indispensável contribuição do contexto social, evidentemente. A exposição a uma cultura que valoriza o ter seria fundamental pua internalizar princípios que associam o valor individual à conta bancária e aos bens de uso público, especialmente. Nesse cenário, para alguns especialistas, a televisão desempenharia papel primordial ao submeter o cidadão comum a padrões de comparação quase inatingíveis, como o dos personagens de sua obra de ficção e os das celebridades cuja vida se empenha em esquadrinhar. Numa sociedade pautada pelos meios de comunicação de massa, a comparação do sujeito comum não se faz mais com o vizinho ou o parente mais próximo, tão somente, e sim com uma infinidade de desconhecidos que volta e meia tomam de assalto as telas de televisores e computadores. Horas passadas em frente TV, aliás, estão correlacionadas a gastos mensais mais elevados também, sugerindo que essa mídia, especialmente, é um impulso fundamental para fomentar o desejo de consumir.

Fromm provavelmente não se surpreenderia com esses resultados. Para ele, o capitalismo teria sido capaz de forjar nosso modo de enxergar o mundo – sempre a partir de uma perspectiva de posse e controle – e, por consequência, moldando até mesmo nosso vocabulário. Expressões banais do cotidiano, como “ter insônia”, “ter um problema” ou “ter um casamento feliz” refletiriam esse modo de encarar a vida e a relação do indivíduo com o exterior. “Algumas décadas atrás”, escreveu Fromm, em vez de “tenho um problema”, o paciente talvez dissesse “estou perturbado”; em vez de ‘tenho insônia’, diria “não posso dormir”; em vez de ‘tenho um casamento feliz’, diria “sou feliz no casamento”.

Mero preciosismo semântico? Não para o psicanalista alemão: Ao dizer ‘tenho um problema’, em vez de “estou perturbado”, a experiência subjetiva é eliminada. (…) Não posso ter um problema, porque problema não é uma coisa que possa ser possuído. (…) Esse modo de falar trai uma alienação inconsciente, oculta.

O estranhamento que essa maneira de se relacionar com o mundo despertava em Fromm constituía, segundo o próprio, uma exceção; posturas irrefletidas de vida e alheias às construções sociais presentes no dia a dia seriam a regra. Ter como sinônimo de ser e ambos como pré-requisitos obrigatórios para o bem-estar subjetivo fariam parte, segundo ele, do caráter social dos integrantes da chamada “sociedade industrial”.

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SIMPLICIDADE VOLUNTÁRIA

A passagem da sociedade tradicional para moderna constituiu uma conquista civilizatória repleta de benefícios, como mobilidade econômica, liberdade individual e avanço cientifico. A transição, porém, cobrou seu preço. Hierarquias fixas são menos estressantes que as móveis, nos lembra o professor Robert Lane. A insegurança é a cara-metade da ambição; para cada desejo de ascensão há um temor de queda. Evitar que essa incerteza paralise a vida constitui um dos desafios psíquicos contemporâneos.

Como, então, enfrentá-lo? O próprio Lane dá uma pista, favorecendo posturas que aumentem nossa sensação de autonomia, de controle sobre a própria vida. Para tanto, a conhecida indicação de não colocar todos os ovos em uma mesma cesta, ressurge sob a recomendação de cultivar fontes de satisfação para além do dinheiro e das posses. Família, amigos, hobbies e distrações de todos os tipos são mananciais relativamente estáveis de contentamento e servem para atenuar a importância que carreira profissional, salários e preocupações materiais costumam ocupar na nossa mente.

Foi justamente por essa fresta que se esgueirou a simplicidade voluntária. Propondo que parte do consumo e da busca por aumento de renda e patrimônio fosse substituída por valorização do tempo livre, dos relacionamentos e da realização espiritual, ela incorporou à perfeição, desde os anos 70, o papel de uma filosofia de vida popular em que o ter cedia primazia ao ser.

Para não viajar tão longe no tempo, pode-se resumir que a simplicidade voluntária remonta a dois momentos do século XX. Primeiro, a 1936, quando Richard Gregg, discípulo de Mahatma Gandhi, cunhou a expressão em um pequeno livro publicado nos Estados Unidos. Nele, Gregg flagrava um mal­ estar social proveniente da organização socioeconômica vigente, sugerindo aos cidadãos que procurassem reformá-la a partir de suas pequenas decisões diárias – consumo, trabalho, convivência comunitária etc.

Pouco se sabe da repercussão do ensaio de Gregg, a não ser que o termo “simplicidade voluntária” acabou vencendo o tempo a ponto de ser resgatado por dois pesquisadores norte­ americano; em meados da década de 1970. Duane Elgin e Arnold Mitchell identificaram, à época, que contingentes crescentes de cidadãos optavam por modelos de vida menos apegados aos valores norte-americanos clássicos, como culto ao dinheiro, ao consumo e ao trabalho. Conterrâneos que, desiludidos com os rumos que o país e a própria vida vinham tomando naqueles tempos, optavam por empregos de meio período, reduziam o volume de compras nos shoppings e supermercados ou se mudavam para o interior, em busca de um refúgio distante do frenesi do metrópoles. Não havia estatísticas capazes de mensurar o fenômeno que os dois autores afirmavam estar ocorrendo, e talvez nem fosse possível ou desejável que houvesse; a Elgin e Mitchell para dar bastar o insight deflagrar o zeigeist em movimento.

OPÇÃO DE VIDA

Desde então, a simplicidade voluntária firmou-se ao panorama social dos Estados Unidos e de outras nações, incluindo o Brasil, como uma opção de vida nem sempre fácil de ser caracterizada, visto que livre de regras ou prescrições rígidas, mas, ainda assim, expressiva em significados. Em última análise, dizer-se um simplifier – ou seja, um adepto da simplicidade voluntária – representa afirmar-se contrário ao pensamento hegemônico que vincula o ser ao ter nos moldes identificados por Fromm. Representa estabelecer um limite – para os próprios desejos de posse e controle em prol de expectativas e vivências não apenas mais ajustadas à capacidade econômica individual, mas, principalmente, à saúde psíquica de cada um. Como bem afirma o neurocientista Peter Whybrow, referindo-se aos Estados Unidos, pais no qual a simplicidade voluntária nasceu, há um desequilíbrio (…) entre as demandas de nossa (…) cultura comercial e a biologia que herdamos.  (…) A ansiedade e muito da enfermidade das quais os americanos sofrem hoje podem ser atribuídas a esse desequilíbrio cultural – biológico. (…) A maneira pela qual nós escolhemos conduzir nossas vidas tem nos adoecido”.

Atente-se para a última frase do excerto acima: a maneira pela qual escolhemos conduzir a vida. Ora, o desejo infinito de ter é um construto social, e não um dado natural. Por mais que o sistema sugira que não há limites para o querer (e nem para o realizar), a natureza os impõe, seja sob a forma de recursos ambientais não renováveis, seja sob as condições de funcionamento de nosso frágil aparelho emocional. Priorizar o ter não é destino, e sim opção – assim como tentar domá-lo, conforme sugere a simplicidade voluntária.

Por esse motivo, ela configura um mecanismo de autorregulação dos desejos do sujeito, um guia de comportamento que propõe um contrato entre os diferentes status do indivíduo; o ambicioso cede um pouco ao acomodado, o rigoroso ao flexível, o concreto ao relativista, o realizador ao contemplativo. Como toda forma de autogerenciamento, não está imune a solavancos emocionais, questionamentos e até arrependimentos, visto que constitui uma tentativa de pacificação entre eus antagónicos. Caracteriza-se como uma forma de resposta do indivíduo ao meio, um movimento psíquico de adaptação à realidade externa e de auto-transformação diante daquilo que ela apresenta.

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Após quatro anos de recessão, o Brasil ensaia, enfim, uma retomada. Segundo estimativas do mercado, a economia pode dar um salto de 2,5% em 2019. Se isso acontecer, o país crescerá o dobro dos dois anos anteriores, quando o PIB fechou em pífio 1,1%. Mas nem tudo o que reluz é ouro.

Jair Bolsonaro está longe de ser unanimidade. A verdade é que, apesar de sua equipe econômica, capitaneada por Paulos Guedes, possuir a simpatia do setor privado, os empresários só avançarão diante de um sinal verde. Em outras palavras, para que façam investimentos parrudos e voltem a contratar (gerando vagas de empregos), o atual presidente terá de cumprir quanto antes suas promessas de campanha, como a realização do ajuste fiscal e a aprovação da reforma da Previdência. “Isso seriam provas de que pretende combater a ineficiência do Estado brasileiro, o que aumentaria a confiança do mercado”, diz Ricardo Rocha, professor de finanças no Insper.

Colocar a máquina pública nos trilhos, sem efeitos colaterais, é a visão otimista do que poderá acontecer nos próximos meses. Para os mais céticos, no entanto, há riscos no horizonte. Um deles é que as movimentações escancaradamente pró-mercado levem à precarização das condições de trabalho, voltando parte dos 57 milhões de eleitores contra Bolsonaro. Outro é que o atual presidente não tenha jogo de cintura para lidar com os diferentes interesses dos parlamentares.

Consultorias de negócios, como a Eurasia, acreditam que o Congresso será o calcanhar de Aquiles do governante. Se quiser impor sua agenda liberal, Bolsonaro terá de exibir uma habilidade de barganha que não demonstrou possuir até agora, angariando líderes partidários que levem suas pautas adiante durante as votações.

E os problemas não acabam por aí. Rodrigo de Losso, professor no departamento de economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e Ph.D. pela Universidade de Chicago, afirma que alinhar forças dentro da própria base será um grande desafio. Quem vai falar mais alto na sala de reuniões: os generais? O “posto Ipiranga” Paulo Guedes? O superministro Sergio Moro? Ou os três filhos de Bolsonaro? “O temperamento forte dessas pessoas pode causar um curto circuito. Isso me parece algo importante a ser considerado, embora seja difícil mensurar seus impactos agora”, diz o professor.

E EU COM ISSO?

A esta altura, já deu para notar que 2019 será um ano peculiar do ponto de vista político e econômico, o que exigirá dos indivíduos uma atenção extra, sobretudo ao planejar o orçamento pessoal.

Para início de conversa, convém observar para onde o vento sopra, sobretudo nos 100 primeiros dias do governo, quando muitas decisões serão anunciadas. Nesse período, até o começo de abril, a recomendação dos experts é que as pessoas evitem mudanças bruscas na carteira de investimentos e adiem compras grandes, como de carro ou de imóvel. “É crucial não fazer movimento determinante até que tudo esteja mais bem compreendido”, orienta André Novaes, planejador financeiro na consultoria Life Finanças Pessoais.

Recomenda-se, por exemplo, ficar de olho na reforma da Previdência: se ela for aprovada nos próximos três meses, a renda variável será uma opção interessante. Isso porque muitas companhias brasileiras de capital aberto vão se beneficiar com o clima de euforia provocado pelo novo modelo previdenciário.

A expectativa dos analistas é que a bolsa de valores tenha altas fortes em 2019. Projeções da XP, maior corretora de investimentos do país, mostram que o Ibovespa poderá chegar a 125.000 pontos, ante 90.000 no final de 2018. “Investir em ações será um bom negócio, principalmente nos setores de infraestrutura, varejo e bancos, que devem ser os mais beneficiados”, afirma Júlio Hegedus Netto, economista-chefe da consultoria de investimentos Lopes Filho & Associados.

Já Marcia Dessen, diretora da Associação Brasileira de Planejadores Financeiros (Planejar), pede cautela. “Títulos de renda fixa precisam representar pelo menos metade da carteira de um investidor, por ser mais seguros.” Outro cuidado essencial é acompanhar as oscilações da Selic, taxa básica de juro que baliza títulos como Tesouro Direto e CDBs. Se ela cair, a rentabilidade da renda fixa diminui também. Outro efeito da queda dos juros é a inflação — com juros menores, a população consome mais, o que puxa alguns preços para cima. Mas não há previsão de que a Selic despenque. Depois de atingir a mínima histórica de 6,5% em 2018, a projeção é que agora fique em torno de 8%. O segredo para obter rendimentos fora da curva, portanto, será fazer escolhas financeiras mais inteligentes. Veja como conseguir isso em quatro etapas certeiras.

 

1 – ORGANIZAR O ORÇAMENTO

A lição mais valiosa a ser tirada das dificuldades econômicas dos últimos três anos é sobre a importância de ter as contas em dia, com um valor guardado para enfrentar revezes. A empreendedora Sabrina Cardoso, de 28 anos, sentiu na pele a falta que faz um colchão de segurança. Em agosto de 2016, ela deixou um emprego tradicional como designer numa empresa do setor têxtil para atuar em seu próprio negócio, uma hamburgueria artesanal itinerante no Rio de Janeiro. Com a intensificação da crise no estado fluminense, o empreendimento passou a sofrer queda de vendas nos eventos de rua, que são o carro-chefe do negócio.

Sem uma reserva financeira, Sabrina teve de desengavetar o diploma de designer e voltou a atuar como autônoma em 2018. “Parei de tirar pró-labore na hamburgueria e comecei a me virar com frilas enquanto recupero meu negócio”, diz. Para enxugar despesas, ela ainda antecipou a união estável com o namorado, o que permitiu entrar como dependente no plano de saúde empresarial dele, que trabalha em regime de CLT numa companhia de tecnologia. Em setembro, Sabrina cancelou o cartão de crédito e passou a economizar cerca de 400 reais por mês. “Quando olhava a fatura, tinha investido em roupas que não precisava, andado demais de Uber ou comprado livros que não leria por falta de tempo”, lembra.

No momento, Sabrina procura um apartamento que comporte a cozinha de sua hamburgueria, que hoje funciona em um imóvel alugado só para isso. Segundo planejadores financeiros, como não há bola de cristal capaz de prever o ano 2019, cortar gastos de maneira preventiva, usando táticas como a da designer carioca, é uma forma de se proteger de incertezas.

“A importância de ter uma reserva de emergência foi o grande aprendizado de 2018. Diante da crise, até mesmo funcionários públicos deixaram de receber salário, o que nunca se imaginou antes”, afirma Myrian Lund, professora e coordenadora de cursos de MBA na Fundação Getúlio Vargas.

Segundo ela, o ideal é ter seis meses do total das despesas (da família ou do empreendimento) aplicados numa modalidade de alta liquidez.

Veja cinco passos para conquistar esse objetivo.

1 – ANALISE RECEITAS E GASTOS

Anote quanto você e os outros membros da família (se houver) recebem e liste todas as despesas mensais – considere até os centavos nessa conta, pois não existe dinheiro pequeno. Faça isso num papel em branco para visualizar com clareza. De um lado, anote os gastos essenciais como alimentação, moradia, energia, saúde, educação. Do outro, registre os variáveis, como presentes, viagens, gasolina. Dá para contar com a ajuda de aplicativos nessa tarefa. Veja algumas opções de App a seguir.

 

 TECNOLOGIA A FAVOR

Cinco aplicativos que ajudam a organizar as finanças

MINHAS ECONOMIAS

Permite cadastrar diversas contas, controlar o cartão de crédito, além de programar alertas. 

minhaseconomias.com.br

 GUIABOLSO

Esse aplicativo puxa os dados de sua conta bancária e registra seus gastos automaticamente, separando por categoria, como saúde, compras variadas, mercado, bares e restaurantes.

guiabolso.com.br

ORGANIZZE

Ajuda a organizar metas mensais para o orçamento e cria relatórios com as informações de gastos.

organizze.com.br

MOBILL S

Faz o controle de receitas e despesas, do cartão de crédito, além de mapear objetivos de vida e de aplicações.

mobills.com.br

RENDA FIXA

Pesquisa investimentos em renda fixa em várias corretoras, conta com uma área de educação financeira e gráficos com as principais taxas do mercado.

apprendafixa.com.br

2 – REVISE CONTRATOS

Na categoria gastos variáveis, a pessoa deve revisar todos os contratos de prestação de serviço, como TV por assinatura e canais de streming. Algumas dessas despesas podem ser reduzidas ao optar por concorrentes que ofereçam planos mais baratos, já outras devem necessariamente passar por renegociação, como contratos de aluguel, telefonia móvel e cursos.

3 – CORTE O QUE FOR IRRELEVANTE

Essa fase é das mais complicadas. Segundo a economista Andreia Fernanda, fundadora da empresa de consultoria e planejamento financeiro Rico Foco, não existe uma regra única. “Minha sugestão é que cada pessoa envolvida no processo avalie quais são os gastos menos incômodos de ser cortados e reflitam o porquê. É preciso passar as despesas por um filtro de relevância”, diz. Para um jovem, os gastos com festas podem ser importantes, enquanto para uma família com filhos os passeios de fim de semana são os mais difíceis de ser abolidos. “Cada um deve avaliar como fazer isso respeitando seu contexto de vida”.

4 – FAÇA APLICAÇÕES DE ALTA LIQUIDEZ

Invista todos os meses, mesmo que em doses pequenas. Essas economias iniciais devem ir para aplicações que possam ser resgatadas a qualquer momento, como Tesouro Selic, Fundos de Renda Fixa e alguns CDBs. Nada de poupança. A poupança rende hoje o equivalente a 70% da Selic, que está em seu piso histórico de 6,5%. Com isso, a aplicação mais popular entre os brasileiros entrega cerca de 4,5% de rendimento, pouca coisa acima da inflação projetada para o ano. Logo, não é a melhor forma de fazer o dinheiro aumentar. Vale lembrar que a reserva de emergência deve permanecer intocada e somente ser acionada em caso de imprevisto. A partir do momento em que o montante atingir o valor equivalente a seis meses de salário líquido, é possível começar a separar dinheiro para outros projetos, tanto aqueles de curto prazo, como férias de final de ano, quanto de longo prazo, voltados para a aposentadoria.

5 – NÃO AUMENTE OS GASTOS (DE JEITO NENHUM)

Uma vez que o orçamento estiver organizado, a regra fundamental é não voltar ao mesmo padrão de vida, mesmo que a economia melhore – como muitos analistas financeiros acreditam que aconteça entre 2019 e 2020. “Continue a viver como se você estivesse recomeçando agora”, recomenda Andreia da Rico Foco. Segundo ela, muita gente intensifica os gastos depois de engordar as vacas, o que acaba minando a realização de projetos importantes.

 2 – SAIR DO VERMELHO

 Quitar dívidas é um passo fundamental para ter uma vida financeira saudável. E nada como um início de ano para fazer isso. Para começar, é importante enxergar o tamanho do endividamento, listando valores, taxas e instituições envolvidas. Deve-se considerar todo tipo de pagamento em aberto, como cheque especial, cartão de crédito, carnês de loja que ficaram esquecidos e, inclusive, aquele dinheiro emprestado por parentes.

O próximo movimento é vender ou trocar ativos — para pagar ou baratear a quantia devida. Uma ideia, por exemplo, é substituir o carro por um modelo mais econômico, recebendo a diferença em espécie — a chamada “troca com troco”, modalidade que ficou popular durante a crise nas concessionárias. Esse dinheiro deve, impreterivelmente, ser usado para quitar os débitos.

É possível também levar sua dívida para outra instituição financeira que ofereça taxas melhores ou um prazo de parcelamento maior, diluindo o valor de forma a encaixá-lo melhor em seu orçamento. Para solicitar a portabilidade bancária, o lugar onde você tem o empréstimo precisa fornecer um documento informando saldo devedor, valor das parcelas, quanto ainda falta pagar e as taxas praticadas. Esses dados servem para que o novo banco avalie a migração.

Feita essa lição de casa, a pessoa deve analisar os comportamentos que levaram ao endividamento. De acordo com André Novaes, da Life Finanças Pessoais, é comum que o inadimplente se coloque como vítima da situação. “Se a pessoa não souber o que causou isso tudo, a dívida volta.”

Foi a capacidade de assumir a responsabilidade que ajudou a assistente social Adriana Barbosa, de 58 anos, a quitar em apenas cinco anos um débito superior a 250.000 reais. O bolo chegou a esse tamanho por causa da dificuldade de controlar as despesas mensais e à falta de planejamento antes de gastar. Ajudas recorrentes a familiares também agravaram a situação de Adriana, que incluía empréstimos, renovações de empréstimos, cartões de crédito e cheque especial de vários bancos.

O ex-marido de Adriana era quem controlava as finanças do casal, mas ela só ficou ciente da gravidade da situação em 2011, quando perdeu o emprego. “Meu primeiro erro foi delegar meus recursos a outra pessoa”, afirma. Assim que percebeu o problema, ela decidiu avaliar o tamanho do buraco. Passou o pente-fino em todas as suas contas bancárias e em seus cartões e buscou o apoio de uma consultoria financeira. “As dívidas estavam espalhadas e, aos poucos, fiz portabilidade para concentrar num único banco. Por orientação da consultoria, comecei tratando das dívidas mais caras”, diz. Os juros, que em alguns dos créditos chegava a 6% ao mês, caíram para 1,4%.

Além disso, ela conseguiu novos trabalhos e aumentou sua renda. “Toda oportunidade que surgia eu fui aceitando”, diz a assistente social, que atuou como professora, consultora e pesquisadora. Ao longo desse processo, além da consultoria de planejamento financeiro, Adriana contou com uma rede de apoio que incluiu a família, o gerente de um dos bancos, um advogado, um psicólogo e até um médico homeopata. Segundo ela, a ajuda de profissionais da saúde foi fundamental para conseguir equilíbrio físico e emocional para lidar com a situação. “Eu precisei trabalhar cinco anos de domingo a domingo em várias frentes para pagar a dívida.”

Com a entrada de novas receitas, a renegociação dos empréstimos e o corte de gastos, ela conseguiu transformar o valor em algo viável, quitando tudo em 2017. De lá para cá, Adriana começou até a juntar dinheiro.

“Passar de devedora a poupadora não foi fácil, aprendi a buscar economia constante, comprando em mercados de atacado, andando de transporte público, encontrando promoções e negociando sempre que possível. Também aprendi que a gente só pode gastar se tiver como pagar.” Hoje, no azul, Adriana está reformando a casa e guarda dinheiro para realizar outros projetos, como fazer investimentos mais arrojados.

CRÉDITO ALTERNATIVO

As fintechs desburocratizaram os empréstimos. Para quem busca formas de levantar dinheiro para amortizar dívidas, elas podem ser uma alternativa. Confira:

 

PARA PESSOA FÍSICA

CREDITAS: Plataforma on-line de crédito com garantia, trabalha com dois produtos principais, o empréstimo com garantia de imóvel e o empréstimo com garantia de veículo.

creditas.com.br

GERU: Oferece crédito pessoal sem garantia e consignado para aposentados e pensionistas do INSS a juros mais baixos do que os do mercado.

geru.com.br

CREDISFERA: Disponibiliza crédito pessoal sem garantia no valor de até 15.000 reais, com envio de documentos on-line.

credisfera.com.br

 

PARA EMPREENDEDORES

BIVA: Une pequenas empresas a investidores pessoa física, no modelo conhecido como Peer to Peer (P2P), permitindo que várias pessoas ofereçam quantias que, juntas, formam o valor de empréstimo solicitado.

biva.com.br

NEXOOS: Também atua nesse modelo P2P, fazendo a ponte entre pequenas e médias empresas com possíveis investidores interessados.

nexoos.com.br

 

3 – FAZER O DINHEIRO RENDER

 Com a retomada da economia, alguns tipos de investimento devem ganhar fôlego. Se tudo correr como o esperado na visão otimista, as ações terão destaque em 2019. “Se a agenda reformista for realizada, as empresas devem revisar para cima suas expectativas”, afirma o analista-chefe da XP Investimentos, Karel Luketic.

Segundo a análise feita pela XP sobre os balanços financeiros das companhias, as mais atraentes no governo Bolsonaro devem ser B2W (conglomero formado por Submarino, Shoptime, Americanas.com), Gol, Bradesco, Banco do Brasil, Usiminas e Localiza, pois atuam em segmentos promissores e suas ações têm perspectivas de alta. O mesmo vale para os papéis das estatais, que podem ser impulsionados pelas iniciativas de privatização do novo governo. Por outro lado, acredita a XP, as organizações exportadoras, como Vale e Suzano, devem ser menos beneficiadas, principalmente pela previsão de desvalorização do dólar.

Atento a essas possibilidades, o advogado Antônio Leonardo Branco, de 33 anos, pretende readequar suas apostas em bolsa de valores neste ano, priorizando as companhias de varejo, bancos e construtoras. No momento, ele possui papéis de empresas de commodities e serviços, sendo que a renda variável representa 60% de sua carteira de investi- mentos. Outra iniciativa será aumentar sua exposição em criptomoedas. Para isso, vai reduzir as aplicações em renda fixa de 40% para 30%. A ideia inicial é aplicar em bitcoin, moeda virtual mais famosa, ao qual pretende destinar 10.000 reais. “Por mais volátil que as criptomoedas sejam, acredito em seu potencial. Elas são opção ao sistema financeiro clássico”, diz o advogado. (O bitcoin perdeu 60% de seu valor nos últimos 12 meses, mas ele chegou a bater 19.000% de crescimento em 2017).

Embora 2018 não tenha sido tão favorável às moedas virtuais, elas continuam chamando cada vez mais a atenção dos investidores devido à forte rentabilidade acumulada nos últimos anos. Segundo o professor de economia na Fundação Instituto de Administração (FIA) e sócio da Arsenall Venture Builder, André Oda, a perspectiva para esse mercado é positiva, principalmente porque há uma tendência de surgirem medidas legais. “Cresce o número de países que já regularam ou estão regulando a emissão, a distribuição, a negociação e o uso dos criptomoedas”, afirma.

Então, entre o perfil arrojado e o tradicional, ficamos assim: os criptoativos exigem cautela, pois oscilam muito; e a poupança está longe de ser uma boa opção. “Muita gente não sabe que a poupança só rende no dia do aniversário, e que se você sacar o dinheiro um dia antes, fica sem ganho”, afirma Fábio Macedo, diretor comercial da Easynvest.

Mas, no meio desses extremos, há outras boas opções para ter mais dinheiro em 2019. O importante é começar a aplicar. Não sabe como? Nós mostramos algumas alternativas para cada perfil de investidor.

 

 APLICAÇÃO HIGH TECH

Diferentemente da moeda tradicional, a emissão da criptomoeda não passa por um Banco Central. O sistema é gerenciado pelos usuários.

Nos últimos dois anos, essas moedas digitais ganharam relevância e tornaram-se uma forma de investimento que, para muitos, será o dinheiro futuro. Isso porque elas podem ser usadas como meio de pagamento e transacionadas de maneira online entre quem quer comprar e quem quer receber. O maior exemplo é o bitcoin, que ganhou fama em 2017 por sua rentabilidade absurda. Quem comprou o ativo em sua primeira cotação pública, em outubro de 2009, está literalmente milionário. Isso porque o valor da ação foi de 8/100 centavo de dólar, em outubro de 2009, para 19783 dólares em dezembro, uma valorização de 25 milhões de vezes. O mercado esfriou em 2018, mas ainda assim sua valorização acumulada impressiona: nos últimos três anos, a alta foi de 700%. No Brasil, o investidor encontra bitcoin e outras criptomoedas em várias corretoras que atuam no país, como Mercado Bitcoin, Foxbit, BitcointoYou e Braziliex. Conheça três criptomoedas com boa chance de lucro para 2019.

 DECRED (DCR)

Nascida a partir de um Fork (divisão na rede blockchain) do bitcoin, em 2016, essa moeda tornou-se rapidamente uma das queridinhas. Nos últimos três anos, por exemplo, valorizou mais de 1.400%. Um dos diferenciais é a tecnologia colaborativa e a segurança das transações. Assim como o irmão Bitcoin, tem um limite de 21 milhões de unidades – a possibilidade de escassez valoriza o ativo.

Informações: decred.org/pt

RIPPLE (XRP)

Segundo maior criptoativo depois do Bitcoin, essa criptomoeda foi lançada pela Startup homônima cuja proposta é conectar os diferentes sistemas de pagamento e criar soluções financeiras que barateiem pagamentos globais, seu sistema de Blockchain já é usado por grandes bancos, sobretudo no Japão. Nos últimos três anos foi uma das cripto de maior valorização, com alta de 5.000%. Em 2018, houve uma depreciação de 86%, enquanto em 2016 e 2017 as altas foram de 6¢ e 32.000%, respectivamente.

Informações: ripple.com

DASH

Com uma comunidade com forte presença no Brasil, o sistema dessa criptomoeda visa oferecer transações rápidas – enquanto com Bitcoin podem levar até 1 hora, dependendo do volume, as com DASH levam segundos. No site é possível pesquisar por produtos e serviços onde as pessoas possam pagar com DASH, desde tatuadores até restaurantes. Em 2018, o DASH caiu 94%, depois de ter subido 9.300% em 2017 e 235% em 2016. A alta acumulada em três anos é de 1.726%.

Informações: discoverdash.com

 

4 – PLANEJANDO O FUTURO

Fazer uma viagem, comprar a casa própria ou empreender. É importante ter clareza sobre cada um dos objetivos pessoais para poder guardar a quantia de dinheiro exata para realizá-los, evitando assumir dívidas que vão tirar seu sono. Como mostramos no primeiro tópico desta reportagem, uma vez que uma reserva de emergência está garantida, especialistas recomendam dar um passo além: estabelecendo prioridades de curto (até um ano), médio (de um a cinco anos) e longo (mais de cinco anos) prazo. A aposentadoria precisa ser uma preocupação para pessoas de todas as idades, com um dinheiro guardado mensalmente só para isso.

Já outros projetos devem variar conforme seus desejos — e seu estilo de vida. “Existem pessoas que amam viajar e preferem não comprar a casa própria para ter mais mobilidade. Outras abrem mão de viagens para ter o imóvel dos sonhos e receber os amigos. Planejar é isso, decidir para onde vai destinar o dinheiro”, diz André Novaes, da Life Finanças Pessoais.

 

VEJA A SEGUIR OS SONHOS MAIS FREQUENTES E AS DICAS PARA REALIZÁ-LOS.

COMPRAR CASA PRÓPRIA

Como os últimos anos foram de vendas fracas no setor imobiliário, há boas oportunidades para quem deseja comprar a casa própria. segundo dados da fipezap, o desaquecimento da economia gerou queda real de 18% nos preços dos residenciais, em quatro anos. no entanto, só vale entrar numa negociação dessas quem tem pelo menos 20% do valor do imóvel para dar à vista. “se ainda existe muita incerteza na vida pessoal, melhor alugar”, diz luiz calado, autor do livro imóveis: seu guia para fazer da compra e venda um grande negócio (saraiva, 34,90 reais). Uma vez tomada a decisão, a palavra de ordem é pesquisar. Considere   avaliar e comparar o preço de imóveis na planta, recém-lançados e prontos.

TIRAR UM PERÍODO SABÁTICO

A não ser que a pessoa tenha um currículo irresistível, atue em áreas de abundantes ofertas de emprego, como a de ti, e possua renda guardada para segurar as pontas por no mínimo dois anos, especialistas dizem que o momento não é favorável para se ausentar. segundo dados do IBGE, a recolocação no mercado de trabalho brasileiro está levando em média oito meses. Tomar crédito? nem pensar. “Financiamento só indico para comprar a casa própria ou empreender. Fazer empréstimo para outros fins, como MBA, é complicado porque o retorno financeiro é incerto e de longo prazo”, diz Marcia, da planejar.

ABRIR UM NEGÓCIO

A expectativa é que 2019 seja um ano melhor para empreender do que os últimos três, porque a confiança do consumidor estará maior. “Deve haver uma melhora contínua da economia, o que destrava o consumo”, diz Guilherme Afif Domingos, presidente do SEBRAE. Entre os setores que prometem aquecimento estão os de tecnologia, alimentação (principalmente natural), varejo, serviços, saúde e educação. Mas é preciso alguns cuidados antes de seguir por esse caminho. Leonardo Donato, líder de mercados emergentes da consultoria Ey para Brasil e América Latina, orienta o empreendedor a fazer um mapeamento completo do segmento em que deseja atuar, além de um planejamento minucioso. O custo médio para abrir uma microempresa em São Paulo — com faturamento de até 360.000 por ano — é de 1.300 reais mensais, e isso é apenas para começar a operar. O maior desafio para novos empresários é o tempo de retorno, que leva um ano no melhor dos cenários. Enquanto isso, deve-se estar preparado (financeira e emocionalmente) para arcar com as despesas do negócio com recursos próprios.

VIAJAR MUNDO AFORA

Adquira a moeda local aos poucos, durante os 12 meses que antecedem a viagem. “Se a pessoa tiver a disciplina, não ficará tão exposta às oscilações”, afirma Mathias Fischer, diretor de estratégia da Meu Câmbio, plataforma de compra de moedas estrangeiras. Após a forte alta do dólar em 2018 (que bateu 4,20 reais em setembro), a expectativa é que o dinheiro americano feche 2019 na casa dos 3,80 reais, com as previsões variando de 3,22 a 4,30 reais. De novo, tudo vai depender do andamento das reformas do governo. Para se proteger da flutuação, o técnico legislativo aposentado Antônio Carlos Barbosa da Silva, de 69 anos, tem o costume de obter dólar nos momentos de baixa. “Eu gosto de me planejar com antecedência. Há muito tempo compro a moeda na baixa e fico com uma reserva”, diz. Além disso, ele guarda para a próxima viagem as notas que sobraram na anterior. Seu passeio internacional mais recente foi nas férias de 2017, para o chile, quando pagou 3,30 reais cada dólar. Em 2018, ele pretendia ir para Portugal, Espanha e Itália, mas adiou o plano por causa das instabilidades econômicas. Enquanto aguarda a situação do país melhorar, ele acompanha as notícias sobre a oscilação cambial e pesquisa preços das passagens aéreas. Trocar de carro como o mercado ainda está em baixa, até dá para obter abatimentos. Mas a regra é clara: trocar de carro só se houver dinheiro guardado. Aqui, o ideal é ter no mínimo 50% do valor do automóvel para dar de entrada, pois isso possibilitará negociar taxas menores. Mesmo assim, é preciso ponderar se as parcelas cabem no bolso. Leve em consideração ainda o valor do seguro e a manutenção do veículo. Carros de menor saída têm descontos melhores — mas rendem pouco na revenda.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 12: 1-12

Pensando biblicamente

VANTAGENS DOS JUSTOS

 

V. 1 – Aqui, somos ensinados a verificar se temos graça ou não, averiguando como os meios da graça nos afetam.

1. Os que têm graça e amor se alegrarão com todas as instruções que lhes são dadas, sob a forma de conselho, admoestação, ou repreensão, pela Palavra ou providência de Deus; eles valorizam uma boa educação e não julgam um fardo, mas uma felicidade, estar sob uma disciplina rígida e prudente. Os que amam um ministério fiel, que o valorizam e se submetem a ele com prazer, mostram que amam o conhecimento.

2. Mostram­ se não somente vazios de graça, mas também de bom senso. os que consideram uma afronta o fato de que os seus erros lhes sejam apontados, e uma imposição sobre a sua liberdade que sejam lembrados do seu dever: “O que aborrece a repreensão é um bruto”. não somente tolo, como o cavalo e a mula que não têm entendimento, ou o boi que dá coices no aguilhão. Os que desejam viver em famílias e sociedades desregradas, onde não sejam controlados, que sufocam as convicções de suas próprias consciências, e consideram seus inimigos os que lhes dizem a verdade, são os brutos aqui mencionados.

 

V. 2 – Observe:

1. Nós somos, na realidade, aquilo que somos em relação a Deus. São felizes, verdadeiramente felizes, felizes para sempre, os que alcançam o favor do Senhor, ainda que o mundo os censure, e eles obtenha poucos favores com os homens; pois no favor de Deus há vida, e isto é a fonte de todo o bem. Por outro lado, são infelizes aqueles a quem Ele condena, ainda que os homens possam aplaudi-los e aclamá-los; àqueles aos quais Ele condena, Ele condena à segunda morte.

2. Nós somos para com Deus como somos para com os homens, à medida que vivemos neste mundo. O nosso Pai julga os seus filhos pela sua conduta, uns com os outros; e por isto, um homem de bem, que é misericordioso e caridoso e faz o bem, alcançará o favor do Senhor, por meio de suas orações; mas ao homem de perversas imaginações contra seus próximos, Ele condenará, como sendo indigno de um lugar no seu reino.

 

V. 3 – Observe:

1. Embora os homens possam progredir por esquemas pecaminosos, não conseguirão, com estes esquemas, se estabelecer e proteger; ainda que possam ter grandes propriedades, não conseguirão um lugar onde permanecer; o homem não se estabelecerá pela impiedade; ela poderá colocá-lo em lugares altos, mas estes são lugares escorregadios (Salmos 73.18). A prosperidade que é conseguida pelo pecado é edificada sobre a areia, e isto ficará evidente em breve.

2. Embora os homens bons possam ter apenas um pouco do mundo, ainda assim este pouco durará, pois o que é conseguido com honestidade durará: a raiz dos justos não será removida, ainda que os seus ramos possam ser abalados. Os que, pela fé, estão enraizados em Cristo, estão firmemente fixos; nele a sua consolação e felicidade estão tão enraizadas que nunca poderão ser arrancadas.

 

V4 – Observe:

1. Aquele que é abençoado com uma boa esposa é tão feliz como se estivesse sobre o trono, pois ela não é nada menos do que uma coroa para ele. A mulher virtuosa, que é piedosa e prudente, esforçada e empenhada, que é ativa para o bem da sua família e cuida bem da sua casa, que é consciente do seu dever em cada relacionamento, uma mulher espiritual e forte, que consegue suportar fardos sem se perturbar, uma mulher assim reconhece que o seu esposo é a sua cabeça; portanto, ela é a coroa do seu marido, não somente credibilidade e honra para ele, como uma coroa é ornamento, mas apoia e sustenta a autoridade dele na sua família, da mesma maneira como uma coroa é uma insígnia de poder. Ela é submissa e fiel a ele, e com o seu exemplo, ensina seus filhos e servos a também o serem.

2. Aquele que tem a infelicidade de ter uma má esposa é tão infeliz como se estivesse na prisão; pois ela não é melhor do que apodrecimento nos seus ossos, uma doença incurável, além do fato de que o envergonha. Aquela que é tola e preguiçosa, fútil e devassa, que tem uma língua ferina, destrói a credibilidade e a consolação de seu esposo. Se ele sair, o comportamento de sua esposa se converterá em sua vergonha. Se ele se isolar, afundará, ele estará continuamente intranquilo; esta é uma aflição que mina os ânimos.

 

V. 5 – Observe:

1. A Palavra de Deus discerne os pensamentos e as intenções do coração, e os julga. Nós nos enganamos se imaginamos que os pensamentos são livres. Não, eles estão sob o conhecimento divino; portanto, estão sob as ordens divinas.

2. Nós devemos observar os pensamentos e as intenções dos nossos próprios corações, e julgar a nós mesmos, de acordo com eles; pois eles são os primogênitos da alma, que têm, em si, a imagem da alma. Os pensamentos retos são as evidências de um homem justo, assim como nada prova com mais certeza que um homem é ímpio do que planos e desígnios ímpios. Um homem bom pode ter, em sua mente, más sugestões, mas ele não as alimenta nem abriga para que amadureçam em maus projetos e resoluções.

3. É honra para um homem ter intenções honestas, e ter seus pensamentos retos, embora uma palavra ou ação possa ser inapropriada, ou inoportuna, ou, pelo menos, mal interpretada. Mas é vergonha para um homem estar sempre à espreita. agir de maneira enganosa, com truques e intenções, não somente para vencei; mas para levar vantagem.

 

V. 6 – No verso anterior, são comparados os pensamentos dos ímpios e os do justo; aqui, as suas palavras, e essas são como a abundância do coração.

1. As pessoas ímpias expressam maldades aos seus próximos, e, realmente, as palavras dos ímpios são para armarem ciladas ao sangue; as suas línguas são espadas para os que estão em seus caminhos, para os homens bons a quem eles odeiam e perseguem. (Veja um exemplo em Lucas 20.20,21).

2. Os homens bons expressam auxílio aos seus próximos – a boca dos retos está pronta para ser aberta na causa dos que são oprimidos (Provérbios 31.8), para defendê-los, para testemunhar em favor deles, e assim os livrar, particularmente àqueles aos quais os ímpios espreitam. Às vezes, um homem pode fazer uma obra muito boa com uma única palavra boa.

 

V. 7 – Aqui, somos ensinados, como antes (v. 3 e Provérbios 10.25,30):

1. Que o triunfo dos ímpios é curto. Eles podem ser exaltados por algum tempo, mas em breve serão derrubados; as suas dificuldades acabam sendo a sua destruição, e os que fazem uma grande exibição desaparecem, e o seu lugar não mais os conhece. Transtornados serão os ímpios e não serão mais; eles estão em um lugar escorregadio, em que o menor toque das dificuldades os derruba, como as maçãs de Sodoma, que parecem belas, porém basta tocá-las, e caem ao chão.

2. Que a prosperidade dos justos tem uma boa base e permanecerá. A morte os removerá, mas a sua casa permanecerá, as suas famílias serão conservadas, e a geração dos justos será abençoada.

 

V. 8 – Aqui lemos de onde esperar um bom nome. A reputação é algo muito considerado por alguns. É certo:

1. A melhor reputação é aquela que acompanha a virtude e a piedade séria, e a prudente condução da vida: um homem será louvado por todos os que são sábios e bons, em conformidade com o juízo do próprio Deus, o que, temos certeza, é de acordo com a verdade, e não de acordo com as suas riquezas ou promoções, sua astúcia ou sutileza, mas de acordo com o seu entendimento, a honestidade dos seus desígnios e a prudente escolha dos meios para planejá-los.

2. A pior repreensão é a que segue a iniquidade e uma oposição ao que é bom: o perverso de coração, que se desvia a caminhos tortuosos e prossegue insubordinado neles, estará em desprezo. A Providência o trará à pobreza e ao desprezo, e todos os que tiverem um verdadeiro senso ele honra o desprezarão, como sendo indigno de que lidem com ele, e inadequado a receber a confiança dos outros, uma mancha e um escândalo à humanidade.

 

V. 9 – Observe:

1. É a loucura ele alguns cobiçarem ter uma aparência grandiosa, desejando honrar a si mesmos, como pessoas de qualidade, e, no entanto, não terem o necessário em casa; e ainda, se as suas dívidas fossem pagas, não valeriam nem um pedaço de pão, ou melhor, talvez apertassem seus estômagos, para que pudessem parecer muito alegres, porque as penas bonitas fazem com que os pássaros sejam bonitos.

2. É muito melhor a condição e o caráter dos que se contentam em urna esfera inferior, onde são desprezados pela simplicidade ele seu modo de vestir e pela insignificância ele sua posição, mas que podem se sustentar, e não somente com o que é necessário, mas também com o que é supérfluo, para suas próprias casas, não tendo somente pão, mas um servo que os ajude e tire um pouco do seu trabalho de suas mãos. Os que procuram viver com abundância e conforto em suas casas elevem ter preferência acima dos que não desejam nada além ele parecer esplêndidos fora ele casa, ainda que não tenham recursos para manter a sua aparência, e cujos corações não se humilham, embora a sua condição seja pobre.

 

V. 10 – Veja aqui:

1. O quanto um homem bom pode ser misericordioso; ele não apenas tem compaixão pela natureza humana, sob as suas situações mais difíceis, mas considera até mesmo a vida do seu animal, não somente porque é seu servo, mas porque é urna criatura ele Deus, e age de conformidade com a Providência, que preserva os homens e os animais. Devemos sustentar os animais que estão sob nossos cuidados: eles elevem ter alimento e descanso suficientes, e em nenhum caso devem sofrer maus tratos. Balaão foi repreendido por espancar a sua jumenta. A lei cuidava dos bois. Portanto, são homens injustos os que não são justos com os animais; os que são cruéis e bárbaros com os animais evidenciam, e confirmam em si mesmos. um hábito ele barbárie, e ajudam a fazer gemer toda a criação (Romanos 8.22).

2. O quanto um homem ímpio pode ser impiedoso; até mesmo as suas misericórdias podem ser cruéis; aquela compaixão natural que existia nele, como homem, está perdida, e, pelo poder da corrupção, é convertida em insensibilidade; mesmo aquilo que eles terão que demonstrar corno com­ paixão é cruel, na verdade, corno a resolução de Pilatos a respeito de Cristo, o inocente, “Castigá-lo-ei, pois, e soltá-lo-ei”. A sua suposta bondade é apenas para encobrir crueldades intencionais.

 

V. 11 – Observe:

1. É sensato que os homens cuidem de seus negócios e sigam uma profissão honesta, pois este é o caminho, pela bênção ele Deus, para conseguirem o seu sustento: O que lavra a sua terra, quer seja o dono ou o ocupante, que cumpre a sua palavra e está disposto a se esforçar, se não conseguir uma propriedade (que necessidade há disto?), ainda assim se fartará de pão, terá alimento conveniente, para si mesmo e para a sua família, suficiente para sustentar os seus, confortavelmente, pelo mundo. Até mesmo a sentença da ira tem em si esta misericórdia: “No suor do teu rosto, comerás o teu pão”.

A Caim, isto foi negado (Genesis 4.12). Trabalhe, pois este é o verdadeiro caminho para ter tranquilidade. Conserva o teu trabalho, e o teu trabalho te conservará. Comerás do trabalho das tuas mãos.

2. É loucura dos homens negligenciarem os seus negócios. São faltos de juízo os que fazem isto, pois então cairão com companhias ociosas e as seguirão em seus maus caminhos, e assim o pão lhes faltará, pelo menos o pão para os seus, e eles se tornarão um peso para os outros, tirando o pão da boca de outras pessoas.

 

V, 12 – Veja aqui:

1. Qual é o cuidado e o objetivo de um ímpio; ele deseja fazer maldades: “Deseja o ímpio a rede dos maus”. “Oh, se eu fosse apenas tão astuto como este homem, para me aproveitar daqueles com quem lido, se eu tivesse apenas esta faculdade, para que pudesse me vingar de alguém a quem desprezo, tão eficazmente como este homem!” Ele deseja a fortaleza dos homens ímpios (assim alguns interpretam), agir com segurança ao praticar o mal, de modo que este não recaia sobre ele.

2. Qual é o cuidado e o objetivo de um homem bom: “A raiz dos justos produz o seu fruto”, e é a sua força e estabilidade, e é isto o que o justo deseja, fazer o bem, e se estabilizar, e se confirmar, fazendo o bem. O ímpio deseja somente uma rede com que pescar para si mesmo: o justo deseja produzir frutos para o benefício dos outros e para a glória de Deus (Romanos 14.6).