GESTÃO E CARREIRA

 OS REIS DO NETWORKING

Cultivar uma rede de contatos é crucial para se recolocar mais rápido, prosperar nos negócios e receber indicações que ajudem no crescimento da carreira. Saiba como incorporar esse hábito à sua rotina para cultivar os relacionamentos sem parecer interesseiro.

Os Reisa do Networking

No Brasil, cerca de 25 milhões de pessoas possuem perfis no LinkedIn. Somos o terceiro maior país do mundo em número de usuários dessa rede social profissional, atrás apenas dos Estados Unidos, que têm 128 milhões de profissionais cadastrados, e da Índia, com 35 milhões, mas à frente de Inglaterra e China, ambas com cerca de 20 milhões de usuários. Esses números ajudam a dimensionar a importância dos relacionamentos para a conquista de posições no mercado de trabalho brasileiro ou para o fechamento de negócios. Isso não significa, entretanto, que os brasileiros sejam mestres na arte de fazer networking. “Muita gente abandona o perfil na rede quando não precisa de nada. Isso é um erro”, diz Fernanda Brunsizian, gerente de comunicação do LinkedIn Brasil. Numa época de corte de postos de trabalho, uma boa rede de contatos pode ser a diferença entre a recolocação ou o desemprego.

Segundo especialistas em recrutamento, como as empresas não estão contratando, mas apenas fazendo substituições nos times, entre 80% e 90% das oportunidades de trabalho no momento advêm de relacionamentos. “A maior parte dessas posições está invisível – não está nos grandes jornais nem nas mídias sociais. Elas circulam de boca em boca e é preciso estar conectado às pessoas certas para ficar sabendo delas e conseguir indicações”, afirma José Augusto Minarelli, presidente da consultoria Lens & Minarelli, especializada em transição de carreira e aconselhamento para executivos e autor do livro Superdicas de Networking para Sua Vida Pessoal e Profissional (Ed. Saraiva).

Quem conhece outras pessoas e estabelece com elas vínculos de confiança possui um capital social precioso, capaz de abrir portas no mundo dos negócios ou nas empresas onde se deseja trabalhar. Um dos que se deram conta de que o valor desse capital não é mera metáfora foi o empresário Sergio Waib, apresentador do programa Giro Business, do canal Band News. Dono de uma rede que inclui 400 executivos de grandes empresas brasileiras, nos últimos anos Sergio começou a ser abordado por pessoas interessadas em realizar negócios com seus contatos. A princípio, ele se surpreendeu em saber que os relacionamentos que cultivava naturalmente eram considerados tão valiosos pelo merca- do. Hoje, ele apresenta as duas partes e, se o negócio é fechado, recebe uma comissão por ter intermediado a aproximação. Mesmo colhendo os frutos de seu bom networking, ele alerta que uma rede jamais deve ser cultivada visando apenas ao dinheiro. “Assim que seus contatos percebem que não existe foco e consistência no que você oferece, deixam de te atender e considerar”, afirma o empresário. “Para mim, o networking é uma corrente do bem que acontece quase naturalmente, seja para coisas pequenas, como gentilezas e favores, ou para a realização de negócios”, diz Sergio.

INTERESSE GENUÍNO

Mas qual o segredo para fazer networking sem parecer interesseiro? Esse é o tema do livro Networking vs Notworking, ainda sem editora definida, do executivo e agora consultor Alexandre Caldini, de São Paulo. Após fazer carreira como diretor e presidente de grandes empresas, onde sempre se destacou por sua capacidade de relacionamento, Alexandre deixou a vida executiva e agora pretende ajudar outras pessoas a desenvolver essa habilidade. Segundo o consultor, o interesseiro é alguém egoísta, aproveitador, que se vale da boa vontade dos outros em benefício próprio sem oferecer nada em troca. “Já o interessado se aproxima dos outros porque vê uma oportunidade de aprendizado, de amizade e também de realizar negócios, mas entende que a aproximação precisa acontecer visando ao benefício de ambas as partes”, diz Alexandre. “Ora eu preciso de você, ora você precisa de mim, ou de um conhecido.” Para ele, além de recíproca, a relação deve ser gentil – não invasiva –, baseada na confiança e se fortalecer a cada contato. “Claro que há o interesse – e ele é lícito, não há problema nenhum. Mas o que não pode, nem adianta, é esconder isso. As pessoas hoje em dia buscam honestidade, não adianta tentar enrolar”, afirma o consultor.

Naturalidade e honestidade, aliás, são palavras bastante repetidas pelos entrevistados desta reportagem. Eles incorporaram a prática do networking de tal forma ao seu dia a dia que ela se tornou parte de seu estilo de vida. Possuem um interesse genuíno nas pessoas, interagem de maneira constante – não só quando precisam de algo – e estabelecem conexões sem esperar nada em troca. “Deve-se atender o outro sem expectativa de retorno. Até porque esse retorno talvez nem venha dessa pessoa, mas de outra. Não dá para ter um networking utilitário”, diz Alexandre Caldini. Muitas dessas pessoas nem sequer consideram o que fazem networking. “Para mim, essa palavra remete a algo feito com interesse e objetivo específico de usar outra pessoa, e isso me choca um pouco”, diz Sofia Esteves, presidente do conselho da consultoria de gestão de pessoas DMRH e da empresa de recrutamento Cia de Talentos, de São Paulo.

Sofia é detentora de uma das redes mais numerosas do país, o que inclusive lhe rendeu o convite para ser uma das primeiras influencers – pessoas de referência para seguidores de determinados temas – no LinkedIn do Brasil. Sua trajetória como headhunter exigiu que a executiva conhecesse muitas pessoas, mas basta acompanhá-la a algum evento, em que ela mal consegue dar dois passos sem ser abordada por alguém, para perceber que há algo mais em questão. “Eu amo pessoas, me preocupo e me relaciono de verdade com elas. Se estamos abertos a ajudar o outro, também recebemos ajuda quando precisamos”, afirma Sofia. Ela pratica isso adotando gestos simples, como sempre dar uma justificativa quando não pode comparecer a um evento ao qual é convidada ou ligar no dia do aniversário dos seus contatos. “Não há nada mais pessoal do que o dia do aniversário, e todo mundo gosta de ser lembrado”, diz ela. Por outro lado, Sofia critica quem só aciona sua rede por interesse. “Uma coisa que me entristece é a pessoa que nunca fala comigo, mas quando perde o emprego de repente vira meu melhor amigo. Manda mensagem pedindo favor, sem sequer perguntar como eu estou”, diz a executiva.

A presidente da DMRH aprendeu desde cedo, em sua carreira, sobre a importância da atenção sincera aos relacionamentos que cultiva. Seu primeiro assessorado foi um presidente de empresa de 58 anos de idade, que tinha um mês para arrumar um emprego no Brasil ou teria de se mudar para o Canadá. Sofia virou a noite preparando e datilografando o currículo dele e juntos escolheram as empresas de interesse. Nos anos 80, antes do advento do e-mail, o costume era enviar o documento pelo correio. Mas, quando a empresa era perto, Sofia fazia questão de entregar pessoalmente. Em menos de um mês, o cliente recebeu quatro propostas. No dia em que assumiu o novo cargo, o executivo agradeceu Sofia e revelou que, se não tivesse conseguido uma posição, iria se matar. “Chorei muito na hora, teria me sentido muito mal se não o tivesse ajudado”, diz ela. Foi também com esse trabalho que Sofia aprendeu sobre o retorno proporcionado pela ajuda desinteressada. Dois anos mais tarde, quando decidiu abrir sua própria empresa, foi esse mesmo executivo quem a orientou sobre como viabilizar o negócio. “Era uma pessoa que eu tinha a obrigação de atender naquele momento, porque era meu cliente, mas pus afeto e fiz as coisas antes do prazo. Fui importante na vida dele, mas nunca imaginei que ele depois seria fundamental na minha”, diz ela.

AMIZADES EM SÉRIE

A habilidade para conhecer pessoas novas e travar relacionamentos foi essencial para que Fabio Seixas conseguisse tirar do papel o projeto do Festival Path. Inspirado no SXSW – um dos maiores festivais de cinema, música e tecnologia do mundo, realizado em Austin, nos Estados Unidos – o Path reúne shows e palestras sobre temas como inovação e liderança e acontece em São Paulo. Em sua última edição, em maio deste ano, foram 150 palestras e um público estimado em 10.000 pessoas. O networking é essencial para que os organizadores de um evento desse porte consigam identificar e contatar todos os expositores e viabilizar o festival em prazos relativamente curtos. “Neste ano, fizemos audições em Curitiba, Salvador e no Rio de Janeiro, e muitos dos que participaram chegaram até nós a partir de contatos que fiz pela minha rede ou foram indicados por conhecidos”, afirma.

O criador do festival, que até 2015 trabalhou como diretor executivo na Conspiração Filmes, sempre tocou paralelamente ao emprego projetos que incentivam o networking, como o PlusPlus!, evento que uma vez por mês reúne cerca de 30 profissionais para tomar café da manhã e debater um tema atual relacionado a inovação e criatividade. Segundo ele, sua habilidade em fazer novos contatos e amizades foi desenvolvida desde a infância, pelo fato de ter precisado se mudar muitas vezes – primeiro, em decorrência do trabalho do pai e, depois, por seu próprio interesse em explorar o mundo. Até os 25 anos de idade, Fabio morou em 17 lugares diferentes, passando por países como Estados Unidos, México, África do Sul e China. “Sempre gostei de estar rodeado de gente e, desde novo, percebi o poder que a troca entre as pessoas pode ter para motivar mudanças e inovação”, diz ele.

Para Carlos Pessoa, executivo do setor de tecnologia que atuou como diretor-geral da Wara, uma aceleradora de startups da Telefônica no país, a habilidade para o networking também se transformou em oportunidade de trabalho. Em 2015, ele recebeu via LinkedIn um contato de um funcionário do Coursera, empresa americana de cursos online, que havia chegado até ele através de outra pessoa de sua rede. Como admirava a empresa, Carlos passou a ajudar o Coursera a fazer networking no Brasil. Ofereceu o próprio escritório para ser usado pelo executivo responsável pela América Latina – que trabalhava de um hotel – e começou a apresentar pessoas da área que pudessem ajudar a expandir a empresa por aqui. “Fazia isso porque gostava da empresa, mas ter uma pessoa do Vale do Silício trabalhando próximo a nós também poderia gerar networking para outras empresas da aceleradora”, afirma Carlos. Depois de mais de um ano ajudando a empresa de maneira voluntária, o executivo recebeu um convite para virar diretor-geral do Coursera na América Latina. “Estava fazendo algo para ajudar os outros e, no fim das contas, acabou surgindo algo legal pra mim”, diz Carlos, que acaba de se mudar para o México.

E ele não se intimida com a ideia de ter que iniciar uma rede do zero no novo país. “Já morei no Egito, na África do Sul e na Jordânia – enfim, estou acostumado a construir redes de relacionamento”, afirma. Qual a estratégia? “Já me apresento para pessoas em comum, organizo um jantar com gente do meu mercado e falo para levarem conhecidos, para todo mundo trocar cartão, se conhecer”, diz Carlos.

AMPLIANDO A REDE

As ferramentas tecnológicas hoje disponíveis podem e devem ser usadas para ampliar as redes de contatos. “O ideal é separar um momento do dia para explorar a ferramenta. Ver quem está fazendo o quê, quem mudou de emprego ou montou uma empresa, parabenizar e comentar esses posts”, afirma Fernanda Brunsizian, do LinkedIn Brasil. Ao acessar o perfil de alguém nessa rede social, é possível visualizar contatos com até dois graus de separação. Pedir que um amigo em comum o apresente – mesmo que digitalmente – para a pessoa que se deseja alcançar pode ajudar. Isso deixa o contato menos frio e aumenta as chances de que a pessoa atenda sua solicitação ou preste atenção no que você tem a dizer. “Após esse primeiro contato, é importante sair um pouco do mundo virtual”, afirma Fernanda. “O digital é muito bom para escala, alcance, mas é fundamental complementar o networking ao vivo. Marque um café ou algo do tipo, pois o olho no olho faz muita diferença.” Nos contatos feitos pessoalmente, busque anotar detalhes sobre as pessoas que conheceu em eventos, para facilitar a retomada da conversa no futuro. Dados como o assunto discutido e o local onde ocorreu o encontro, por exemplo, podem ajudar.

Quem se destaca na arte de colocar a tecnologia a serviço do networking é Marienne Coutinho, sócia da consultoria KPMG e instrutora de networking na empresa. Dona de uma rede com 4.000 conexões, Marienne se diz bastante disciplinada no cultivo dessas relações. “Antes de uma reunião com alguém, já entro no perfil profissional da pessoa e vejo o histórico dela, contatos e interesses em comum. Isso é um tipo de informação que não tínhamos antigamente e que ajuda muito a identificar pontos de empatia.” Ela também é usuária do aplicativo Evernote, que possui uma ferramenta que exporta e categoriza contatos de um cartão de visitas fotografado. Uma mão na roda para quem reclama da falta de tempo para se organizar.

Para a executiva, que também é co- presidente da Women Corporate Directors no Brasil, um grupo voltado para treinar e aumentar a representatividade de mulheres em conselhos de empresas, o networking é um trabalho de longuíssimo prazo para o qual as pessoas só costumam atentar quando já é muito tarde, especial- mente as mulheres. “Nos conselhos, por exemplo, a maior parte das posições é preenchida por indicações, geralmente feitas pelos membros que já o compõem – em sua maioria, homens”, afirma Marienne. Para romper com esse ciclo, Marienne defende que as mulheres dediquem mais tempo ao networking. Outra dica é tentar se relacionar ao máximo com pessoas de outras áreas, para ganhar conhecimento e enxergar novas possibilidades. “O networking só é amplo de verdade quando se sai do próprio círculo”, afirma a executiva.

E é justamente esse o primeiro passo para quem quer desenvolver sua rede. Para interagir e construir relações, é preciso sair da zona de conforto. “Quando as pessoas se sentam para assistir a uma palestra ou algo do gênero, elas não conversam nem com a pessoa ao lado. Essa é a primeira coisa que eu faço numa situação assim. Começo me apresentando”, diz Sofia Esteves. E você, já se apresentou para alguém hoje?

Os Reis do Networking. 2

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.