PSICOLOGIA ANALÍTICA

GÊNIOS POR ACIDENTE

Em alguns casos, lesão na cabeça pode fazer aflorar dons artísticos ou intelectuais até então ocultos. Registro mundial apresenta apenas 32 casos de pessoas comuns em todo o planeta que, após trauma, demência ou AVC, apresentam talentos inusitados.

Gênios por acidente

Um menino de 10 anos, Orlando Serrell, foi atingido por uma bola de beisebol, ficou inconsciente e descobriu mais tarde que, após o trauma, conseguia se lembrar do dia da semana exato e do clima de qualquer data. Podia recordar também os mínimos acontecimentos diários. Agredido durante um assalto, Jason Padgett sofreu uma lesão cerebral grave. Logo depois, começou a ver o que descreve simplesmente como “imagens” que ele passou a desenhar. Quando mostrou seu trabalho, soube que os padrões repetidos, similares entre si, eram fractais.

Essas duas pessoas têm uma condição notável conhecida como síndrome de savant adquirida. Na forma mais conhecida de savant – que se tornou famosa com o filme Rain man, de 1988 -, pessoas são dotadas de habilidades extraordinárias bem definidas desde o início da vida. Podem ter talentos musicais, artísticos, matemáticos, mnemônicos ou mecânicos, que contrastam com suas deficiências marcantes na linguagem, interação social e outras faculdades mentais em geral. Em Rain Man, por exemplo, o personagem do ator Dustin Hoffman, Raymond Babbitt, tinha memória incrível, habilidades impressionantes em matemática e cálculo de datas, mas também apresentava limitações cognitivas e comportamentais graves decorrentes do autismo.

Já na síndrome de savant adquirida, os níveis quase geniais de aptidões artísticas e intelectuais surgem após um golpe forte na cabeça ou outro dano cerebral. A descoberta desse fenômeno incomum levanta a suspeita de que o potencial latente em algum campo artístico ou intelectual – um “savant interior” – reside em cada um de nós. Se for assim, talvez possamos encontrar uma forma para ativar essas capacidades ocultas, mesmo na ausência de doença ou lesão.

Estudei a síndrome de savant durante grande parte da minha carreira. Até meados da década de 80, supunha que fosse congênita, sempre se apresentando desde o nascimento. Mas, então, participei da abertura da exposição de esculturas excepcionais feitas por Alonzo Clemons. Desde bebê, ele parecia aprender muito rapidamente. Por volta dos 3 anos, no entanto, uma queda resultou em lesão cerebral, retardando seu desenvolvimento cognitivo precipitadamente e deixando-o com deficiência mental grave, que comprometeu seu vocabulário e limitou a linguagem. Mais tarde, desenvolveu uma capacidade espetacular de esculpir qualquer material à disposição – mesmo subtraídos da cozinha. Com o novo talento, veio um fascínio crescente por animais. Ele podia, por exemplo, olhar para a fotografia de um cavalo em uma revista e esculpir uma réplica tridimensional em menos de meia hora, cada músculo e tendão reproduzido em detalhes precisos.

Clemons despertou meu interesse pela síndrome de savant adquirida. Examinei relatos na literatura médica, mas encontrei apenas alguns casos. Em 1923, a psicóloga Blanche M. Minogue descreveu o aparecimento de extraordinárias habilidades musicais em uma criança de 3 anos após um surto de meningite. Em 1980, T. L. Brink, também psicólogo, relatou o caso de um menino de 9 anos cujas habilidades mecânicas superiores surgiram após um ferimento com bala no hemisfério esquerdo do cérebro. Ele conseguia desmontar, remontar e modificar bicicletas de várias marchas e chegou a inventar um saco de pancadas que podia simular os saltos e movimentos de um adversário.

Esses relatos esparsos nas décadas anteriores à de 80 refletiam a raridade dessa condição, e mesmo entre médicos era pouco difundida a ideia de que uma lesão cerebral ou acidente vascular cerebral (AVC) pudesse aumentar a capacidade cognitiva ou criativa. Então, decidi coletar descrições desses casos. Até 2010, havia montado um registro mundial de 319 savants conhecidos, dos quais apenas 32 exibiam a forma adquirida.

Entre os relatórios inseridos no meu registro estava o trabalho do neurologista Bruce Miller, agora na Universidade da Califórnia em São Francisco. Em 1996, ele começou a compilar o primeiro dos 12 casos de pessoas com um transtorno conhecido como demência frontotemporal (DFT). Esses pacientes idosos demonstraram habilidades musicais ou artísticas, pela primeira vez, em alguns casos em níveis prodigiosos, após o diagnóstico. A DFT difere da demência causada pelo Alzheimer na medida em que o processo degenerativo afeta apenas os lobos frontais, e não áreas mais amplas do cérebro.

Ela normalmente visa a área temporal esquerda anterior do cérebro e o córtex orbito frontal. As duas regiões costumam inibir a atividade do sistema visual na parte de trás do cérebro, envolvida no processamento de sinais recebidos dos olhos. A doença parece promover a sensibilidade artística, desligando sinais inibitórios da parte frontal do cérebro. O desbloqueio das travas permite que o cérebro processe imagem e som de novas maneiras, liberando sensibilidades artísticas ou criativas, mesmo que os danos aos lobos frontais possam levar a comportamentos inadequados que caracterizam a DFT. “A demência fronto temporal é uma janela inesperada no processo artístico”, considera Miller.

Trabalhos posteriores concluem que o gênio por acidente resulta da atividade diminuída em algumas áreas cerebrais combinada com intensificação em outras, como contrapeso. Mais especificamente, trata-se de um conjunto de eventos que eu chamo de os três Rs, que ocorrem depois que o cérebro está danificado, em geral após o hemisfério esquerdo ser atingido, de modo semelhante ao que aconteceu com os casos de DFT de Miller. O processo começa com o recrutamento, um aumento na atividade elétrica no tecido cortical ainda intacto, muitas vezes no hemisfério direito. Em seguida, os circuitos cerebrais passam por religação para estabelecer conexões recém-formadas entre regiões que não estavam previamente ligadas. Depois, vem a recomposição da capacidade dormente, resultante do acesso aumentado às áreas cerebrais recém-conectadas.

Um experimento de Richard Chi e Allan Snyder, ambos então no Centro da Mente, da Universidade de Sydney, usou uma tecnologia relativamente nova para fornecer alguma evidência de que essas mudanças cerebrais são responsáveis por habilidades savant. Com estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC), os cientistas fizeram com que voluntários desenvolvessem, por alguns minutos, habilidades semelhantes às dos savants. A técnica gera uma corrente elétrica polarizada para diminuir a atividade na parte do hemisfério esquerdo envolvido na entra­ da sensorial, memória, linguagem e outros processos cerebrais, enquanto a atividade no hemisfério direito (lobo temporal anterior direito) é aumentada.

Então, os cientistas pediram a participantes do estudo que resolvessem o quebra-cabeça dos nove pontos com ou sem ETCC – uma tarefa que exige criatividade para buscar a solução de maneira não convencional. Participantes tiveram de ligar três fileiras de três pontos usando quatro linhas retas sem erguer a caneta e sem passar por cima das linhas traçadas. Nenhum deles conseguiu resolver antes do estímulo, e, quando 29 pessoas foram expostas à estimulação “simulada”- eletrodos colocados sem nenhuma corrente para testar efeitos placebo -, ainda assim ficaram perdidas. Com a corrente ligada, no entanto, cerca de 40% – 14 de um total de 33 participantes – foram bem-sucedidos na atividade.

Como uma pessoa pode, de repente, sair-se muito melhor ao toque de um botão? Pois tanto os savants congênitos quanto os adquiridos “sabem de coisas” intrinsecamente, sem que tenham sido ensinados. Clemons, o escultor, não teve nenhum treinamento formal em arte, mas sabia instintivamente como produzir uma armação, a estrutura da escultura, que permitisse que suas peças mostrassem cavalos em movimento.

Gênios por acidente. 2

NEURÔNIOS CONECTADOS

Uma explicação plausível para talentos ocultos que surgem na síndrome de savant – seja no início da vida ou induzida por lesão – é que “reservatórios de aptidões e conhecimento” devem ser herdados de alguma forma. Não começamos a vida com uma lousa em branco, posteriormente inscrita pela educação e por outras experiências de vida. O cérebro pode vir carregado de um conjunto de predisposições inatas para processar o que vê ou para entender as “regras” da música, arte ou matemática. A diferença é que os savants conseguem alcançar o conhecimento herdado muito melhor que uma pessoa comum.

Saber que esses talentos podem surgir até mesmo mais tarde na vida suscita a questão de descobrir se todos podem se tornar savants e se isso seria possível sem ter de enfrentar as agruras da lesão cerebral ou da demência. A maneira mais óbvia de desencadear esse brilho oculto seria aplicar a ETCC – o u uma tecnologia relacionada denominada estimulação magnética transcraniana repetitiva – como uma “touca de pensamento” que ligaria e a pagaria regiões cerebrais para potencialmente aumentar a capacidade criativa da pessoa. Uma solução tecnológica pode não ser um pré-requisito absoluto, no entanto. A meditação ou simplesmente a prática assídua de uma habilidade artística pode permitir a ligação do lado direito mais criativo do cérebro e, assim, explorar capacidades artísticas desconhecidas.

Compreendendo melhor o cérebro, cientistas podem encontrar outras formas de determinar o que acontece ao aumentar ou diminuir o volume de circuitos cerebrais. O imageamento por tensor de difusão (ITD) e o rastreamento por tensor de difusão (RTD), que identificam as conexões entre os neurônios (“rastreamento de fibras”), são mais adequa­ dos que os métodos anteriores para revelar os meandros da fiação no cérebro humano, permitindo que pesquisadores correlacionem a atividade cerebral com o súbito aparecimento de aptidões. Essas tecnologias mais precisas podem proporcionar imagens tridimensionais das fibras que unem as células cerebrais. Um desafio para descobrir a neurobiologia do savantismo é a dificuldade de observar o cérebro enquanto realiza tarefas criativas que exijam movimento. Não apenas é difícil esculpir ou tocar piano dentro de um aparelho de ressonância magnética, mas qualquer movimento compromete a acuidade das imagens. Uma técnica mais recente – espectroscopia do infravermelho próximo (NIRS) – contornaria esses problemas substituindo máquinas volumosas por um solidéu confortável que mede a quantidade de oxigênio no sangue fluindo através dos vasos sanguíneos do cérebro e retransmite informações para o software de processamento de imagem. Ainda mais promissor é um capacete desenvolvido recentemente que usa outra técnica de imageamento – a tomografia por emissão de pósitrons (PET) – para monitorar quando uma pessoa está sentada, em pé ou até mesmo exercitando-se. O desafio maior parece ser encontrar as melhores maneiras de explorar nosso “pedacinho de Rain Man” mantendo intacto o restante de nossas faculdades mentais.

Gênios por acidente. 3

APRIMORAMENTO INSTANTÂNEO

Uma tecnologia denominada estimulação magnética transcraniana repetitiva pode desencadear temporariamente habilidades semelhantes ao savant e oferece uma forma de investigar como surgem essas habilidades. Quando a têmpora esquerda é estimulada, um campo magnético pulsante se propaga pelo crânio, aparentemente desligando circuitos cerebrais na área temporal esquerda, responsável pelo processamento de palavras e outras informações. Nesse momento, circuitos cerebrais do lado direito, dedicados a tarefas espaciais, assumem papel mais abrangente no processamento mental. Em vários casos, pessoas expostas a campos magnéticos puderam adivinhar melhor a quantidade de uma enorme coleção de objetos.

PEQUENOS FLASHS DE GENIALIDADE

Mesmo sem passar por algum trauma que, eventualmente, desperte uma habilidade excepcional, a maioria das pessoas pode ter “flashs de genialidade” – aqueles momentos em que tudo “se encaixa” e surge uma grande ideia. O insight tão bem-vindo pode ser muito útil – e, embora não seja possível forçá-lo a aparecer, há maneiras de favorecê-lo. Se, por exemplo, você já passou um bom tempo refletindo sobre um problema e sente que se meteu num beco sem saída, isso significa que pode estar muito perto da solução. Segundo pesquisas, a sensação de não conseguir ir adiante às vezes precede uma súbita descoberta. Se, no entanto, você não consegue avançar ou fica tentando sempre a mesma solução, faça uma pausa. Ou, melhor ainda: tire uma soneca.

De fato, importantes insights aparecem quando sonhamos ou depois de uma cochilada. Conta-se que o famoso químico alemão Friedrich August Kekulé von Stradonitz (1829 – 1896), por exemplo, descobriu a estrutura anular do benzeno ao sonhar com uma cobra que mordia o próprio rabo.

O sono faz bem a esses processos perceptivos, como revelou um estudo de autoria de Ullrich Wagner e de seus colegas das universidades de Lübeck e Colônia. Eles propuseram a voluntários séries simples de caracteres às quais, mediante a aplicação de duas regras lógicas, os participantes deveriam reagir pressionando uma sequência de teclas. Contudo, as séries de caracteres eram escolhidas de tal modo que as tarefas podiam ser resolvidas também com o emprego de uma estratégia bem mais simples. Os voluntários efetuaram uma grande quantidade dessas tarefas, durante as quais se computaram quantos deles conseguiam descobrir a estratégia mais favorável. Aqueles que, antes de descoberto o atalho, foram interrompidos e postos para dormir por algumas horas encontraram o truque com muito mais facilidade que aqueles aos quais os pesquisadores não permitiram a pausa para uma soneca.

Os pesquisadores explicam essa diferença espantosa recorrendo a processos de consolidação que têm lugar no hipocampo durante o cochilo: desse modo, as novas informações recebidas são associadas ao saber armazenado na memória há mais tempo. E isso pode fazer com que descubramos com maior rapidez estratégias mais simples de resolução de problemas

Se tirar uma soneca não é possível, deixar que o pensamento divague um pouco ajuda. Ou, então, ir fazer alguma coisa que deixe você de bom humor – tomar um sorvete ou, talvez, jogar uma partidinha de pingue ­ pongue. Muitos estudos demonstram que um estado de espírito positivo propicia a contemplação inconsciente de um problema de outro ponto de vista, conduzindo, assim, à solução.

Gênios por acidente. 4

TALENTOS ESPECIAIS

O savantismo adquirido permite que as pessoas se lembrem de fatos com enorme precisão, façam desenhos, poesia e música de qualidade, além de cálculos mentais complexos instantaneamente. Veja alguns casos:

O falecido TOMMY MC HUGH era um construtor de 51 anos, de Liverpool, na Inglaterra, sem nenhum interesse especial por poesia ou pintura. Em 2001, depois de sofrer uma hemorragia no revestimento do crânio que danificou a área frontal do cérebro, ele começou a encher cadernos com poemas e passava grande parte do tempo pintando e esculpindo. Os médicos atribuíram esse novo talento à “desinibição relativa”, que libera a capacidade de evocar justaposições incomuns de palavras ou de imagens. McHugh fez exposições no Reino Unido e sua história foi registrada em diversos documentários para a televisão.

ORLANDO SERRELL, hoje com 47 anos, começou a fazer cálculos de calendário quando menino após ter sido nocauteado por uma bola de beisebol. Ele consegue determinar o dia da semana de qualquer ano, desde a data da lesão. Também relembra o clima de todos os dias desde então. Suas habilidades de memória avançaram a ponto de ele se lembrar dos mínimos detalhes das atividades diárias – uma condição conhecida como memória hipertimésica. Escaneamentos de seu cérebro, no Centro Médico da Universidade Colúmbia, confirmaram que Serrell se envolve em cálculo inconsciente e sua habilidade não se baseia em memorizar o calendário, mas em cálculo.

DEREK AMATO era um treinador empresarial de 40 anos, vivia no Colorado e não tinha nenhum interesse ou aptidão especial em música. Em 2006, ele mergulhou na parte rasa de uma piscina, teve lesão cerebral grave e perdeu parte da audição de um ouvido. Após a alta hospitalar, foi atraído inexplicavelmente para o piano, que nunca havia tocado antes. Começou a ver manchas em preto e branco que conseguiu transpor de sua mente para notas. Agora cria composições ao vivo, toca e grava.

O cirurgião ortopédico TONY CICORIA, de Nova York, falava ao telefone em 1994, quando foi atingido por um raio. Presumiu-se que estava com parada cardíaca e foi reanimado por uma enfermeira que aguardava o uso do telefone. Durante dez dias, ele teve alguns problemas leves de memória – que finalmente cederam, e ele retomou sua prática profissional, sem efeitos residuais do raio. Mas com uma mudança: desenvolveu obsessão pela música clássica. Antes do acidente, gostava de rock, mas depois mostrou enorme desejo de tocar música clássica.

Pouco depois da lesão, ouviu música em um sonho. A melodia o tomou, ressoando por dias em sua cabeça após ter acordado. Finalmente, ele decidiu transcrever a insistente peça em um concerto de piano de 26 páginas denominado Fantasia: the lightning sonata, op. 1.

JASON PADGETT, que desenvolveu paixão por matemática, física e formas geométricas após agressão num assalto, ainda gerencia três lojas de futon (colchão tradicional japonês) no estado de Washington. Agora ele chama a lesão de “raro do m”.

Antes do assalto, Padgett tinha aversão a matemática. Agora o ex desistente da faculdade frequenta cursos de alto nível sobre o tema para entender completamente as figuras geométricas pelas quais tanto se interessa. Escreveu um livro sobre suas experiências.

Anúncios

OUTROS OLHARES

ESTICA, AMASSA E APERTA

O slime, massa de aspecto gelatinoso, virou febre entre as crianças (e os adultos) do Brasil. A graça toda é fazê-lo em casa, com produtos comprados em farmácia.

Estica, amass e aperta

Uma rápida busca no Instagram com o termo #slime traz um resultado impressionante:11 milhões de publicações marcadas na rede social. Em pleno ano de Copa do Mundo, a título de comparação, #futebol teve a metade desse montante. Slime, em inglês (lê-se “islaime”; lodo, em português), é uma massa de aspecto gelatinoso que se transformou em mania entre as crianças, e mesmo entre os adultos. Semelhante à antiga geleca industrializada dos anos 1980, pode ser comprado pronto em lojas de brinquedo. Mas a graça toda é prepará-lo com compostos domésticos. As receitas, que começaram a ser divulgadas em vídeos caseiros feitos na Tailândia, levam os mais variados ingredientes – espuma de barbear e hidratante (para dar maciez), cola e água boricada (juntas, dão a consistência) e enfeites como corante, glitter e bolinhas de isopor. Luiza DeMaria Mutarelli, de 8 anos, tem uma coleção de slimes em casa, todos preparados por ela. “Levo para a escola, a casa dos meus avós, a casa dos amigos e o clube”, diz.

O processo artesanal de elaboração da engenhoca fez com que fosse adotada em terapias infantis, em consultórios de psicólogos. O trabalho manual estimula a paciência, o raciocínio e a coordenação motora. A possibilidade de personalização contribui para o aumento da autoestima, perseverança e criatividade. Diz a psicoterapeuta Fernanda Grinberg: “Uma das maiores qualidades é ajudar a criança a lidar com frustrações”. Isso porque muitas vezes as substâncias escolhidas ou as quantidades empregadas não formam uma massa com a textura desejada, e tem- se sempre a impressão de resultado ruim, mesmo que não seja. Há um pequeno risco de uso de material indevido, de produtos químicos que podem provocar irritação na pele – mas nada grave. De todo modo, o slime é indicado para crianças com mais de 3 anos. Já não há dúvida alguma do estrondoso sucesso da brincadeira. Um levantamento realizado pela Consulta Remédios, empresa que compara preços de medicamentos na internet, mostrou que entre janeiro e novembro de 2018 ocorreu um aumento de mais de 1.000% nas buscas on-line por água boricada e de 300% por creme de barbear, em relação ao mesmo período do ano anterior. O produto embalado custa cerca de 8 reais. Mas, repita-se, como o legal é montar um laboratório químico no banheiro ou na área de serviço, pais, preparem-se, se é que já não sentiram no bolso: os kits chegam a 500 reais.

Estica, amassa e aoerta. 2

GESTÃO E CARREIRA

 OS REIS DO NETWORKING

Cultivar uma rede de contatos é crucial para se recolocar mais rápido, prosperar nos negócios e receber indicações que ajudem no crescimento da carreira. Saiba como incorporar esse hábito à sua rotina para cultivar os relacionamentos sem parecer interesseiro.

Os Reisa do Networking

No Brasil, cerca de 25 milhões de pessoas possuem perfis no LinkedIn. Somos o terceiro maior país do mundo em número de usuários dessa rede social profissional, atrás apenas dos Estados Unidos, que têm 128 milhões de profissionais cadastrados, e da Índia, com 35 milhões, mas à frente de Inglaterra e China, ambas com cerca de 20 milhões de usuários. Esses números ajudam a dimensionar a importância dos relacionamentos para a conquista de posições no mercado de trabalho brasileiro ou para o fechamento de negócios. Isso não significa, entretanto, que os brasileiros sejam mestres na arte de fazer networking. “Muita gente abandona o perfil na rede quando não precisa de nada. Isso é um erro”, diz Fernanda Brunsizian, gerente de comunicação do LinkedIn Brasil. Numa época de corte de postos de trabalho, uma boa rede de contatos pode ser a diferença entre a recolocação ou o desemprego.

Segundo especialistas em recrutamento, como as empresas não estão contratando, mas apenas fazendo substituições nos times, entre 80% e 90% das oportunidades de trabalho no momento advêm de relacionamentos. “A maior parte dessas posições está invisível – não está nos grandes jornais nem nas mídias sociais. Elas circulam de boca em boca e é preciso estar conectado às pessoas certas para ficar sabendo delas e conseguir indicações”, afirma José Augusto Minarelli, presidente da consultoria Lens & Minarelli, especializada em transição de carreira e aconselhamento para executivos e autor do livro Superdicas de Networking para Sua Vida Pessoal e Profissional (Ed. Saraiva).

Quem conhece outras pessoas e estabelece com elas vínculos de confiança possui um capital social precioso, capaz de abrir portas no mundo dos negócios ou nas empresas onde se deseja trabalhar. Um dos que se deram conta de que o valor desse capital não é mera metáfora foi o empresário Sergio Waib, apresentador do programa Giro Business, do canal Band News. Dono de uma rede que inclui 400 executivos de grandes empresas brasileiras, nos últimos anos Sergio começou a ser abordado por pessoas interessadas em realizar negócios com seus contatos. A princípio, ele se surpreendeu em saber que os relacionamentos que cultivava naturalmente eram considerados tão valiosos pelo merca- do. Hoje, ele apresenta as duas partes e, se o negócio é fechado, recebe uma comissão por ter intermediado a aproximação. Mesmo colhendo os frutos de seu bom networking, ele alerta que uma rede jamais deve ser cultivada visando apenas ao dinheiro. “Assim que seus contatos percebem que não existe foco e consistência no que você oferece, deixam de te atender e considerar”, afirma o empresário. “Para mim, o networking é uma corrente do bem que acontece quase naturalmente, seja para coisas pequenas, como gentilezas e favores, ou para a realização de negócios”, diz Sergio.

INTERESSE GENUÍNO

Mas qual o segredo para fazer networking sem parecer interesseiro? Esse é o tema do livro Networking vs Notworking, ainda sem editora definida, do executivo e agora consultor Alexandre Caldini, de São Paulo. Após fazer carreira como diretor e presidente de grandes empresas, onde sempre se destacou por sua capacidade de relacionamento, Alexandre deixou a vida executiva e agora pretende ajudar outras pessoas a desenvolver essa habilidade. Segundo o consultor, o interesseiro é alguém egoísta, aproveitador, que se vale da boa vontade dos outros em benefício próprio sem oferecer nada em troca. “Já o interessado se aproxima dos outros porque vê uma oportunidade de aprendizado, de amizade e também de realizar negócios, mas entende que a aproximação precisa acontecer visando ao benefício de ambas as partes”, diz Alexandre. “Ora eu preciso de você, ora você precisa de mim, ou de um conhecido.” Para ele, além de recíproca, a relação deve ser gentil – não invasiva –, baseada na confiança e se fortalecer a cada contato. “Claro que há o interesse – e ele é lícito, não há problema nenhum. Mas o que não pode, nem adianta, é esconder isso. As pessoas hoje em dia buscam honestidade, não adianta tentar enrolar”, afirma o consultor.

Naturalidade e honestidade, aliás, são palavras bastante repetidas pelos entrevistados desta reportagem. Eles incorporaram a prática do networking de tal forma ao seu dia a dia que ela se tornou parte de seu estilo de vida. Possuem um interesse genuíno nas pessoas, interagem de maneira constante – não só quando precisam de algo – e estabelecem conexões sem esperar nada em troca. “Deve-se atender o outro sem expectativa de retorno. Até porque esse retorno talvez nem venha dessa pessoa, mas de outra. Não dá para ter um networking utilitário”, diz Alexandre Caldini. Muitas dessas pessoas nem sequer consideram o que fazem networking. “Para mim, essa palavra remete a algo feito com interesse e objetivo específico de usar outra pessoa, e isso me choca um pouco”, diz Sofia Esteves, presidente do conselho da consultoria de gestão de pessoas DMRH e da empresa de recrutamento Cia de Talentos, de São Paulo.

Sofia é detentora de uma das redes mais numerosas do país, o que inclusive lhe rendeu o convite para ser uma das primeiras influencers – pessoas de referência para seguidores de determinados temas – no LinkedIn do Brasil. Sua trajetória como headhunter exigiu que a executiva conhecesse muitas pessoas, mas basta acompanhá-la a algum evento, em que ela mal consegue dar dois passos sem ser abordada por alguém, para perceber que há algo mais em questão. “Eu amo pessoas, me preocupo e me relaciono de verdade com elas. Se estamos abertos a ajudar o outro, também recebemos ajuda quando precisamos”, afirma Sofia. Ela pratica isso adotando gestos simples, como sempre dar uma justificativa quando não pode comparecer a um evento ao qual é convidada ou ligar no dia do aniversário dos seus contatos. “Não há nada mais pessoal do que o dia do aniversário, e todo mundo gosta de ser lembrado”, diz ela. Por outro lado, Sofia critica quem só aciona sua rede por interesse. “Uma coisa que me entristece é a pessoa que nunca fala comigo, mas quando perde o emprego de repente vira meu melhor amigo. Manda mensagem pedindo favor, sem sequer perguntar como eu estou”, diz a executiva.

A presidente da DMRH aprendeu desde cedo, em sua carreira, sobre a importância da atenção sincera aos relacionamentos que cultiva. Seu primeiro assessorado foi um presidente de empresa de 58 anos de idade, que tinha um mês para arrumar um emprego no Brasil ou teria de se mudar para o Canadá. Sofia virou a noite preparando e datilografando o currículo dele e juntos escolheram as empresas de interesse. Nos anos 80, antes do advento do e-mail, o costume era enviar o documento pelo correio. Mas, quando a empresa era perto, Sofia fazia questão de entregar pessoalmente. Em menos de um mês, o cliente recebeu quatro propostas. No dia em que assumiu o novo cargo, o executivo agradeceu Sofia e revelou que, se não tivesse conseguido uma posição, iria se matar. “Chorei muito na hora, teria me sentido muito mal se não o tivesse ajudado”, diz ela. Foi também com esse trabalho que Sofia aprendeu sobre o retorno proporcionado pela ajuda desinteressada. Dois anos mais tarde, quando decidiu abrir sua própria empresa, foi esse mesmo executivo quem a orientou sobre como viabilizar o negócio. “Era uma pessoa que eu tinha a obrigação de atender naquele momento, porque era meu cliente, mas pus afeto e fiz as coisas antes do prazo. Fui importante na vida dele, mas nunca imaginei que ele depois seria fundamental na minha”, diz ela.

AMIZADES EM SÉRIE

A habilidade para conhecer pessoas novas e travar relacionamentos foi essencial para que Fabio Seixas conseguisse tirar do papel o projeto do Festival Path. Inspirado no SXSW – um dos maiores festivais de cinema, música e tecnologia do mundo, realizado em Austin, nos Estados Unidos – o Path reúne shows e palestras sobre temas como inovação e liderança e acontece em São Paulo. Em sua última edição, em maio deste ano, foram 150 palestras e um público estimado em 10.000 pessoas. O networking é essencial para que os organizadores de um evento desse porte consigam identificar e contatar todos os expositores e viabilizar o festival em prazos relativamente curtos. “Neste ano, fizemos audições em Curitiba, Salvador e no Rio de Janeiro, e muitos dos que participaram chegaram até nós a partir de contatos que fiz pela minha rede ou foram indicados por conhecidos”, afirma.

O criador do festival, que até 2015 trabalhou como diretor executivo na Conspiração Filmes, sempre tocou paralelamente ao emprego projetos que incentivam o networking, como o PlusPlus!, evento que uma vez por mês reúne cerca de 30 profissionais para tomar café da manhã e debater um tema atual relacionado a inovação e criatividade. Segundo ele, sua habilidade em fazer novos contatos e amizades foi desenvolvida desde a infância, pelo fato de ter precisado se mudar muitas vezes – primeiro, em decorrência do trabalho do pai e, depois, por seu próprio interesse em explorar o mundo. Até os 25 anos de idade, Fabio morou em 17 lugares diferentes, passando por países como Estados Unidos, México, África do Sul e China. “Sempre gostei de estar rodeado de gente e, desde novo, percebi o poder que a troca entre as pessoas pode ter para motivar mudanças e inovação”, diz ele.

Para Carlos Pessoa, executivo do setor de tecnologia que atuou como diretor-geral da Wara, uma aceleradora de startups da Telefônica no país, a habilidade para o networking também se transformou em oportunidade de trabalho. Em 2015, ele recebeu via LinkedIn um contato de um funcionário do Coursera, empresa americana de cursos online, que havia chegado até ele através de outra pessoa de sua rede. Como admirava a empresa, Carlos passou a ajudar o Coursera a fazer networking no Brasil. Ofereceu o próprio escritório para ser usado pelo executivo responsável pela América Latina – que trabalhava de um hotel – e começou a apresentar pessoas da área que pudessem ajudar a expandir a empresa por aqui. “Fazia isso porque gostava da empresa, mas ter uma pessoa do Vale do Silício trabalhando próximo a nós também poderia gerar networking para outras empresas da aceleradora”, afirma Carlos. Depois de mais de um ano ajudando a empresa de maneira voluntária, o executivo recebeu um convite para virar diretor-geral do Coursera na América Latina. “Estava fazendo algo para ajudar os outros e, no fim das contas, acabou surgindo algo legal pra mim”, diz Carlos, que acaba de se mudar para o México.

E ele não se intimida com a ideia de ter que iniciar uma rede do zero no novo país. “Já morei no Egito, na África do Sul e na Jordânia – enfim, estou acostumado a construir redes de relacionamento”, afirma. Qual a estratégia? “Já me apresento para pessoas em comum, organizo um jantar com gente do meu mercado e falo para levarem conhecidos, para todo mundo trocar cartão, se conhecer”, diz Carlos.

AMPLIANDO A REDE

As ferramentas tecnológicas hoje disponíveis podem e devem ser usadas para ampliar as redes de contatos. “O ideal é separar um momento do dia para explorar a ferramenta. Ver quem está fazendo o quê, quem mudou de emprego ou montou uma empresa, parabenizar e comentar esses posts”, afirma Fernanda Brunsizian, do LinkedIn Brasil. Ao acessar o perfil de alguém nessa rede social, é possível visualizar contatos com até dois graus de separação. Pedir que um amigo em comum o apresente – mesmo que digitalmente – para a pessoa que se deseja alcançar pode ajudar. Isso deixa o contato menos frio e aumenta as chances de que a pessoa atenda sua solicitação ou preste atenção no que você tem a dizer. “Após esse primeiro contato, é importante sair um pouco do mundo virtual”, afirma Fernanda. “O digital é muito bom para escala, alcance, mas é fundamental complementar o networking ao vivo. Marque um café ou algo do tipo, pois o olho no olho faz muita diferença.” Nos contatos feitos pessoalmente, busque anotar detalhes sobre as pessoas que conheceu em eventos, para facilitar a retomada da conversa no futuro. Dados como o assunto discutido e o local onde ocorreu o encontro, por exemplo, podem ajudar.

Quem se destaca na arte de colocar a tecnologia a serviço do networking é Marienne Coutinho, sócia da consultoria KPMG e instrutora de networking na empresa. Dona de uma rede com 4.000 conexões, Marienne se diz bastante disciplinada no cultivo dessas relações. “Antes de uma reunião com alguém, já entro no perfil profissional da pessoa e vejo o histórico dela, contatos e interesses em comum. Isso é um tipo de informação que não tínhamos antigamente e que ajuda muito a identificar pontos de empatia.” Ela também é usuária do aplicativo Evernote, que possui uma ferramenta que exporta e categoriza contatos de um cartão de visitas fotografado. Uma mão na roda para quem reclama da falta de tempo para se organizar.

Para a executiva, que também é co- presidente da Women Corporate Directors no Brasil, um grupo voltado para treinar e aumentar a representatividade de mulheres em conselhos de empresas, o networking é um trabalho de longuíssimo prazo para o qual as pessoas só costumam atentar quando já é muito tarde, especial- mente as mulheres. “Nos conselhos, por exemplo, a maior parte das posições é preenchida por indicações, geralmente feitas pelos membros que já o compõem – em sua maioria, homens”, afirma Marienne. Para romper com esse ciclo, Marienne defende que as mulheres dediquem mais tempo ao networking. Outra dica é tentar se relacionar ao máximo com pessoas de outras áreas, para ganhar conhecimento e enxergar novas possibilidades. “O networking só é amplo de verdade quando se sai do próprio círculo”, afirma a executiva.

E é justamente esse o primeiro passo para quem quer desenvolver sua rede. Para interagir e construir relações, é preciso sair da zona de conforto. “Quando as pessoas se sentam para assistir a uma palestra ou algo do gênero, elas não conversam nem com a pessoa ao lado. Essa é a primeira coisa que eu faço numa situação assim. Começo me apresentando”, diz Sofia Esteves. E você, já se apresentou para alguém hoje?

Os Reis do Networking. 2

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 11: 27 – 31

Pensando biblicamente

A LOUCURA E A INFELICIDADE DOS PECADORES

 

V. 27 – Observe:

1. Os que se esforçam para fazer o bem no mundo são amados, tanto por Deus como pelo homem; O que busca cedo o bem (este é o significado), que busca oportunidades para servir seus amigos e auxiliar os pobres, e se entrega a isto, busca favor. Todos os que estão à sua volta o amam, e falam bem dele, e estão prontos a fazer-lhe uma benignidade; e, o que é ainda melhor do que isto, melhor do que a vida, ele tem a benignidade de Deus.

2. O que procura o mal está preparando a sua própria destruição, o mal lhe sobrevirá; em um momento ou outro, ele será pago na mesma moeda. E, observe que procurar o mal é aqui apresentado em oposição a buscar o bem; pois os que não estão fazendo o bem, estão fazendo o mal.

 

V. 28 – Observe:

1. As nossas riquezas nos falharão, quando tivermos a maior necessidade: aquele que confia nas suas riquezas, corno se elas pudessem lhe assegurar a benevolência de Deus e ser a sua proteção e porção, cairá, corno um homem que coloca o seu peso em um bordão quebrado, que não somente o irá desapontar, mas penetrará na sua mão e o ferirá.

2. A nossa justiça nos sustentará, e não as nossas riquezas, quando estas falharem: “Os justos reverdecerão como a rama”, a rama da justiça, corno uma árvore cujas folhas não caem (Salmos 1.3). Mesmo na morte, quando as riquezas falham aos homens, os ossos dos justos reverdecerão corno a erva tenra (Isaias 66.14). Quando aqueles que se enraízam no mundo secarem, os que estão enxertados em Cristo e compartilham da sua raiz e gordura serão frutíferos e prosperarão.

 

V. 29 – Duas situações extremas, na administração das questões familiares, são aqui condenadas, e as suas más consequências são preditas:

1. Zelo e atitudes carnais, por um lado. Existem aqueles que, por sua extrema ansiedade na busca do mundo, na sua ansiedade com seus negócios e irritação com suas perdas, sua rigidez com os seus servos e sua mesquinhez com suas famílias, perturbam suas casas, e incomodam continuamente todos ao seu redor; ao passo que outros pensam que, por suportarem facções e contendas em suas famílias – que são realmente um problema para as suas casas – devem ter algum benefício. Mas ambos serão desapontados; herdarão o vento. Tudo o que conseguirão, com estas atitudes, não será apenas ser vazios e sem valor, corno o vento, mas ruidosos e problemáticos, vaidade e aflição de espírito.

2. Descuido e falta de prudência e bom senso, por outro lado. Aquele que é tolo em seus negócios, que não se importa com eles ou que age de maneira estranha com relação a eles, que não tem criatividade e consideração, não somente perde a sua reputação e interesse, mas se torna servo do sábio de coração. Ele é empobrecido, e forçado a trabalhar para obter seu sustento; ao passo que aqueles que ad­ ministram prudentemente seus negócios progridem e vêm a ter domínio sobre ele, e outros como ele. É racional, e muito apropriado, que o tolo seja servo do sábio de coração, e neste aspecto, entre outros, nós somos obrigados a submeter nossas vontades à vontade de Deus, e a estar sujeitos a Ele, porque somos tolos, e Ele é infinitamente sábio.

 

V. 30 – Este verso mostra quão grandes bênçãos são os homens bons, especialmente os que são eminentemente sábios, nos lugares onde vivem, e por isto, o quanto devem ser valorizados.

1. O fruto do justo é árvore de vida. Os frutos da sua piedade e caridade, das suas instruções, repreensões, exemplos e orações, o seu interesse no céu e a sua influência na terra, são como os frutos dessa árvore, preciosos e úteis, pois contribuem para o sustento e nutrição da vida espiritual de muitas pessoas. Estes são os adornos do paraíso e da igreja de Cristo na terra, e por causa deles ela existe e resiste.

2. Os sábios são algo a mais; são como árvores de conhecimento, não proibido, mas conhecimento ordenado. O que é sábio, ao transmitir sabedoria, ganha almas, trazendo-as ao amor a Deus e à santidade, e assim as ganha para os interesses do reino de Deus entre os homens. Os sábios são descritos como ensinando a justiça a muitos, e isto é a mesma coisa que ganhar almas, aqui (Daniel 12.3). Os prosélitos de Abraão são chamados de almas que lhe acresceram (Genesis 12.5). Os que desejam ganhar almas têm necessidade de sabedoria para saber como lidar com elas; e os que ganham almas, mostram que são sábios.

 

V.  31 – Este, em minha opinião, é o único dos provérbios de Salomão que é antecedido por aquela observação de atenção, “eis que”, o que indica que ele não contém apenas uma verdade evidente, que pode ser contemplada, mas uma verdade eminente, que deve ser considerada.

1. Alguns entendem que as duas partes são uma retribuição em meio a um desprazer: o justo, se agir de maneira errada é punido na terra, por suas ofensas; quanto mais o ímpio e o pecador serão punidos pelos seus pecados, que são cometidos, não por fraqueza, mas por arrogância e desdém. Se o juízo começa pela casa de Deus, qual será o fim daqueles que são desobedientes? (1 Pedro 4.17,18; Lucas 2:3.31).

2. Eu prefiro entender o verso como uma recompensa para os justos e uma punição para os pecadores (veja a versão NTLH). Vejamos, são retribuições providenciais. Há algumas recompensas na terra, neste mundo, e nas coisas deste mundo, que provam que deveras há um Deus que julga na terra (Salmos 58.11); mas elas não são universais; muitos pecados ficam impunes na terra, e muitos serviços não obtêm recompensas, o que indica que há um juízo que há de vir, e que haverá retribuições mais exatas e mais completas no futuro. Muitas vezes, os justos são recompensados pela sua justiça, aqui na terra, ainda que esta recompensa não seja a principal, e muito menos a única, destinada a eles ou tencionada por eles; mas o que quer que a Palavra de Deus lhes tenha prometido, ou a sabedoria de Deus julgue adequado para eles, eles receberão na terra. Também o ímpio e o pecador são, algumas vezes, notavelmente punidos nesta vida – nações, famílias, indivíduos. E se os justos, que não merecem a menor recompensa, têm parte dela aqui na terra, muito mais os ímpios, que merecem a maior punição, terão parte da sua punição na terra, como um prenúncio do pior que há de vir. Por isto, perturbai-vos e não pequeis. Se têm dois céus aqueles que não merecem nenhum, muito mais terão dois infernos aqueles que merecem ambos.