PSICOLOGIA ANALÍTICA

MAIS EFICIENTE QUE O CASTIGO

Ao sofrermos uma injúria, tendemos a priorizar necessidades em vez de exigir punição; mas, quando tomamos decisões em nome de outros, preferimos a estratégia “olho por olho”. Essa descoberta questiona a imparcialidade de jurados e juízes.

Mais eficiente que o castigo

Há 24 anos Ruanda foi devastada pela violência. Em apenas quatro meses, membros da maioria hutu mataram centenas de milhares de vizinhos, os tutsis, em minoria. Depois que o massacre finalmente cessou, surgiu uma complexa questão: haveria como remediar esses atos brutais sem acarretar um ciclo de assassinatos cometidos por vingança e retaliação?

A sequência de destruição seria uma síntese da noção de justiça “olho por olho”, em que a punição é proporcional ao crime, abordagem que ainda está na base de sistemas jurídicos mais modernos. Décadas de pesquisas revelam que temos forte propensão a punir os transgressores. O castigo pode incluir a detenção, mas a vingança na mesma medida, sem dúvida, é o objetivo central. De fato, muitos de nós preferimos penalizar alguém mesmo quando isso nos custa. Um estudo de 1995 revela que, quando tratados muito injustamente, alguns indivíduos se mostraram dispostos a abrir mão de até três meses de salário em troca do direito de castigar o agressor.

Mas será que nosso desejo de punição persistiria se tivéssemos outras opções de fazer justiça? Além de simplesmente aceitar a ofensa, em geral, a repressão é a primeira escolha para tentar corrigir um erro. Por essa razão, muitos de nós deixamos de refletir sobre outras maneiras de agir. Uma pesquisa recente feita em nosso laboratório sugere que compensar a vítima, por exemplo, pode ser uma estratégia significativamente vantajosa na hora de conciliar amigavelmente as diferenças.

Mais eficiente que o castigo. 2

NA MESMA MOEDA

Em diversos estudos publicados em 2014, solicitamos a mais de mil voluntários que participassem de um jogo em que, em duplas, teriam de dividir certa quantidade de dinheiro entre si. Em algumas ocasiões, o primeiro optava por manter a maior parte. Assim que o segundo descobria a divisão injusta, os pesquisadores lhe perguntavam como gostaria de novamente distribuir a quantia. Uma opção de reparação é retribuir com a redução do valor oferecido ao outro – uma resposta comumente observada tanto no laboratório como no mundo real. Mas oferecemos também aos participantes outras possibilidades, como reequilibrar a balança, aumentando a própria quantia. Observamos que nove em cada dez optavam pela recompensa em vez de retaliar o outro, mesmo depois de divisões extremamente desproporcionais. Embora os resultados não sejam tão surpreendentes (afinal, quem não gosta de dinheiro?), os voluntários sentiram que essa ação era suficiente para corrigir o erro: em geral, também preferiam não punir o infrator, mesmo que fosse fácil fazer isso.

Evidências de situações jurídicas reais apoiam a ideia de que, para alguns crimes, as pessoas ofendidas optam por outro caminho de reparação quando lhes é oferecida essa possibilidade. Programas de justiça restaurativa, como a comissão criada na África do Sul para responder a violações dos direitos humanos da época do apartheid, costumam priorizar as necessidades das vítimas, mas permite que os autores de crimes contem sua história. Esse encaminhamento favorece o diálogo entre quem sofreu e quem cometeu o dano, o que costuma resultar em duas consequências importantes: maior satisfação das vítimas com o processo e maior propensão dos infratores a assumir a responsabilidade por seus atos.

No entanto, esses programas não são a norma. Tipicamente, quem decide o destino do réu são juízes e júris – e não quem sofreu a agressão. Considera-se que os representantes da lei sejam imparciais e possam, assim, executar a justiça com maior objetividade.

Como parte de nossos estudos de 2014 sobre punição, avaliamos também se terceiros, como indivíduos que integram um júri, de fato lidam com as transgressões sociais de forma diferente da vítima. Em outra série de atividades, solicitamos aos participantes que atuassem como jurados (pessoas consideradas neutras que julgam o criminoso e tentam oferecer reparação para quem sofreu a agressão). Primeiro, os voluntários observaram uma pessoa fazer uma divisão bastante desigual de dinheiro com seu par. Depois de assistir ao tratamento injusto, os participantes deveriam decidir como redistribuir a quantia entre os dois. Os pesquisadores observaram que os voluntários optaram por “pagar na mesma moeda” com maior frequência: compensar monetariamente a vítima e retaliar o infrator diminuindo sua quantia.

Os resultados dessa parte do experimento contrastam fortemente com as decisões que os participantes tomaram depois de tratados diretamente com injustiça (isto é, quando ficaram no lugar da vítima). Parece, portanto, existir uma diferença entre o que queremos e o que terceiro s escolhem por nós. Quando sofremos uma injúria, tendemos a priorizar nossas próprias necessidades em vez de exigir punição, mas, quando tomamos decisões em nome de outros, preferimos a estratégia “olho por olho”. Essa descoberta questiona a nossa dependência em relação à imparcialidade presumida de juízes e jurados.

FAZENDO AS PAZES

Numa época em que tanto se discute a redução da maioridade penal em vários países, os dados oferecem também esperança para o sobrecarregado e negligenciado sistema jurídico. Enfatizar a possibilidade de trabalharmos com a justiça restaurativa para a vítima, em vez de a única saída ser a pena contra o agressor, pode reduzir a necessidade de algumas longas sentenças de prisão – um benefício potencial, considerando o abarrotado e dispendioso modelo prisional de muitos países.

De fato, uma literatura emergente começa a mudar a ênfase punitiva em direção a outras formas de restaurar a justiça. Em 2009, o psicólogo David Rand e seus colegas, então na Universidade Harvard, publicaram os resultados de um experimento em que os voluntários poderiam encorajar uns aos outros a contribuir com um fundo comum – seria possível gratificar as doações ou punir ações mesquinhas. Ao longo de várias rodadas, Rand e os pesquisadores de seu grupo observaram que, ao contrário do que aconteceu com as retaliações, o montante de recompensas aumentou. Em um artigo publicado em 2014, o economista Nikos Nikiforakis, agora na Universidade Nova York Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, e Helen Mitchell, ministra do Departamento de Relações Exteriores e Comércio da Austrália, revelam que, em geral, tendemos a desejar o castigo do outro se essa for a única opção disponível para fazer justiça.

Essencialmente, acrescente literatura sugere que a motivação para condenar parece estar relacionada com as opções apresentadas. Oferecer outras maneiras de correção – seja um processo de conciliação guiado entre vítima e agressor, seja simplesmente focar a compensação da parte prejudicada, por exemplo – pode de fato mudar a forma como concebemos a ideia de punição. No fim das contas, esses estudos indicam que o castigo (certamente desejável em alguns casos) não deve ser o único o padrão de justiça.

Embora com menor frequência, abordagens reconciliatórias não punitivas têm sido utilizadas com sucesso no mundo real para restaurar a justiça. Esses métodos podem funcionar até mesmo para os crimes mais chocantes contra a humanidade. Em Ruanda, a organização sem fins lucrativos Association Modeste et lnnocent (AMI) tenta aproximar hutus e tutsis depois de um dos genocídios mais terríveis da história. Com a ajuda de diversos programas que incluem a participação de vítimas e autores, a AMI aborda discussões e vivências sobre a paz, a cura do trauma, a participação cívica e o exercício de se colocar no lugar do outro.

Depois de um longo processo de conciliação, que se estende por vários meses e em que ambos os lados são estimulados a expressar suas dolorosas emoções, hutus pedem perdão aos sobreviventes tutsis (por exemplo, a uma mãe que presenciou a chacina de toda a sua família e escapou da morte aparentemente por obra do acaso). Muitos mostram uma impressionante capacidade de sentir compaixão e de fazer novos laços. Com o objetivo de cuidar da relação entre vizinhos, a iniciativa realça a restauração e o perdão- e não a punição. Com isso, aumenta as chances de conter o ódio e a violência que costumam alimentar um perigoso ciclo de vingança e retaliação.

 

 

 

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.