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A MULTIDÃO QUE FITA O VAZIO

Quando consumir se torna imposição social e o prazer de presentear entes queridos se perde, é hora de questionar por que nos vemos na obrigação de comprar o que não precisamos.

A multidão que fita o vazio

Fim de ano, tempo de merecido descanso, ainda que por alguns dias – pelo menos para grande parte das pessoas. Época de rever projetos, avaliar realizações dos meses passados, se preparar para novas empreitadas, abraçar pessoas queridas. Período de paz e alguma providencial reclusão para recarregar as energias. Certo? Nem sempre. Quem empreende cansativas jornadas em busca de presentes (ou lembrancinhas, que sejam), roupas novas (e acessórios que combinem com elas) e ingredientes para preparar os pratos das ceias nos dias que antecedem o fim do ano sabe que essa rotina tem bem pouco de reconfortante.

No fim de semana que antecedeu o Natal, presenciei uma cena emblemática em uma loja num shopping de São Paulo. Uma mulher visivelmente irritada, carregada de sacolas, comentava com a adolescente com semblante exausto, que a acompanhava: “Agora só falta comprar três malditos presentes daquela maldita lista!” A jovem respondeu: “Não, mãe, faltam os do meu pai e do Júnior”. A mulher resmungou um palavrão, enquanto aguardava sua vez de ser atendida na fila do caixa. Não pude deixar de pensar que os “malditos presentes” eram certamente para as pessoas mais próximas daquela senhora: o cônjuge, parentes e amigos por quem, provavelmente, ela nutre algum afeto. Mas, diante da imposição (certamente mais subjetiva que externa) de cumprir a lista, os destinatários se tornavam malditos. Vê-se na obrigação de comprar para cumprir exigências o desvirtuamento da tradição de presentear entes queridos nessa época, inspirada na lenda dos três Reis Magos, que teriam levado ouro, incenso e mirra ao Menino Jesus, na noite do nascimento da criança.

Mas de onde vem essa sedução pela compra que afeta milhões de pessoas e as faz descobrir, semanas depois (ao examinar os extratos da conta bancária e a cobrança do cartão de crédito), que talvez tenham exagerado no impulso consumista? Não me refiro aqui a pessoas com traços fortemente patológicos, histéricos graves e principalmente compulsivos, para quem o consumo desenfreado realmente se caracteriza como um sintoma do distúrbio. Falo de pessoas aparentemente equilibradas, que sacrificam preciosas horas livres (ou espremidas entre um afazer e outro) para comprar e comprar, como se o consumismo tomasse o lugar de uma incontrolável catarse, que em alguns casos parece impossível evitar.

A ânsia de consumir está relacionada a questões do próprio sujeito, sua história de vida, as faltas e a maneira como aprendeu a lidar com elas. Mas não apenas. Há fatores sociais que também devem ser considerados. Em meados do século 19, quando Gustave Flaubert lançou seu romance Madame Bovary, foi processado por ofensa à moral e à religião. Emma, a protagonista, foi condenada como se fosse uma pessoa de carne e osso. Décadas mais tarde surgiu o termo “bovarismo”, proposto pelo psiquiatra Jules Gaultier, para designar a insatisfação com a vida e a ilusão de ser uma outra pessoa. No romance de Flaubert, a atormentada Emma Bovary, assolada pelas dívidas, termina por cometer suicídio. O surgimento da personagem que busca refúgio nas compras tem um contexto histórico específico, marcado pela transformação das formas de produção; é justamente quando nasce o romantismo, movimento que possivelmente guarda algum parentesco com o consumismo. Afinal, ambos podem ser vistos como desencadeadores de ilusões e mantidos pela “auto estimulação” (seja por meio da emoção romântica ou da aquisição de bens).

A quantidade de opções disponíveis em lojas de ruas ou shoppings, prateleiras e balcões de estabelecimentos de conveniência abertos 24 horas, bancas de camelô e quiosques, assim como as apresentadas pela internet, nos anúncios de jornais e revistas nos torna tão acostumados à “necessidade” de consumir que, o estivermos atentos, corremos o risco de tomar esse gesto como “natural”. O problema começa quando os iludirmos com a ideia de que, comprando, será possível aplacar angústias, ansiedades, dores que podemos até “enganar” por algum empo. Mas o acalanto ilusório é efêmero. Muitas vezes essa lógica funciona internamente, mesmo que racionalmente a ideia possa parecer estapafúrdio (afinal, em sã consciência, quase todo mundo concorda que dar um presente bonito não compensa lacunas afetivas; tampouco uma roupa nova muda a vida de alguém, exceto talvez da Cinderela, mas essa já é outra história).

Publicitários e empresários, porém, sabem que uma das formas de tornar um produto “necessário” é aproximá-lo tanto do consumidor em potencial que se torne difícil distinguir se, de fato, é tão imprescindível. Exemplo disso são determinadas músicas que nem gostamos nas primeiras vezes que escutamos, mas de tanto escutá-las terminamos por decorar a letra e cantar junto. Passado algum tempo, temos até vontade de ouvi-la de novo. O mesmo acontece com produtos e marcas que nos são apresentados constantemente. Isso pode nos fazer considerar que em tempos de tanto assédio convém, mais do que nunca, ficarmos atentos para detectar em nós o que de fato precisamos, em vez de nos curvarmos às imposições que nos arrebatam e nos fazem pensar, equivocadamente, que demandas cuidadosamente fabricadas por profissionais astutos são anseios nossos.

A multidão que fita o vazio. 3

Uma experiência realizada há mais de 40 anos pelos pesquisadores Stanley Milgram, Leonard Bickman e Lawrence Berkowitz, da Universidade da Cidade de Nova York, tem sido utilizada com frequência por professores de graduação para abordar o tema da persuasão nas aulas de psicologia social. Um voluntário foi instruído a ficar parado em uma rua movimentada fitando o céu por um minuto. O objetivo era observar a reação das pessoas que passavam por ele. Os estudiosos constataram que a maior parte dos pedestres apenas se desviava do voluntário ou trombava com ele, sem sequer se dar conta do que fazia ali parado. Menos de 5% se juntavam ao homem que fitava as nuvens.

O experimento foi então repetido, mas com uma variação: em vez de apenas uma pessoa olhar para cima, os pesquisadores pediram que cinco outros colaboradores se juntassem ao primeiro.  Com o aumento do grupo, a porcentagem de transeuntes que parou e também voltou os olhos para o céu quadruplicou. Num terceiro momento, quando foram usados 15 colaboradores, 40% dos passantes naquele trecho da rua, durante 60 segundos, se juntaram aos primeiros, praticamente parando o trânsito.

O resultado pode ser explicado pelo que se convencionou chamar de “validação social”. Em linhas gerais, o conceito refere-se à busca de modelos para nossas próprias atitudes no comportamento daqueles que nos cercam. Ao longo da evolução de nossa espécie, essa forma de agir com certeza garantiu a sobrevivência de muitos de nossos antepassados. E até hoje um dos aspectos que mais influem em nossas decisões é a atitude dos outros: olhamos para o que os demais fazem (ou fizeram) em circunstâncias similares e procuramos seguir seu exemplo, ainda que (felizmente) com alguma dose de criatividade. Tendemos a apostar que se muitos seguem um determinado caminho aquele deve ser o mais correto. Mas isso nem sempre acontece. Às vezes, a multidão pode estar apenas fitando o vazio.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.