PSICOLOGIA ANALÍTICA

NÃO BRIGUE COM O URSO-BRANCO!

Se uma preocupação – a respeito da qual não é possível fazer nada imediatamente – não sai da cabeça, provavelmente não vai adiantar tentar se livrar dela evitando o pensamento recorrente. Em vez disso, pode ser mais útil começar a conversar consigo mesmo.

Não brigue com o urso-branco!

Dinheiro, trabalho, filhos, relacionamentos amorosos, opinião alheia, situação política e econômica do país, compromissos na vida profissional ou nos estudos… Motivos para apreensão não faltam. O problema é, quando a sensação desagradável associada à necessidade de controle se torna crônica e se manifesta de forma patológica num quadro, a ansiedade. Dados do Instituto Americano de Terapia Cognitiva indicam que 38% das pessoas se preocupam todos os dias. Só nos Estados Unidos mais de 20 milhões são preocupados crônicos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o quarto país com maior porcentagem de pessoas com algum distúrbio ansioso. Aproximadamente 23% dos brasileiros passam por esse problema em algum momento da vida. Não por acaso, a venda de medicamentos contra a ansiedade só cresce. No Brasil, o benzodiazepínico Rivotril, por exemplo, vendido apenas com retenção de receita, está entre os medicamentos mais comprados nas farmácias. Lançado no país em 1973 para amenizar os efeitos da epilepsia, passou a ser usado como tranquilizante por apresentar vantagens em relação aos produtos disponíveis na época. Em 2013, o seu consumo ultrapassou os 13,8 milhões de caixas. É compreensível que tantas pessoas busquem maneiras rápidas de lidar com o desconforto mental – o problema é que, como a própria bula alerta, o uso contínuo desse tipo de medicamento pode causar dependência física e psíquica. O risco de dependência aumenta com a dose, tratamentos prolongados e em pacientes com história de abuso de álcool ou drogas. Obviamente há casos em que a administração do remédio é necessária, mas é preciso considerar que dependência pode ocorrer mesmo em pessoas que utilizam o produto sob orientação médica e costuma ser acompanhada de crises de abstinência que podem se tornar verdadeiros pesadelos, incluindo surtos psicóticos, distúrbios do sono e ansiedade extrema – o que parece um contrassenso, já que o objetivo inicial era justamente controlar a ansiedade. Pelo fato de a preocupação estar tão presente na vida das pessoas, em variados níveis, e o uso de remédios ser tão controverso, especialistas argumentam que é importante estar atento a esse sintoma para evitar que se torne um quadro mais grave. A tendência humana a se “pré-o-cupar” com algo que não pode ser resolvido no momento chamou atenção dos pesquisadores há cerca de 30 anos, quando começaram a apurar sua abrangência no espectro de patologias relacionadas à ansiedade. No início da década de 80, o psicólogo Thomas Borkovec, da Universidade Estadual da Pensilvânia, pioneiro nesse campo de estudo, interessou-se por esse traço enquanto investigava distúrbios do sono e descobriu que a atividade cognitiva intrusiva na hora de dormir é um fator causador de insônia. No início da década de 90, Borkovec e seus colegas desenvolveram o Penn State Worry Questionnaire (Questionário sobre a Preocupação do Estado da Pensilvânia), um teste para diagnóstico que ajudou os pesquisadores a mostrar que a aflição excessiva é uma característica do transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Os psicólogos revisaram as orientações psiquiátricas oficiais e apontaram a preocupação como a característica essencial do TAG, cuja manifestação crônica pode ser considerada um problema de saúde mental. Borkovec definiu três componentes principais das preocupações comuns das quais a maioria das pessoas não está livre: o excesso de pensamentos, a tentativa de evitar resultados negativos e a inibição de emoções. Douglas Mennin, diretor do Serviço de Ansiedade e Humor da Universidade Yale, explica que a preocupação está associada à tendência inata dos seres humanos de pensar sobre o futuro: “Temos compulsão por controle; os preocupados crônicos veem o mundo como um lugar inseguro e tentam lutar contra a sensação de desconforto”. Os excessivamente preocupados nutrem a crença de que a aflição lhes propicia esse controle e tendem a evitar situações sobre as quais não detenham nenhum poder.  Borkovec fez uma descoberta curiosa: essas pessoas se martirizavam por questões que raramente ocorriam. No entanto, com frequência, os participantes do estudo reportaram acreditar que o pensamento exagerado sobre um possível acontecimento negativo evitara que este ocorresse – ainda que não houvesse nenhuma lógica nesse raciocínio. Não é de surpreender que os preocupados exibam atividade aumentada em áreas do cérebro associadas às funções executivas como planejamento, raciocínio e controle do impulso. Recentemente, o psicólogo Stefan Hoffmann, da Universidade de Boston, usou um eletroencefalograma para medir a atividade no córtex pré-frontal, antes e após ter sido dito a 27 universitários que deveriam fazer um discurso em público. Ele confirmou evidências anteriores de aumento de atividade no córtex frontal esquerdo em pessoas que se preocupam em comparação com as que não têm a reação, o que sugere que essa área cerebral desempenha papel preponderante nesse comportamento. Porém, a tentativa exagerada de estar no comando de determinada situação ou dos próprios pensamentos pode ser um tiro pela culatra quando, em vez de atingir seu objetivo, as pessoas são dominadas por aflições repetitivas. A pesquisa mostra que, quanto mais cultivamos pensamentos angustiantes, mais as ameaças nos parecem reais e mais se repetirão em nossa cabeça, às vezes de forma incontrolável. O psicólogo Daniel M. Wegner, da Universidade Harvard, descobriu num estudo que, quando as pessoas recebiam ordens para não pensar em um urso- branco, demonstravam a tendência de mencioná-lo com frequência. No experimento, Wegner deixou um voluntário do estudo em uma sala com um microfone e um sino e pediu a ele que discorresse livremente sobre qualquer assunto. Em determinado momento, o pesquisador interrompia o monólogo e dizia ao participante que continuasse a falar – mas, nesse ponto, avisava que não pensasse no urso- branco em hipótese alguma. Se a pessoa pensasse no animal, deveria tocar o sino. Na média, os voluntários tocaram o sino mais de seis vezes nos cinco minutos seguintes e chegaram a dizer alto “urso- branco” várias vezes. “Ao tentarmos nos livrar de uma preocupação ou de um pensamento recorrente, a situação parece piorar; o mesmo ocorre quando uma música se fixa na sua cabeça; você quer esquecê-la, mas ela continua ressoando na sua mente cada vez mais sempre que tenta afastá-la”, diz Wegner. O que fazer, então? Ora, não brigue com o urso- branco e não o mande embora – até porque ele não vai tão facilmente assim. O melhor, nesse caso, pode ser “olhar nos olhos” da preocupação. Ou seja, encarar a apreensão, dar espaço a ela em vez de tentar se distrair. Um bom começo é determinar se suas inquietações poderão realmente ajudar você a encontrar soluções práticas para o

problema. Se a resposta for “sim”, faça uma lista com medidas claras e práticas para resolver a questão, de preferência estabelecendo prazos. Não consegue colocar em prática o que pode ser melhorado? Então pode ser hora de procurar ajuda. Marcar um horário com um psicólogo costuma ser o começo de um processo fundamental para entender o que está por trás da insegurança ou da apatia que se traduzem em uma exaustiva protelação. Se a resposta for “não, minhas preocupações não me ajudarão a resolver o que me aflige”, pegue papel e caneta registre suas preocupações improdutivas durante o dia e reserve, diariamente, algo em torno de 15minutos para se dedicar especificamente à reflexão sobre elas. Se a preocupação apareceu “na hora errada”, ignore e deixe para se concentrar nela no tempo reservado para isso. Um fato curioso é que muita gente descobre que, quando autorizadas a aparecer no horário estipulado, elas simplesmente desaparecem. Assuntos “urgentes”, que pareciam exigir resposta imediata, parecem ter perdido a importância mais tarde. Se a preocupação insistir, apele para o pronto-socorro. Concentrar-se na própria respiração, percebendo o caminho que o ar percorre a partir das narinas, por pelo menos cinco minutos, é uma forma simples e bastante eficiente para lidar com a ansiedade. Técnicas como essa, desenvolvidas com base em ensinamentos budistas, ressaltam a importância de viver o momento presente e experimentar todas as emoções, mesmo as desagradáveis. Costumamos nos concentrar (ou seja, estar no centro de nossa vida) quando estamos imersos em nossa música predileta ou numa conversa animada com os amigos. Uma forma eficaz de “permanecer” no presente é praticar a respiração profunda, deixando o corpo relaxar e a tensão dos músculos desaparecer. Outro caminho que usa a cognição a seu favor é fazer uma avaliação honesta, imaginando a pior das hipóteses: o que acontece se um de seus receios se concretizar? Você sobreviveria à perda do emprego ou do namorado (a)? Relativizar a forma como você avalia os desapontamentos costuma diminuir – ou até atenuar – a sensação de fracasso. Outra providência bastante útil: examinar as preocupações que o incomodaram no passado e hoje não fazem mais sentido. Se tiver dificuldade de lembrar quais são é porque, provavelmente, aquelas apreensões nunca se tornaram realidade ou que você conseguiu lidar com elas e esquecê-las. Essa forma de pensar ajuda a redimensionar as inquietações atuais. Vale lembrar também que os preocupados costumam ter dificuldade em aceitar que nunca poderão ter controle completo sobre sua vida. Alguns psicólogos garantem que repetir baixinho uma preocupação por 20 minutos (“Nunca vou pegar no sono” ou “Posso perder o meu emprego”) reduz o medo que temos de que essa afirmação se concretize. A maioria das pessoas fica entediada e nem chega a completar o tempo – termina desviando a atenção para outras prioridades. Caso seja muito difícil assumir sozinho esses cuidados consigo mesmo, um bom caminho é procurar a ajuda profissional para compreender o que de fato se esconde por trás de tanta preocupação. 

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OUTROS OLHARES

A MULTIDÃO QUE FITA O VAZIO

Quando consumir se torna imposição social e o prazer de presentear entes queridos se perde, é hora de questionar por que nos vemos na obrigação de comprar o que não precisamos.

A multidão que fita o vazio

Fim de ano, tempo de merecido descanso, ainda que por alguns dias – pelo menos para grande parte das pessoas. Época de rever projetos, avaliar realizações dos meses passados, se preparar para novas empreitadas, abraçar pessoas queridas. Período de paz e alguma providencial reclusão para recarregar as energias. Certo? Nem sempre. Quem empreende cansativas jornadas em busca de presentes (ou lembrancinhas, que sejam), roupas novas (e acessórios que combinem com elas) e ingredientes para preparar os pratos das ceias nos dias que antecedem o fim do ano sabe que essa rotina tem bem pouco de reconfortante.

No fim de semana que antecedeu o Natal, presenciei uma cena emblemática em uma loja num shopping de São Paulo. Uma mulher visivelmente irritada, carregada de sacolas, comentava com a adolescente com semblante exausto, que a acompanhava: “Agora só falta comprar três malditos presentes daquela maldita lista!” A jovem respondeu: “Não, mãe, faltam os do meu pai e do Júnior”. A mulher resmungou um palavrão, enquanto aguardava sua vez de ser atendida na fila do caixa. Não pude deixar de pensar que os “malditos presentes” eram certamente para as pessoas mais próximas daquela senhora: o cônjuge, parentes e amigos por quem, provavelmente, ela nutre algum afeto. Mas, diante da imposição (certamente mais subjetiva que externa) de cumprir a lista, os destinatários se tornavam malditos. Vê-se na obrigação de comprar para cumprir exigências o desvirtuamento da tradição de presentear entes queridos nessa época, inspirada na lenda dos três Reis Magos, que teriam levado ouro, incenso e mirra ao Menino Jesus, na noite do nascimento da criança.

Mas de onde vem essa sedução pela compra que afeta milhões de pessoas e as faz descobrir, semanas depois (ao examinar os extratos da conta bancária e a cobrança do cartão de crédito), que talvez tenham exagerado no impulso consumista? Não me refiro aqui a pessoas com traços fortemente patológicos, histéricos graves e principalmente compulsivos, para quem o consumo desenfreado realmente se caracteriza como um sintoma do distúrbio. Falo de pessoas aparentemente equilibradas, que sacrificam preciosas horas livres (ou espremidas entre um afazer e outro) para comprar e comprar, como se o consumismo tomasse o lugar de uma incontrolável catarse, que em alguns casos parece impossível evitar.

A ânsia de consumir está relacionada a questões do próprio sujeito, sua história de vida, as faltas e a maneira como aprendeu a lidar com elas. Mas não apenas. Há fatores sociais que também devem ser considerados. Em meados do século 19, quando Gustave Flaubert lançou seu romance Madame Bovary, foi processado por ofensa à moral e à religião. Emma, a protagonista, foi condenada como se fosse uma pessoa de carne e osso. Décadas mais tarde surgiu o termo “bovarismo”, proposto pelo psiquiatra Jules Gaultier, para designar a insatisfação com a vida e a ilusão de ser uma outra pessoa. No romance de Flaubert, a atormentada Emma Bovary, assolada pelas dívidas, termina por cometer suicídio. O surgimento da personagem que busca refúgio nas compras tem um contexto histórico específico, marcado pela transformação das formas de produção; é justamente quando nasce o romantismo, movimento que possivelmente guarda algum parentesco com o consumismo. Afinal, ambos podem ser vistos como desencadeadores de ilusões e mantidos pela “auto estimulação” (seja por meio da emoção romântica ou da aquisição de bens).

A quantidade de opções disponíveis em lojas de ruas ou shoppings, prateleiras e balcões de estabelecimentos de conveniência abertos 24 horas, bancas de camelô e quiosques, assim como as apresentadas pela internet, nos anúncios de jornais e revistas nos torna tão acostumados à “necessidade” de consumir que, o estivermos atentos, corremos o risco de tomar esse gesto como “natural”. O problema começa quando os iludirmos com a ideia de que, comprando, será possível aplacar angústias, ansiedades, dores que podemos até “enganar” por algum empo. Mas o acalanto ilusório é efêmero. Muitas vezes essa lógica funciona internamente, mesmo que racionalmente a ideia possa parecer estapafúrdio (afinal, em sã consciência, quase todo mundo concorda que dar um presente bonito não compensa lacunas afetivas; tampouco uma roupa nova muda a vida de alguém, exceto talvez da Cinderela, mas essa já é outra história).

Publicitários e empresários, porém, sabem que uma das formas de tornar um produto “necessário” é aproximá-lo tanto do consumidor em potencial que se torne difícil distinguir se, de fato, é tão imprescindível. Exemplo disso são determinadas músicas que nem gostamos nas primeiras vezes que escutamos, mas de tanto escutá-las terminamos por decorar a letra e cantar junto. Passado algum tempo, temos até vontade de ouvi-la de novo. O mesmo acontece com produtos e marcas que nos são apresentados constantemente. Isso pode nos fazer considerar que em tempos de tanto assédio convém, mais do que nunca, ficarmos atentos para detectar em nós o que de fato precisamos, em vez de nos curvarmos às imposições que nos arrebatam e nos fazem pensar, equivocadamente, que demandas cuidadosamente fabricadas por profissionais astutos são anseios nossos.

A multidão que fita o vazio. 3

Uma experiência realizada há mais de 40 anos pelos pesquisadores Stanley Milgram, Leonard Bickman e Lawrence Berkowitz, da Universidade da Cidade de Nova York, tem sido utilizada com frequência por professores de graduação para abordar o tema da persuasão nas aulas de psicologia social. Um voluntário foi instruído a ficar parado em uma rua movimentada fitando o céu por um minuto. O objetivo era observar a reação das pessoas que passavam por ele. Os estudiosos constataram que a maior parte dos pedestres apenas se desviava do voluntário ou trombava com ele, sem sequer se dar conta do que fazia ali parado. Menos de 5% se juntavam ao homem que fitava as nuvens.

O experimento foi então repetido, mas com uma variação: em vez de apenas uma pessoa olhar para cima, os pesquisadores pediram que cinco outros colaboradores se juntassem ao primeiro.  Com o aumento do grupo, a porcentagem de transeuntes que parou e também voltou os olhos para o céu quadruplicou. Num terceiro momento, quando foram usados 15 colaboradores, 40% dos passantes naquele trecho da rua, durante 60 segundos, se juntaram aos primeiros, praticamente parando o trânsito.

O resultado pode ser explicado pelo que se convencionou chamar de “validação social”. Em linhas gerais, o conceito refere-se à busca de modelos para nossas próprias atitudes no comportamento daqueles que nos cercam. Ao longo da evolução de nossa espécie, essa forma de agir com certeza garantiu a sobrevivência de muitos de nossos antepassados. E até hoje um dos aspectos que mais influem em nossas decisões é a atitude dos outros: olhamos para o que os demais fazem (ou fizeram) em circunstâncias similares e procuramos seguir seu exemplo, ainda que (felizmente) com alguma dose de criatividade. Tendemos a apostar que se muitos seguem um determinado caminho aquele deve ser o mais correto. Mas isso nem sempre acontece. Às vezes, a multidão pode estar apenas fitando o vazio.

GESTÃO E CARREIRA

PERSONALIDADES SOMBRIAS

Todo mundo tem um lado obscuro, mas cientistas europeus descobriram que algumas pessoas têm traços que as tornam bem difíceis de lidar. Aprenda a identificá-las e a conviver com elas sem deixar que prejudiquem seu bem-estar psicológico.

Personalidades sombrias

Ninguém é perfeito e, convenhamos, em meio à pressão e ao estresse do dia a dia profissional, todo mundo acaba adotando um comportamento questionável de vez em quando.

Uma palavra atravessada, uma atitude grosseira, um gesto impulsivo… Sempre há o risco de decepcionar alguém e até se prejudicar, mas, afinal, faz parte do lado sombrio da personalidade, do “eu escondido” que todo mundo tem. Algumas pessoas, porém, demonstram uma tendência a agir na sombra o tempo todo. E não é de hoje que os cientistas se concentram em entender as muitas variáveis de comportamento antissocial e os traços de personalidade marcantes em indivíduos que parecem seguir uma ética particular, em que o próprio benefício e interesse estão sempre à frente, nem que para isso seja necessário passar por cima de alguém (ou de todo mundo).

Um trio de pesquisadores europeus divulgou recentemente na revista oficial da Associação Americana de Psicologia o resultado de um trabalho que mostra que, apesar de diferenças de perfil, indivíduos com condutas marcadas por falta de empatia, egoísmo, manipulação e narcisismo, entre outras atitudes nocivas (leia o quadro Ingredientes Básicos), compartilham uma espécie de matriz malévola, que eles chamaram de dark core (algo como “núcleo escuro”) da personalidade — ou apenas fator D. “A ideia básica é que todos os traços sombrios poderiam ser resumidos em um único elemento — o fator D —, suficiente para descrever a tendência individual de colocar a si mesmo, suas necessidades e seus interesses em primeiro lugar e ser capaz de tudo para chegar aonde quer, ainda que isso signifique prejudicar outras pessoas”, explicou, em entrevista, Morten Moshagen, professor e pesquisador do Instituto de Psicologia e Educação da Universidade de Ulm, na Alemanha, e um dos autores do estudo. Trocando em miúdos, em vez de descrever essas pessoas como egoístas e maquiavélicas, por exemplo, seria suficiente dizer que elas têm D alto (semelhante ao QI alto quando se trata de inteligência). Segundo Morten, o D é justamente uma mistura de vários ingredientes, “calculado” pela composição de desvios de caráter, desde os mais “inofensivos”, como narcisismo e egoísmo, até os mais malignos, como psicopatia e sadismo.

A ORIGEM DO MAL

Todo mundo tem um pouco dessas características negativas de personalidade. “Muitas vezes é o modo encontrado pelo indivíduo para manifestar insegurança e medo — de não ser admirado, de ser desrespeitado ou de não conseguir o que deseja”, diz Alexandre Pellaes, fundador da Ex-Boss, consultoria de modelos e práticas de gestão. “À medida que amadurece e aprende a lidar com a vulnerabilidade e a aceitar ajuda, o indivíduo passa a entender como pode controlar essas condutas antissociais.” Os autores do estudo europeu suspeitam que de 5% a 10% das pessoas apresentem níveis problemáticos de fator D — são aquelas que chegam ao ponto, por exemplo, de adotar comportamento violento, criminoso ou altamente transgressor.

Morten e os colegas insistem que a pesquisa é recente e ainda há bastante o que investigar sobre como aplicar na vida real as descobertas acerca do fator D. Mas deixam claro que esse conhecimento pode ser útil no contexto forense (para identificação de suspeitos e solução de crimes) e em processos seletivos. “Por meio de um teste de medição, seria possível identificar candidatos com propensão a comportamento nocivo nas empresas, como corrupção e assédio moral”, diz Morten. Os dados também seriam proveitosos para criar programas de treinamento e avaliação de equipes.

FUGINDO DA SOMBRA

Um dos princípios dessa teoria é que um sujeito não precisa ter em si todos ou muitos traços malignos para ser “diagnosticado” como dono de uma personalidade sombria. Alguém reconhecido pelos outros como maquiavélico, sádico ou maldoso provavelmente é assim mesmo. Resta, então, saber como lidar com ele.

Ainda mais porque os modelos de gestão conservadores resultaram no surgimento de uma legião de chefes D nas empresas. Acostumados a se impor pelo poder e até pela tirania, exercem uma liderança construída sobre a entrega de resultados e com pouco interesse pelas pessoas. Wilma Dal Col, diretora da consultoria de gestão ManpowerGroup, comenta que esses tipos devem se tornar cada vez mais raros e podem estar fadados ao isolamento. “Pessoas autocentradas e dispostas a tudo para vencer tendem a avançar na carreira porque são focadas em obter resultados, mas têm cada vez menos espaço em um mundo corporativo baseado na colaboração e no coletivo”, diz.

Não sucumbir a um chefe que sabe manipular as emoções nem sempre é fácil. Alexandre Pellaes sugere que a combinação de autoconhecimento com empatia é chave para saber como agir. “Tentar entender a posição do outro pode revelar que talvez você fizesse a mesma coisa em diversas situações, e isso pode tornar a relação e o trabalho mais leves”, diz. Oferecer feedback sobre como se sente e recorrer às ferramentas de RH disponíveis para sua proteção também são boas estratégias. Só o que não pode é engolir sapos sem necessidade. “Assédio moral é o limite”, diz Alexandre.

Criar conexões fortes e confiáveis no ambiente de trabalho vale como uma espécie de blindagem contra pessoas negativas. Ter com quem desabafar e se aconselhar em momentos de estresse causado por um chefe ou par tóxico faz uma grande diferença para não se deixar contaminar, perder motivação e, muito menos, achar que é você quem apresenta algum desvio de personalidade. Mas, nesse processo, é importante seguir o conselho de Wilma: “Não se pode modular o próprio comportamento pelo medo, deixando de agir quando se sente agredido ou injustiçado. Muito menos pelas atitudes do outro, espelhando condutas condenáveis para se mostrar próximo ao ‘algoz’”. O que você precisa é buscar o equilíbrio interno e aprender a se defender.

INGREDIENTES BÁSICOS

O fator D é uma espécie de denominador comum entre diversas características que constituem uma personalidade obscura. Para ser assim, uma pessoa precisa ter pelo menos um pouco de cada uma dessas características

Personalidades sombrias. 2

EGOÍSMO

Tendência a valorizar apenas o que resulta em benefício próprio, excluindo ou ignorando o bem-estar coletivo.

Personalidades sombrias. 3

SADISMO

Capacidade de sentir prazer ao infligir dor ou sofrimento (físico ou psicológico) a outra pessoa.

Personalidades sombrias. 4

MAQUIAVELISMO

Hábito de mentir e manipular para conseguir o que deseja.

Personalidades sombrias. 5

DESENGAJAMENTO MORAL

Descompromisso com as implicações éticas e morais das próprias ações.

Personalidades sombrias. 6

DIREITO PSICOLÓGICO

Crença de que determinadas pessoas merecem ter mais e ser mais bem tratadas do que outras.

Personalidades sombrias. 7

PSICOPATIA

Desprezo pelos outros, reforçado por baixa empatia e falta de autocontrole (ou excesso de impulsividade).

Personalidades sombrias. 8

NARCISISMO

Autoadmiração excessiva, que leva a acreditar ser razoável usar e maltratar outras pessoas para conquistar o que quer.

Personalidades sombrias. 9

MALDADE

Comportamento, geralmente movido por vingança, que leva a ferir e prejudicar outras pessoas, mesmo que isso signifique ferir a si próprio.

Personalidades sombrias. 10

INTERESSE PRÓPRIO

Disposição para fazer de tudo pela conquista de “bens” socialmente valorizados – coisas materiais, posição social, reconhecimento profissional e felicidade, por exemplo.

 

DESCUBRA O “D” EM VOCÊ

O teste a seguir foi elaborado por Morten Moshagen, Benjamin Hibig e Ingo Zetter, autores do estudo The Dark Core of Personality (“O núcleo escuro da personalidade”, numa tradução livre). Responda quanto você concorda com as afirmações listadas abaixo, marcando de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente). Para as frases com asterisco (*), calcule a pontuação subtraindo sua resposta de 5. Por exemplo, se respondeu 3 (não concordo nem discordo), o resultado é 5 – 3 = 2 (discordo).

***Atenção: por se tratar de uma pesquisa em fase inicial, os resultados são abertos. Mas, quanto mais próximo de 60 for sua pontuação, maior é seu coeficiente do fator D.

 1 – “Só o que importa para mim é meu bem-estar”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

2 – “Vingança não traz conforto”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

3 – “Uma pessoa deve usar de todo e qualquer meio disponível a seu favor, cuidando para que os outros não saibam disso, é claro”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

4 – “A maioria das pessoas merece ser respeitada*”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

5 – “Não tenho satisfação em ver o fracasso de meus adversários*”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

6 – “O sucesso é uma questão de sobrevivência dos mais aptos. Não me preocupo com os perdedores”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

7 – “Quem mexe comigo sempre se arrepende”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

8 – “Sou capaz de dizer qualquer coisa para conseguir o que desejo”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

9 – “Quando estou irritado, atormentar os outros faz com que eu me sinta melhor”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

10 – “Prejudicar alguém me deixa muito desconfortável*”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

11 – “Fico mal quando alguma coisa que fiz deixa alguém chateado*”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

12 – “Houve ocasiões em que estive disposto a sofrer algum dano a fim de punir alguém que merecia”.

  1. DISCORDO TOTALMENTE
  2. DISCORDO PARCIALMENTE
  3. NÃO CONCORDO NEM DISCORDO
  4. CONCORDO PARCIALMENTE
  5. CONCORDO TOTALMENTE

 

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 10:  26 – 32

Pensando biblicamente

 O JUSTO É EXCLUSIVAMENTE FELIZ

 

V. 26 – Observe:

1. Os que têm uma disposição preguiçosa, que amam a sua tranquilidade e não conseguem dedicar as suas mentes a nenhuma atividade, não são apropriados a ser empregados, nem mesmo a ser enviados em uma tarefa, pois não transmitirão uma mensagem com nenhum cuidado, nem se apressarão de volta. Portanto, são muito inadequados para ser ministros, mensageiros de Cristo; Ele não admitirá o envio de preguiçosos à sua seara.

2. Os que são culpados de um descuido tão grande como confiar uma tarefa a alguém assim, certamente terão irritação por causa deles. “Como vinagre para os dentes, como fumaça para os olhos, assim é o preguiçoso para aqueles que o mandam”; ele provoca a paixão do seu senhor, como o vinagre nos dentes, e faz com que ele se entristeça por ver os seus negócios negligenciados e arruinados, como a fumaça faz chorar os olhos.

 

V. 27 – 28 – Observe:

1. A religião prolonga a vida dos homens e coroa as suas esperanças. Que homem é aquele que ama a vida? Que tema a Deus, e isto o protegerá de muitas coisas que prejudicariam a sua vida, e lhe assegurará vida suficiente neste mundo, e vida eterna, no outro; o temor do Senhor aumenta os dias, mais do que era esperado; os acrescentará incessantemente, e os prolongará até os dias da eternidade. Que homem é aquele que verá dias bons? Que seja religioso, e então seus dias não serão somente muitos, mas felizes, muito felizes, além de muitos, pois a esperança dos justos é alegria; eles terão aquilo que esperam, para sua indescritível satisfação. É algo futuro e invisível aquilo em que depositam a sua felicidade (Romanos 8.24,25), não o que eles têm à mão, mas o que têm em esperança, e a sua esperança logo será absorvida pelo desfrute, e será a sua felicidade eterna. “Entra no gozo do teu senhor”.

2. A iniquidade encurta a vida dos homens, e frustra as suas esperanças: os anos dos ímpios, que são passados nos prazeres do pecado e no trabalho penoso do mundo, serão abreviados. Corta as árvores que sobrecarregam o solo. E qualquer consolação ou felicidade que um homem ímpio prometa a si mesmo, neste mundo ou no outro, ele será frustrado; pois a expectação dos ímpios perecerá; a sua esperança se converterá em interminável desespero.

 

V. 29 – 30 – Estes dois versículos têm o mesmo objetivo que os imediatamente anteriores, sugerindo a felicidade dos santos e a infelicidade dos ímpios; é necessário que isto seja inculcado em nós, pois somos relutantes de­ mais para crer nisto e considerá-lo.

1. Força e estabilidade são transmitidas pela integridade: O caminho do Senhor (a providência de Deus, o caminho em que Ele anda em nossa direção) é fortaleza para os retos, e os confirma na sua justiça. Todas as atitudes de Deus para com o homem reto, tanto as misericordiosas como as aflitivas, servem para despertá-lo para o seu dever, e animá-lo contra o seu desencorajamento. Ou o caminho do Senhor (o caminho da santidade, em que Ele diz que devemos andar), é fortaleza para os retos; quanto mais próximos nos mantivermos deste caminho, mais os nossos corações serão incentivados a prosseguir nele, e mais capacitados seremos, tanto para os serviços como para os sofrimentos. Uma boa consciência, conservada pura e preservada do pecado, dá ao homem coragem, em tempos de perigo, e a constante diligência no dever torna o trabalho de um homem fácil, em tempos difíceis. Quanto mais fizermos por Deus, mais poderemos fazer (Jó 17.9). Aquela alegria do Senhor, que somente pode ser encontrada no caminho do Senhor, será nossa força (Neemias 8.10), e, portanto, os justos não serão jamais removidos. Os que têm uma virtude estabelecida, têm paz e felicidade estabelecidas, de que ninguém pode privá-los; eles têm perpétuo fundamento (v. 25).

2. A ruína e a destruição são as consequências asseguradas da iniquidade. Os ímpios não somente não herdarão a terra, embora acumulem nela os seus tesouros, mas sequer habitarão a terra; os juízos de Deus os extirparão. A ruína, rápida e assegurada, virá aos que praticam a iniquidade, a destruição da presença do Senhor e da glória do seu poder. Na verdade, aquele caminho do Senhor que é a fortaleza dos justos, consome e aterroriza aqueles que praticam a iniquidade; o mesmo Evangelho que, para uma pessoa, é cheiro de vida para vida, é, para outra. cheiro de morte para morte; a mesma providência. como o mesmo sol, suaviza a uma, e insensibiliza a outra (Oseias 14.9).

 

V. 31 – 32 – Aqui, como antes, os homens são julgados, e, consequentemente, são justificados ou condenados, pelas suas palavras (Mateus 12.37).

1. O fato de que um homem fale sabiamente e bem é a prova da sua sabedoria e da sua bondade, e também o louvor por estas qualidades. Um homem bom, no seu discurso, exibe sabedoria para o benefício dos outros. Deus lhe dá sabedoria, como uma recompensa pela sua justiça (Êxodo 2.26), e ele, em gratidão por este presente e por justiça a quem o deu a utiliza para fazer o bem, e como o seu discurso sábio e piedoso, edifica a muitos. Ele sabe o que é aceitável, qual discurso será agradável a Deus (pois ele procura agradar mais no discurso, do que agradar a companhia), e o que será agradável, tanto para quem fala como para quem ouve, o que será conveniente para ele, e o que irá beneficiar os seus ouvintes, e enfatizará aquilo que ele dirá.

2. É o pecado, e será a destruição de um ímpio, o fato de que ele fale com iniquidade sobre si mesmo. A boca do ímpio fala com petulância, aquilo que é desagradável a Deus e provoca àqueles com quem Ele tem concerto; e qual será o resultado disto? Ora, a língua da perversidade será desarraigada, como a língua lisonjeira (Salmos 12.3).