PSICOLOGIA ANALÍTICA

O DESAFIO DE APRENDER OUTRAS LÍNGUAS

Tomografias cerebrais ajudam pesquisadores a entender a aptidão natural de algumas pessoas para assimilar idiomas e ajudar aqueles com menos facilidade a estudar – e aprender – de forma mais eficiente. Orientações práticas com base em estudos publicados nos últimos meses também podem ser úteis.

O desafio de aprender outras línguas. 2

Quem já fez uma viagem internacional sem dominar a língua falada no local para onde ia sabe bem o quanto essa situação costuma trazer insegurança e as possibilidades que a experiência oferece. Conhecer melhor um país estrangeiro é só uma possibilidade, o intuito pode ser obter melhores oportunidades na profissão, se comunicar e garantir mais subsídios para entender o mundo que nos cerca ou até mesmo impressionar alguém. O fato é que qualquer que seja motivo para aprender uma língua estrangeira, a intenção parece válida – principalmente se considerarmos que esse tipo de aprendizado na idade adulta pode ser um importante aliado no combate à degeneração neurológica. A tarefa, no entanto, não é simples. Felizmente, cientistas têm se empenhado em descobrir técnicas eficientes para facilitar essa empreitada. O resultado prático é uma série de dicas úteis, que vão desde expor seus ouvidos a uma variedade de falantes nativos até dormir logo após uma sessão prática da língua para fixar as informações. Alguns estudos se detêm em como a anatomia e a função do cérebro podem explicar por que alguns aprendem com mais facilidade do que outros. E talvez o mais importante: ajudar aqueles que têm maior dificuldade pode diminuir a incômoda defasagem

Uma constatação interessante nessa área é que ouvir uma língua estrangeira como som de fundo pode ajudar as pessoas a aprender mais rápido, mesmo que não estiverem prestando atenção. A notícia parece muito boa, em especial se levamos em conta que gramática ambígua, vogais estranhas, expressões idiomáticas peculiares e tantas palavras novas fazem com que aprender outro idioma se torne uma tarefa árdua. Dois artigos científicos publicados recentemente sugerem que, mesmo quando não estamos ativamente estudando, aquilo que ouvimos pode afetar o aprendizado e que algumas vezes ouvir sem falar funciona até melhor. Em um estudo publicado em 2015 pelo Journal of the Acoustical Society of America, linguistas descobriram que as pessoas que faziam intervalos entre o aprendizado de novos sons desempenhavam tão bem quanto aqueles que não faziam intervalos, desde que os sons continuassem como som de fundo. Os pesquisadores treinaram dois grupos de pessoas a distinguir entre trios de sons semelhantes – por exemplo, a língua hindi tem “p,” “b” e um terceiro som que os falantes de língua inglesa confundem com “b”. Um grupo praticou distinguir esses sons uma hora por dia durante dois dias. O outro alternou entre 10 minutos dessa tarefa e 10 minutos de uma tarefa de “distração” que envolvia estabelecer equivalência de símbolos em uma folha enquanto os sons continuavam no fundo. De modo surpreendente, o grupo que variou as tarefas apresentou o mesmo desempenho que aquele que se concentrou em distinguir os sons o tempo inteiro. “Nosso cérebro nos permite tirar proveito das coisas nas quais já prestamos atenção e possibilita que continuemos a prestar atenção nelas, mesmo que estejamos nos concentrando em outra coisa”, afirma a linguista Melissa Baese-Berk, pesquisadora da Universidade de Oregon e coautora do estudo. Em um artigo de 2016 publicado no Journal of Memory and Language, ela constatou que é melhor ouvir novos sons em silêncio em vez de praticar repetindo-os. Falantes da língua espanhola que aprendiam a distinguir entre sons da língua basca apresentaram um desempenho pior quando lhes foi solicitado que repetissem um dos sons durante o treinamento. As descobertas confirmam aquilo que muitos professores intuíam – uma combinação de prática concentrada e exposição passiva à língua constitui a melhor abordagem. “É preciso ir à aula e prestar atenção, mas, quando voltar para casa, ligue a televisão ou o rádio naquela língua enquanto estiver cozinhando o jantar, por exemplo, e, mesmo que não estiver prestando atenção completamente, isso vai ajudar”, garante Baese-Berk.

UMA RODOVIA NA CABEÇA

Com frequência, a habilidade típica dos bebês de absorver a linguagem, independentemente de seu idioma materno, os torna objetos de inveja de aprendizes mais maduros. Apesar da óbvia facilidade dos pequenos, é inegável que existem pessoas que adquirem novas línguas de forma surpreendente. Agora, novos estudos sugerem que é possível prever as habilidades para a língua de um indivíduo a partir de sua atividade ou estrutura cerebral. A esperança é que esses resultados sejam utilizados para ajudar mesmo aqueles com maior dificuldade linguística a ser bem-sucedidos. Segundo estudo publicado em 2015 no Journal of Neurolinguistics, uma equipe de pesquisadores analisou a estrutura de fibras neuronais na substância branca em 22 estudantes iniciantes de mandarim. Os cientistas constataram que aqueles que apresentavam fibras mais espacialmente alinhadas no hemisfério direito do cérebro obtiveram pontuações mais elevadas em testes após quatro semanas de aula. Os pesquisadores acreditam que fibras altamente alinhadas aumentem a velocidade da transferência de informações dentro do cérebro, funcionando como se fosse uma rodovia expressa. “Embora a linguagem esteja tradicionalmente associada ao hemisfério esquerdo, o direito, que parece estar envolvido com a percepção de modulações sonoras, pode desempenhar um papel crucial na distinção de tons de mandarim”, sugere o autor do estudo, o neurocientista Zhenghan Qi, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Em outro estudo, eletroencefalogramas realizados antes de um curso online intensivo de francês revelaram padrões de atividade de onda cerebral dos alunos em estado relaxado e em repouso. O trabalho, publicado em junho de 2016 no periódico científico Brain and Language, mostrou a correlação desse estado à conclusão do curso mais rápida e fácil. “Cientistas já haviam observado anteriormente esse tipo de atividade quando as pessoas construíam sentenças”, diz a psicóloga Chantel Prat, pesquisadora da Universidade de Washington, que conduziu o estudo. Ela observa que, nesse caso, pode ser um reflexo da habilidade dos 16 voluntários em se concentrar, seguir instruções ou outra característica que auxilia no aprendizado de línguas. Prat está interessada em usar em seus estudos o neurofeedback – uma técnica capaz de mostrar às pessoas seus eletroencefalogramas em tempo real, com o objetivo de treiná-las em determinados tipos de atividade cerebral. A psicóloga acredita que esse recurso pode ajudar a preparar os estudantes, do ponto de vista neurológico, para assimilar melhor uma nova língua. Linguistas e psicólogos reconhecem que a aptidão para aprender idiomas e a forma como ela se manifesta no cérebro são questões complexas, que resvalam em temas como atenção e consciência, e envolvem ainda experiências e crenças a respeito da própria capacidade de adquirir conhecimentos. “A aquisição de linguagens é uma das proezas mais miraculosas do cérebro humano; só quando você tenta aprender uma segunda língua percebe quanto a tarefa é desafiadora, não só para alunos e professores, mas também para cientistas.”

DO LABORATÓRIO PARA A SALA DE AULA

Embora a aquisição de um idioma seja mais difícil quando somos adultos, existem estratégias que podem facilitar o aprendizado. A ideia é acostumar o cérebro ao novo idioma e, para isso, alguns passos são eficientes:

OBSERVE PISTAS SOCIAIS: Sinais não verbais, como movimento dos olhos, gestos e elementos que sugerem lugar ou tempo (aqui e agora, por exemplo) costumam favorecer a compreensão de palavras, de frases e mesmo da gramática.

CONVERSE COM O TRAVESSEIRO: Uma boa noite de sono, logo após treinar vocabulário ou outra prática, pode ajudar a consolidar o que foi aprendido.

OUÇA A PRÓPRIA PRONÚNCIA: É possível melhorar esse aspecto ao gravar a si mesmo em conversação (em vez de ler um texto, por exemplo).

ENCONTRE UM PARCEIRO: Praticar com um falante nativo é uma boa opção para se acostumar às cadências do idioma – e ainda ganhar um amigo estrangeiro.

DESVIE A ATENÇÃO: Escutar a língua falada como “som de fundo” enquanto realiza outra tarefa, em especial logo após estudar, ajuda na distinção de sons semelhantes.

DIGA NOVAMENTE: Ouvir e repetir palavras e frases diariamente torna o aprendizado mais rápido e é importante para a fixação e ampliação do vocabulário.

FAÇA UMA IMERSÃO: Talvez nada seja mais eficiente para aprender um idioma do que entrar em contato direto com a cultura durante um período. Viver e trabalhar com falantes nativos tende a ampliar essa experiência.

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OUTROS OLHARES

SOBRE O ALTRUÍSMO

Desde que Darwin chamou atenção de pesquisadores para a importância da cooperação entre membros de uma espécie, as variadas manifestações de bondade têm sido cada vez mais estudadas pela ciência.

Sobre o altruísmo

O que seria o altruísmo? Uma “preocupação desinteressada com o bem do outro”, isto é, uma motivação, um estado de espírito momentâneo, como define o dicionário Larousse, ou uma “disposição para interessar-se e dedicar-se ao próximo”, de acordo com o dicionário Robert, indicando assim um traço de caráter mais duradouro? As definições são múltiplas – e às vezes há contradições. Para demonstrar que o altruísmo verdadeiro existe e incentivar sua expansão na sociedade é indispensável elucidar o significado desse termo.

A palavra “altruísmo”, derivada do latim álter, “outro”, foi utilizada pela primeira vez no século 19 por Auguste Comte, um dos pais da sociologia e fundador do positivismo. Segundo ele, o altruísmo supõe “a eliminação dos desejos egoístas e do egocentrismo, assim como a realização de uma vida dedicada ao bem do outro”. O filósofo americano Thomas Nagel define o altruísmo como “uma inclinação para agir considerando interesses de outras pessoas e ausência de segundas intenções”. Significa a determinação racional para a ação, oriunda da “influência direta que exerce o interesse de uma pessoa sobre as ações de outra, pelo simples fato de que o interesse da primeira constitui a motivação do ato da segunda”.

Outros pensadores, confiantes no potencial de benevolência presente no ser humano, vão mais longe e, como o filósofo americano Stephen Post, definem o amor altruísta como um “prazer desinteressado produzido pelo bem­ estar do outro, associado aos atos – cuidados e serviços – exigidos para este fim. Um amor ilimitado expande essa benevolência a todos os seres sem exceção, de maneira duradoura”. O ágape do cristianismo é um amor incondicional para com outros seres humanos, e o amor altruísta e a compaixão budista, maitri e karuna (do sânscrito, respectivamente bondade e compaixão), estendem-se a todos os seres sencientes, humanos ou não.

Alguns autores enfatizam a passagem à prática, enquanto outros consideram que é a motivação que define o altruísmo e qualifica nossos comportamentos. O psicólogo Daniel Batson que dedicou sua carreira ao estudo do tema afirma que “o altruísmo é uma motivação cuja finalidade última é aumentar o bem-estar do outro”. Ele distingue claramente o altruísmo com finalidade última (meu objetivo é explicitamente fazer o bem ao outro), e como meio (faço o bem ao outro para realizar meu próprio bem). A seus olhos, para que uma motivação seja altruísta, o bem do outro deve constituir uma finalidade em si. Batson concorda neste ponto com lmmanuel Kant, que afirma: “Aja sempre de modo a tratar a humanidade(…) como um fim e jamais com simples meio”, em seu Fundamentos da metafisica dos costumes, de 1785.

BOA INTENÇÃO NÃO BASTA

Em sua obra The heart of altruism (O coração do altruísmo), Kristen Monroe, professora de ciências políticas e filosofia da Universidade de Irvine, na Califórnia, propõe reservar o termo “altruísmo” a atos realizados para o bem do outro, mediante um risco e sem esperar retorno.

Segundo a autora, as boas intenções são indispensáveis ao altruísmo, mas não são suficientes. É necessário agir e o ato deve ter um objetivo preciso: contribuir para o bem-estar do outro.

No entanto, Monroe reconhece que os motivos do ato contam mais que suas consequências. Parece-nos, portanto, preferível não restringir o uso do termo altruísmo a comportamentos externos, visto que não permitem, por si próprios, conhecer com certeza a motivação que os inspirou. Da mesma forma que o surgimento de consequências indesejáveis e imprevistas que não questionam a natureza altruísta de um ato destinado ao bem do outro, o entrave da passagem ao ato, independentemente da vontade daquele que quer agir, não diminui em nada o caráter altruísta de sua motivação. Além disso, para Monroe um ato não pode ser considerado altruísta se não comportar um risco e não tiver algum “custo”, real ou potencial, para aquele que o realiza. Uma pessoa altruísta estará certamente pronta a correr riscos para concretizar o bem do outro, mas o simples fato de arriscar-se por alguém não é necessário nem suficiente para qualificar um comportamento de altruísta. Podemos imaginar que um indivíduo enfrente o perigo para ajudar alguém com a ideia de ganhar sua confiança e tirar vantagens pessoais suficientemente importantes para justificar os perigos incorridos. Por outro lado, algumas pessoas aceitam correr riscos por razões puramente egoístas, por exemplo, para ir em busca da glória ao realizar uma façanha perigosa. E opostamente, um comportamento pode ser sinceramente devotado ao bem do outro, sem por isso comportar riscos significativos. Aquele que movido pela benevolência doa parte de sua fortuna ou passa anos em uma instituição beneficente ajudando pessoas em dificuldade não corre necessariamente um risco; no entanto, seu comportamento merece, segundo nosso ponto de vista, ser qualificado de altruísta.

A COR DA MOTIVAÇÃO

Nossas motivações, quaisquer que sejam, benévolas, malévolas ou neutras, dão cores a nossas ações, tal como um tecido confere cor ao pedaço de cristal sob o qual se encontra. A aparência de nossos atos por si só não permite distinguir um comportamento altruísta de outro egoísta, uma mentira destinada a fazer o bem de outra proferida para prejudicar. Se uma mãe empurra bruscamente seu filho em direção à calçada para evitar que seja atropelado, seu ato é violento apenas na aparência. Se alguém aborda você com um grande sorriso e o cobre de elogios com o único fim de fraudá-lo, sua conduta pode parecer benevolente, mas as intenções são egoístas.

Considerando nossa capacidade limitada para controlar os fatos externos e nossa ignorância a respeito da extensão que irão adquirir a longo prazo, também não podemos qualificar um ato de altruísta ou egoísta com base na simples constatação de suas consequências imediatas. Dar droga ou um copo de álcool a alguém que está em período de desintoxicação, sob o pretexto de que sofre com os sintomas da abstinência, sem dúvida propiciará um alívio momentâneo, porém, esse gesto não lhe fará nenhum bem a longo prazo.

Por outro lado, em qualquer circunstância, é possível examinar atenta e honestamente nossa motivação e determinar se é egoísta ou altruísta. O elemento essencial, portanto, é a intenção que sustenta nossos atos. A escolha dos métodos revela conhecimentos adquiridos, perspicácia e capacidade para agir.

Atribuir mais valor ao outro e sentir-se envolvido por sua situação são dois componentes essenciais do altruísmo. Quando esta atitude prevalece em nós, ela se manifesta sob a forma da benevolência em relação àqueles que penetram no campo de nossa atenção e se traduz pela disponibilidade e a vontade de ocupar-se com o bem-estar deles.

Quando constatamos que o outro tem uma necessidade ou um desejo particular cuja satisfação lhe permita evitar o sofrimento ou buscar bem-estar, a empatia nos faz, antes de tudo, sentir espontaneamente essa necessidade. Além disso, a preocupação com o outro gera a vontade de ajudá-lo. E, de forma inversa, se concedermos pouco valor ao outro, ele nos será indiferente: deixaremos de levar em conta suas necessidades; talvez nem as notemos.

SEM SACRIFÍCIO

O fato de sentir alegria em fazer o bem a outro, ou de extrair, além disso, os benefícios para si mesmo, não torna em si um ato egoísta. O altruísmo autêntico não exige que soframos ao auxiliar os outros e não perde sua autenticidade se vier acompanhado de um sentimento de profunda satisfação. Assim também a própria noção de sacrifício é muito relativa: o que parece ser um sacrifício para alguns é sentido como realização por outros, tal como ilustra a história a seguir.

Sanjit “Bunker” Roy, com quem nossa associação humanitária Karuna-Shechen colabora, conta que aos 20 anos, filho de boa família, educado em um dos mais prestigiados colégios da Índia, estava destinado a uma bela carreira. Sua mãe já o via médico, engenheiro ou funcionário do Banco Mundial. Nesse ano, 1965, uma fome terrível assolou a província de Bihar, uma das mais pobres da Índia. Bunker, inspirado por Jai Prakash Narayan, amigo de

Gandhi e grande figura moral indiana, decidiu ver in loco, juntamente com amigos de sua idade, o que acontecia nos vilarejos mais afetados. Voltou semanas mais tarde, transformado e declarou que queria viver em um vilarejo. Após momentos de silêncio, consternada, sua mãe lhe pergunta: “E o que você vai fazer num vilarejo?” O rapaz responde: “Trabalhar como operário não qualificado para abrir poços”. Conta Bunker: “Minha mãe quase entrou em coma”. Os demais membros da família tentaram acalmá-la dizendo: “Não se preocupe, como todos os adolescentes, ele está em crise de idealismo. Dê-lhe algumas semanas e ele voltará desiludido”.

Porém, Bunker não volta e permanece 40 anos nos vilarejos. Durante seis anos, usa a britadeira para abrir 300 poços nos campos do Rajastão. Sua mãe não lhe dirige a palavra por anos. Quando ele se muda para o vilarejo de Tilonia, as autoridades locais também não o compreendem:

– Você é procurado pela polícia?

– Não.

– Foi reprovado nos exames? Ou não conseguiu um cargo de funcionário público?

– Também não.

Alguém de seu nível social, dotado de semelhante nível de educação, não estaria em seu lugar num pobre vilarejo.

Bunker percebeu que poderia fazer mais do que cavar buracos. Constata que os homens com estudos saíam para viver nas cidades e não contribuíam em nada para ajudar nos vilarejos. “Os homens são inúteis”, conta ele com malícia. Mais apropriado seria então educar as mulheres e particularmente as jovens avós, de 35 a 50 anos, que dispunham de maior tempo que as mães de família. Embora fossem analfabetas, era possível capacitá-las como “engenheiras solares”, competentes na fabricação de painéis solares. Além do mais, havia pouco risco que deixassem suas comunidades rurais.

Bunker foi ignorado por muito tempo, criticado pelas autoridades locais e organizações internacionais, inclusive o Banco Mundial. Mas perseverou e capacitou centenas de avós analfabetas, possibilitando a eletrificação solar para aproximadamente mil comunidades rurais na Índia e em outros países. Sua ação é agora apoiada pelo governo indiano e outras organizações, além de ser reconhecida no mundo inteiro. Ele também criou programas destinados a utilizar o know-how ancestral dos camponeses, em especial a maneira de coletar a água da chuva para alimentar cisternas com capacidade suficiente para suprir as necessidades anuais das populações rurais. Antes, as mulheres eram forçadas a várias horas de caminhada cotidiana para carregar pesados recipientes de água, geralmente poluída.

No Rajastão, Bunker fundou o Barefoot College (“Colégio dos Pés Descalços”), no qual os professores não têm diploma, mas compartilham suas experiências fundamentadas em anos de prática. Todos vivem com simplicidade, no estilo das comunidades de Gandhi, e ninguém recebe mais que 100 euros por mês. Bunker, é claro, reconciliou-se com sua família, que agora se orgulha dele. Assim, durante muitos anos, o que parecia aos seus parentes e amigos um sacrifício desmedido, constitui-se para ele um sucesso que o enche de entusiasmo e satisfação. Em vez de desencorajá-lo, as dificuldades encontradas no caminho estimularam sua inteligência, compaixão e faculdades criativas. Agora, após quatro décadas, Bunker desenvolveu muitos projetos notáveis em 27 países. Ademais, todo seu ser irradia a felicidade por uma vida de pleno êxito.

Para ensinar a população rural de maneira estimulante, ele e seus colaboradores organizam apresentações com grandes bonecos de papel machê. Acenando aos que o desconsideravam, os bonecos são fabricados com relatórios reciclados do Banco Mundial. Bunker cita Gandhi: “Primeiro eles o ignoram, depois riem de você, depois o combatem, e então você ganha”.

De acordo com o filósofo Alexandre Jollien: “A primeira qualidade do amor altruísta é estar atento às necessidades do outro. O altruísmo nasce das necessidades do outro e se junta a elas”. E referindo-se ao sábio indiano Swami Prajnanpad, Jollien acrescenta: “O altruísmo é a arte da precisão. Não consiste em dar desmesuradamente, mas sim em estar próximo do outro e de suas necessidades. Quando Swami Prajnanpad afirma que ‘o amor é cálculo’, refere-se a um cálculo de precisão que possibilita estar perfeitamente adaptado à realidade e às necessidades do outro. Frequentemente imaginamos o bem e o estampamos no outro dizendo: ‘Esse é seu bem’, e o impomos ao outro. Amar o outro não significa amar um alter ego. É preciso deixar o outro ser outro e despojar-se de tudo aquilo que poderia projetar sobre ele, despojar-se de si para ir em direção ao outro, na escuta e na benevolência”.

Meu pai, Jean-François Revel, ficou estarrecido quando lhe disse que iria deixar minha carreira científica para viver no Himalaia, junto a um mestre espiritual. Ele teve a bondade de respeitar minha escolha e permaneceu em silêncio. Tempos depois, após a publicação do livro O monge e o filósofo, explicou que “aos 26 anos, Matthieu já era adulto e cabia a ele decidir como viver sua vida”.

No mundo do auxílio humanitário, não é raro que as organizações bem-intencionadas decidam a maneira de “fazer o bem” a determinadas populações, sem procurar saber dos desejos e necessidades reais dos potenciais beneficiários. A defasagem entre os programas de ajuda e as aspirações das populações locais é às vezes considerável.

ESTADOS MENTAIS

Para Daniel Batson, o altruísmo não é tanto uma maneira de ser, mas uma força motivadora orientada a um objetivo, força essa que desaparece quando o objetivo é alcançado. Batson considera assim o altruísmo como um estado mental momentâneo ligado à percepção de uma necessidade específica de outra pessoa, em vez de uma disposição duradoura. Ele prefere falar de altruísmo do que de altruístas, uma vez que, a todo momento, uma pessoa pode abrigar nela uma mescla de motivações altruístas em relação a algumas pessoas e egoístas para com outras. O interesse pessoal pode também entrar em competitividade com o interesse de outro e gerar um conflito interior.

Todavia, parece-nos legítimo falar também de disposições altruístas ou egoístas de acordo com os estados mentais que predominam habitualmente numa pessoa, sendo concebíveis todos os graus entre o altruísmo incondicional e o egoísmo restrito. O filósofo escocês Francis Hutcheson dizia que o altruísmo não era “um movimento acidental de compaixão, de afeto natural ou de reconhecimento, mas uma humanidade constante, ou o desejo do bem público de todos aqueles que nossa confiança pode abranger, desejo que nos incita uniformemente a todos os atos de generosidade, e leva a nos mantermos informados corretamente quanto à maneira mais eficaz de servir aos interesses da humanidade”. O historiador americano Philip Hallie estima que “a bondade não é uma doutrina ou um princípio: é uma maneira de viver”.

Esta disposição interior duradoura vem acompanhada de uma visão de mundo particular. Segundo Kristen Monroe, “os altruístas têm simplesmente uma maneira diferente de ver as coisas. Onde vemos um estranho, eles veem um ser humano, um de seus semelhantes… É esta perspectiva que constitui o cerne do altruísmo”. Os psicólogos Jean-François Deschamps e Rémi Finkelstein também mostraram a existência de uma relação entre o altruísmo considerado como valor pessoal e os comportamentos pró-sociais, sobretudo o voluntariado.

Além disso, nossas reações espontâneas perante circunstâncias imprevistas refletem nossas disposições profundas e nosso nível de preparação interior. A maioria dentre nós estenderá a mão a alguém que acaba de cair na água. Um psicopata ou uma pessoa dominada pelo ódio talvez olhará o desafortunado se afogar sem mexer um dedo, quem sabe com uma satisfação sádica.

Fundamentalmente, à medida que impregna nossa mente, o altruísmo é expresso de modo instantâneo quando somos confrontados com as necessidades alheias. Como afirmava o filósofo americano Charles Taylor: “A ética não se refere somente ao que é bom fazer, mas ao que é bom ser”. Esta visão permite situar o altruísmo em uma perspectiva mais ampla e levar em consideração a possibilidade de cultivá-lo como maneira de ser.

Sobre o altruísmo. 2

É POSSÍVEL APRENDER A SER BOM?

Muitas vezes, quando as pessoas pensam na aparência física de homens e mulheres bondosos, preocupados com o bem-estar alheio, raramente os imaginam com uma postura firme, num papel de liderança. Em geral, tendem a atribuir a eles expressão corporal tímida, retraída. Mesmo em experimentos científicos em que os participantes são convidados a imaginar a si mesmos mais generosos e empáticos, psicólogos perceberam que os voluntários costumam “se encolher” fisicamente – na maioria das vezes sem sequer se dar conta dessa atitude. Essa constatação revela uma crença equivocada – afinal, ser bom não é ser bobo. O que algumas pesquisas realizadas nos Estados Unidos mostram é que assertividade, liderança e autoridade combinam muito bem com empatia e generosidade. E o melhor: essas qualidades podem ser reforçadas.

Num estudo coordenado pela psicóloga Dana Carney, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley, voluntários foram ensinados a apresentar atitude firme e ao mesmo tempo delicada, por meio de uma prática chamada pelos pesquisadores de “meditação de bondade amorosa”. Nesse tipo de prática, as pessoas repetem em silêncio desejos de saúde e felicidade para si mesmas e para os outros – e, nesse processo, cultivam sentimentos de empatia.

Em outro experimento realizado por cientistas da Universidade de Wisconsin em Madison, foram escaneados cérebros de meditadores experientes e novatos que se concentravam nesses conteúdos positivos. Ao ouvirem sons de alguém em perigo nos alto-falantes durante a prática de bondade amorosa, todos apresentaram atividade aumentada na ínsula, área do cérebro envolvida no autoconhecimento e na experiência emocional. Os praticantes experientes apresentaram reações mais fortes aos sons, sugerindo que a compaixão e a empatia podem ser aprendidas.

Na Universidade Stanford, outro grupo de psicólogos descobriu que pessoas que praticavam a meditação com o intuito de ampliar a capacidade de amor e tolerância relataram se sentir socialmente conectadas a estranhos vistos em fotos e emocionalmente próximos a elas – esse sentimento, entretanto, requer algum tempo de dedicação e empenho para que possamos nos familiarizar com ele.

De certa forma, os benefícios de adotar uma atitude não apenas superficialmente gentil, mas de fato empática, dependem de como se entende sucesso. Se ser bem-sucedido é desenvolver recursos que levarão a ter felicidade a longo prazo, mais saúde física e mental, relacionamentos sólidos e prazer no cotidiano, as pessoas boas levam vantagem. É importante lembrar, porém, que líderes justos e compassivos podem ser de grande benefício ao grupo, por isso vale a pena prestar especial atenção à postura.

Sobre o altruísmo. 3

FAZ BEM FAZER O BEM

Embora durante muito tempo tenha sido difundida a ideia de que “o mundo é dos espertos, que sabem tirar vantagem das situações”, a ciência revela que os generosos costumam obter mais benefícios e ter acesso a oportunidades. E até o corpo agradece: cientistas do Instituto Nacional do Envelhecimento, nos Estados Unidos, relataram que os pacientes com baixa pontuação em gentileza eram mais propensos a ter espessamento das artérias carótidas, fator de risco importante para ataque cardíaco. Além disso, a equipe documentou que indivíduos com notas altas em afabilidade disseram sentir menos estresse, algo que poderia beneficiar tanto os relacionamentos quanto a saúde.

Uma forma “psicológica” de tentar medir quanto pessoas são “amáveis” é por meio da pontuação de um traço da personalidade denominado afabilidade. O problema dessa linha de investigação é que pode surgir confusão entre o verniz social da amabilidade e os genuínos sentimentos de compaixão e altruísmo. Esses últimos são associados à generosidade, à consideração pelos outros e a um forte desejo de contribuir para que prevaleça a harmonia em qualquer ambiente. Pessoas bondosas têm como preocupação primordial tratar aqueles com quem convivem – qualquer que seja o nível de intimidade – de forma respeitosa, pelo menos na maior parte do tempo, independentemente do cargo que ocupam, de quanto possam ser úteis ou mesmo de eventuais deslizes que cometam.

Ainda assim, alguns psicólogos afeitos a testes garantem que uma forma eficaz de “medir gentileza” é perguntar às pessoas quanto elas concordam com afirmações como “eu gasto tempo com os outros” e “compreendo os sentimentos alheios”. Pesquisadores da área de psicologia da personalidade sugerem que os bons em geral têm relacionamentos mais duradouros, tendem a ser saudáveis e, em alguns casos, apresentam desempenho superior na escola e no trabalho. Vários estudos sugerem esses benefícios profissionais e pessoais. O professor de administração Michael Tews, da Universidade Estadual da Pensilvânia, estudou como gerentes avaliam capacidade e personalidade ao contratar um funcionário. O pesquisador criou e apresentou falsos perfis de pretendentes a vagas com personalidade e grau de inteligência variados. Os gerentes, na maioria, preferiram os que tinham pontuação mais alta no quesito “gentileza”, até mesmo em detrimento dos mais inteligentes. (Por Daisy Grewal, doutora em psicologia social e pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade Stanford).

GESTÃO E CARREIRA

O QUE INFLUENCIA AS DECISÕES DE CARREIRA

Levantamento da Love Mondays mapeou como o profissional toma decisões de carreira

O que influencia as decisões de carreira

Salário, oportunidades de promoção de carreira e qualidade de vida. essas são as principais considerações dos profissionais brasileiros na hora de aceitar ou não um emprego, segundo uma pesquisa feita pelo Love Mondays. Com base em mil respostas, o levantamento mapeou como o profissional toma decisões de carreira.

Da amostra pesquisada, 63% das pessoas estão buscando emprego. Outras 32% disseram não estar buscando emprego, mas considerariam mudar de trabalho se surgisse uma boa oportunidade. Os cinco pontos que mais influenciam na hora de escolher um emprego, por ordem de importância, são: salário (73%); oportunidades de promoção de carreira (72%); qualidade de vida (58%) localização (52%); benefícios tradicionais, como vale-refeição, vale-transporte, vale- alimentação (45%).

Na sequência aparecem cultura e valores da empresa, reputação da companhia, relacionamento com colegas e com gerentes, missão da empresa, e benefícios inovadores (home office, sala de descompressão, happy hours etc.). “hoje, os profissionais também selecionam as empresas e querem estar bem informados neste aspecto. Prova disso é que 98% das pessoas consideram importante ou muito importante ouvir a perspectiva de uma empresa ao pesquisar sobre ambientes de trabalho”, explica Luciana Caletti, CEO e cofundadora do Love Mondays.

TRABALHO RELEVANTE FAZ A DIFERENÇA

Segundo o levantamento, os maiores desafios ao procurar por trabalho envolvem saber como realmente é trabalhar em uma determinada empresa (72%), encontrar trabalhos relevantes para experiências e habilidades já adquiridas (59%) e entender qual salário seria justo para a posição (44%).

Sobre quais informações são úteis na hora de avaliar uma empresa, a maioria dos pesquisados falou sobre avaliações dos funcionários (82%), informações sobre benefícios e salários (72%), cultura, missão, visão e valores da empresa (63%), e fotos e vídeos que mostram o ambiente de trabalho (35%)

O que influencia as decisões de carreira. 2

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 9: 13-18

Pensando biblicamente

O Convite da Loucura

Nós ouvimos o que Cristo tem a dizer, para comprometer os nossos sentimentos com Deus e com a santidade, e pensaríamos que todo o mundo o seguiria; mas aqui lemos o quão ardiloso é o tentador, para seduzir as almas incautas para os caminhos do pecado, e com a maioria ele é bem sucedido, e a corte da Sabedoria não é eficaz. Observe:

 

I – Quem é o tentador – uma mulher louca, a própria loucura, em oposição à Sabedoria. Eu acredito que esta mulher louca represente especialmente o prazer sensual e carnal (v. 13); pois ele é o grande inimigo da virtude, e a porta de entrada da maldade; ele profana e corrompe a mente, embota a consciência e apaga as fagulhas de condenação, mais do que qualquer outra coisa. Esta tentadora é aqui descrita como sendo:

1. Muito ignorante: “É néscia e não sabe coisa alguma”, isto é, não tem argumentação suficiente para oferecer; quando ela consegue o domínio sobre uma alma, ela expulsa o conhecimento das coisas sagradas; elas são perdidas e esquecidas. A incontinência (a prostituição), e o vinho, e o mosto tiram a inteligência; confundem os homens, e os tornam loucos.

2. Muito importuna. Quanto menos ela tem a oferecer daquilo que é racional, mais violenta e insistente ela é, e consegue os seus objetivos frequentemente com atrevimento. Ela é alvoroçadora e espalhafatosa (v. 13), continuamente assombrando os jovens com suas seduções. E assenta-se à porta da sua casa (v. 14), esperando uma vítima; não como Abraão, à porta da sua tenda, esperando uma oportunidade de fazer o bem. Ela se assenta numa cadeira (em um trono, é o significado da palavra), nas alturas da cidade , como se tivesse autoridade para dar a lei, e todos nós estivéssemos em dívida com a carne, por viver segundo a carne, e como se ela tivesse reputação, e tivesse honra, e se julgasse digna dos lugares altos da cidade; e talvez ela consiga ainda mais, fingindo ser elegante, do que fingindo ser agradável. Ela pergunta: “Será que as pessoas importantes do mundo não se permitem uma liberdade maior do que permitem as rígidas leis da virtude? e por que tu te humilharias a ponto de ser pisada por elas?” Assim a tentadora finge ser célebre e bondosa.

 

II – Quem são as pessoas tentadas – jovens que receberam uma boa educação; ela terá seu maior triunfo ao causar a ruína destes jovens. Observe:

1. Qual é o verdadeiro caráter desses jovens; são pessoas que seguem direto pelos seus caminhos (v. 15), que foram treinados nas veredas da religião e da virtude e começaram de maneira muito promissora, que pareciam determinados e designados para o bem, e que não seguem (como aquele jovem, Provérbios 7.8) pelo caminho para a casa dela. A estes ela visa, e para estes arma ciladas, e usa todos os seus encantos e artifícios para pervertê-los; se eles prosseguirem pelo seu caminho e não olharem para ela, ela os chamará com estas urgentes tentações.

2. Como ela os descreve. Ela os chama de simples e de faltos de entendimento, e por isto os chama para a sua escola, para que possam ser curados das restrições e formalidades da sua religião. Este é o método do palco (o que é uma explicação bastante próxima deste parágrafo), onde o jovem sóbrio que foi educado na virtude, é o bobo da peça, e o enredo deve torná-lo sete vezes mais um filho do inferno do que seus companheiros profanos, sob o pretexto de dar-lhe refinamento, e apresentando-o como uma pessoa inteligente e bela. O que é, com razão, considerado pecado e impiedade (v. 4), e que é loucura, aqui, de maneira muito injusta, é devolvido aos caminhos da virtude, mas o dia declarará quem são os loucos.

 

III – Qual é a tentação (v. 17): “As águas roubadas são doces”. É pão e água, uma vez que a Sabedoria convida para os animais que matou e para o vinho que ela misturou; no entanto, pão e água são suficientemente aceitáveis para os que estão famintos e sedentos; e isto tenciona ser mais doce e agradável do que comum, pois são as águas roubadas e o pão comido às ocultas, com temor de ser descoberto. Os prazeres dos desejos proibidos se vangloriam de ser mais saborosos do que os do amor prescrito, e o ganho desonesto é preferido ao que é conquistado de maneira justa. Isto implica, não somente um ousado desprezo, mas um desafio atrevido:

1. À lei de Deus, pelo fato de afirmar que as águas são mais doces por serem roubadas e por infringirem o mandamento divino. Nós nos inclinamos ao que é proibido. Este espírito de contradição nós herdamos dos nossos primeiros pais, que pensaram que a árvore proibida, entre todas as outras, fosse uma árvore desejável.

2. À maldição de Deus. O pão é comido às ocultas, por medo de que a pessoa seja descoberta e punida. E o pecador se orgulha de ter desconcertado as suas convicções, e triunfado sobre elas, de modo que, apesar desse temor, ele ousa cometer o pecado, podendo ser levado a crer que, sendo comido às ocultas, jamais será descoberto ou mesmo que haja alguma desconfiança. A isca é constituída de doçura e prazer, mas na verdade exibe o próprio tentador; isto é tão absurdo, e tem tantos atenuantes, que é de se admirar como possa ter alguma influência sobre homens que dizem raciocinar.

 

IV – Um antídoto eficaz contra a tentação, em poucas palavras (v. 18). Aquele que, até agora, era falto de entendimento, a ponto de ser deixado de lado por estas seduções, é conduzido, sem percebê-lo, à sua própria ruína inevitável: Ele não sabe, não acredita, não considera; o tentador não o deixará saber, que ali estão os mortos, que os que vivem em prazeres estão mortos enquanto vivem, mortos em ofensas e pecados. Terrores acompanham estes prazeres, como os terrores da própria mente. Os gigantes estão ali – os refains. Foi isto o que arruinou os pecadores do mundo antigo, os gigantes que viviam na terra naqueles dias. Os convidados da Sabedoria, que são tratados com as águas roubadas, não estão somente no caminho para o inferno e à beira dele, mas já se encontram nas profundezas do inferno, sob o poder do pecado, levados cativos por Satanás, pela sua vontade, para sempre açoitados pelos terrores das suas próprias consciências, que estão em um inferno na terra. As profundezas de Satanás são as profundezas do inferno. O pecado sem o arrependimento é a destruição sem remédio; já é o abismo profundo. Assim, Salomão mostra o anzol – aqueles que creem no precioso e bendito Senhor não se envolvem com a isca.