PSICOLOGIA ANALÍTICA

É MELHOR PENSAR EM DEUS DE BARRIGA CHEIA

Facilidade de conseguir alimentos pode ter liberado energia e tempo necessários para que nossos ancestrais pudessem começar a pensar sobre o propósito da vida.

É melhor pensar em Deus de barriga cheia

Há aproximadamente 2.500 anos algo mudou a forma como o ser humano se relaciona consigo mesmo e com o mundo. No espaço de dois séculos, em três regiões diferentes da Eurásia, a preocupação com a espiritualidade emergiu e evoluiu para as grandes religiões do mundo – aquelas que pregam uma combinação de compaixão, humildade e busca pelo melhor de si mesmo. Muitas vezes estudiosos atribuem o aumento de religiões e filosofias tão antigas – budismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo e cristianismo – ao crescimento da população e à necessidade de buscar na moralidade um elemento de equilíbrio social necessário, o que de fato faz sentido. No entanto, os resultados de um estudo publicado no periódico científico Current Biology indicam outro ponto – inusitado, no entanto fundamental – a ser considerado quando falamos de busca espiritual: aumento de riqueza. Os autores investigaram variáveis relacionadas com a complexidade das normas sociais adotadas e de vida política adquirida por nossa espécie ao longo da evolução. O que os cientistas constataram foi que a conquista de melhores condições de subsistência e condições de vida – e, em particular, o acesso a maior quantidade de calorias – emergiu como uma força importante na ascensão da religião moral. Entre várias culturas, religiões que pregam a preocupação com o bem-estar do próximo parecem ter surgido abruptamente quando membros da comunidade passaram a ter acesso a fontes confiáveis de energia (incluindo comida para seres humanos e animais, combustíveis e matérias-primas) e, dessa forma, a quantidade de calorias ingerida diariamente aumentou para cerca de 2 mil. “Esse número parece corresponder a certa paz de espírito”, diz o principal autor do estudo, o pesquisador Nicolas Baumard, cientista da École Normal e Supérieure, em Paris. “Afinal, faz toda a diferença ter um teto sobre sua cabeça, não se sentir o tempo todo ameaçado por predadores e inimigos e saber que você vai ter o suficiente para comer amanhã; isso nos garante algum espaço mental para nos preocuparmos com questões menos mundanas”, observa. Baumard ressalta que algumas pesquisas já mostraram que a riqueza parece influenciar nossas motivações e circuito de recompensa. Do ponto de vista psicológico, quando temos o suficiente para nos mantermos sem grandes sobressaltos, nos tornamos mais propensos a suportar a postergação de ganhos e a considerar os benefícios de estratégia de longo prazo. Em outras palavras, com um fornecimento de energia estável, temos mais tempo para cooperar uns com os outros, cultivar habilidades e levar em conta as consequências de nossos atos. Na prática, isso implica mais condições para nos dedicarmos à ponderação existencial, ao cultivo da responsabilidade moral e talvez até à consideração de que a vida tem um propósito. Baumard acredita que as qualidades morais e ascéticas provavelmente existiam nos humanos antes de as grandes religiões enfatizá-las – mas a sistematização foi crucial para sua ampliação. “A ideia principal do artigo de Baumard é fascinante; de fato, é possível que a religião em si impulsione aumentos na riqueza em razão de seus efeitos sobre o reforço da cooperação, mas o nexo de causalidade entre o aumento da riqueza e religião precisa ser mais bem estabelecido”, acredita o biólogo evolucionista Bernard J. Crespi, pesquisador da Universidade Simon Fraser, na Colúmbia Britânica. A antropóloga Barbara King faz críticas às conclusões do estudo de Baumard. Ela argumenta que ele exagera a transição brusca para os sistemas de crenças morais. Em sua opinião, a passagem parece ter sido bem mais gradual, aumentando aos poucos a linha de contagem de calorias para um patamar mais confortável. “Não podemos esquecer o fato de que antropólogos e psicólogos já comprovaram a existência de raízes profundas de compaixão, por exemplo, em outros primatas. Não vejo nenhuma razão para supor que preceitos morais, empatia e mesmo alguma forma de relação com o sagrado não fossem importantes para grupos de caçadores-coletores mais antigos”, afirma. Ainda que suscitem controvérsias, as descobertas de Baumard apontam para uma forte associação bastante específica entre riqueza e o surgimento da religião moral. A abundância de sociedades antigas cooperou para o desenvolvimento de crenças religiosas, como se pode ver nas culturas maia, suméria e egípcia. Na maior parte dos casos, no entanto, nenhum dos sistemas de crenças dessas sociedades enfatizou a moral, a tolerância e a compaixão. E, de acordo com Baumard, membros desses grupos nunca tiveram acesso a mais de 1.500 calorias por dia. Quer seja causa ou efeito, a conexão com valores mais elevados, ao que parece, exige energia.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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