GESTÃO E CARREIRA

AS EMPRESAS DO FUTURO: APOSTANDO NA PRIMEIRA INFÂNCIA

Cuidar das crianças pequenas é o investimento de maior impacto para a formação de uma população mais saudável, segura, culta e produtiva. Veja como as empresas podem ajudar a mudar esse quadro (e ainda lucrar com isso).

As empresas do futuro - Apostando na primeira infância

Há alguns anos sabe-se que investir na primeira infância, a fase que vai até os 6 anos, é crucial. Proteger as crianças – garantir-lhes alimentação saudável, proteção, carinho e possibilidades de brincar -, é não apenas respeitar os direitos individuais de milhões de cidadãos, mas, também moldar o futuro da sociedade. É difícil achar causa mais nobre…mas ela não vem recebendo a atenção necessária.

O País investe 2,3% do produto interno bruto (PIB) em programas para crianças de 6 a 12 anos, e apenas 0,5% em cuidados com as crianças de 0 a 5, de acordo com dados do Banco Mundial e da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe).

É quase o oposto do que se deveria fazer. Como diz o economista James Heckman, prêmio Nobel de economia de 2000, o investimento na primeira infância é o que tem o melhor retorno: entre 7% e 10 % ao ano. Análises mais recentes apontam resultados ainda mais positivos, em comunidades carentes: 13% de retorno sobre o investimento.

Essa resposta se explica por duas pontas. De um lado, a produção de riqueza é maior: segundo Heckman, crianças que frequentaram uma creche de qualidade vão receber, na média, salários 25% maiores, porque os estímulos apropriados durante a primeira fase da vida levam a um desenvolvimento emocional e cognitivo mais saudável.

De outro lado, os custos são menores: crianças bem cuidadas têm menos chance de precisar frequentar programas de recuperação educacional, e menos probabilidade de fazer escolhas que prejudiquem sua saúde ou as levem a atividades criminosas.

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O QUE AS EMPRESAS PODEM FAZER

A causa da primeira infância é tão definidora do futuro do país que as empresas não podem ficar alheias a ela. “Hoje, as companhias brasileiras têm pouco envolvimento com o tema”, diz Eduardo Queiroz, presidente da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, organização focada na promoção da primeira infância no Brasil. “Talvez elas ainda não enxerguem o tamanho do impacto que podem ter no desenvolvimento de uma criança.”

E o caminho para essa conscientização pode ser compartilhado. “Toda empresa tem potencial de ser aliada. E já são vários os exemplos positivos a serem seguidos”, diz Gabriella Bighetti, Diretora Executiva da United Way Brasil, organização não governamental que atua pela primeira infância e juventude por meio da educação. Em geral, as organizações já sabem que este é um investimento necessário. O grande obstáculo, porém, é que elas consideram as vantagens desse investimento como globais e futuras, enquanto os custos são locais (ou seja, delas mesmas) e imediatos.

Mas esta percepção não leva em conta os efeitos colaterais das políticas em prol da família. Eles são em geral positivos, às vezes transformadores. A lógica é a mesma de criar um excelente ambiente para trabalhar: as empresas ganham uma reputação n1elhor, têm mais facilidade de atrair clientes, perdem menos funcionários. E, nos casos de iniciativas de apoio às comunidades, ainda criam oportunidades para a identificação e o desenvolvimento de lideranças entre seus funcionários.

De certa forma, vale para as pessoas jurídicas a mesma dinâmica que para as pessoas físicas: nós preferimos estar perto daquelas que sorriem mais, inspiram mais confiança, se preocupam com os outros, são mais abertas e comunicativas.

As vantagens não são apenas intangíveis. De acordo com a Ready Nation, uma organização empresarial americana que conta com 1.100 membros, incluindo atuais e ex- CEOs de grandes corporações unidos pela causa dos investimentos em crianças e jovens, os programas em prol da primeira infância têm impacto direto na produtividade dos funcionários: por saber que as crianças estão sendo bem cuidadas, os pais podem se concentrar melhor no trabalho; e os cuidados com a saúde dos filhos acarretam em menos faltas dos pais.

Não é necessário que as empresas deem um salto de fé. Ao contrário. Elas podem fazer aquilo que sempre devem fazer: contas.

Às vezes, a mera redução da rotatividade no trabalho já compensa os custos de implementar programas pró-família. Alguns estudos estimam que o custo da rotatividade varia entre 50% e 200 % do salário anual de um funcionário. São os gastos com a busca de profissionais, seu treinamento, a perda de produtividade durante o período de adaptação. Para dar uma ideia do tamanho desse problema, em 2016 a taxa de rotatividade voluntária (as demissões que as empresas não queriam fazer) foi de 30% entre as companhias da lista de melhores empresas para trabalhar no Brasil, do GPTW.

Um exemplo de como as políticas pró-família podem ter impacto nessa conta vem da filial brasileira da seguradora Tokio Marine. Em 2011, quando a empresa começou a adotar benefícios em prol da primeira infância (como horário flexível, reembolso de despesas com creche ou babá, plano de previdência privada), seu índice de rotatividade era de 21%. Essa taxa caiu progressivamente, até chegar a 9,9% em 2016, e 9,8% no ano passado, ante uma média de 14,9% no setor.

Outra potencial redução de custos é no absenteísmo. Um estudo no Canadá, feito pelos professores Georges Dionne e Benoit Dostie, da HEC Montreal, concluiu que empregados satisfeitos com o trabalho tinham probabilidade 17,5% menor de faltar; e empregados que trabalham em casa de vez em quando tinham probabilidade 11,5% menor de faltar.

Um outro estudo, nos Estados Unidos, examinou em 2004 a produtividade em 1.188 das 500 maiores companhias do país. A conclusão: a cada três programas adicionais de incentivo ao equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, havia um aumento de produtividade entre 2% e 3%.

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OS BONS EXEMPLOS

Há diversos modos de uma empresa se engajar na causa da primeira infância. Elas podem implementar práticas voltadas ao seu público interno; exportar sua cultura para outras empresas, via contratos com fornecedores, defendendo a causa ou realizando investimentos coletivos, que unam diversas empresas e cidadãos; promover ações de voluntariado, ou apoiar ONGs que atuam na área; promover o tema para sensibilizar a sociedade para sua importância; e divulgar a causa entre formadores de opinião e governos.

Em todos esses campos, já há bons exemplos a seguir:

  • No Brasil, a Natura oferece 40 dias de licença- paternidade, desde 2016. A lógica é que neste período a mãe está se recuperando fisicamente da gravidez, e a proximidade do pai é importante para toda a família, especialmente no estabelecimento de vínculo com o bebê.

 

  • Na filial brasileira da Johnson & Johnson, a licença- paternidade é de dois meses, que podem ser tirados no momento que o funcionário quiser dentro do primeiro ano do nascimento ou adoção da criança – o que permite um revezamento de cuidados entre pai e mãe.]]

 

  • A cadeia de lojas de conveniência americana Casey’s General Stores descreve suas instalações de cuidados com as crianças como “nossa melhor ferramenta de recrutamento e retenção de funcionários”.

 

  • Na Tokio Marine do Brasil, todos os funcionários podem começar o expediente entre 7h e 10h, e sair entre 16h e 19h30, além de poderem usar seus bancos de horas para sair mais cedo em qualquer dia. Isso facilita aos pais acompanhar os compromissos escolares ou médicos de seus filhos. Além disso, a seguradora oferece os serviços de um assistente pessoal, com utilização ilimitada e confidenciai, válida para os funcionários, marido ou mulher e filhos. A assistente ajuda a marcar hora em médicos, cotar preços de festas infantis ou de escolas etc.

 

  • O grupo Sabin, de laboratórios de saúde, oferece um salário mínimo para ajudar nas despesas do casamento. Depois vêm as palestras de preparação para o funcionário que espera um bebê e, por fim, tem outro salário mínimo para a compra do primeiro enxoval.

 

  • Na filial brasileira da Kimberly-Clark, pais de filhos com alguma necessidade especial recebem mensalmente o reembolso de despesas médicas de até R$1.300.

 

  • Na Índia, a indústria de alumínio e cobre Hindalco sustenta centros de saúde que fornecem planejamento familiar, vacinas, prevenção e tratamento de malária, tuberculose, Aids e outras doenças.

 

  • A companhia de energia e tecnologia suíça ABB Schweitz criou sua primeira creche em 1966 – e a partir daí fundou uma organização não lucrativa que ajuda outras 38 companhias a oferecer o serviço para seus empregados.

 

  • Nos Estados Unidos, o banco PNC distribui em suas agências folhetos com dicas para ajudar os pais a realizar atividades lúdicas e de aprendizado com seus filhos pequenos.

 

  • A organização americana Ready Nation já realizou 11 reuniões de cúpula e o primeiro grande encontro de negócios globais para tratar de investimentos na primeira infância em abril de 2018.

 

  • Como diz o economista Ricardo Paes de Barros, especialista em desigualdade social e educação, “o Brasil precisa passar do foco na garantia dos direitos negativos (não passar fome, não ficar doente, não sofrer violência) para a busca dos direitos positivos – pleno desenvolvimento do potencial, bem-estar enquanto criança”.

 

  • As empresas são uma parte fundamental desse esforço. E isso está plenamente de acordo com a essência do mundo dos negócios: construir um futuro melhor. Inclusive para elas próprias.

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O BE-A-BA DOS NEURONIOS

ESTUDOS NEUROLÓGICOS FEITOS NAS ÚLTIMAS DÉCADAS AJUDAM A ENTENDER O IMPACTO DOS INVESTMIMENTOS NA PRIMEIRA INFÂNCIA:

  •  O cérebro de uma criança de 3 anos tem 80% do volume do cérebro adulto, de acordo com diversos mapeamentos, como os do pesquisador Richard Nowakowski, da Universidade Estadual da Flórida.

 

  •  Nessa fase, o cérebro tem o dobro de conexões (as sinapses) que terá na vida adulta, segundo o neurocientista Peter Huttenlocher, um dos pioneiros desse campo.

 

  •  Os investimentos para colher bons resultados são bastante modestos. Por exemplo: uma hora de conversa por dia com uma criança, ao longo de um ano, leva a uma melhora no seu desenvolvimento equivalente à de um ano a mais, de acordo com um estudo do economista mineiro Flávio Cunha, da Universidade de Rice, nos Estados Unidos. Ou seja, uma criança de 4 anos exposta a uma comunicação adequada tem capacidade equivalente à de uma criança de 5 anos que não teve tantos estímulos de comunicação.

 

  •  A maior proteção que o cérebro de uma criança tem contra os efeitos de violência física ou verbal, privações e até falta de carinho é o vínculo afetivo com seus cuidadores, diz James Leckman, médico e pesquisador da Universidade Yale, nos Estados Unidos.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.