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IMPASSES DA DISLEXIA

A dificuldade de apreensão de informações pelos métodos tradicionais pode comprometer a leitura e a escrita, causando sensação de incapacidade e baixa autoestima nas crianças que enfrentam o problema. O quadro, no entanto, não compromete a capacidade intelectual e requer apenas adequações na forma de ensinar e aprender.

Impasses da dislexia

O que personagens como o pintor e escultor Pablo Picasso, o primeiro presidente constitucional dos Estados Unidos, George Washington, a cantora Joss Stone e a atriz americana Whoopi Goldberg têm em comum? Se você respondeu sucesso em suas carreiras, acertou. Mas existe mais um ponto em com um entre eles: todos são (ou foram) disléxicos. A escritora Agatha Christie, que também enfrentava o problema, chegou a declarar: “Escrita e ortografia foram sempre muito difíceis para mim”. Até mesmo os gênios Leonardo Da Vinci e Albert Einstein apresentam sinais do quadro. A dislexia não é considerada doença ou distúrbio neurobiológico. Trata-se de um transtorno, uma espécie de desordem no processo de apreensão de informações pelos métodos tradicionais, o que dificulta a compreensão das letras e pode comprometer a leitura e a escrita. E, como o conhecimento formal, especialmente o adquirido na escola, depende muito da leitura, os disléxicos costumam encontrar grande dificuldade para acompanhar as aulas

Segundo dados da Associação Internacional de Dislexia, uma em cada dez pessoas apresenta, em algum grau, indícios de dislexia – como ler mal ou muito devagar, ter dificuldade de reconhecer letras ou, ainda, trocar as letras nas palavras. As manifestações – que podem ser erroneamente confundidas com preguiça, falta de atenção ou má alfabetização – variam de intensidade de uma pessoa para outra. Em geral, aqueles que apresentam o problema têm dificuldade de associar o símbolo gráfico e as letras ao som que representam. Não raro, têm dificuldade com lateralidade e confundem direita com esquerda, ou escrevem de forma invertida, em vez de “vovô”, “ovôv” e, no lugar de “casa”, “saca”. A dislexia também causa a omissão de sílabas ou letras como “poblema” quando o correto seria “problema”, além de confusão de letras com grafia similar. Por exemplo, n-u, w-m, a-e, p-q, p-b, b-d.

A necessidade de seguir a linha do texto com os dedos é outro sintoma de dislexia. Em razão das dificuldades de leitura, as crianças podem enfrentar dificuldades em relação a pobreza de vocabulário e se confundir com as tarefas escolares, o que muitas vezes concorre para que ocorra um atraso escolar. O quadro, porém, não afeta a capacidade intelectual. Na escola, com apoio e estímulo adequados, a criança disléxica pode aprender a lidar com as suas dificuldades e a superá-las. O importante é que pais e professores estejam atentos para encontrar a forma mais eficiente de ensinar a criança com dislexia. Os pequenos costumam ser encaminhados para avaliação cerca de dois anos após o período de alfabetização, dos 7 aos 9 anos, quando as dificuldades motoras e de compreensão, começam a aparecer. Antes disso, no entanto, alguns sinais podem indicar propensão como dificuldades para aprender a falar, andar, ou na coordenação motora fina para coisas como segurar o lápis. A alergia ao hormônio testosterona também é um sinal comum. “Caso o risco seja detectado, é importante acompanhar o desenvolvimento da criança, pois a intervenção precoce é mais eficaz”, explica Maria lnez Ocafía de Luca, neuropsicóloga e membro da equipe de avaliação para diagnóstico da dislexia da Associação Brasileira de Dislexia (ABD). “O aluno que não recebe tratamento tende a se isolar, fida com medo do aprendizado e demora mais para adquirir fluência na fala e na escrita.” Isso costuma acontecer, no entanto, quando o problema só é identificado na adolescência ou na idade adulta. A ABD ministra cursos gratuitos para educadores, mas diz que a procura é baixa.

Diagnosticar a dislexia, no entanto, não é uma tarefa fácil. ” É preciso fazer uma avaliação multidisciplinar, para ter certeza de que a dificuldade de aprendizado não está sendo causada por outros fatores, como deficiência mental ou problema de memória”, afirma Abam Topczewski, neurologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, também membro da equipe de avaliação da ABD. A equipe inclui psicólogo, psicopedagogo, fonoaudiólogo e o próprio neurologista. O psicólogo tem o papel de avaliar se a criança tem capacidade intelectual normal. O psicopedagogo verifica a capacidade de organização, a leitura e a escrita, áreas em que o disléxico geralmente apresenta dificuldade. O fonoaudiólogo checa a capacidade de transpor a fala em escrita e vice -versa, bem como a compreensão auditiva, equilíbrio, coordenação motora, organização espacial, atenção, memória. Por fim, o neurologista examina imagens de ressonância magnética funcional, durante atividades de leitura, audição ou reconhecimento de imagens, e verifica se o funcionamento do cérebro está normal. Uma avaliação psiquiátrica também é importante, porque o disléxico tem maior probabilidade de ter outros distúrbios, algo conhecido como co­morbidade. No caso do déficit de atenção, o risco é de 70%, e para a hiperatividade, 30%. Outro fator a ser considerado é a ocorrência na família, já que é considerado um quadro com predisposição genética.

Tanto os pais quanto os professores costumam responder um questionário detalhado (anamnese), que contribui com outras informações importantes. Entre as crianças que receberam outro diagnóstico, o mais comum foi o de deficiência mental. Caso seja detectada a dislexia, ela pode ser classificada como leve, moderada ou grave. O tratamento consiste basicamente em ajudar a criança a encontrar outras maneiras de aprender. Não há uso de medicação nem a possibilidade de cura – já que não se trata de uma doença-, mas sim o desenvolvimento de estratégias para superar suas dificuldades. A criança recebe um laudo que deve ser apresentado em situações de avaliação como o vestibular ou prova de habilitação de motorista, para que lhe sejam oferecidas condições especiais nos exames.

A atuação da escola é fundamental para a recuperação. A instituição pode ajudar o disléxico por meio de medidas relativamente simples, sem a necessidade de modificar o conteúdo pedagógico, mas com adaptações de material, de acordo com o grau da dislexia. É importante, por exemplo, dar mais tempo de prova a esses alunos e ler os enunciados para ele. Textos maiores precisam ser lidos mais devagar e em partes, checando o entendimento da criança a cada passo e, em alguns casos, é preciso acompanhamento no momento de escrever as respostas. Embora tenha dificuldade de interpretar um texto, o disléxico tem o intelecto normal e excelente memória auditiva e visual. “Se você quer ensinar um disléxico a fazer brigadeiro, é melhor fazer na frente dele do que dar a receita”, afirma a neuropsicóloga Maria lnez de Luca. Outras medidas eficientes são deixar o aluno sentado mais próximo do professor e aumentar o tamanho das fontes de textos de estudo, fichas e das questões das provas. O professor também deve ser mais condescendente com os erros de escrita. Em casos acentuados, deverá elaborar atividades mais simples para a aula. Como o disléxico pode ter dificuldade com línguas estrangeiras, essa matéria deve ser descartada como critério de promoção.

Muitas escolas têm tido resultados de sucesso com os disléxicos, incluindo aí alunos que entram na universidade e se realizam plenamente em suas carreiras profissionais. “Hoje a dislexia já está bem mais divulgada, e existe conhecimento para lidar com a questão. Além disso, é um problema bastante frequente”, diz Cristina Crey, psicóloga clínica que trabalha junto a escolas particulares. “Depois de apresentado o laudo, dificilmente há rejeição da criança.”

Infelizmente, porém, essa não é uma realidade que possa ser generalizada. Embora sejam medidas relativamente simples, de modo geral as escolas não estão preparadas para identificar os disléxicos – e acolhê-los. No caso das instituições particulares, isso depende em grande parte da proposta da escola. Aquelas cujo foco principal é que os alunos passem no vestibular podem acabar deixando o disléxico para trás. “A escola é obrigada a aceitar o aluno, mas o professor não consegue cuidar de 45 crianças ou jovens e ainda dar atenção ao disléxico”, afirma a coordenadora de uma escola que segue o sistema apostilado, mas que prefere não se identificar. “Por outro lado, mesmo sem nota, a escola tem de passar o aluno, porque ele precisa ser incluído. Na prática, quando ele chega ao ensino médio, já está com muita deficiência.” No ensino público, problema semelhante acontece por outro motivo: a promoção automática. O Brasil não tem estatística para a dislexia, mas relatos de educadores indicam que a questão é grave. Muitas vezes a escola não conhece o problema e acha que o aluno é preguiçoso. E aí surge outro ponto a ser trabalhado, de preferência com um psicólogo clínico: a baixa autoestima dessas crianças. Como a ocorrência mundial é estimada em 10%, é possível pensar que inúmeras crianças com dislexia, muitas delas com plena capacidade intelectual, estão sendo deixadas para trás.

Impasses da dislexia.2

UM PROBLEMA DA ESCOLA?

A dislexia foi registrada pela primeira vez em 1890, quando um paciente foi até o oftalmologista porque não conseguia ler, mas o médico avaliou que sua visão estava perfeitamente normal. Por esse motivo, por algum tempo foi chamada de cegueira verbal. Posteriormente, foram encontradas algumas evidências biológicas para o transtorno. A primeira delas veio a partir de estudos de anatomia que mostram que, nos disléxicos, ocorre frequentemente uma migração diferenciada dos neurônios no desenvolvimento do feto. Isso faz com que os hemisférios tenham um desenvolvimento igual, como acontece nos canhotos, em vez de diferente e com a dominância de um deles, como é o mais comum.

Imagens de ressonância magnética funcional, feitas enquanto o paciente está lendo, mostram que vias diferentes das normais são usadas por essas pessoas. Vários profissionais trabalham com a hipótese de que a dislexia seja determinada pela predisposição genética. “A probabilidade de dislexia se o pai ou a mãe tem a doença é de 50%; se ambos, 75%”, afirma Maria lnez de Luca.

Questões sobre o tema, entretanto, não são consensuais entre especialistas. “A dislexia não tem  uma causa orgânica, é um problema de aprendizado e, portanto, deve ser tratada dentro da escola”, acredita a pediatra Maria Aparecida Moysés, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “A hipótese mais comum para o aluno com dificuldade é que ele tenha problemas familiares ou alguma deficiência. Geralmente, o universo escolar não é considerado. Em geral, são as precariedades da escola que geram um grande número de alunos com dificuldades no aprendizado”, diz Beatriz de Paula Souza, psicóloga e coordenadora do serviço de orientação à queixa escolar do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Aparentemente, no entanto, a dislexia não é uma exclusividade das escolas fracas. “A dislexia aparece também em famílias instruídas e em escolas de qualidade”, diz o neurologista Abam Topczewski.

 É PRECISO ENSINAR DO JEITO QUE ELES APRENDEM

A escola tem papel fundamental na inclusão de alunos com dificuldades de linguagem e escrita, mas para ajudá-los a se sentir seguros e aceitos é necessário esforço e disponibilidade do professor

  • A criança com dislexia tem, em geral, uma história de fracassos e cobranças que a fazem sentir-se incapaz, por isso é fundamental motivá-la ressaltando seus acertos
  • A escola deve valorizar os interesses da criança e atribuir a ela tarefas que a façam se sentir útil
  • As expressões “tente esforçar-se” ou “se concentre mais” devem ser evitadas em qualquer situação, pois a criança faz o que é capaz no momento
  • O ritmo do aluno deve ser respeitado, pois é comum a dificuldade para processar informações e pode ser necessário algum tempo para pensar e dar sentido ao que foi visto ou ouvido
  • Costumam ser úteis as orientações sobre como organizar-se no tempo e no espaço; insistir em numerosos e repetitivos exercícios de fixação não diminui a dificuldade da criança
  • As instruções de tarefas são captadas com mais facilidade se forem curtas e simples;
  • O professor deve certificar-se de que as tarefas de casa foram compreendidas e anotadas corretamente;
  • Demonstrações, imagens e filmes podem ser utilizados para enfatizar conceitos ensinados nas aulas; permitir o uso de gravador também pode ajudar
  • Ao dar explicações sobre como fazer algo, é mais eficiente posicionar-se ao lado da criança, sempre que possível
  • Não é uma boa estratégia insistir para que o aluno leia em voz alta perante a turma, pois ele tem consciência de seus erros; a maioria dos textos de seu nível é difícil para ele

(*) Informações da Associação Nacional de Dislexia

COMO OS PAIS PODEM AJUDAR? (*)

A criança é a primeira a perceber que algo está errado com ela, mas não sabe o que fazer ou explicar o que acontece. Quanto mais o tempo passar sem que tenha ajuda, maior seu sofrimento emocional. O papel dos pais é fundamental

 

  • Não busque culpados, mantenha um bom relacionamento com professore e discuta a questão com a escola
  • Ensine seu filho a fazer coisas por si próprio, como se organizar, para que tenha autonomia
  • Seja paciente com os progressos que ele fizer, quando estiver tendo atendi mento apropriado. Não espere milagres; tudo isso leva tempo, é necessário muita determinação e esforço
  • Ele poderá ficar tão cansado com o esforço que faz na escola, que precisará, eventualmente, ter um dia mais folgado
  • Nunca compare crianças e evite a superproteção
  • Qualquer que seja a idade de seu filho, leia para ele, pois muitos disléxicos não compreendem o que estão lendo
  • Digite suas anotações escolares; alguns conteúdos podem ser gravados
  • Incentive o interesse da criança por arte em geral (teatro, cinema, música etc.)
  • Assista TV e vídeos com ele e depois converse sobre o que viram
  • Elogie a criança e estimule sua confiança e a autoestima
  • Explique a ela que as pessoas têm maneiras diferentes de funciona e ela não é pior porque tem algumas dificuldades

(*) Informações da Associação Nacional de Dislexia

Impasses da dislexia.3

NA HORA DA PROVA

A Associação Nacional de Dislexia recomenda aos professores que, ao elaborar, aplicar e corrigir as avaliações do aluno disléxico, especialmente as realizadas em sala de aula, adote os seguintes procedimentos:

  • Leia as questões junto com o estudante, de maneira que ele entenda a pergunta
  • Explicite sua disponibilidade para esclarecer eventuais dúvidas sobre a questão
  • Dê ao aluno tempo necessário para fazer a prova com calma
  • Ao recolher a prova, verifique as respostas e, caso seja necessário, confirme com o aluno o que ele quis dizer com o que escreveu, anotando suas respostas
  • Ao corrigir, valorize a produção do aluno, pois frases aparentemente sem sentido e palavras incompletas ou gramaticalmente erradas não representam conceitos ou “informações erradas

(*) Informações da Associação Nacional de Dislexia

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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