PSICOLOGIA ANALÍTICA

EMOÇÃO ESTIMULANTE

A paixão é um sentimento arrebatador que influencia os reflexos emocionais das pessoas e gera um poderoso combustível para a vida.

Emoção estimulante

A paixão é um dos mais poderosos combustíveis da vida humana. É por meio dela que podemos transformar qualquer obstáculo em oportunidade, sonhos em realidade e, principalmente, modificarmos nossa fisiologia a fim de atingir um estado interno de prazer, motivação, foco e determinação.

Ela tem o poder de despertar nosso melhor e, claro, nosso pior, e se calibrada estrategicamente pode ser um interessante recurso para as conquistas pessoais.

Pense comigo, onde e quando nos sentimos mais vivos, inteiros e completam ente amantes da vida em sua potência máxima? Certamente, na fase inicial de um relacionamento a dois, quando um casal se entrega sem reservas, se joga de cabeça, não vê limites para estar perto. Não interessa o horário, se é longe ou perto, se os outros pensam ou falam, o que existe para eles é o aqui e o agora, e a necessidade urgente de que esse instante, o presente, seja uma inesgotável fonte de prazer e conexão!

E por dentro de cada ser apaixonado, aquele turbilhão emocional traz consigo o coração acelerado, a sensação constante de prazer, as famosas “borboletas no estômago”, mas, especialmente, aquela expectativa em esperar alguém chegar, motivação, flow, riso fácil e sem fazer muito esforço para sentir o entusiasmo por simplesmente o dia ter surgido pela sua janela.

Os dias são mais coloridos, você percebe detalhes na vida que nunca antes havia visto, ao mesmo tempo em que outras pessoas perdem o foco e você “só tem olhos” para aquele ser. Você se sente em seu pleno potencial e com total energia, capaz de saltar montanhas! Uau, se você já viveu essa experiência, se conecte com o sentimento, pois é entorpecedor, não é? Perceba a potência que a paixão pode representar para a vida humana, para nossos projetos, trabalhos e, obviamente, para nossas relações.

Agora imagine o que uma pessoa que sente isso pode realizar? E como seria viver a vida assim, tornando esse estado emocional um padrão que se apresenta todos os dias? Nesse momento, milhares de pessoas estão experimentando essas e outras várias sensações por um único motivo:  estão apaixonadas! É por isso que eu afirmo que a paixão é um dos mais poderosos combustíveis para a vida.

E assim como a paixão acontece entre duas pessoas, é possível transpor o melhor dela para além de relacionamentos, se mantendo por mais tempo nesse estado de motivação e contemplação da vida, que permite ser sua melhor versão todos os dias (porque quando estamos apaixonados queremos entregar todo dia o que há de melhor em nós mesmos).

Mas para levar esses “sintomas” para a vida prática se faz necessário entender como a paixão funciona, qual o mecanismo que movimenta esse sentimento. Porque muito mais do que apenas sensações ou bonitos sentimentos que alcançam algumas pessoas, o estado apaixonado diz respeito a um enorme trabalho na química do nosso corpo. Uma pesquisa recente, publicada na famosa revista Journal of Neurophysiology, compara o estado apaixonado (quando rejeitado pelo parceiro) ao desejo e abstinência por cocaína, face a intensidade de reações e sensações experimentadas nesse estado apaixonado pelo cérebro.

Já conduzi inúmeros casos nos quais sintomas muito parecidos com abstinência do uso de drogas se faziam presentes em pessoas cujo término do relacionamento se deu na fase ainda inicial da paixão, por exemplo, até um ano. Se a paixão foi vivenciada intensamente, como esses sintomas a seguir, é natural que o término não consensual seja acompanhado de dor, diminuição da autoestima e sentimentos que equivalem a grandes perdas.

E se a paixão pode ser assim tão intensa e poderosa, como podemos tirar proveito ao máximo dessa experiência? Entenda comigo como ela funciona e vamos experimentar replicar os estímulos para além da relação amorosa, podendo ser um caminho muito interessante e surpreendente.

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QUESTÃO QUÍMICA

Todos os sintomas não são simples frutos de um olhar entre dois amantes que ficam “cegos em seu próprio mundo”, como falamos popularmente. Mas trata-se de reflexos de um conjunto de substâncias que o nosso corpo libera por meio de sinapses neurais, ou seja, são frutos de conexões entre nossos neurônios. Essas sinapses ocorrem o tempo todo para absolutamente tudo que realizamos em nossa vida, e através delas alguns hormônios/neurotransmissores são liberados gerando informações, as quais funcionam como verdadeiros comandos de como devemos nos sentir e de como devemos nos comportar frente aos estímulos.

Uma substância a qual podemos atribuir grande responsabilidade pelos sintomas da paixão e por essa intensa descarga emocional chama-se dopamina, conhecida popularmente como o neurotransmissor da alegria e da felicidade. Dentre as várias funções, a dopamina é responsável pelo sistema de motivação, recompensa, regulação do sono, humor e atenção. É a dopamina que tem a função de deixar você ainda mais motivado diante de uma nova paixão, mas ela também é uma das culpadas por você querer mais e mais estar com o “ser amado”, justamente por regular nossa relação com a recompensa.

E pense comigo, que melhor recompensa para um coração apaixonado do que estar mais e mais com seu objeto de paixão? E por conta dela que ficamos “nas nuvens” e nos sentimos imersos em um conto de fadas.

Podemos também observar que com a ação da dopamina em pleno vapor em nosso corpo, nosso ritmo acelera e, frequentemente, ficamos dispostos a realizar novas tarefas. E aqui está o motivo de você acordar disposto e querer iniciar academia, por exemplo.

Mas, claro, outros hormônios também estão envolvidos em um estado de paixão e desencadeiam reações químicas em nosso cérebro, como a ocitocina e a vasopressina. Essa dupla desempenha um importante papel no desenvolvimento da cognição, no comportamento social, e atua indiretamente, ocasionando uma ação antiestressora. Por conta delas, a tolerância com situações estressoras aumenta em um estado de paixão e nos faz ficar mais sensíveis e amáveis com as pessoas ao nosso redor. A ocitocina, especificamente, contribui para a diminuição de res­ postas do estresse e ansiedade em interações sociais. Um dos primeiros efeitos observados da ocitocina é a facilitação de contrações no momento do parto e a ejeção de leite durante a lactação.

Desde essa primeira descoberta, muitos estudos têm atribuído a esse hormônio o comportamento maternal e a influência da formação de laços sociais. Também é uma das grandes responsáveis pela excitabilidade fisiológica no que diz respeito às relações sexuais. E tem sido vista como responsável pelos bons relacionamentos, atuando em áreas que influenciam uma variedade de comportamentos, como aumento das interações sociais, melhora da satisfação nas relações sexuais, auxiliar na expressão das emoções, reduzindo ansiedade, estresse e agressividade.

Mas é possível observar que o estado de paixão, por assim dizer, não é algo exclusivo dos enamora­ dos. Podemos observar os mesmos sintomas e comportamentos em uma pessoa que está profundamente envolvida com sua profissão, ou ainda que sente grande prazer no que faz em atividades tidas como hobbies e de filantropia. Isso ocorre justamente porque a paixão traz consigo a sensação agradável e ao mesmo tempo subjetiva que está associada à satisfação de uma necessidade, gerando, então, o prazer.

Esses são os mesmos hormônios envolvidos no sistema de busca por recompensa, projetos profissionais, como em desencadeando a motivação e o prazer por meio de atividades desafiadoras. É muito importante nos dias atuais compreendermos que em um estado motivado nosso corpo nos conduz a fazer mais daquilo que gerou a motivação inicial. Sendo, dessa forma, que os apaixonados querem estar mais tempo juntos e ainda nunca parece ser o suficiente. O mesmo pode ser observado quando você está diante de um novo desafio profissional, algo que realmente traga a sensação de prazer e realização. Nesse caso, é possível que você passe horas realizando a tarefa, totalmente envolvido, sem querer parar.

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PARA SEGUIR O FLUXO

Observe casais enamorados, principalmente no primeiro ano de relacionamento. Você observará que quando estão passando tempo juntos, ou realizando alguma atividade a dois, parecem não se importar com o tempo que passa ou com as questões que ocorrem ao seu redor, surpreendendo-se, inclusive, por passar horas e horas conversando. O mesmo ocorre em pessoas que desenvolvem atividades das quais sentem um forte senso de propósito, seja por estarem conectadas a algo que consideram sua missão de vida ou por simplesmente sentirem prazer no que fazem, como no trabalho ou outras atividades. Frequentemente, elas passam horas entregues ao que fazem sem parecer que despendam muitos esforços e ainda pouco preocupadas com o tempo.

Se você já teve essa experiência poderá concordar comigo que a nossa noção de tempo e espaço se modifica um pouco nesses casos, não é mesmo? Aqui podemos perceber um processo que foi estudado por Mihaly Csikszentmihalyi, denominado flow (em português, fluxo ou fluir). Flow é o estado no qual o indivíduo se encontra tão envolvido em uma atividade que todo o resto parece não importar. A experiência, por mais desafiadora que seja, é tão agradável que as pessoas seguem em sua execução pela simples questão de fazê-la.

A sensação do alcance do estado de flow foi relatada durante as atividades de execução, composição e improvisação musical, como é o caso das performances de jazz, por exemplo. Fica evidente um componente similar à paixão como combustível para execução de tarefas, nas quais aspectos como atenção intensa, motivação, busca por recompensa e prazer se fazem presentes para além de uma relação a dois, sendo destinadas a diversas atividades.

O estado de fluxo se caracteriza quando você ama o que faz e está profundamente focado na atividade que realiza, sendo capaz de atingir um nível de conexão onde nada mais importa, como se naquele momento estivesse vivendo uma realidade paralela. Quanto mais um indivíduo é capaz de se dedicar às tarefas que realmente gosta, maiores se tornam suas competências em realizá-las. E, com isso, os resultados ficam cada vez melhores, além de o indivíduo mais feliz. Quando a atividade flui de forma agradável, a sensação é de que o tempo passa muito rápido. O indivíduo encerra a atividade em um estado emocional positivo, com a autoestima elevada. Já Mihaly (Csikszentmihalyi, afirma que quando alguém gosta do que faz e está inspirado e motivado a fazê-lo, focar a mente se torna mais fácil mesmo quando existem grandes dificuldades. E mais: a alta concentração em metas objetivas e compatíveis torna mais viável a experiência de fluxo.

Podemos perceber que o flow e a paixão possuem muito em comum. Quando nos colocamos a serviço de uma atividade, seja ela profissional ou pessoal, e ela nos toca, nos traz entusiasmo, amor e energia, o resultado é um fluir espontâneo, sem pressão ou controle, que ultrapassa o limite de tempo, nos permitindo aproveitar a experiência de forma inteira e usufruindo de prazer enquanto estamos envolvidos.

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PAIXÃO E PROFISSÃO

A discussão sobre ter paixão pelo que se faz, ou seja, um trabalho com propósito, tem aumentado a cada ano que passa nos ambientes corporativos e de recursos humanos. A chegada das novas gerações que buscam a famosa “realização profissional”, e não somente uma atividade que traga determinada remuneração, vem deixando a discussão e a busca por adaptação por parte das empresas ainda mais fortes e evidentes.

O desenvolvimento de ambientes de trabalho disruptivos, que promovam bem-estar, liberdade para expressão de ideias e que sejam regidos por fortes valores atrelados a um senso de propósito, que ultrapasse a barreira de “trabalho por trabalho”, tem sido muito valorizado e, inclusive, cobiça­ do pelos jovens e talentosos profissionais. Existe, sem dúvida, uma onda de jovens que descobriram em suas paixões uma forma de serem bem remunerados por aquilo que fazem por puro prazer. Mas, assim como a paixão romântica tem seus altos e baixos, a busca por prazer na profissão também. Ainda é vista uma incongruência em culturas e valores com as exigências desses novos profissionais. Assim, a adaptação tanto de empresas quanto de profissionais em alguns cenários é árdua, mas possível.

E para que haja satisfação, cada vez mais é preciso ir além das necessidades básicas, como segurança financeira, por exemplo, buscando temperar essa relação com o componente que no decorrer desse artigo chamamos de paixão. Segundo Locke, a satisfação no trabalho é fruto de um estado emocional, e por tratar-se de um estado emocional, a satisfação possui dois fenômenos: o de alegria/paixão (satisfação) e o de sofrimento/desprazer (insatisfação).

A paixão pela profissão é também vista em empreendedores, uma vez que boa parte deles opta por atividades que se identificam fortemente e se envolvem com o senso de propósito. A “paixão empreendedora” pode ser vista como um sentimento positivo intenso, acessível conscientemente, resultante do engajamento em atividades com sentido de identidade para o empreendedor. Ela promove estados intensos de fluir e total absorção em suas atividades, fazendo com que as pessoas invistam tempo e energia sem perceber como esforço. E também manifestem com frequência entusiasmo, zelo e intensa duração da sua atenção.

Similarmente a uma paixão romântica, a paixão pelo trabalho pode resultar em benefícios para o envolvido. Ela contribui para maior tolerância ao estresse, por exemplo, como resultado da ocitocina elevada. Um estado de flow que possibilita as entregas de projetos serem mais fluidas e naturais. Maior senso de dono, uma vez que esses são pro­ fissionais comprometidos e completamente apaixonados por suas criações. E, igualmente, uma sensação de estar entregue inteiramente para suas atividades em busca frequente de recompensas e desafios.

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SINAIS POSITIVOS

É possível detectar alguns sinais de que a paixão está sendo positiva para você. São eles: encontrar prazer em pequenas coisas; perceber que sua forma de ver a vida está mais positiva; ter a autoestima elevada; sentir-se mais motivado com os desafios; gerar bem-estar nos relacionamentos.

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REPLICAR O SENTIMENTO

Como poderíamos levar um “estado apaixonado” para além das relações, quem sabe replicando-o como uma forma de ver a vida apaixonadamente? Aqui, muitas correntes teóricas buscam trazer referências para um estado de bem-estar que se traduza em motivação constante, podendo ser transformada em paixão pela vida. Uma delas é a Psicologia Positiva. Essa perspectiva traz em seu cerne a ideia de intensificar emoções positivas em relação ao passado, presente e futuro como forma de criar a “felicidade autêntica”, partindo do princípio de que a felicidade, ou estado de bem­ estar, é possível se estiver baseada em um cultivo de nossas próprias forças internas (dons e talentos) e não de soluções rápidas.

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A PAIXÃO MUDA O ESTADO DO CÉREBRO

A paixão pode mexer com a nossa mente, com a química do nosso cérebro, com todas nossas emoções e, principalmente, com nossa forma prática de viver a vida, uma vez que, mesmo que não estejamos conscientes, esse processo está ocorrendo e mudando o nosso estado físico constantemente.

Dessa forma, é possível avaliar quais pontos merecem nossa atenção para criar uma vida em que os benefícios da paixão estejam presentes constantemente, seja pelo que fazemos (profissão), por outra pessoa (relacionamentos) ou até pela própria vida em uma perspectiva maior.

São eles:

UTILIZAR O CORPO: lembre-se de que a química da paixão ocorre no corpo. Assim, é possível sentir bem-estar, motivação e diminuir o estresse, utilizando a fisiologia do corpo a seu favor. Por meio do contato físico (abraço, beijos e relações autênticas) de exercícios físicos, de uma postura corporal que recrie um estado de empoderamento – peito aberto, postura ereta, respirar profundamente – e também de manter pensamentos fortalecedores no dia a dia;

ENTRE NO FLUXO: foque em atividades que tragam prazer e possibilitem acessar um estado de flow (ou fluxo);

INTENSIFIQUE EMOÇÕES POSITIVAS: por meio de técnicas que proporcionem autoconhecimento, como terapia, coaching e cursos, é possível mudar seu padrão emocional, escolhendo trazer para seu cotidiano emoções como alegria, amor, confiança, prazer, gratidão, entre outras;

FOQUE NOS SEUS TALENTOS: coloque sua energia naquilo que você é bom e no que sente grande prazer em fazer. Além de aumentar sua auto­estima, você irá experimentar a sensação de bem-estar em fazer algo que você realmente sabe que tem talento.

Eu tenho certeza de que colocando esses pontos em prática em sua vida já será possível perceber seu estado emocional mais entusiasmado e motivado. E se você já viu (e principalmente sentiu) esse “estado” ir embora ou como popularmente falamos, o “encanto acabou”, agora você já sabe dos aspectos envolvidos e, inclusive, formas de replicar esse sentimento tão poderoso e realizador. Afinal, é inegável que a paixão nos move, por isso cabe a nós conduzirmos seu destino de forma a aproveitar ainda mais a viagem que ela proporciona.

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O HORMÔNIO DO AMOR

A ocitocina costuma ser liberada quando estamos perto de nossos parceiros. Quando isso acontece, os níveis de cortisol (hormônio do estresse} diminuem no organismo. Também está intimamente ligada à sensação de prazer e de bem-estar físico e emocional e à sensação de segurança e de fidelidade entre o casal. Existem outras formas de liberar ocitocina: contato físico, beijos, abraços e relação sexual; elogios perceptivos; exercícios físicos.

OUTROS OLHARES

IMPASSES DA DISLEXIA

A dificuldade de apreensão de informações pelos métodos tradicionais pode comprometer a leitura e a escrita, causando sensação de incapacidade e baixa autoestima nas crianças que enfrentam o problema. O quadro, no entanto, não compromete a capacidade intelectual e requer apenas adequações na forma de ensinar e aprender.

Impasses da dislexia

O que personagens como o pintor e escultor Pablo Picasso, o primeiro presidente constitucional dos Estados Unidos, George Washington, a cantora Joss Stone e a atriz americana Whoopi Goldberg têm em comum? Se você respondeu sucesso em suas carreiras, acertou. Mas existe mais um ponto em com um entre eles: todos são (ou foram) disléxicos. A escritora Agatha Christie, que também enfrentava o problema, chegou a declarar: “Escrita e ortografia foram sempre muito difíceis para mim”. Até mesmo os gênios Leonardo Da Vinci e Albert Einstein apresentam sinais do quadro. A dislexia não é considerada doença ou distúrbio neurobiológico. Trata-se de um transtorno, uma espécie de desordem no processo de apreensão de informações pelos métodos tradicionais, o que dificulta a compreensão das letras e pode comprometer a leitura e a escrita. E, como o conhecimento formal, especialmente o adquirido na escola, depende muito da leitura, os disléxicos costumam encontrar grande dificuldade para acompanhar as aulas

Segundo dados da Associação Internacional de Dislexia, uma em cada dez pessoas apresenta, em algum grau, indícios de dislexia – como ler mal ou muito devagar, ter dificuldade de reconhecer letras ou, ainda, trocar as letras nas palavras. As manifestações – que podem ser erroneamente confundidas com preguiça, falta de atenção ou má alfabetização – variam de intensidade de uma pessoa para outra. Em geral, aqueles que apresentam o problema têm dificuldade de associar o símbolo gráfico e as letras ao som que representam. Não raro, têm dificuldade com lateralidade e confundem direita com esquerda, ou escrevem de forma invertida, em vez de “vovô”, “ovôv” e, no lugar de “casa”, “saca”. A dislexia também causa a omissão de sílabas ou letras como “poblema” quando o correto seria “problema”, além de confusão de letras com grafia similar. Por exemplo, n-u, w-m, a-e, p-q, p-b, b-d.

A necessidade de seguir a linha do texto com os dedos é outro sintoma de dislexia. Em razão das dificuldades de leitura, as crianças podem enfrentar dificuldades em relação a pobreza de vocabulário e se confundir com as tarefas escolares, o que muitas vezes concorre para que ocorra um atraso escolar. O quadro, porém, não afeta a capacidade intelectual. Na escola, com apoio e estímulo adequados, a criança disléxica pode aprender a lidar com as suas dificuldades e a superá-las. O importante é que pais e professores estejam atentos para encontrar a forma mais eficiente de ensinar a criança com dislexia. Os pequenos costumam ser encaminhados para avaliação cerca de dois anos após o período de alfabetização, dos 7 aos 9 anos, quando as dificuldades motoras e de compreensão, começam a aparecer. Antes disso, no entanto, alguns sinais podem indicar propensão como dificuldades para aprender a falar, andar, ou na coordenação motora fina para coisas como segurar o lápis. A alergia ao hormônio testosterona também é um sinal comum. “Caso o risco seja detectado, é importante acompanhar o desenvolvimento da criança, pois a intervenção precoce é mais eficaz”, explica Maria lnez Ocafía de Luca, neuropsicóloga e membro da equipe de avaliação para diagnóstico da dislexia da Associação Brasileira de Dislexia (ABD). “O aluno que não recebe tratamento tende a se isolar, fida com medo do aprendizado e demora mais para adquirir fluência na fala e na escrita.” Isso costuma acontecer, no entanto, quando o problema só é identificado na adolescência ou na idade adulta. A ABD ministra cursos gratuitos para educadores, mas diz que a procura é baixa.

Diagnosticar a dislexia, no entanto, não é uma tarefa fácil. ” É preciso fazer uma avaliação multidisciplinar, para ter certeza de que a dificuldade de aprendizado não está sendo causada por outros fatores, como deficiência mental ou problema de memória”, afirma Abam Topczewski, neurologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, também membro da equipe de avaliação da ABD. A equipe inclui psicólogo, psicopedagogo, fonoaudiólogo e o próprio neurologista. O psicólogo tem o papel de avaliar se a criança tem capacidade intelectual normal. O psicopedagogo verifica a capacidade de organização, a leitura e a escrita, áreas em que o disléxico geralmente apresenta dificuldade. O fonoaudiólogo checa a capacidade de transpor a fala em escrita e vice -versa, bem como a compreensão auditiva, equilíbrio, coordenação motora, organização espacial, atenção, memória. Por fim, o neurologista examina imagens de ressonância magnética funcional, durante atividades de leitura, audição ou reconhecimento de imagens, e verifica se o funcionamento do cérebro está normal. Uma avaliação psiquiátrica também é importante, porque o disléxico tem maior probabilidade de ter outros distúrbios, algo conhecido como co­morbidade. No caso do déficit de atenção, o risco é de 70%, e para a hiperatividade, 30%. Outro fator a ser considerado é a ocorrência na família, já que é considerado um quadro com predisposição genética.

Tanto os pais quanto os professores costumam responder um questionário detalhado (anamnese), que contribui com outras informações importantes. Entre as crianças que receberam outro diagnóstico, o mais comum foi o de deficiência mental. Caso seja detectada a dislexia, ela pode ser classificada como leve, moderada ou grave. O tratamento consiste basicamente em ajudar a criança a encontrar outras maneiras de aprender. Não há uso de medicação nem a possibilidade de cura – já que não se trata de uma doença-, mas sim o desenvolvimento de estratégias para superar suas dificuldades. A criança recebe um laudo que deve ser apresentado em situações de avaliação como o vestibular ou prova de habilitação de motorista, para que lhe sejam oferecidas condições especiais nos exames.

A atuação da escola é fundamental para a recuperação. A instituição pode ajudar o disléxico por meio de medidas relativamente simples, sem a necessidade de modificar o conteúdo pedagógico, mas com adaptações de material, de acordo com o grau da dislexia. É importante, por exemplo, dar mais tempo de prova a esses alunos e ler os enunciados para ele. Textos maiores precisam ser lidos mais devagar e em partes, checando o entendimento da criança a cada passo e, em alguns casos, é preciso acompanhamento no momento de escrever as respostas. Embora tenha dificuldade de interpretar um texto, o disléxico tem o intelecto normal e excelente memória auditiva e visual. “Se você quer ensinar um disléxico a fazer brigadeiro, é melhor fazer na frente dele do que dar a receita”, afirma a neuropsicóloga Maria lnez de Luca. Outras medidas eficientes são deixar o aluno sentado mais próximo do professor e aumentar o tamanho das fontes de textos de estudo, fichas e das questões das provas. O professor também deve ser mais condescendente com os erros de escrita. Em casos acentuados, deverá elaborar atividades mais simples para a aula. Como o disléxico pode ter dificuldade com línguas estrangeiras, essa matéria deve ser descartada como critério de promoção.

Muitas escolas têm tido resultados de sucesso com os disléxicos, incluindo aí alunos que entram na universidade e se realizam plenamente em suas carreiras profissionais. “Hoje a dislexia já está bem mais divulgada, e existe conhecimento para lidar com a questão. Além disso, é um problema bastante frequente”, diz Cristina Crey, psicóloga clínica que trabalha junto a escolas particulares. “Depois de apresentado o laudo, dificilmente há rejeição da criança.”

Infelizmente, porém, essa não é uma realidade que possa ser generalizada. Embora sejam medidas relativamente simples, de modo geral as escolas não estão preparadas para identificar os disléxicos – e acolhê-los. No caso das instituições particulares, isso depende em grande parte da proposta da escola. Aquelas cujo foco principal é que os alunos passem no vestibular podem acabar deixando o disléxico para trás. “A escola é obrigada a aceitar o aluno, mas o professor não consegue cuidar de 45 crianças ou jovens e ainda dar atenção ao disléxico”, afirma a coordenadora de uma escola que segue o sistema apostilado, mas que prefere não se identificar. “Por outro lado, mesmo sem nota, a escola tem de passar o aluno, porque ele precisa ser incluído. Na prática, quando ele chega ao ensino médio, já está com muita deficiência.” No ensino público, problema semelhante acontece por outro motivo: a promoção automática. O Brasil não tem estatística para a dislexia, mas relatos de educadores indicam que a questão é grave. Muitas vezes a escola não conhece o problema e acha que o aluno é preguiçoso. E aí surge outro ponto a ser trabalhado, de preferência com um psicólogo clínico: a baixa autoestima dessas crianças. Como a ocorrência mundial é estimada em 10%, é possível pensar que inúmeras crianças com dislexia, muitas delas com plena capacidade intelectual, estão sendo deixadas para trás.

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UM PROBLEMA DA ESCOLA?

A dislexia foi registrada pela primeira vez em 1890, quando um paciente foi até o oftalmologista porque não conseguia ler, mas o médico avaliou que sua visão estava perfeitamente normal. Por esse motivo, por algum tempo foi chamada de cegueira verbal. Posteriormente, foram encontradas algumas evidências biológicas para o transtorno. A primeira delas veio a partir de estudos de anatomia que mostram que, nos disléxicos, ocorre frequentemente uma migração diferenciada dos neurônios no desenvolvimento do feto. Isso faz com que os hemisférios tenham um desenvolvimento igual, como acontece nos canhotos, em vez de diferente e com a dominância de um deles, como é o mais comum.

Imagens de ressonância magnética funcional, feitas enquanto o paciente está lendo, mostram que vias diferentes das normais são usadas por essas pessoas. Vários profissionais trabalham com a hipótese de que a dislexia seja determinada pela predisposição genética. “A probabilidade de dislexia se o pai ou a mãe tem a doença é de 50%; se ambos, 75%”, afirma Maria lnez de Luca.

Questões sobre o tema, entretanto, não são consensuais entre especialistas. “A dislexia não tem  uma causa orgânica, é um problema de aprendizado e, portanto, deve ser tratada dentro da escola”, acredita a pediatra Maria Aparecida Moysés, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “A hipótese mais comum para o aluno com dificuldade é que ele tenha problemas familiares ou alguma deficiência. Geralmente, o universo escolar não é considerado. Em geral, são as precariedades da escola que geram um grande número de alunos com dificuldades no aprendizado”, diz Beatriz de Paula Souza, psicóloga e coordenadora do serviço de orientação à queixa escolar do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Aparentemente, no entanto, a dislexia não é uma exclusividade das escolas fracas. “A dislexia aparece também em famílias instruídas e em escolas de qualidade”, diz o neurologista Abam Topczewski.

 É PRECISO ENSINAR DO JEITO QUE ELES APRENDEM

A escola tem papel fundamental na inclusão de alunos com dificuldades de linguagem e escrita, mas para ajudá-los a se sentir seguros e aceitos é necessário esforço e disponibilidade do professor

  • A criança com dislexia tem, em geral, uma história de fracassos e cobranças que a fazem sentir-se incapaz, por isso é fundamental motivá-la ressaltando seus acertos
  • A escola deve valorizar os interesses da criança e atribuir a ela tarefas que a façam se sentir útil
  • As expressões “tente esforçar-se” ou “se concentre mais” devem ser evitadas em qualquer situação, pois a criança faz o que é capaz no momento
  • O ritmo do aluno deve ser respeitado, pois é comum a dificuldade para processar informações e pode ser necessário algum tempo para pensar e dar sentido ao que foi visto ou ouvido
  • Costumam ser úteis as orientações sobre como organizar-se no tempo e no espaço; insistir em numerosos e repetitivos exercícios de fixação não diminui a dificuldade da criança
  • As instruções de tarefas são captadas com mais facilidade se forem curtas e simples;
  • O professor deve certificar-se de que as tarefas de casa foram compreendidas e anotadas corretamente;
  • Demonstrações, imagens e filmes podem ser utilizados para enfatizar conceitos ensinados nas aulas; permitir o uso de gravador também pode ajudar
  • Ao dar explicações sobre como fazer algo, é mais eficiente posicionar-se ao lado da criança, sempre que possível
  • Não é uma boa estratégia insistir para que o aluno leia em voz alta perante a turma, pois ele tem consciência de seus erros; a maioria dos textos de seu nível é difícil para ele

(*) Informações da Associação Nacional de Dislexia

COMO OS PAIS PODEM AJUDAR? (*)

A criança é a primeira a perceber que algo está errado com ela, mas não sabe o que fazer ou explicar o que acontece. Quanto mais o tempo passar sem que tenha ajuda, maior seu sofrimento emocional. O papel dos pais é fundamental

 

  • Não busque culpados, mantenha um bom relacionamento com professore e discuta a questão com a escola
  • Ensine seu filho a fazer coisas por si próprio, como se organizar, para que tenha autonomia
  • Seja paciente com os progressos que ele fizer, quando estiver tendo atendi mento apropriado. Não espere milagres; tudo isso leva tempo, é necessário muita determinação e esforço
  • Ele poderá ficar tão cansado com o esforço que faz na escola, que precisará, eventualmente, ter um dia mais folgado
  • Nunca compare crianças e evite a superproteção
  • Qualquer que seja a idade de seu filho, leia para ele, pois muitos disléxicos não compreendem o que estão lendo
  • Digite suas anotações escolares; alguns conteúdos podem ser gravados
  • Incentive o interesse da criança por arte em geral (teatro, cinema, música etc.)
  • Assista TV e vídeos com ele e depois converse sobre o que viram
  • Elogie a criança e estimule sua confiança e a autoestima
  • Explique a ela que as pessoas têm maneiras diferentes de funciona e ela não é pior porque tem algumas dificuldades

(*) Informações da Associação Nacional de Dislexia

Impasses da dislexia.3

NA HORA DA PROVA

A Associação Nacional de Dislexia recomenda aos professores que, ao elaborar, aplicar e corrigir as avaliações do aluno disléxico, especialmente as realizadas em sala de aula, adote os seguintes procedimentos:

  • Leia as questões junto com o estudante, de maneira que ele entenda a pergunta
  • Explicite sua disponibilidade para esclarecer eventuais dúvidas sobre a questão
  • Dê ao aluno tempo necessário para fazer a prova com calma
  • Ao recolher a prova, verifique as respostas e, caso seja necessário, confirme com o aluno o que ele quis dizer com o que escreveu, anotando suas respostas
  • Ao corrigir, valorize a produção do aluno, pois frases aparentemente sem sentido e palavras incompletas ou gramaticalmente erradas não representam conceitos ou “informações erradas

(*) Informações da Associação Nacional de Dislexia

GESTÃO E CARREIRA

O FUTURO DO TRABALHO HOJE

Para atrair e reter os melhores profissionais, as empresas precisam se abrir para novas tecnologias, inovação e diversidade.

O futuro do trabalho hoje

As empresas vivem uma era de transformações sem precedentes. A adoção de novas tecnologias em uma velocidade inédita derrubou barreiras, automatizou processos, criou e extinguiu carreiras e mudou a maneira como as decisões são tomadas, produtos e serviços são criados e negócios são fechados. Em paralelo, uma nova geração de colaboradores, nascida no ambiente digital, passou a ditar mudanças relevantes nos relacionamentos interpessoais dentro dos ambientes corporativos e deu novos significados à carreira e ao trabalho.

“Mudanças sempre ocorreram. A diferença é que, agora, são muito mais rápidas. Não se consegue chegar à estabilidade. Isso aumentou a pressão sobre as organizações e sobre os gestores”, afirma Ruy Shiozawa, CEO do Great Place to Work Brasil. Hoje, as companhias estão aprendendo na marra a lidar com essa realidade. “Elas estão trocando a roda com o carro andando”, diz Roberto Mantovani, diretor-geral da consultoria Robert Half.

Os novos perfis e demandas dos colaboradores contribuíram para a transformação em curso. A geração dos baby boomers, de pessoas nascidas na década de 50, tinha como ideais desenvolver uma carreira longeva, construir patrimônio e conquistar uma aposentadoria tranquila. Não raro, os membros dessa geração marcavam nos currículos três ou quatro décadas em uma mesma organização. Essa situação é cada vez mais rara.

Nos últimos anos, a subida dos profissionais da geração millennial (ou Y, de nascidos na década de 80) aos cargos de liderança e, mais recentemente, a chegada dos trainees da geração Z (nascida na década de 90) rasgaram de vez esse manual. “Existem outros princípios direcionadores para as novas gerações, que têm pilares como significado, autenticidade e escolha”, afirma Marcelo de Lucca, sócio- líder de pessoas, performance e cultura da KPMG. Isso não significa que as gerações mais novas, que dominarão o mercado de trabalho nas próximas décadas, deixem de “vestir a camisa”, como o senso comum tende a concluir. “Existe comprometimento na medida em que o profissional alia seu propósito com o da organização onde trabalha”, diz de Lucca.

O conceito do “trabalho com propósito” criou um desafio para as empresas, que têm de reconstruir missão, valores e visão, mostrando que se preocupam com mais do que o lucro. E não basta apenas comunicar as intenções. “O mundo perfeito é quando os propósitos e os valores dos colaboradores estão alinhados aos da organização. Mas o discurso tem de estar materializado na prática”, diz o sócio da PwC Marcos Panassol.

Os desafios na construção de um bom ambiente de trabalho não se limitam a esse alinhamento. Se, há uma década, tempo de casa e estabilidade no emprego eram muito valorizados, hoje, flexibilidade de agenda, ambientes mais informais e abertos e autonomia para tocar projetos dão a tônica. Para as novas gerações, a experiência construída na relação com a organização é mais relevante do que o tempo dedicado a ela. No caldeirão da employee experience entram desde a configuração do ambiente físico (mais leve e descontraído) até as oportunidades de desenvolvimento ao longo da carreira.

Hoje, o feedback constante, a presença de um coach uma liderança inspiradora, as oportunidades de mudança (para escritórios em outros estados ou países) e um espaço livre de amarras e que permita o desenvolvimento das aptidões tornaram-se itens mais relevantes do que o salário ou a cesta de benefícios para os profissionais da geração Y e, sobretudo, da Z. “Esses jovens tiveram acesso à tecnologia muito cedo e são mais instruídos nessa seara, mas também dependem muito de coaching e formação”, diz o autor americano Bruce Tulgan no livro O Que Todo Jovem Talento Precisa Aprender, publicado no Brasil pela editora Sextante.

As conversas francas que esse novo colaborador quer ter são um desafio para muitos líderes, sobretudo em culturas corporativas que não têm o hábito de endereçar temas difíceis abertamente. Mas, cedo ou tarde, as empresas terão de atender a essas demandas. “Sai de cena um ambiente de comando e controle e entram mais autonomia, confiança e responsabilização”, diz Marcelo Orticelli, diretor de administração e pessoas do Insper.

Isso se torna mais difícil se considerarmos que, agora, até quatro gerações convivem em uma mesma organização. “Grande parte da dor das empresas é justamente não conseguir lidar com essa variedade de gerações”, afirma Frederico Lacerda, sócio- fundador da startup de analytics Pin People. “As empresas precisam entender o que cada grupo valoriza e criar modelos de trabalho que respeitem as diferenças. Do contrário, perderão talentos.”

O futuro do trabalho hoje. 3

CAEM AS PAREDES

Escritórios sem baias, paredes com lousas para os colaboradores escreverem suas ideias, “espaços de descompressão” com mesas de sinuca, vídeo- game ou pufes. Um fenômeno que começou com as big techs (Google, Facebook etc.) e ganhou tração com as startups começa, aos poucos, a se espalhar e a mudar a arquitetura até de empresas mais sisudas. A construção do ambiente de trabalho do futuro passa, na realidade, por um processo de demolição, em busca de uma nova configuração do espaço físico que reflita os novos tempos. “Isso significa, literalmente, que as empresas estão derrubando as paredes”, diz a professora Marta Pimentel, especialista em relações do trabalho da Fundação Dom Cabral (FDC).

Com os negócios inseridos em um mundo mais conectado e colaborativo, a ideia de ambientes compartimentados, com separação por baias – e, principalmente, de gestores e líderes em salas próprias e fechadas -, começa a cair em desuso. Ainda que o simples ato de derrubar paredes possa não significar a construção de um ambiente melhor para trabalhar, há implicações práticas no aumento do contato visual, no conceito de hierarquia, no estímulo à troca de ideias e de resolução mais célere de problemas. ” Um espaço físico mais aberto tem impacto na cultura da organização e mostra o valor da colaboração”, diz Marta. A imagem de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, de chinelo e moletom em seu escritório no Vale de Silício mexeu com o imaginário de profissionais mundo afora – e inspirou pedidos de mudanças.

A busca por ambientes de trabalho, mais leves, informais e colaborativos coloca também o dress code corporativo em xeque. O código de vestimenta adotado ao longo das últimas décadas é resultado de um conceito industrial, em que tudo operava da mesma forma, “uniformizada e ao mesmo tempo”, em um mundo muito estruturado, lembra Marta. Ainda que a volta do tema à pauta dos departamentos de recursos humanos não implique a abolição por completo do paletó ou do tailleur dos escritórios, muitas empresas já repensam sua relevância no dia a dia e sugerem códigos de vestimenta mais flexíveis.

O futuro do trabalho hoje. 4

DIVERSIDADE

O respeito às individualidades nos ambientes de trabalho vai muito além do guarda-roupa dos funcionários. Mesmo que em uma velocidade considerada aquém da ideal, o duo diversidade e inclusão ganha relevância nas agendas das corporações. É consenso que contar com políticas com capacidade real de atrair pessoas de diferentes backgrounds e visões de mundo amplia a competência de compreensão de cenários (de mercado, concorrência, novos negócios) e aumenta a produtividade e a capacidade de inovação das empresas. Nessa seara, a preocupação com a mulher ganhou destaque.

“A agenda de diversidade, bem trabalhada, ajuda na meritocracia”, diz Orticelli, do Insper. A montagem de times que abrem espaço a colaboradores de variadas raças, cores, crenças, gêneros, idades e orientações sexuais mostra-se não apenas antenada a essa nova sociedade, como também traz resultados financeiros melhores para as empresas. A pesquisa Delivering through Diversiry, publicada em 2018 pela consultoria McKinsey & Company em 112 países, revelou que empresas com equipes executivas que apostam em diversidade étnica e cultural têm 33% mais chances de apresentar resultados melhores do que seus concorrentes.

O desafio das organizações recai justamente na construção de uma cultura inclusiva e, sobretudo, de respeito às diferenças. O sucesso da empreitada depende do que os manuais de governança corporativa chamam de “tone at the top” – ou o exemplo que vem de cima. “O principal pilar na agenda de diversidade e inclusão é o posicionamento firme da liderança. Se os líderes não acreditarem nessa agenda, o processo será muito mais difícil”, afirma de Lucca, da KPMG.

Ainda há um longo caminho a percorrer. Existem falhas desde o processo de seleção de currículos e de recrutamento. A predileção de muitas empresas pela contratação baseada em perfis predefinidos de colaboradores (gênero, idade ou universidade são exemplos comuns) explicita o que os especialistas classificam como viés inconsciente: uma forma sofisticada de preconceito que usa a racionalização para justificar uma escolha, muitas vezes com pouco ou nenhum embasamento empírico. É preciso, portanto, imunizar os processos seletivos. “Há orquestras que escolhem os músicos às cegas. Qual a importância, no processo de seleção, em saber se o candidato é homem ou mulher?”, diz Orticelli, do Insper.

Para espelhar os novos tempos e abarcar a diversidade, as empresas têm adotado novas formas de trabalhar. Como benefício, extraem o melhor dos profissionais e aumentam a produtividade. Um exemplo dessas iniciativas é o design thinking, metodologia que busca um approach mais humanista, baseado na empatia e na colaboração, para a resolução de problemas. O método ágil também tem ganhado espaço. Com ele, um produto ou serviço não é mais desenvolvido de forma compartimentada – iniciado em um departamento e repassado a outra área em seguida. Times multidisciplinares (com colaboradores das áreas de produtos, marketing, finanças e tecnologia) se debruçam simultaneamente para desenvolver soluções em conjunto, em um processo colaborativo que reduz o “time to market”. “As pessoas são reunidas e os gestores de departamentos são substituídos por líderes de uma célula. Assim, a entrega do resultado ocorre em velocidade muito maior”, diz Orticelli, do Insper.

 

INSTABILIDADE

Dependendo da ótica, o avanço da tecnologia nas empresas pode trazer insegurança aos funcionários. “Trata-se da ansiedade que vem com a transformação digital”, afirma Shiozawa, do GPTW. O profissional vê que o mercado está mudando, mas não sabe o que vai acontecer com o negócio – e com o seu emprego. Para Jeffrey Pfeffer, professor da Escola de Negócios Stanford, a automação e a robotização de funções causam problemas como insegurança econômica e desemprego. Segundo ele, que defende que profissionais estão adoecendo e morrendo devido a más condições no ambiente de trabalho, a maior parte das empresas prioriza o retorno econômico, em detrimento do bem-estar das pessoas. “Há horas extras demais, demissões em massa e trabalhadores temporários que não sabem quanto vão ganhar na semana seguinte”, afirma.

Esse é um outro lado da gig economy – ou free lance economy -, fenômeno aderente ao perfil das novas gerações, que buscam maior autonomia e flexibilidade, e também à realidade de processos automatizados e equipes enxutas. A tendência é as empresas optarem por buscar, fora de casa, profissionais altamente qualificados que auxiliam em projetos específicos, pontuais e com vínculos de curto ou médio prazo. Esse esquema já movimenta 34% da força de trabalho nos Estados Unidos, segundo levantamento da empresa de tecnologia Intuit. A expectativa é que esse número suba para 43% até 2020. No Brasil, não há um levantamento sobre o tema, mas a tendência é de crescimento, uma vez que já são 22,9 milhões de pessoas que trabalham por conta própria, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Outro sinal dos novos tempos é a adesão das empresas brasileiras à prática do home office. Ainda que existam resistências quanto ao modelo, por conta de dúvidas sobre a incompatibilidade com a legislação trabalhista e pelo entendimento de que nem todos os colaboradores tenham o perfil adequado para o trabalho remoto, diversas pesquisas apontam para os benefícios do escritório em casa para a produtividade do colaborador e da companhia. Um levantamento de 2017 da consultoria de recrutamento e seleção Robert Half mostra que 31% das empresas brasileiras (e 33% das globais) colocaram o trabalho remoto como uma das cinco principais iniciativas para atrair talentos. Nessa lista, surgem outras iniciativas, como aumento do nível de remuneração e ampliação dos benefícios. Mas, curiosamente, o que vem ganhando maior força é a introdução de horários flexíveis (segundo 38% dos respondentes, sejam brasileiros ou mundiais). O item surge em segundo lugar no ranking de iniciativas de atração e retenção, atrás apenas da oferta de treinamento e oportunidades de desenvolvimento.

Uma agenda mais flexível, que possibilite balancear as tarefas do dia a dia com o trabalho, é uma demanda crescente sobretudo dos trabalhadores das grandes metrópoles – e não apenas das novas gerações. “Flexibilizar horários é uma maneira de a empresa ajudar o funcionário em sua gestão de rotina”, diz Mantovani, da Robert Half.

WALK THE TALK

É cada vez mais comum as empresas ”venderem o peixe” por terem espaços disruptivos e que estimulam os colaboradores a buscar a inovação nesses tempos de transformação digital. “Mas a realidade é que muitas empresas oferecem pouca margem para o erro, um resultado natural em um processo de inovação. No fundo, as pessoas encontram a mesma estrutura hierárquica, burocrática, lenta e que pune quem erra”, diz Lacerda, da Pin People.

O recado é claro: o desalinhamento entre a imagem que as empresas querem vender e a realidade de seus ambientes de trabalho pode cobrar um preço caro mais adiante. As mídias sociais escancararam esse cenário. Com poucos cliques, é possível saber como é o ambiente de trabalho em praticamente qualquer lugar. Hoje, é o profissional quem escolhe a empresa, e não necessariamente o contrário, como era antes.

Assim, a transparência e a prática do walk the talk, ou seja, colocar em prática aquilo que se prega, tornaram-se mandatórios para a construção de bons ambientes, a atração e a retenção de talentos.

“As pessoas acabam saindo de empresas pelo descasamento entre discurso e prática. As empresas precisam entender que não são mais uma caixa fechada. Tornaram-se aquários. É possível ver, do lado de fora, tudo o que acontece ali dentro”, diz Lacerda.

Nesse mundo em transformação, as lideranças enfrentam, possivelmente, os maiores desafios. Além de manejar cenários mais caóticos e em que os tempos de decisão encurtaram, é preciso jogo de cintura para balancear expectativas das diferentes gerações, saber dar autonomia sem perder a autoridade e liderar pelo exemplo. Em vez de um líder diretivo, acadêmico e hierárquico, valoriza-se o facilitador, articulador e coach do time, alguém que trabalha a serviço da equipe – e não fica esperando o contrário. Nesse sentido, Shiozawa, do CPTW, resume o que as melhores empresas para trabalhar têm de diferente: “Elas já vêm criando há anos uma cultura de confiança e de inovação. Estão mais bem preparadas para enfrentar os desafios do presente”.

O BEABÁ DO NOVO MERCADO

As transformações no ambiente de trabalho apresentaram novos conceitos para o universo corporativo.

O futuro do trabalho hoje. 2

 

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 4: 1-13

Pensando biblicamente

Instruções Paternas

Aqui temos:

 I – O convite que Salomão faz aos seus filhos, para que venham e recebam instrução dele (vv. 1,2): “Ouvi, filhos, a correção do pai”. Isto é:

1. Que os meus próprios filhos, em primeiro lugar, recebam e deem ouvidos às instruções que eu apresento, também para o uso de outras pessoas. Observe que magistrados e ministros, a quem é confiada a direção de sociedades maiores, devem estar interessados em um cuidado incomum com a boa instrução das suas próprias famílias; deste dever, a sua obra pública não os isentará, de maneira alguma. Esta caridade deve começar em casa, embora não deva terminar ali; pois aquele que não tem seus filhos submissos, com toda seriedade, e não se esforça na boa educação deles, como poderá realizar o seu dever como deveria, para com a igreja de Deus? (1 Timóteo 3.4,5). Os filhos dos que são eminentes por sua sabedoria e utilidade pública devem se aperfeiçoar no conhecimento e na graça, proporcionalmente aos benefícios que eles obtêm do seu relacionamento com os seus pais. Mas deve ser observado, para salvar a credibilidade e a consolação dos pais cujos filhos não correspondem às esperanças que se originam da sua educação, que Roboão, filho de Salomão, estava longe de ser um dos mais sábios ou um dos melhores. Temos razões para pensar que milhares de pessoas foram mais beneficiadas pelos provérbios de Salomão do que o seu próprio filho, a quem eles parecem ter sido dedicados.

2. Que todos os jovens, nos dias de sua infância e mocidade, se esforcem para obter conhecimento e graça, pois esta é a idade do aprendizado, e então, fazendo assim, suas mentes serão formadas e capacitadas. Ele não diz, meus filhos, mas, filhos. Nós lemos que Salomão teve apenas um filho; mas ele está disposto a agir como professor, e ensinar os filhos de outras pessoas (você imaginaria isto?), pois nessa idade há grande esperança de sucesso; é fácil curvar um galho quando ele ainda é jovem e tenro.

3. Que todos os que desejarem receber instrução venham com a disposição de crianças, ainda que sejam pessoas adultas. Que todos os preconceitos sejam deixados de lado, e que a mente seja como um papel em branco; que eles sejam dóceis, submissos e modestos e recebam a Palavra como a palavra de um pai, que se expressa com autoridade e afeição. Nós devemos vê-la vindo de Deus, como nosso Pai celestial, a quem oramos, de quem esperamos bênçãos, o Pai do nosso espírito, ao qual devemos nos sujeitar, para que possamos viver. Nós devemos considerar nossos professores como nossos pais, que nos amam e procuram o nosso bem-estar; e por isto, ainda que a instrução traga consigo repreensão e correção, pois este é o significado da palavra, ainda as­ sim devemos dar-lhe as boas-vindas. Bem,

(1) para recomendá-las a nós, nós lemos, não somente que esta é a instrução de um pai, mas que é entendimento, e por isto deve ser bem-vinda às criaturas inteligentes. A religião tem a razão do seu lado, e nós a aprendemos, com bons argumentos. É uma lei, verdadeiramente (v. 2), mas esta lei se baseia na doutrina, em princípios inquestionáveis de verdade, na boa doutrina, que não apenas é fiel, mas digna de toda aceitação. Se admitirmos a doutrina, não poderemos deixar de nos submeter à lei.

(2) Para fixa­ la em nós, somos instruídos a recebê-la como uma dádiva, a observá-la com diligência, observá-la de modo a conhecê-la, pois, se não for assim, não poderemos fixá-la. Jamais devemos abandoná-la, renegando a doutrina ou desobedecendo a lei.

 

II – As instruções que ele lhes dá. Observe:

1. Como ele recebeu estas instruções; ele as tinha recebido de seus pais, e ensina os seus filhos a mesma coisa que os seus pais lhe tinham ensinado (vv. 3,4). Observe:

(1) Os seus pais o amavam, e por isto o ensinavam: “Eu era filho de meu pai”. Davi teve muitos filhos, mas Salomão era realmente seu filho, como Isaque é chamado (Genesis 17.19), e pela mesma razão, porque nele foi transmitido o concerto. Ele era o amado de seu pai, acima de qualquer dos seus filhos. Deus dedicou uma bondade especial a Salomão (o profeta o chamou Jedidias, por amor do Senhor; (2 Samuel 12.25), e por esta razão Davi dedicava uma bondade especial a ele, pois ele era um homem segundo o coração de Deus. Se os pais amarem mais a um filho do que a outro, eles devem lutar para amar a todos os seus filhos com a mesma intensidade, pois Deus ama a todos igualmente. Salomão era tenro e único em estima diante de sua mãe. Certamente, havia uma razão manifesta para tal distinção, tendo em vista que o pai e a mãe a faziam. Agora vemos como eles demonstraram o seu amor; eles o discipularam, e o fizeram estudar, e o mantiveram sob uma rígida disciplina. Embora ele fosse um príncipe, e herdeiro da coroa, ainda assim eles não o deixaram viver sem restrições; eles o instruíram. E talvez Davi fosse mais rígido com a educação de Salomão porque tinha visto os maus resultados de uma indulgência indevida em Adonias, a quem não tinha contrariado em nada (1 Reis 1.6), como também em Absalão.

(2) O que os pais lhe havia ensinado, ele ensina a outras pessoas. Observe:

[1] Já adulto, Salomão não apenas se lembrava das boas lições que seus pais lhe tinham ensinado, quando era criança, como tinha prazer em repeti-las. Ele não as havia esquecido – tão profundas eram as impressões que lhe tinham causado. Ele não se envergonhava delas, pois as valorizava muito, nem as considerava como coisas infantis – coisas inferiores – que, depois de se tornar homem, um rei deixaria de lado, como algo que o depreciasse; e muito menos as repetiria, como algumas crianças ímpias teriam feito, para ridicularizá-las, e alegrar seus companheiros, orgulhando-se de que tinha se livrado de restrições e lições sérias.

[2] Embora Salomão fosse um homem sábio e divinamente inspirado, ainda assim, quando ensinava sabedoria, não julgava que o diminuísse citar seu pai e fazer uso das suas palavras. Os que desejam aprender bem, e ensinar bem, na religião, não devem usar noções recém descobertas e frases recém cunhadas, como desprezando o conhecimento e o linguajar de seus antecessores; se devemos guardar as veredas antigas e o bom caminho, por que deveríamos zombar das boas e antigas palavras? (Jeremias 6.16).

[3] Tendo sido bem educado por seus pais, Salomão se julgava, consequentemente, obrigado a dar a seus filhos uma boa educação, a mesma que seus pais lhe tinham dado; e esta é uma das maneiras pelas quais devemos recompensar nossos pais pelos esforços que fizeram por nós, exercendo piedade para com a nossa própria família (1 Timóteo 5.4). Eles nos ensinaram, não somente para que nós mesmos aprendêssemos, mas para que pudéssemos ensinar a nossos filhos, o bom conhecimento de Deus (Salmos 78.6). E nós não seremos dignos da confiança, se não o fizermos, pois o sagrado depósito da doutrina religiosa e da lei foi feito em nossas mãos, com uma incumbência de transmiti-lo, de modo puro e integral, a todos os que vierem depois de nós (2 Timóteo 2.2).

[4) Salomão reforça suas exortações, com a autoridade de seu pai, Davi, um homem famoso em sua geração sob todos os aspectos. Devemos observar, para a honra da religião, que os mais sábios e melhores homens, em cada era, sempre foram muito zelosos, não somente em praticar, eles mesmos, a religião, mas em propagá-la a outras pessoas; e devemos, portanto, permanecer naquilo que aprendemos, sabendo de quem o temos aprendido (2 Timóteo 3.14).

2. Como eram transmitidas estas instruções (vv. 4-13).

(1) Sob a forma de preceitos e exortações. Ao ensinar seu filho, embora fosse uma criança de grande capacidade e rápido aprendizado, Davi, para mostrar que era sincero e para influenciar ainda mais seu filho com o que dizia, se expressava com grande fervor e insistência, e repetia a mesma coisa várias vezes. Assim as crianças devem ser ensinadas. “E as intimarás a teus filhos” (Deuteronômio 6.7). Embora Davi fosse um homem de atividades públicas, e tivesse tutores para seu filho, fez todos estes esforços para educá-lo, pessoalmente.

[1) Ele lhe recomenda a sua Bíblia e o seu discipulado, as palavras de seu pai (v. 4), as palavras da sua boca (v. 5), os seus ditames (v.10), todas as boas lições que ele tinha lhe ensinado; e talvez ele se refira, particularmente, ao livro dos Salmos, dos quais muitos eram Masquil salmos didáticos. salmos de instruções, e dois deles são expressamente considerados como sendo dedicados a Salomão. Estas, e todas as outras palavras, Salomão devia ter em mente. Em primeiro lugar, ele devia ouvi­ las e recebê-las (v. 10), e prestar atenção diligentemente a elas, e absorvê-las, como a terra embebe a chuva que muitas vezes cai sobre ela (Hebreus 6.7). Assim Deus dirige a nossa atenção à sua palavra: “Ouve, filho meu, e aceita as minhas palavras”. Em segundo lugar ele devia reter a forma das palavras confiáveis que seu pai lhe dava (v. 4): “Retenha as minhas palavras o teu coração”; pois a menos que a palavra esteja escondida no coração, alojada na vontade e nos sentimentos, não será retida. Em terceiro lugar ele devia se governar por elas: “Guarda os meus mandamentos”, obedece a eles, pois esta é a maneira de crescer no conhecimento deles (João 7.17). Em quarto lugar, ele devia se apegar a elas, e viver de acordo com elas: “Não te apartes das palavras da minha boca” (v. 5), como temendo que elas serão uma limitação muito grande para ti, mas “pega-te à correção” (v. 13), como decidido a manter este apego, e não se separai· delas. Os que têm uma boa educação, ainda que se esforcem para se livrar dela. perceberão que ela continua com eles por muito tempo, e. se não continua, o seu caso é muito triste.

[2) Ele recomenda sabedoria e entendimento, como o objetivo que se deve ter em mente, no uso destes meios. A sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria. Certifique-se de ter em mente aquele ramo da sabedoria que é o ramo superior, e que é o temor a Deus (Provérbios 1.7). Um princípio de religião no coração é a única coisa necessária: portanto, em primeiro lugar, adquire a sabedoria, adquire a inteligência (v. 5). E, novamente, “adquire, pois, a sabedoria; sim, com tudo o que possuis, adquire o conhecimento” (v. 7). Ora por ela, esforça-te por ela, empenha-te no uso de todos os meios indicados para obtê-la. Espera às portas da sabedoria (Provérbios 8.34). Domina as tuas corrupções, que são as tuas loucuras; apodera-te de princípios sábios e dos hábitos sábios. Obtém a sabedoria pela experiência, adquire-a, acima de tudo o que tens; preocupa-te mais e esforça-te mais para obter a sabedoria do que para obter a riqueza deste mundo; mesmo que te esqueças de outras coisas, jamais te esqueças dela; adquire-a, considera-a uma grande realização, e persevera nela de modo apropriado. A verdadeira sabedoria é dom de Deus, mas apesar disto nos é ordenado que nós a adquiramos, porque Deus a dá aos que se esforçam por ela; afinal, não devemos, e não podemos dizer: A minha força e o poder do meu braço me adquiriram estas riquezas (Deuteronômio 8.17, na versão RA). Em segundo lugar, não a esqueças (v. 5), não a desampares (v. 6), não a largues (v.13), mas guarda-a. Os que obtiveram esta sabedoria devem tomar cuidado para não perdê-la, ao retornar à sua loucura: a sabedoria é, verdadeiramente, uma coisa boa, que não será tirada de nós; mas devemos tomar cuidado para não afastá-la de nós, como os que se esquecem dela, a princípio, e deixam que se ela esvaia de suas mentes, e então a abandonam e se afastam dos seus bons caminhos. Aquela boa coisa que nos é entregue, devemos guardar, e não deixá-la escapar, por descuido ou negligência, nem permitir que nos seja tira­ da, nem permitir que adulações nos afastem dela; nunca perca uma joia como esta. Em terceiro lugar, ama-a (v. 6), e abraça-a (v.8), como os homens materialistas amam a sua riqueza e se dedicam a ela. A religião deve ser muito preciosa para nós, mais preciosa do que qualquer coisa neste mundo; e, se não pudermos conseguir ser grandes mestres da sabedoria, devemos ser verdadeiros apreciadores dela; e que a graça que tivermos nos faça abraçá-la com sincero afeto, como os que admiram a sua beleza. Em quarto lugar, “exalta-a” (v. 8). Sempre pense bem da religião, e faça tudo o que puderes para dar-lhe boa reputação, e conservar a sua credibilidade entre os homens. Concorde com Deus no seu propósito, que é de magnificar a lei e torná-la honrosa, e faça o que puderes para servir a este propósito. Que os filhos da Sabedoria não somente a justifiquem, mas a magnifiquem, e a prefiram a tudo o que lhes é mais precioso neste mundo. Ao honrar àqueles que temem ao Senhor, ainda que sejam humildes neste mundo, e ao considerar um pobre homem sábio, exaltamos a sabedoria.

(2) Sob a forma de motivação e estimulo, para que trabalhemos em busca da sabedoria, e nos submetamos à sua orientação; considere:

[1] Esta é a questão principal, aquela que deve ser a preocupação principal e contínua de todos os homens, nesta vida (v. 7): a sabedoria é a coisa principal; outras coisas que procuramos obter e guardar não são nada, perante ela. E parte integral do homem (Eclesiastes 12.13). É aquilo que nos recomenda a Deus, que embeleza a alma, que nos capacita a corresponder ao objetivo da nossa criação, a viver com algum bom propósito neste mundo, e a chegar ao céu, por fim, e por isto é a coisa principal.

[2] Ela tem a razão e a equidade do seu lado (v. 11): “No caminho da sabedoria, te ensinei”, e ele assim será considerado, no final. Eu te guiei, não pelos caminhos tortuosos da política carnal, que age mal sob pretexto de sabedoria, mas pelas carreiras direitas, que estão em conformidade com as regras eternas e as razões do bem e do mal. A retidão da natureza divina aparece na retidão de todas as leis divinas. Observe que Davi não somente ensinou o seu filho, dando-lhe boas instruções, mas o orientou, tanto por meio de bons exemplos como ao aplicar instruções gerais a casos particulares; assim, Davi fez tudo o que pode para tornar o seu filho um homem prudente e sábio.

[3] Seria para seu próprio benefício: “Se fores sábio, para ti sábio serás”.

Em primeiro lugar, será a tua vida, o teu consolo, a sua felicidade; será aquilo sem o que não podes viver: “Guarda os meus mandamentos e vive” (v. 4). O nosso Salvador se harmoniza com isto: “Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” (Mateus 19.17). É na dor da morte, a morte eterna, e na perspectiva da vida, a vida eterna, que devemos ser religiosos. “Recebe os dizeres da sabedoria, e se te multiplicarão os anos de vida (v. 10), neste mundo, tantos quanto a Sabedoria Infinita julgar adequado, e no outro mundo viverás aquela vida cujos anos nunca serão contados. Guarda-a, portanto, a despeito do que quer que isto te custe, “porque ela é a tua vida” (v. 13). Toda a tua satisfação será encontrada nisto, e uma alma sem a sabedoria e a graça verdadeiras é, realmente, uma alma morta.

Em segundo lugar, ela será o teu guarda e o teu guia, tua escolta e teu condutor, em meio a todos os perigos e dificuldades da tua jornada por este deserto. Ama a sabedoria, e apega-te a ela, e ela te conservará, ela te guardará (v. 6) do pecado, o pior dos males, o pior dos inimigos; ela impedirá que tu prejudiques a ti mesmo, e então ninguém mais poderá te prejudicar. Como dizemos, “Conserva o teu trabalho, e o teu trabalho te conservará”, também “Conserva a tua sabedoria, e a tua sabedoria te conservará”. Ela nos protegerá das dificuldades e dos obstáculos com que nos deparamos no controle de nós mesmos e dos nossos assuntos (v. 12).

1. Os nossos passos não se embaraçarão, quando andarmos, e não nos colocaremos em dificuldades, como Davi se encontrou outrora (2 Samuel 24.14). Os que fazem da Palavra de Deus a sua lei andarão livremente, e estarão em paz consigo mesmos.

2. Os nossos pés não tropeçarão, quando corrermos. Se os homens bons e sábios se depararem com resoluções repentinas, o governo da Palavra de Deus, à qual obedecem, os protegerá, até mesmo de tropeçar em qualquer coisa que possa ser perniciosa. A integridade e a retidão nos preservarão.

Em terceiro lugar, será tua honra e reputação (v. 8): Exalta a sabedoria (mostra a tua boa vontade para com o seu progresso), e ainda que ela não precise dos teus serviços, ela os recompensará abundantemente, ela te exaltará, ela te honrará. Salomão seria um rei, mas a sua sabedoria e virtude seriam mais sua honra do que a sua coroa ou a cor púrpura de suas vestes; por isto todos os seus vizinhos o veneravam tanto; e, sem dúvida, no seu reino e no de Davi, os homens bons e sábios tinham uma prioridade para serem honrados. No entanto, mais cedo ou mais tarde, a religião trará à honra todos os que a aceitarem cordialmente; eles serão aceitos por Deus, respeitados por todos os homens sábios, reconhecidos no grande dia, e herdarão a glória eterna. Ele insiste nisto (v. 9): “[A sabedoria] dará à tua cabeça um diadema de graça”; neste mundo, te recomendará a Deus e aos homens, e no outro mundo uma coroa de glória te entregará, uma coroa que nunca murchará, uma incorruptível coroa de glória. Esta é a honra verdadeira que acompanha a religião. A virtude é a única nobreza! Tendo Davi recomendado a sabedoria ao seu filho, não é de admirar que quando Deus lhe disse que pedisse o que desejava, Salomão pediu: “Senhor, dá-me, pois, agora, sabedoria e conhecimento”. Pelas nossas orações, nós devemos mostrar como fomos bem ensinados.