PSICOLOGIA ANALÍTICA

O CONTÁGIO DAS EMOÇÕES

Seus amigos são felizes e mentalmente saudáveis? E as pessoas com quem eles se relacionam? Pesquisa mostra que o grau de satisfação daqueles que nos cercam tem profundo impacto na satisfação das pessoas. O mais curioso é que essa “transmissão emocional” pode ocorrer até pelas redes sociais.

O contágio das emoções

É como um surto de gripe, só que no âmbito mental: a felicidade, a gentileza e o entusiasmo – e também comportamentos que fazem mal à saúde física e mental, como irritação, reclamações e até sintomas de depressão – são transmissíveis. Emoções e hábitos contaminam outras pessoas a até “três graus de separação”. Para entender melhor: o fato de o amigo de um amigo seu ser uma pessoa alegre, bem-humorada e satisfeita com a própria vida aumenta em aproximadamente 6% as chances de que você seja uma pessoa feliz. Isso significa que é fundamental escolher com cuidado os grupos dos quais participamos. Mas vai além: de alguma forma, temos também responsabilidade sobre o bem-estar das pessoas com quem moramos, trabalhamos, estudamos. E também sobre a qualidade de vida daqueles que se relacionam com quem convivemos.

Mesmo de longe é possível influenciar (e ser influenciado) pelas formas de ver o mundo, se relacionar com os outros e até com o próprio corpo. Essa interferência torna mais ou menos frequente, por exemplo, a manutenção de hábitos que nos fazem engordar ou emagrecer, fumar e beber. Até as horas de sono de uma pessoa podem estar sujeitas ao comportamento alheio. “Mesmo as pessoas que não conhecemos têm influência sobre nosso humor”, garante o cientista político James Fowler, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, um dos coordenadores do estudo sobre a transmissão de emoções e estados mentais.

O cientista não tem dúvida de que, assim como a saúde, a felicidade e a insatisfação podem ser entendidas como um fenômeno coletivo. Fowler e seu colega Nicholas Christakis, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard de Boston, realizaram estudos para entender esse processo. Para medir o grau de bem-estar, a dupla recorre a um teste validado com quatro itens, a CES-D (Center for Epidemiological Studies Depression Scale, ou Escala de Depressão do Centro de Estudos Epidemiológicos). A ferramenta considera com que frequência, na última semana, a pessoa teve problemas no sono, sentiu-se triste, sem esperanças e outros aspectos relacionados à depressão.

Em um dos experimentos, desenvolvido ao longo de mais de 20 anos, os autores de O poder das conexões (Elsevier, 2009) fizeram a conexão de mais de 53 mil ligações sociais entre cerca de 5 mil pessoas – um número surpreendente para uma pesquisa clínica. Os voluntários mantinham os pesquisadores regularmente informados sobre seu estado emocional e de saúde – além disso, passavam periodicamente por exames médicos e respondiam a questionários psicológicos para avaliação de seu nível de satisfação. As pessoas que faziam parte de sua rede de contatos sociais também eram acompanhadas, o que permitiu que Fowler e Christakis “conectassem os pontos”.

Os dois reuniram informações a respeito de hábitos ligados ao cuidado de si – como tabagismo, sedentarismo e obesidade –, buscando entender como comportamentos são permeados pelas redes de relacionamento num famoso experimento longitudinal que ficou internacionalmente conhecido como Estudo de Framingham (FHS, do inglês Framingham Heart Study). Em 2000, essa pequena cidade em Massachusetts tinha aproximadamente 70 mil habitantes, vários deles brasileiros, acompanhados pelos cientistas por três gerações. O desafio era destacar os principais fatores de risco para doenças cardiovasculares. Graças a essa pesquisa, nos últimos anos foram acrescentados muitos conhecimentos ao que se sabia sobre diabetes, hipertensão, alterações no colesterol, sedentarismo e tabagismo. Fowler e Christakis se deram conta de que ter um parente de primeiro grau com alguma dessas doenças é um fator de risco importante para o desenvolvimento do mesmo quadro não necessariamente em razão da genética, mas em grande parte por causa de hábitos em comum.

DE PERTO É MAIS FÁCIL

A distância física entre as pessoas também é um fator importante a ser considerado, segundo os cientistas. Tanto a felicidade quanto a dependência de cigarro e a obesidade se espalham mais quando a proximidade é maior, de acordo com os pesquisadores. Ter um vizinho de porta feliz – com quem nos relacionamos frequentemente – aumenta as chances de satisfação geral com a vida em 34%. Um irmão, amigo ou parceiro afetivo bem-humorado vivendo até 1,6 km de nós incrementa em até 25% a nossa probabilidade de nos sentirmos satisfeitos. Se a distância diminuir, melhor: ter uma pessoa querida de bem com a vida num perímetro de até 800 metros favorece em 42% o índice pessoal de satisfação.

O efeito cai à medida que a rede social se prolonga: a felicidade dos amigos aumenta suas chances imediatas de felicidade em aproximadamente 15%, e a dos amigos dos amigos, em 10%. Tal como acontece com a obesidade e o tabagismo, os cientistas não detectaram nenhum efeito para além dessa proximidade. “Embora possa haver até seis graus de separação entre duas pessoas, detectamos apenas três de influência”, salienta Christakis. Fowler afirma que para além de três ligações ocorre uma espécie de dissonância social, como se interferências influíssem na transmissão do comportamento, quase como uma onda.

No caso da felicidade, sentimentos sombrios podem conter a disseminação. Fowler e Christakis descobriram que cada contato feliz aumenta em 9%, em média, as probabilidades de felicidade de uma pessoa, enquanto um contato infeliz diminui essas chances em 7% – restam, portanto, apenas 2%. Fowler, porém, acredita que a felicidade tem mais possibilidades de se espalhar por ser uma emoção que favorece a coesão social. Faz sentido: enquanto a tristeza está associada ao isola- mento e ao encerramento em si mesmo, a alegria parece “combinar” com a extroversão e a necessidade de extravasar o sentimento. Na opinião do pesquisador, ao longo da evolução a felicidade visível e contagiante pode ter ajudado nossos antepassados a manter a coesão social. Afinal, costuma ser muito mais agradável estar perto de gente satisfeita e bem-humorada que de pessoas infelizes.

O MAPA DAS RELAÇÕES

o diagrama criado por James H. Fowler e Nicholas A. Christakis é possível observar, graficamente, a propagação dinâmica da felicidade em uma grande rede social. Cada ponto representa uma pessoa (os círculos são femininos, os quadrados são masculinos). Linhas entre nós indicam relacionamento (preto para irmãos, vermelho para amigos e cônjuges). A cor do ponto denota felicidade média do ego e todos os diretamente conectados (distância 1) se alteram, com tons azuis indicando os menos felizes e amarelos mostrando a maioria feliz (tons de verde são intermediários). As linhas representam relações familiares ou de amizade. Quanto mais no centro do círculo a pessoa se encontra, mais intensamente está conectada com outras.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.