PSICOLOGIA ANALÍTICA

ESPERAR É UM APRENDIZADO

Os modelos familiares são de grande e decisiva importância em todo desenvolvimento infantil e tal influência é ainda mais notável durante os dez primeiros anos de vida.

esperar é um aprendizado

Ainda existem, infelizmente, pessoas que pensam que crianças não percebem as coisas que acontecem a sua volta, não ouvem os comentários dos adultos nem aprendem a partir dos modelos de comportamentos de seus pais. Todo ser humano, pleno em suas capacidades, nasce apto a iniciar uma forma de comunicação com o ambiente, mostrando por meio do choro seu desconforto, suas necessidades primordiais, e aprende que há como suprir uma falta a partir dessa comunicação, e assim vai estruturando seu comportamento.

A partir do nascimento. o bebê observa o meio que o cerca e começa estabelecendo contato através principalmente da mãe. Inicia essa relação quando percebe que obtém a satisfação de suas necessidades ao ser atendido prontamente a partir do choro: com ele vêm a atenção, o colo, o carinho, a higiene, o alimento e o conforto.

Aprende após sentir suas necessidades ou desejos serem satisfeitos, a como resolver novamente, no futuro, seus problemas. Se for atendido sempre muito rapidamente, vai perceber que é assim que as coisas acontecem com ele e não conseguirá esperar numa próxima ocasião. Se por vezes a mãe demorar um pouquinho mais do que em outras situações anteriores, aprenderá que pode esperar. Se raramente for atendido, ficará confuso, se sentirá abandonado e poderá até adoecer.

Se um pequeno lapso de tempo transcorre entre o reclamar e ser acolhida, a criança vai percebendo o que é esperar, sente a necessidade, mas, por vivencias anteriores, confia que será atendida, embora tenha que aguardar um tempo. Isso não é fácil, é um aprendizado primordial e muitas vezes, por não querer que o filho chore, seus pais não o ensinam desde cedo, e de modo natural, a esperar.

Se ao longo do crescimento a criança é sempre atendida muito prontamente e sem que haja urgência, se não há um tempo mínimo de espera para seus desejos serem realizados, ou se o são antes mesmo que ela os perceba, acaba por não desenvolver a tolerância e, pior, a não sentir falta de nada; portanto, sempre satisfeita, não consegue distinguir seus desejos, necessidades e não aprende como deveria. Torna-se assim eternamente insatisfeita e esse comportamento se dissemina em todas as áreas de sua vida.

Vivemos em uma sociedade muito diversa daquela da geração dos pais e avós dos pré-escolares de hoje: a profusão de possibilidades, de ofertas de produtos, coisas à vezes extremamente sedutoras aos olhos infantis que chegam por todas as vias: além da televisão, por meio da internet, da propaganda de rua, do shopping, dos amiguinhos que usam, que possuem. Realmente há um mar de apelos!

Aí entra o adulto que hoje se sente duplamente constrangido frente a esses pedidos. De um lado, sabe que deve educar, dar limites, mas de outro está fragilizado perante uma posição múltipla de dúvidas: ou porque crê que fica pouco tempo com seu filho e acha que satisfazer suas vontades pode fazê-lo menos frustrado ou porque crê que seu filho ao possuir muitas coisas se eleva a uma condição social melhor do que a sua e assim tem mais chances de ascender a futuras posições de sucesso. Tais adultos agem como se marca de tênis, de camiseta, os brinquedos mais atuais ofertados em profusão agissem como um cordão de ligação entre a realidade familiar e um mundo muito mais promissor e feliz…

Pesquisas recentes realizadas pelo SPC Brasil e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas mostraram que cerca de 64% das mães não resiste a satisfazer a vontade dos filhos, fazendo compras desnecessárias, e corre o risco de comprometer o orçamento doméstico. Além disso, 46% não impõem regras para presenteá-los.

Serão essas crianças mais felizes ou esses lares mais harmoniosos? Não é o que vemos acontecer. Até pelo contrário, ao receber um presente após o outro a criança não aprende a usufruir do prazer de explorar algo desejado nem aproveitar tudo o que o brinquedo pode lhe dar. Insatisfeita, logo passa a querer outro, mais outro e, passada a alegria do desembrulhar do pacote, o descontentamento, a frustração, a falta de motivação para conquistar coisas por si mesma voltam.

E há consequências de toda ordem: esse modo de agir acaba contaminando toda a escolaridade, em que, não havendo tanto prazer, a criança se desmotiva e deixa de aprender como sua capacidade cognitiva permitiria.

Disso se tira mais uma conclusão importante para a atualidade: não se cria dessa forma um consumidor consciente. E aí o modelo familiar influi muito, assim como a maneira como a criança foi criada desde o berço. Impulsividade nas compras, compulsividade mostram ser falhas educativas muito sérias ao longo da vida.

O ato de comprar requer aprendizado que passa pela maneira como a criança é presenteada. Por mais que os pais queiram ou possam dispor de recursos para adquirir lindos e numerosos presentes, preciso repensar o que as compras frequentes, algumas absolutamente dispensáveis, ensinam aos pequenos.

Provavelmente é assim que muitas crianças se tornam compradores compulsivos, eternamente insatisfeitos, adolescentes sem limites, sem noção de preço e principalmente de valores.

esperar é um aprendizado. 2

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem.   Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/2007). É editora da revista Psicopedagogia da ABPq e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

 irenemaluf@uol.com.br

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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