PSICOLOGIA ANALÍTICA

ESPERAR É UM APRENDIZADO

Os modelos familiares são de grande e decisiva importância em todo desenvolvimento infantil e tal influência é ainda mais notável durante os dez primeiros anos de vida.

esperar é um aprendizado

Ainda existem, infelizmente, pessoas que pensam que crianças não percebem as coisas que acontecem a sua volta, não ouvem os comentários dos adultos nem aprendem a partir dos modelos de comportamentos de seus pais. Todo ser humano, pleno em suas capacidades, nasce apto a iniciar uma forma de comunicação com o ambiente, mostrando por meio do choro seu desconforto, suas necessidades primordiais, e aprende que há como suprir uma falta a partir dessa comunicação, e assim vai estruturando seu comportamento.

A partir do nascimento. o bebê observa o meio que o cerca e começa estabelecendo contato através principalmente da mãe. Inicia essa relação quando percebe que obtém a satisfação de suas necessidades ao ser atendido prontamente a partir do choro: com ele vêm a atenção, o colo, o carinho, a higiene, o alimento e o conforto.

Aprende após sentir suas necessidades ou desejos serem satisfeitos, a como resolver novamente, no futuro, seus problemas. Se for atendido sempre muito rapidamente, vai perceber que é assim que as coisas acontecem com ele e não conseguirá esperar numa próxima ocasião. Se por vezes a mãe demorar um pouquinho mais do que em outras situações anteriores, aprenderá que pode esperar. Se raramente for atendido, ficará confuso, se sentirá abandonado e poderá até adoecer.

Se um pequeno lapso de tempo transcorre entre o reclamar e ser acolhida, a criança vai percebendo o que é esperar, sente a necessidade, mas, por vivencias anteriores, confia que será atendida, embora tenha que aguardar um tempo. Isso não é fácil, é um aprendizado primordial e muitas vezes, por não querer que o filho chore, seus pais não o ensinam desde cedo, e de modo natural, a esperar.

Se ao longo do crescimento a criança é sempre atendida muito prontamente e sem que haja urgência, se não há um tempo mínimo de espera para seus desejos serem realizados, ou se o são antes mesmo que ela os perceba, acaba por não desenvolver a tolerância e, pior, a não sentir falta de nada; portanto, sempre satisfeita, não consegue distinguir seus desejos, necessidades e não aprende como deveria. Torna-se assim eternamente insatisfeita e esse comportamento se dissemina em todas as áreas de sua vida.

Vivemos em uma sociedade muito diversa daquela da geração dos pais e avós dos pré-escolares de hoje: a profusão de possibilidades, de ofertas de produtos, coisas à vezes extremamente sedutoras aos olhos infantis que chegam por todas as vias: além da televisão, por meio da internet, da propaganda de rua, do shopping, dos amiguinhos que usam, que possuem. Realmente há um mar de apelos!

Aí entra o adulto que hoje se sente duplamente constrangido frente a esses pedidos. De um lado, sabe que deve educar, dar limites, mas de outro está fragilizado perante uma posição múltipla de dúvidas: ou porque crê que fica pouco tempo com seu filho e acha que satisfazer suas vontades pode fazê-lo menos frustrado ou porque crê que seu filho ao possuir muitas coisas se eleva a uma condição social melhor do que a sua e assim tem mais chances de ascender a futuras posições de sucesso. Tais adultos agem como se marca de tênis, de camiseta, os brinquedos mais atuais ofertados em profusão agissem como um cordão de ligação entre a realidade familiar e um mundo muito mais promissor e feliz…

Pesquisas recentes realizadas pelo SPC Brasil e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas mostraram que cerca de 64% das mães não resiste a satisfazer a vontade dos filhos, fazendo compras desnecessárias, e corre o risco de comprometer o orçamento doméstico. Além disso, 46% não impõem regras para presenteá-los.

Serão essas crianças mais felizes ou esses lares mais harmoniosos? Não é o que vemos acontecer. Até pelo contrário, ao receber um presente após o outro a criança não aprende a usufruir do prazer de explorar algo desejado nem aproveitar tudo o que o brinquedo pode lhe dar. Insatisfeita, logo passa a querer outro, mais outro e, passada a alegria do desembrulhar do pacote, o descontentamento, a frustração, a falta de motivação para conquistar coisas por si mesma voltam.

E há consequências de toda ordem: esse modo de agir acaba contaminando toda a escolaridade, em que, não havendo tanto prazer, a criança se desmotiva e deixa de aprender como sua capacidade cognitiva permitiria.

Disso se tira mais uma conclusão importante para a atualidade: não se cria dessa forma um consumidor consciente. E aí o modelo familiar influi muito, assim como a maneira como a criança foi criada desde o berço. Impulsividade nas compras, compulsividade mostram ser falhas educativas muito sérias ao longo da vida.

O ato de comprar requer aprendizado que passa pela maneira como a criança é presenteada. Por mais que os pais queiram ou possam dispor de recursos para adquirir lindos e numerosos presentes, preciso repensar o que as compras frequentes, algumas absolutamente dispensáveis, ensinam aos pequenos.

Provavelmente é assim que muitas crianças se tornam compradores compulsivos, eternamente insatisfeitos, adolescentes sem limites, sem noção de preço e principalmente de valores.

esperar é um aprendizado. 2

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem.   Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/2007). É editora da revista Psicopedagogia da ABPq e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

 irenemaluf@uol.com.br

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OUTROS OLHARES

LICENÇA PARA TELEFONAR

Sabe-se que o telefone foi inventado para uma pessoa falar com outra, mas hoje o aparelho é usado para tudo, menos falar – e, com a mudança, nasceu toda uma nova etiqueta.

Licença para telefonar

O telefone chama uma, duas, três vezes, e nada. Ele é solenemente ignorado. O toque soa invasivo e obsoleto (ainda que a era dos smartphones tenha substituído o velho trim-trim por uma miríade de sons com estilo e graça). O fato é que o mundo girou, e o ato de conversar ao telefone foi se tornando um daqueles hábitos em desuso diante da praticidade das mensagens de texto. De uns tempos para cá, toda uma etiqueta se ergueu em torno dessa forma instantânea de comunicação. E não foi apenas nos limites das gerações Y e Z, nascidas a partir da década de 80 – embora elas liderem a turma que, literalmente, não liga. Na nova cartilha, antes de qualquer coisa, faça uma perguntinha básica por WhatsApp: “Pode falar?”. Ao sinal positivo, aí sim, vá em frente.

Lembre-se que conversa, conversa mesmo, não se aplica a muitos casos. Em geral, só quando o assunto é demasiado delicado ou o elo entre as duas partes é sólido o suficiente. O empresário Emerson Martins, de 46 anos, nem se lembra da última vez em que estabeleceu contato por celular fazendo uso da voz. “Só atendo se vejo que é uma das minhas filhas ou um sócio com um assunto urgente”, diz ele. “Nos grupos de WhatsApp, respondo tudo a meu tempo”, afirma o empresário (neste caso, excepcionalmente, por telefone). Nas pesquisas, a possibilidade de gerenciar o ritmo e o tom das respostas aparece como uma das principais vantagens das mensagens de texto.

Em um levantamento conduzido por uma operadora de telefonia britânica, 63% dos entrevistados afirmam que se recusam a atender ligações de números desconhecidos. O mesmo grupo, quando indagado sobre que funções do celular lhe são mais úteis, coloca “ligar” em 11º lugar, atrás dos previsíveis enviar mensagens e e-mails, navegar no Facebook, tirar fotos e até consultar a previsão do tempo. O acelerado avanço tecnológico, que traz múltiplos aplicativos e distrações, faz do celular um objeto cada vez mais distante de seu propósito original – fenômeno percebido em alto grau entre brasileiros. Em 2013, 80% diziam usar o aparelho prioritariamente para “chamadas”, segundo a consultoria Deloitte. Em 2016, já eram elas, as mensagens, as mais citadas por 79%. “Há uma demanda crescente por conteúdo, sobretudo nas faixas mais jovens, que migraram da voz para os aplicativos”, diz Bernardo Winik, diretor da Oi.

Não só a economia de tempo e a possibilidade de peneirar os contatos atraem tanta gente para o universo dos aplicativos. Eles permitem que as mensagens sejam pensadas e repensadas – e até apagadas depois de mandadas, um benefício para os arrependidos ou atrapalhados. “Com a mensagem, dá mais tempo de elaborar e refletir sobre a conversa”, explica a estudante de serviço social Luiza Ribeiro, de 17 anos, que vive no Rio de Janeiro e abre uma exceção para falar com os pais, que estão no Acre. Mesmo assim, são ligações ao jeito moderno: via chamada de vídeo e de não mais que dez minutos (uma eternidade, aliás). Como outras pessoas de sua geração, ela ainda tem viva na memória a fase em que, quem diria, ficava pendurada no telefone. A reviravolta foi de cinco anos para cá.

A mudança de costumes se amolda não apenas à era do frenesi da digitação e à ideia da instantaneidade, como também favorece quem nunca foi afeito ao telefone. ”A comunicação por meio eletrônico dá a sensação de maior controle aos mais tímidos e contidos”, observa a psicóloga Ceres Araújo. Mas nem tudo são flores neste mundo zap-zap. O psicólogo Cristiano Nabuco alerta para o risco da impessoalidade”: Na conversa tradicional, devem-se modular os sentimentos, a voz e evitar bocejos; já na virtual dá para construir as respostas e exibir uma imagem mais satisfatória. O contato fica mais superficial”.

Ligar virou um ato cercado de cerimônia. Quando uma ligação no impulso é retribuída com absoluto silêncio do outro lado, melhor não insistir. No vácuo de um alô, há quem troque a mensagem de texto pela de voz, o que, de novo, periga ser incômodo.

Vai saber em que condições o interlocutor se encontra para ouvir o recado? O terreno das mensagens de texto também tem seus macetes, para evitar, com o perdão da velha expressão, linha cruzada. “É preciso ter cuidado com as palavras, para não haver mal­ entendidos”, diz o psicólogo Nabuco.

O invento de Alexander Graham Bell (1847-1922) já foi um cobiçado objeto de desejo. No Brasil, até a década de 80, os poucos afortunados que conseguiam uma linha fixa amargavam mais de dois anos na fila. Era item tão valioso que passava como herança de pai para filho. Com a privatização e a chegada dos celulares, nos anos 90, o furor pelo telefone fixo despencou. As linhas foram caindo, caindo e, só no ano passado, 2 milhões desapareceram de lares brasileiros. O celular apagou da memória o tempo em que se esperava meia hora por um sinal de discagem e até um dia para completar um interurbano. Hoje é tudo instantâneo. E silencioso. Psiu.

Licença para telefonar.2

GESTÃO E CARREIRA

VALORIZAR QUEM É DA CASA

Filosofia aplicada aos negócios: empresa promove workshops entre colaboradores e cria rede compartilhada de conhecimento.

Valorizar quem é da casa

Quando o assunto é gestão de pessoas, a cada dia surgem novas ideias e práticas inovadoras que visam a ampliação da mentalidade dos colaboradores, contribuindo para o desenvolvimento pessoal das equipes e organizacional das empresas. Cursos, palestras, debates, ações de incentivo à cultura e informação se tornaram ferramentas estratégicas para as organizações que acreditam que o sucesso é uma consequência do desenvolvimento das habilidades e potenciais de seus colaboradores.

Dados da consultoria Gartner indicam que, até 2021, 40% dos times de TI serão mais versáteis, desempenhando múltiplos papéis, inclusive em negócios, em vez de ter foco apenas em tecnologia. Empresas brasileiras já investem em líderes corporativos para formarem times de elite.

Fomentadora de uma cultura própria de trabalho, a FCamara, empresa de soluções tecnológicas para empresas de tecnologia e e-commerce, é um dos exemplos nacionais que acreditam que o seu maior patrimônio é o capital intelectual e que todos podem se tomar empreendedores de suas carreiras.

De forma contínua, a empresa promove entre seus consultores, workshops que visam criar uma rede de conhecimento compartilhada, na qual os próprios colaboradores podem palestrar sobre os assuntos nos quais demonstrem domínio. Com temas que variam entre conhecimentos técnicos da área e aspectos filosóficos aplicados no mundo dos negócios, os eventos promovem a troca de ideias e informações que são usadas no dia a dia do trabalho.

A ideia surgiu a partir de pequenos encontros promovidos dentro da empresa nos quais alguns colaboradores se juntavam para trocar informações. “Os encontros começaram a ser tão atrativos que despertaram o interesse de cada vez mais participantes e, a cada nova reunião, mais consultores foram participando, aumentando a rede. Durante o caminho, fomos percebendo que, além de conhecimento técnico, eles demonstravam habilidades para transmitir aos demais suas ideias e experiências e assim fomos moldando os workshops que hoje são parte muito importante do nosso culture code (veja mais em Novo código para os “sangues laranjas”), afirma Fábio Camara, CEO da FCamara. “Hoje, temos em média de 5 a 10 workshops por mês e a estimativa é que mais de 200 consultores já tenham participado desses eventos”, diz.

PROGRAMAÇÃO, FILOSOFIA E LIDERANÇA

Além do compartilhamento de informações da área e tendências de mercado, debates filosóficos também fazem parte da grade dos eventos. Nomes como Maquiavel, Kant e Genghis Khan têm suas ideias adaptadas ao mundo dos negócios, promovendo, além da expansão de ideias, o incentivo a liderança e o alcance de metas de forma estratégica. “Nos workshops técnicos, abordamos novas tecnologias, metodologias e cases de sucesso, nos quais os consultores conseguem ter um aprendizado rápido e já fazer a aplicação em projetos reais. Já nos de liderança e filosofia, debatemos aspectos que são essenciais para a formação de um profissional, como autonomia, vocação, competências interdisciplinares e o uso da criatividade para solucionar problemas. A filosofia entra com o objetivo de orientar os consultores em relação à carreira, aos desafios profissionais e à aplicação dos conhecimentos trazidos por esses pensadores na busca dos caminhos para a inovação digital, afirma Gustavo Pisani, consultor da FCamara que já aplicou workshops para os seus colegas.

NOVO CÓDIGO PARA OS COLABORADORES

Uma pesquisa realizada pela Advance Consulting sobre as maiores dificuldades na área de tecnologia indica que 74% das empresas do segmento tem menos de 50 colaboradores e possuem como maior desafio a eficiência de seus profissionais e de seus processos. Para vencer essa dificuldade, muitas delas recorrem a metodologias e processos bem definidos, métricas e indicadores de desempenho que, a cada dia, ganham mais relevância e marcam esse momento novo no mercado de trabalho.

Fomentadora de uma cultura própria, a FCamara desenvolveu seu próprio culture code. Nele, cada “sangue laranja”, nome dado aos seus colaboradores, entra em contato com as diretrizes e objetivos da empresa, como o autogerenciamento e autorresponsabilização, focando a formação e o incentivo ao desenvolvimento de novas ideias que podem vir a se tornar soluções e novos negócios. “Acreditamos que o sucesso está relacionado diretamente com a forma de pensar e agir na vida e nos negócios. Para desenvolver soluções inovadoras precisamos ‘pensar fora da caixa’ e ter um pensamento inovador. Assim, desenvolvemos nosso culture code que transmite nossos valores e propostas para uma carreira mais autônoma e focada em resultados”, afirma Fábio Camara. CEO da empresa. Con fira os pontos do código:

MODELO HORIZONTAL: não há hierarquia tradicional. Todos trabalham de modo colaborativo e se comunicam no mesmo nível. Não há uniformes, distinção de gênero, dress code ou protocolos formais;

SEM MESA DE CHEFE: o CEO da empresa não tem mesa fixa – ele trabalha de forma livre em mesas ou bancadas da empresa, tendo assim acesso e convivência com todas as áreas e setores da companhia;

WHATSAPP PÚBLICO: os números do celular do CEO e dos gestores são públicos e todos os c:olaboradores da empresa a eles têm acesso;

PROGRAMA DE FORMAÇÃO: a empresa promove ao longo do ano algumas edições de seu programa de recrutamento de novos talentos como objetivo de capacitá-los e formá-los tecnicamente;

WORKSHOPS: a F. câmara promove debates e palestras técnicas, de liderança e de Filosofia, aplicados aos negócios para integrar e formar seus consultores;

SEM UNIFORMES: nenhum colaborador usa uniforme ou identificação relativa à sua ocupação. Todos são vistos e tratados de maneira igualitária, sem distinções.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 3: 7-12

Pensando biblicamente

Consagração a Deus

Temos diante de nós três exortações, cada uma delas feita por um bom motivo:

I – Nós devemos viver em humilde e dócil submissão a Deus e ao seu governo (v. 7): “Teme ao Senhor” como teu Senhor e Mestre soberano; deixa-te governar, em tudo, pela religião, e submete-te à vontade divina. Isto deve ser:

1. Uma humilde submissão: “Não sejas sábio a teus próprios olhos”. Observe que não há um maior inimigo à força da religião, e ao temor de Deus no coração, do que o convencimento da nossa própria sabedoria. Aqueles que têm uma opinião elevada sobre a sua própria suficiência julgam que os diminui, e que é um demérito para eles, tomar as suas decisões com base nas regras de religião, e muito mais permitir que elas os limitem.

2. Uma submissão dócil: “Teme ao Senhor e aparta-te do mal”; toma cuidado para não fazer alguma coisa que o ofenda, perdendo, assim os seus cuidados. Temer ao Senhor, e também apartar-se do mal, é verdadeiramente sabedoria e entendimento (Jó 28.28); os que os têm são verdadeiramente sábios, mas são também desprendidos e não são sábios aos seus próprios olhos. Pois o nosso encorajamento para viver no temor a Deus é aqui prometido (v. 8), de modo que seja tão útil para o homem visível como o nosso alimento necessário. Será nutritivo; será remédio para o teu umbigo. Será fortalecedor; será medula para os teus ossos. A prudência, a temperança e a sobriedade, a calma e a compostura mental, e o bom controle dos apetites e paixões, que a religião ensina, se destinam não somente à saúde da alma, mas a um bom hábito do corpo, o que é muito desejável, e sem o qual os nossos outros prazeres neste mundo são insípidos. A inveja é a podridão dos ossos; a tristeza do mundo os seca; mas a esperança e a alegria em Deus são medula para eles.

 

II – Nós devemos fazer um bom uso de nossos bens, e este é o caminho para aumentá-los (vv. 9,10). Aqui temos:

1. Um preceito que estabelece que é o nosso de­ ver servir a Deus com os nossos bens: “Honra ao Senhor com a tua fazenda”. O objetivo da nossa criação e redenção é honrar a Deus, ser um nome e um louvor para Ele; não somos capazes de servi-lo, sem o honrarmos. A sua honra devemos exibir, e a honra que temos por Ele. Nós devemos honrá-lo, não somente com nossos corpos e espíritos, que são seus, mas também com nossos bens, pois também são seus: nós, e tudo o que nos pertence, deve ser dedicado à sua glória. A riqueza terrena é uma riqueza inferior, mas ainda assim, devemos honrar a Deus com ela, e então, e somente então, ela se tornará substancial. Devemos honrar a Deus:

(1) Temos um preceito que estabelece que é o nosso dever servir a Deus com as nossas riquezas ou ganhos. Quando as riquezas aumentam, somos tentados a honrar a nós mesmos (Deuteronômio 8.17), e a dedicar os nossos corações ao mundo (Salmos 42.10); mas quanto mais Deus nos der, mais deveremos nos empenhar para honrá-lo. Isto é uma referência à produção da terra, pois vivemos da produção anual, para nos manter em constante dependência de Deus.

(2) Com toda a nossa produção, com o aumento dos nossos ganhos. À medida que Deus nos fizer prosperar em tudo, deveremos honrá-lo. A nossa lei permite a prescrição de um modus decimandi – uma forma de pagamento do dízimo, mas não a prescrição de um de non decimando – a isenção do pagamento do dízimo.

(3) Com as primícias de tudo, como Abel (Genesis 4.4). Isto está na lei (Êxodo 23.19), e também nos profetas (Malaquias 3.10). Deus, que é o primeiro e o melhor, deve receber o primeiro e o melhor de todas as coisas; os seus direitos têm prioridade aos de todos os outros, e por isto Ele deve ser servido em primeiro lugar. Observe que é nosso dever tornar os nossos bens terrenos úteis para a nossa religião, usá-los e as vantagens que temos, por meio deles, para a promoção da religião, fazer o bem aos pobres com o que temos, e ser abundantes em todas as obras de piedade e caridade, desenvolvendo coisas liberais.

2. Uma promessa, que faz com que seja do nosso interesse servir a Deus com os nossos bens. Este é o caminho para produzir mais, e muito mais; é o método mais assegurado e seguro de prosperar: “E se encherão os teus celeiros abundantemente”. Ele não diz, a tua bolsa, mas os teus celeiros; não o teu guarda-roupa transbordará, mas os teus lagares. Deus te abençoará com uma produção do que é útil, não para exibição ou ornamento para gastar e distribuir, e não para acumular e guardar. Os que fazem o bem com o que têm terão mais com que fazer o bem. Observe que se tornarmos nossos bens terrenos úteis para a nossa religião, perceberemos que a nossa religião é muito útil para a prosperidade dos nossos assuntos terrenos. A santidade tem a promessa da vida que existe agora, e toda a consolação dela. Nós nos enganamos, se pensamos que a caridade nos destruirá e nos tornará pobres. A caridade, pela honra de Deus, nos tornará ricos (Ageu 2.19). Aquilo que doamos, é aquilo que temos.

 

III – Nós devemos nos comportar de maneira adequada, em nossas aflições (vv. 11,12). O apóstolo cita isto (Hebreus 12.5) chamando-o de exortação que nos fala como a filhos, com a autoridade e a afeição de um pai. Aqui, estamos em um mundo de dificuldades. Observe:

1. Qual deve ser o nosso interesse, quando estamos em aflição. Não devemos nem desprezá-la, nem nos cansarmos dela. A sua exortação, portanto, era para os que são ricos e prósperos; aqui é para os que são pobres e estão em meio às adversidades.

(1) Não devemos desprezar uma aflição, seja ela leve ou curta, como se não fosse digna de ser observada, ou como se não fosse enviada com uma missão e por isto não necessitasse de uma res­ posta. Não devemos ser como pedaços de madeira, ou como pedras, e estoicos, em nossas aflições, insensíveis a elas, endurecendo-nos para elas, e concluindo que podemos facilmente vencê-las sem Deus.

(2) Não devemos nos cansar de uma aflição, ainda que seja pesada e longa; não devemos desmaiar debaixo dela, (é assim que o apóstolo traduz). não devemos nos desencorajar, privando a nossa alma, nem ser levados ao desespero, nem usar qualquer meio indireto para o nosso alívio e solução das nossas angústias. Não devemos pensar que a aflição é mais árdua ou mais prolongada do que é adequado, nem concluir que a libertação jamais virá, somente pelo fato dela não chegar com a rapidez que desejamos.

2. Qual deve ser a nossa consolação, em meio a uma aflição.

(1 ) O fato de que ela é uma correção divina; é o castigo do Senhor, que, da mesma maneira como é uma razão pela qual devemos nos submeter a ele (pois é loucura contender com um Deus de incontestável soberania e poder irresistível), também é uma razão pela qual devem os ficar satisfeitos com ele; pois podemos ter certeza de que um Deus de pureza imaculada não nos prejudica, e que um Deus de bondade infinita não nos deseja o mal. É de Deus, e por isto não deve ser desprezada; pois o desprezo ao mensageiro é uma afronta Àquele que o envia. É de Deus, e por isto não devemos nos cansar dela, pois Ele conhece a nossa estrutura, e sabe de que necessitamos e também o que podemos suportar.

(2) O fato de que é uma correção de pai; ela não vem da sua justiça vingativa, como um Juiz, mas da sua sábia afeição, como um Pai. O pai corrige o filho ao qual ama, ou melhor, e porque o ama, e deseja que seja sábio e bom. Ele se alegra pelo fato de que o seu filho é amável e agradável, e por isto o corrige, para a prevenção e cura do que seria uma deformidade para ele, e uma corrupção ao seu prazer no seu filho. Assim, Deus disse: “Eu repreendo e castigo a todos quantos amo” (Apocalipse 3.19). Estes são grandes consolos para os filhos de Deus, em meio às suas aflições,

[1] O fato de que elas não somente são consistentes com o amor do concerto, como resultam dele.

 [2] O fato de que elas estão tão longe de provocar-lhes algum dano real, que, pela graça de Deus que opera nelas, fazem um grande bem, e são meios felizes para a sua satisfação.