PSICOLOGIA ANALÍTICA

“DIGA-ME COM QUEM ANDA…”

As companhias que escolhemos são importantes durante toda a vida, mas na adolescência podem ser decisivas. Recorrer a amigos e colegas que consideramos mais equilibrados pode ser uma forma eficiente para se acostumar a administrar a própria falta de limites, um comportamento capaz de causar muitos problemas – tanto para si mesmo quanto para os outros.

Diga-me com quem anda

Meu colega de colégio Tom G. era considerado por muita gente um garoto com um futuro nada promissor. Ele costumava beber em excesso e dirigir em alta velocidade, além de ter sido preso algumas vezes por pequenos furtos. Tom era bastante indisciplinado em relação a esportes ou outras atividades organizadas e sempre que podia arrumava um jeito de faltar às aulas na escola. Quando conseguia um emprego logo desistia ou era rapidamente demitido. As pessoas o julgavam como um perdedor. Imagine minha perplexidade quando me encontrei com Tom (cujo nome mudei para proteger sua identidade), alguns anos mais tarde. Ele estava sentado em uma lanchonete, bebendo café enquanto lia um jornal. Após alguns anos, o rapaz havia se casado com uma de nossas mais estudiosas colegas de classe. Tom procurou se cercar de amigos estáveis e conscientes, deixando para trás as “más companhias” do ensino médio. Ele raramente bebia ou dirigia em alta velocidade. Agora, meu colega da época de colégio era pai de família, tinha um   pequeno, porém bem-sucedido negócio, e vivia com moderação.

Muitas pessoas conhecem alguém como Tom G. ou se identificam com ele, mas a maioria das histórias não costuma ter final feliz. De fato, grande parte das crianças com dificuldades de autocontrole crescem com o problema. Por que sua natureza in- disciplinada não o levou a uma vida de fracassos e dificuldades como muitos haviam previsto?

Pesquisas recentes talvez possam ajudar a compreender a misteriosa reviravolta na vida do rapaz. A psicóloga Grainne Fitzsimons e sua equipe da Universidade de Duke estudaram pessoas com baixa autodisciplina – a ideia era verificar se indivíduos como Tom estariam cientes de suas dificuldades e se poderiam de alguma forma compensá-las. Os pesquisadores acreditam que Tom tenha escolhido deliberadamente frequentar outros círculos sociais como uma estratégia para regular seu próprio comportamento, pegando uma carona com pessoas mais bem-sucedidas.

FALTA FORÇA DE VONTADE

A pesquisadora e seus colegas desenvolveram vários experimentos em laboratório, além de um estudo com casais reais. O objetivo era compreender como pessoas com dificuldades de se autocontrolar formam pontos de vista em relação a indivíduos mais disciplinados. Em um dos estudos os pesquisadores enfraqueceram o domínio próprio de alguns dos voluntários por meio de uma manipulação feita no laboratório. Os participantes deveriam prestar atenção em um vídeo enquanto ignoravam palavras que piscavam na tela (uma técnica capaz de colocar a força de vontade a prova e identificar pessoas suscetíveis a ceder aos impulsos). Depois de ter a acuidade mental temporariamente enfraquecida, os voluntários (e indivíduos de controle que não haviam passado pelo procedimento) tiveram que ler histórias sobre três gerentes de um escritório: um extremamente disciplinado, um displicente e outro equilibrado entre os dois extremos. Depois, os participantes deveriam avaliá-los.

Os resultados foram claros. Os voluntários com autocontrole artificialmente enfraquecido julgaram os gestores altamente disciplinados de forma mais positiva do que os gerentes medianos, e de maneira geral os favoreceram em relação aos displicentes. Os participantes de controle não mostraram preferência. Os resultados apoiam a hipótese dos pesquisadores: pessoas indisciplinadas parecem ser atraídas por indivíduos, mesmo que sejam estranhos, que dispõem de mais recursos emocionais.

A situação criada artificialmente em laboratório explorou o enfraquecimento temporário do autocontrole. Mas o que dizer sobre indivíduos como meu amigo Tom, em quem esse traço de caráter persiste? Será que eles também demonstram preferência por pessoas modelos de disciplina? Para explorar a questão, os cientistas propuseram uma situação diferente no laboratório: o teste Stroop, em que palavras coloridas aparecem sucessivamente escritas em cor diferente do que o termo descreve – o vocábulo “verde”, por exemplo, é grafado em vermelho. Os participantes devem ignorar o significado da palavra e se concentrar apenas em sua cor. O bom desempenho no teste dá indicações de força de vontade como uma característica de personalidade.

Após medir o autocontrole, os pesquisadores dividiram os voluntários disciplinados e displicentes em dois grupos. De- pois, os participantes leram histórias bem semelhantes às do primeiro estudo e avaliaram o personagem. Eles gostariam de conhecer essa pessoa? Poderiam ser amigos? Trabalhar junto com ela?

Como os pesquisadores suspeitavam, os displicentes avaliaram positivamente as pessoas disciplinadas. Surpreendentemente, os voluntários mais controlados não demonstraram preferência por essa característica nos outros. Os cientistas acreditam que pessoas autossuficientes não prestam muita atenção ao nível de autodisciplina alheia, enquanto que aqueles com dificuldades tentam controlar esse traço nos outros. Segundo essa lógica, em algum nível Tom percebeu que deveria se cercar de pessoas diferentes de si mesmo. A relação com a esposa e os novos amigos o ajudou a regular seus impulsos destrutivos.

TESTE DE STROOP, clássico medidor de força de vontade, traz uma série de palavras; voluntários devem dizer rapidamente o nome da cor, ignorando o significado da palavra.

Diga-me com quem anda. 2 

JOGO DA ATRAÇÃO

Para aproximar a pesquisa da vida cotidiana, Grainne Fitzsimons e sua equipe decidiram estudar relacionamentos românticos. Eles avaliaram autocontrole em mais de cem casais, além da dependência entre eles – nesse caso, os cientistas investigaram até que ponto o parceiro seria capaz de satisfazer as necessidades do outro.

Os resultados reforçaram o que os pesquisadores haviam descoberto em laboratório. Como descrito no artigo que será publicado na revista Psychological Science, os voluntários com baixo autocontrole demonstraram ser mais dependentes de seus parceiros, mas somente quando seu par se mostrava disciplinado – nesses momentos, eles sentiam que a relação era essencial para seu bem-estar. Os mais controlados não mostraram diferença em relação à dependência emocional. Os cientistas acreditam que essas pessoas não tenham a mesma forte necessidade de ter um parceiro para compensar a própria impulsividade.

Em conjunto, os estudos oferecem evidências de um processo de autorregulação social pelo qual nos aproximamos de outras pessoas para compensar nossas falhas. Os pesquisadores afirmam, no entanto, que a confiança no outro não é suficiente para superar completamente a impulsividade. De fato, os resultados sugerem o oposto: dificuldades em controlar os próprios impulsos são muito difíceis de superar. Geralmente, pessoas com esse traço têm maior dificuldade em ter uma vida plena e bem-sucedida. No entanto, os resultados dão esperança para pessoas naturalmente impulsivas atuar de forma ativa para superar fraquezas.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.