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O MEU, O SEU, O NOSSO

O compartilhamento de carros cresce nas grandes cidades. Em um futuro não muito distante, ter um automóvel na garagem será quase uma “excentricidade” de colecionador.

O meu, o seu, o nosso

À combustão, híbrido ou elétrico; com ou sem motorista. Um dado é certo na configuração do carro do futuro: ele não será seu nem meu. Ele será nosso. Na era dos serviços de streaming de músicas, vídeos e filmes e de áreas de trabalho comunitárias, nada mais natural do que repartir também os automóveis. Em 2015, 7 milhões de pessoas ao redor do mundo já dividiam 112 mil veículos, segundo a consultoria americana Frost & Sullivan. A expectativa é a de que, em dez anos, esses números saltem para 36 milhões e quase 430 mil, respectivamente. Conforme outro levantamento, da também americana Global Market Insights, o mercado de carsharing, no ano passado, estava avaliado em US$ 1,5 bilhão. Até 2024, deve chegar a US$ 11 bilhões.

O compartilhamento de veículos resulta de uma mudança profunda de comportamento dos usuários, em especial os jovens. Ter um carro na garagem, hoje em dia, não é mais sinônimo de status, como costumava ser em um passado não muito distante. Ao contrário. Nos Estados Unidos, país dos aficionados por automóveis, 52% das pessoas questionam a necessidade de possuir um carro, aponta pesquisa da empresa Deloitte. A possibilidade de usar um automóvel apenas quando necessário, podendo escolher o modelo e o tempo de utilização, é, convenhamos, um baita atrativo. Além de ecologicamente correto. Um carro compartilhado pode tirar até 13 veículos particulares da rua, indica levantamento do Instituto de Estudos sobre Transportes, da prestigiosa Universidade da Califórnia em Berkeley. As emissões de gases de efeito estufa reduziriam de 34% a 41%, e as distâncias percorridas por veículo, entre 27% e 43%. Uma família de quatro pessoas adepta do compartilhamento pode economizar semanalmente até US$ 435. Viva o desapego!

A filosofia de carsharing surgiu na Suíça, na década de 40, como alternativa ao transporte público. A primeira empresa de compartilhamento, no entanto, só seria criada 30 anos depois, em Montpellier, na França, com 35 veículos, 17 pontos de retirada e/ ou devolução e parcos 300 usuários. A ideia não vingou por falhas inerentes ao sistema. Na época, as tecnologias disponíveis eram insuficientes para fazer o negócio deslanchar. O desenvolvimento e a popularização dos smartphones foram decisivos para o avanço do mercado de carsharing. Para a empresa, o celular permite não só identificar o consumidor como determinar onde ele está. Para o usuário, o aparelho possibilita chegar até o local onde se encontra o veículo, liberá-lo e depois trancá-lo. Impossível desconsiderar o impacto da Uber, que revolucionou o cenário do transporte e deu origem a outras ideias, como o compartilhamento de carros de passeio para viagens mais longas, como a francesa Blablacar, fundada em 2006. Trata-se da maior plataforma de caronas de longa distância, com cerca de 60 milhões de cadastrados, de 22 países.

Frente a esses fenômenos, o conceito de compartilhamento de automóveis se ampliou, para além do tradicional sistema de locação. Em linhas gerais, ele está dividido em quatro modalidades:

TWO-WAY CARSHARING: uma empresa aluga o veículo por um determinado tempo, ao final do qual ele deve ser devolvido no mesmo lugar.

ONE-WAY CARSHARING: similar ao primeiro, com a vantagem de permitir a devolução do veículo em outro local, predeterminado pela empresa (uma filial ou estação de recarga de elétricos, por exemplo).

FREE FLOATING CARSHARING: o uso do carro é cobrado por minuto e ele pode ser deixado em qualquer local (rua ou estacionamento), dentro de uma zona preestabelecida pela empresa.

RIDE OU LIFT SHARING: é a chamada “carona compartilhada”, na qual algumas pessoas que vão ao mesmo local dividem os custos da viagem.

No Brasil, uma das maiores e mais bem-sucedidas experiências de compartilhamento de automóveis é o Moobie. Criado em São Paulo em março do ano passado, ele já está em 50 cidades do estado, totalizando 80 mil usuários. Começou a operar em Curitiba em junho passado. O Moobie funciona como um Airbnb automotivo. Qualquer pessoa que tenha um carro pode se cadastrar no site e oferecer o veículo a ser alugado.

O carsharing impõe desafios à indústria. Em vez de só produzir e vender automóveis, as montadoras agora começam a prestar serviços de mobilidade. Vêm criando parcerias (ou adquirindo) com empresas de tecnologia e startups. Até então, equipamentos e sistemas de assistência ao condutor eram criados e desenvolvidos por sistemistas (fornecedores de autopeças e componentes), como Bosch, ZF, Continental e Delphi, enquanto as fabricantes de carros apenas escolhiam os veículos nos quais os itens seriam instalados. Agora, o processo mudou. E as montadoras estão exibindo a agilidade que os tempos atuais exigem. A GM, por exemplo, lançou a Maven, empresa de aluguel e compartilhamento de automóveis em Detroit. A Toyota investiu US$ 1 bilhão na aquisição da Grab, startup que lidera o serviço de mobilidade individual na Ásia. A Honda apresentou no ano passado seu Honda Neuv, elétrico, autônomo e programado para ser compartilhado.

Rivais históricas, Mercedes-Benz e BMW tornaram-se aliadas ao unificar serviços de mobilidade, em março. A Volkswagen anunciou que vai lançar seu modelo de carsharing na Alemanha em 2019, estendendo-o para outros países da Europa no ano seguinte. “O mercado de compartilhamento ainda tem potencial, por isso vamos ingressar nele com um conceito que vai cobrir todas as necessidades de mobilidade”, diz Jürgen Stackmann, executivo de vendas do Grupo VW. “Nossas frotas terão somente carros elétricos e, portanto, fornecerão mobilidade sustentável com emissão zero.” A imagem das montadoras como dinossauros deve ser, portanto, revista.

O mercado de compartilhamento é bastante concorrido. Prova disso é a verdadeira batalha promovida entre Uber e a gigante chinesa Didi. Enquanto a Uber segue no processo de reestruturação, a Didi adota uma postura mais agressiva, investindo na aquisição e parceria com outras empresas – Ola, na Índia, Careem, no Oriente Médio, e a 99 no Brasil, por exemplo. Prepara-se ainda para entrar no México, onde enfrentará a concorrente americana diretamente.

Ainda é cedo para definir como ficará o mercado mundial de compartilhamento frente às mudanças que ocorrem no melhor estilo do “tudo – ao – mesmo – tempo – a ­ gora”. A previsão mais apocalíptica é feita pelo RethinkX, um think tank independente de análise das “disrupturas” tecnológicas na sociedade. O grupo afirma que, 2030, não fará mais sentido ter um carro, ao menos nos Estados Unidos. Até lá, as vendas de carros terão caído 80%, e 95% das distâncias percorridas serão feitas com veículos elétricos autônomos compartilhados. Em seis anos, as concessionárias americanas devem desaparecer, como sumiram as lojas de discos e as locadoras de vídeos. Carro na garagem será “excentricidade” de colecionador.

O meu, o seu, o nosso.2

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.