PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUAL É O SEU GÊNERO?

As diferenças entre homens e mulheres não são “naturais” ou determinadas pela genética, mas sim criadas socialmente; a desconstrução de modelos estabelecidos nos permite desnaturalizar desigualdades, reconhecer e discutir identidades antes ignoradas ou desprezadas, como a de transgêneros.

Qual é o seu gênero

Há algumas décadas, o psicólogo social Gordon Allport formulou um paradoxo fundamental sobre a diversidade: “Todos somos iguais, porém diferentes e únicos”. Atualmente, muito se fala sobre singularidades e, na maioria das vezes, diversidade parece mais um termo sobre o qual todo mundo tem algo a dizer. No entanto, a maioria das pessoas encontra incríveis dificuldades para valorizá-la no dia a dia. E, quando tratamos da dimensão do gênero, essa constatação é acentuada em todos os sentidos.

Crescemos sendo ensinados que “homens são assim e mulheres são assado”, porque “é da sua natureza”. Entretanto, a grande diferença que percebemos entre pessoas do sexo feminino e masculino é construída socialmente. Lembre-se da sua formação pessoal: desde criança você foi ensinado(a) a agir de certa forma e a cultivar determinada aparência, de acordo com o gênero que lhe foi designado. Se havia ultrassonografia quando sua mãe engravidou, esse processo começou antes mesmo de você nascer. Se não, a determinação aconteceu no parto.

Como as influências sociais não são totalmente visíveis, costuma parecer que as diferenças entre homens e mulheres são “naturais”, estabelecidas pela genética, quando na verdade boa parte delas é determinada pelo convívio social, e até mesmo as conformações hereditárias relacionadas aos gêneros resultam de um processo evolutivo pautado por condições sociais ao longo do tempo.

Para a ciência biológica, o que determina o sexo de um organismo é, por exemplo, características anatômicas, níveis hormonais e tamanho dos gametas (células reprodutivas: espermatozoides, logo indivíduo macho; óvulos, indivíduo fêmea). No entanto, entre os seres humanos tais fatores, por si sós, não definem os comportamentos lidos como masculinos ou femininos, os quais, aliás, mudam conforme a cultura da qual falamos.

Mulheres de países nórdicos têm características que, para nossa cultura, são consideradas masculinas. Ser masculino no Brasil é diferente de ser masculino no Japão, ou mesmo na Argentina. Há culturas para as quais não é o órgão genital que define o sexo. Ser homem ou mulher (ou homem e mulher, ou nem homem nem mulher) é questão de gênero. O que importa nesse campo é a autopercepção e a forma como a pessoa se expressa socialmente, a sua identidade de gênero.

Nesse sentido, o gênero é uma expressão da vida que, para ser compreendida, necessariamente abarca diferentes campos do saber. Entretanto, nem todas as áreas do conhecimento científico a têm apreciado, analisado e aplicado na sua complexidade.

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“ISSO É HOMEM OU MULHER?”

As ciências psi (psicologia, psicanálise, neurociência etc.) têm produzido saberes sobre gênero aquém de suas possibilidades, apesar de se constituírem como campos de referência com olhar privilegiado para as interações e expectativas de interações entre as pessoas.

Raramente nos indagamos sobre a natureza das questões de gênero e sua interferência em nosso cotidiano. Perguntas como “o que é gênero?”, “o que/quem é um(a)/ homem/mulher?” ou “ela/ele/isso é um(a)/ mulher/homem?” são difíceis de responder, fora do senso comum, quando se levam em conta os indivíduos e seus diferentes comportamentos.

As ciências, por vezes, reproduzem noções superficiais acerca dos processos identitários estruturantes de identidades de gênero. Sua abordagem geralmente é orientada pelos estereótipos caracterizados por três paradigmas:

1) POLARIZAÇÃO DE GÊNERO (mulheres e homens teriam papéis mutuamente excludentes);

2) ANDROCENTRISMO (a experiência masculina seria o padrão neutro ou norma);

3) ESSENCIALISMO BIOLOGICISTA (comportamentos sociais seriam consequências naturais e inevitáveis de naturezas biológicas intrínsecas).

Leituras feministas da realidade têm criticado o reducionismo biológico, buscando ressaltar as semelhanças entre homens e mulheres e identificar os determinantes históricos e culturais das suas diferenças. Gênero não é apenas uma variável independente em um modelo experimental; trata-se de um eixo estruturante das relações sociais, que abrange crenças e ações individuais, porém com impacto substancial nos sistemas sociais.

Com a maior visibilidade e as conquistas de grupos sociais historicamente discriminados, os modelos idealizados de mulher e de homem têm sido desconstruídos, o que nos permite desnaturalizar as diferenças entre os gêneros, além de reconhecer, discutir e estudar identidades de gênero antes ignoradas ou desprezadas, como as identidades trans (aqui utilizo uma abreviação de “transgênero”, palavra que se refere à pessoa que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído socialmente).

O CORPO AQUÉM DO SEXO

Levando em conta que gênero se refere a uma construção social, um conjunto de concepções preestabelecidas acerca de como se identifica um homem ou uma mulher, podemos pensar que identidade de gênero seja a atitude individual em face dos construtos sociais de gênero. É importante esclarecer que sexualidade, ou orientação sexual, se refere à atração afetivo-sexual por alguém de algum(ns) gênero(s). Não há uma norma de orientação em função do gênero das pessoas. Assim, é errôneo pensar que o esperado, para qualquer homem ou mulher, seja ser heterossexual.

O mesmo se pode dizer da identidade de gênero, pois não corresponde à realidade pensar que toda pessoa se reconhece com o gênero que lhe é atribuído. Todos nós vivenciamos, em diferentes momentos, inversões temporárias de papéis determinados para o gênero de cada um – em algum momento a maioria das pessoas se fantasia, brinca, interpreta.

A história oferece vários exemplos de que os limites não são fixos e predeterminados. No Brasil, podemos pensar no caso de Maria Quitéria, heroína da Guerra da Independência que se vestiu de homem para poder lutar contra o domínio português. Ao contrário da crença comum, adotada por algumas vertentes científicas, entende-se que a vivência de um gênero (social, cultural), de maneira discordante da que se esperaria de alguém de determinado sexo (biológico), em dada cultura, é uma questão de identidade, não um transtorno. Esse é, mais expressamente, o caso das pessoas trans (como travestis e homens e mulheres transexuais).

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TRANSGENER(AL)IDADES

O que é ser uma pessoa trans ou transgênero? Em primeiro lugar, é importante destacar que, em termos de gênero, os seres humanos podem ser enquadrados como transgênero ou “cisgênero”. Há os cisgênero (ou de “cis”), aqueles que não são trans e, portanto, se identificam, em maior ou menor grau, com o gênero que lhes foi atribuído socialmente. Vale ressaltar que existem, ainda, as pessoas que não se identificam com nenhum gênero, são as “não binárias”.

Historicamente, a população trans é estigmatizada, marginalizada e perseguida devido à crença na sua anormalidade, decorrente do estereótipo de que o gênero atribuído a alguém seja aquele com o qual o indivíduo deveria se identificar e, portanto, espera-se que se comporte de acordo com o que se julga ser o “adequado”, condizente com este ou aquele gênero. Entretanto, a variedade de experiências humanas sobre como se identificar a partir de seu corpo demonstra que essa ideia é falaciosa, especialmente com relação às pessoas trans, que revelam a possibilidade de haver homens com vagina e mulheres com pênis.

No Brasil, o espaço reservado aos trans é o da exclusão extrema, sem acesso a direitos civis básicos, sequer ao reconhecimento de sua identidade, do seu nome. São cidadãs e cidadãos que ainda têm de lutar para terem garantidos os seus direitos fundamentais, tais como o direito à vida. Violências físicas, psicológicas e simbólicas são constantes. De acordo com a organização internacional Transgender Europe, o Brasil é o país no qual mais se matam pessoas trans no mundo, especialmente as travestis e as mulheres transexuais. Nosso país é responsável por 39,8% dos assassinatos de pessoas trans registrados no mundo entre 2008 e 2011 e, no mesmo período, por 50,5% desses crimes na América Latina.

Tais violações repetem o padrão de crimes de ódio motivados por preconceito contra alguma característica da pessoa  agredida  que a identifique como parte de um grupo discriminado, socialmente desprotegido, e caracterizados pela forma hedionda como são executados, com facadas, alvejamento sem aviso, apedrejamento. Ademais, as identidades trans são tidas, pelas vertentes hegemônicas em saúde mental, representadas pela Classificação internacional de doenças (CID), da Organização Mundial da Saúde, e pelo Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM), publicado pela Associação Psiquiátrica Americana, como transtornos de identidade ou expressões de disforia (ansiedade, insatisfação) de gênero.

Entretanto, em virtude do movimento social da população trans, cada vez mais organizado, e do pioneirismo de alguns pesquisadores no campo de gênero, vem ganhando espaço no cenário nacional e internacional uma campanha em prol da despatologização das identidades trans (uma referência nesse debate foi a iniciativa da Alta Autoridade de Saúde francesa, que desde 2009 não mais considera a transexualidade como transtorno mental).

TRANSFOBIA

Uma visão despatologizada sobre as pessoas trans implica que suas demandas nos serviços de saúde sejam atendidas a partir do princípio da integralidade, reconhecendo-se que seus problemas não decorrem de sua identidade de gênero em si, mas, isso sim, do modo discriminatório como a sociedade as vê e trata.

Tem sido utilizado o termo “transfobia” para se referir a preconceitos e discriminações sofridos pelas pessoas trans, de forma geral. Muito ainda tem de ser enfrentado para chegar a um mínimo de respeito à identidade de gênero das pessoas, para além dos estigmas. Frequentemente esquecemos que as pessoas vivenciam múltiplos aspectos de sua humanidade, para além dos relacionados a gênero.

O sexismo, como preconceito decorrente da ideia de que o sexo (biológico) determina comportamentos e status social, prejudica não apenas a população trans, mas todo e qualquer ser humano que não se enquadre no modelo-padrão de masculinidade ou feminilidade.

Entre estes, podemos destacar as mulheres masculinas; as histerectomizadas (que tiveram o útero extirpado) e/ou mastectomizadas (que passaram por retirada das mamas); os homens femininos; os orquiectomizados (que tiveram os testículos extirpados) e/ou “emasculados” (termo por si só representativo da visão sexista sobre os corpos, que se refere à retirada da genitália externa masculina), por motivos de saúde, como o câncer.

Até mesmo práticas sexuais são tornadas invisíveis ou estigmatizadas por essa visão reducionista, a exemplo da penetração de um homem por uma mulher, ato considerado como uma “inversão” nos tradicionais comportamentos sexuais relacionados aos papéis de gênero, entretanto comuns entre casais heterossexuais.

CORAGEM DE SER

Entre os seres humanos de um mesmo grupo há grande diversidade: pessoas negras não são todas iguais, assim como não são os brancos, as mulheres, os homens, os indígenas, os trans, os cis e tantas outras. Qualquer um, independentemente de gênero, pode ter diferentes cores, etnias, classes, origens geográficas, religiões, idades, orientações sexuais, uma rica história de vida, entre outras características.

A partir das críticas do feminismo negro ao movimento feminista tradicional, desde os anos 70, a percepção sobre quem são as mulheres se ampliou, deixou de apenas se remeter à mulher branca, abastada, casada com filhos e passou a acatar a humanidade e a feminilidade de mulheres outrora invisíveis: negras, indígenas, pobres, com deficiência, idosas, lésbicas, bissexuais, solteiras e mesmo as mulheres trans. Ao desconsiderarmos a intersecção entre raça e gênero, são menosprezadas as particularidades e privilegiados os modelos idealizados.

Os preceitos do feminismo negro são reiterados, na atualidade, pelo transfeminismo, novíssima linha de pensamento e ação feminista que valoriza as experiências de vida e lutas das pessoas trans, seu conhecimento acumulado no enfrentamento das discriminações, reconhecendo que as opressões têm uma natureza simultaneamente operacional e interligada, de modo que preconceitos e discriminações de gênero dialogam com os de raça, orientação sexual, idade, origem, entre outros.

Não temos explicações científicas sufi- cientes para nos esclarecer por que os seres humanos se identificam, ou não, com deter- minado gênero, em consonância ou não com a expectativa de sua cultura, mas sabemos que isso ocorre, e como ocorre. Mas precisamos, como pesquisadores e profissionais que lidam com pessoas, apoiá-las em suas diversas formas de ser no mundo, ajudando-as a fortalecer suas escolhas conscientes, a defender o poder de decisão sobre o seu corpo e, desse modo, estimular a coragem de as pessoas serem quem são, em uma sociedade que preza a conformidade.

Considerando a diversidade de gênero, é necessário reavaliar até mesmo as políticas públicas com base em uma agenda social inclusiva que combata a violência em todos os seus aspectos: simbólicos, emocio, verbais, físicos e institucionais; que garanta direitos reprodutivos (o que inclui o direito das mulheres cis ao aborto legal seguro; dos homens trans à gestação e ao parto; e ao fim da esterilização forçada de mulheres trans).

Tratar de gênero, no campo das ciências psi, é ampliar a extensão das questões associadas às distintas vivências de gênero. É, igualmente, assumir um posicionamento crítico e pro- fundamente empático, que reforça o caráter indispensável de solidariedade com e entre todas as pessoas, no afã de superar o sexismo e o machismo, que fazem sofrer e limitam o potencial humano de homens e de mulheres (todas as mulheres) que se constituem como o grupo social mais desprivilegiado, alvo continuado de opressões.

O filósofo Friedrich Nietzsche apresenta palavras sábias pertinentes ao tema: “Quando o homem atribuía um sexo a todas as coisas, não via nisso um jogo, mas acreditava ampliar seu entendimento: só muito mais tarde descobriu, e nem mesmo inteiramente ainda hoje, a enormidade desse erro. De igual modo o homem atribuiu a tudo o que existe uma relação moral, jogando sobre os ombros do mundo o manto de uma significação ética. Um dia, tudo isso não terá nem mais nem menos valor do que possui hoje a crença no sexo masculino ou feminino do sol”.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

Uma consideração sobre “PSICOLOGIA ANALÍTICA”

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