PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUAL É O SEU GÊNERO?

As diferenças entre homens e mulheres não são “naturais” ou determinadas pela genética, mas sim criadas socialmente; a desconstrução de modelos estabelecidos nos permite desnaturalizar desigualdades, reconhecer e discutir identidades antes ignoradas ou desprezadas, como a de transgêneros.

Qual é o seu gênero

Há algumas décadas, o psicólogo social Gordon Allport formulou um paradoxo fundamental sobre a diversidade: “Todos somos iguais, porém diferentes e únicos”. Atualmente, muito se fala sobre singularidades e, na maioria das vezes, diversidade parece mais um termo sobre o qual todo mundo tem algo a dizer. No entanto, a maioria das pessoas encontra incríveis dificuldades para valorizá-la no dia a dia. E, quando tratamos da dimensão do gênero, essa constatação é acentuada em todos os sentidos.

Crescemos sendo ensinados que “homens são assim e mulheres são assado”, porque “é da sua natureza”. Entretanto, a grande diferença que percebemos entre pessoas do sexo feminino e masculino é construída socialmente. Lembre-se da sua formação pessoal: desde criança você foi ensinado(a) a agir de certa forma e a cultivar determinada aparência, de acordo com o gênero que lhe foi designado. Se havia ultrassonografia quando sua mãe engravidou, esse processo começou antes mesmo de você nascer. Se não, a determinação aconteceu no parto.

Como as influências sociais não são totalmente visíveis, costuma parecer que as diferenças entre homens e mulheres são “naturais”, estabelecidas pela genética, quando na verdade boa parte delas é determinada pelo convívio social, e até mesmo as conformações hereditárias relacionadas aos gêneros resultam de um processo evolutivo pautado por condições sociais ao longo do tempo.

Para a ciência biológica, o que determina o sexo de um organismo é, por exemplo, características anatômicas, níveis hormonais e tamanho dos gametas (células reprodutivas: espermatozoides, logo indivíduo macho; óvulos, indivíduo fêmea). No entanto, entre os seres humanos tais fatores, por si sós, não definem os comportamentos lidos como masculinos ou femininos, os quais, aliás, mudam conforme a cultura da qual falamos.

Mulheres de países nórdicos têm características que, para nossa cultura, são consideradas masculinas. Ser masculino no Brasil é diferente de ser masculino no Japão, ou mesmo na Argentina. Há culturas para as quais não é o órgão genital que define o sexo. Ser homem ou mulher (ou homem e mulher, ou nem homem nem mulher) é questão de gênero. O que importa nesse campo é a autopercepção e a forma como a pessoa se expressa socialmente, a sua identidade de gênero.

Nesse sentido, o gênero é uma expressão da vida que, para ser compreendida, necessariamente abarca diferentes campos do saber. Entretanto, nem todas as áreas do conhecimento científico a têm apreciado, analisado e aplicado na sua complexidade.

Qual é o seu gênero. 2

“ISSO É HOMEM OU MULHER?”

As ciências psi (psicologia, psicanálise, neurociência etc.) têm produzido saberes sobre gênero aquém de suas possibilidades, apesar de se constituírem como campos de referência com olhar privilegiado para as interações e expectativas de interações entre as pessoas.

Raramente nos indagamos sobre a natureza das questões de gênero e sua interferência em nosso cotidiano. Perguntas como “o que é gênero?”, “o que/quem é um(a)/ homem/mulher?” ou “ela/ele/isso é um(a)/ mulher/homem?” são difíceis de responder, fora do senso comum, quando se levam em conta os indivíduos e seus diferentes comportamentos.

As ciências, por vezes, reproduzem noções superficiais acerca dos processos identitários estruturantes de identidades de gênero. Sua abordagem geralmente é orientada pelos estereótipos caracterizados por três paradigmas:

1) POLARIZAÇÃO DE GÊNERO (mulheres e homens teriam papéis mutuamente excludentes);

2) ANDROCENTRISMO (a experiência masculina seria o padrão neutro ou norma);

3) ESSENCIALISMO BIOLOGICISTA (comportamentos sociais seriam consequências naturais e inevitáveis de naturezas biológicas intrínsecas).

Leituras feministas da realidade têm criticado o reducionismo biológico, buscando ressaltar as semelhanças entre homens e mulheres e identificar os determinantes históricos e culturais das suas diferenças. Gênero não é apenas uma variável independente em um modelo experimental; trata-se de um eixo estruturante das relações sociais, que abrange crenças e ações individuais, porém com impacto substancial nos sistemas sociais.

Com a maior visibilidade e as conquistas de grupos sociais historicamente discriminados, os modelos idealizados de mulher e de homem têm sido desconstruídos, o que nos permite desnaturalizar as diferenças entre os gêneros, além de reconhecer, discutir e estudar identidades de gênero antes ignoradas ou desprezadas, como as identidades trans (aqui utilizo uma abreviação de “transgênero”, palavra que se refere à pessoa que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído socialmente).

O CORPO AQUÉM DO SEXO

Levando em conta que gênero se refere a uma construção social, um conjunto de concepções preestabelecidas acerca de como se identifica um homem ou uma mulher, podemos pensar que identidade de gênero seja a atitude individual em face dos construtos sociais de gênero. É importante esclarecer que sexualidade, ou orientação sexual, se refere à atração afetivo-sexual por alguém de algum(ns) gênero(s). Não há uma norma de orientação em função do gênero das pessoas. Assim, é errôneo pensar que o esperado, para qualquer homem ou mulher, seja ser heterossexual.

O mesmo se pode dizer da identidade de gênero, pois não corresponde à realidade pensar que toda pessoa se reconhece com o gênero que lhe é atribuído. Todos nós vivenciamos, em diferentes momentos, inversões temporárias de papéis determinados para o gênero de cada um – em algum momento a maioria das pessoas se fantasia, brinca, interpreta.

A história oferece vários exemplos de que os limites não são fixos e predeterminados. No Brasil, podemos pensar no caso de Maria Quitéria, heroína da Guerra da Independência que se vestiu de homem para poder lutar contra o domínio português. Ao contrário da crença comum, adotada por algumas vertentes científicas, entende-se que a vivência de um gênero (social, cultural), de maneira discordante da que se esperaria de alguém de determinado sexo (biológico), em dada cultura, é uma questão de identidade, não um transtorno. Esse é, mais expressamente, o caso das pessoas trans (como travestis e homens e mulheres transexuais).

Qual é o seu gênero. 3

TRANSGENER(AL)IDADES

O que é ser uma pessoa trans ou transgênero? Em primeiro lugar, é importante destacar que, em termos de gênero, os seres humanos podem ser enquadrados como transgênero ou “cisgênero”. Há os cisgênero (ou de “cis”), aqueles que não são trans e, portanto, se identificam, em maior ou menor grau, com o gênero que lhes foi atribuído socialmente. Vale ressaltar que existem, ainda, as pessoas que não se identificam com nenhum gênero, são as “não binárias”.

Historicamente, a população trans é estigmatizada, marginalizada e perseguida devido à crença na sua anormalidade, decorrente do estereótipo de que o gênero atribuído a alguém seja aquele com o qual o indivíduo deveria se identificar e, portanto, espera-se que se comporte de acordo com o que se julga ser o “adequado”, condizente com este ou aquele gênero. Entretanto, a variedade de experiências humanas sobre como se identificar a partir de seu corpo demonstra que essa ideia é falaciosa, especialmente com relação às pessoas trans, que revelam a possibilidade de haver homens com vagina e mulheres com pênis.

No Brasil, o espaço reservado aos trans é o da exclusão extrema, sem acesso a direitos civis básicos, sequer ao reconhecimento de sua identidade, do seu nome. São cidadãs e cidadãos que ainda têm de lutar para terem garantidos os seus direitos fundamentais, tais como o direito à vida. Violências físicas, psicológicas e simbólicas são constantes. De acordo com a organização internacional Transgender Europe, o Brasil é o país no qual mais se matam pessoas trans no mundo, especialmente as travestis e as mulheres transexuais. Nosso país é responsável por 39,8% dos assassinatos de pessoas trans registrados no mundo entre 2008 e 2011 e, no mesmo período, por 50,5% desses crimes na América Latina.

Tais violações repetem o padrão de crimes de ódio motivados por preconceito contra alguma característica da pessoa  agredida  que a identifique como parte de um grupo discriminado, socialmente desprotegido, e caracterizados pela forma hedionda como são executados, com facadas, alvejamento sem aviso, apedrejamento. Ademais, as identidades trans são tidas, pelas vertentes hegemônicas em saúde mental, representadas pela Classificação internacional de doenças (CID), da Organização Mundial da Saúde, e pelo Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM), publicado pela Associação Psiquiátrica Americana, como transtornos de identidade ou expressões de disforia (ansiedade, insatisfação) de gênero.

Entretanto, em virtude do movimento social da população trans, cada vez mais organizado, e do pioneirismo de alguns pesquisadores no campo de gênero, vem ganhando espaço no cenário nacional e internacional uma campanha em prol da despatologização das identidades trans (uma referência nesse debate foi a iniciativa da Alta Autoridade de Saúde francesa, que desde 2009 não mais considera a transexualidade como transtorno mental).

TRANSFOBIA

Uma visão despatologizada sobre as pessoas trans implica que suas demandas nos serviços de saúde sejam atendidas a partir do princípio da integralidade, reconhecendo-se que seus problemas não decorrem de sua identidade de gênero em si, mas, isso sim, do modo discriminatório como a sociedade as vê e trata.

Tem sido utilizado o termo “transfobia” para se referir a preconceitos e discriminações sofridos pelas pessoas trans, de forma geral. Muito ainda tem de ser enfrentado para chegar a um mínimo de respeito à identidade de gênero das pessoas, para além dos estigmas. Frequentemente esquecemos que as pessoas vivenciam múltiplos aspectos de sua humanidade, para além dos relacionados a gênero.

O sexismo, como preconceito decorrente da ideia de que o sexo (biológico) determina comportamentos e status social, prejudica não apenas a população trans, mas todo e qualquer ser humano que não se enquadre no modelo-padrão de masculinidade ou feminilidade.

Entre estes, podemos destacar as mulheres masculinas; as histerectomizadas (que tiveram o útero extirpado) e/ou mastectomizadas (que passaram por retirada das mamas); os homens femininos; os orquiectomizados (que tiveram os testículos extirpados) e/ou “emasculados” (termo por si só representativo da visão sexista sobre os corpos, que se refere à retirada da genitália externa masculina), por motivos de saúde, como o câncer.

Até mesmo práticas sexuais são tornadas invisíveis ou estigmatizadas por essa visão reducionista, a exemplo da penetração de um homem por uma mulher, ato considerado como uma “inversão” nos tradicionais comportamentos sexuais relacionados aos papéis de gênero, entretanto comuns entre casais heterossexuais.

CORAGEM DE SER

Entre os seres humanos de um mesmo grupo há grande diversidade: pessoas negras não são todas iguais, assim como não são os brancos, as mulheres, os homens, os indígenas, os trans, os cis e tantas outras. Qualquer um, independentemente de gênero, pode ter diferentes cores, etnias, classes, origens geográficas, religiões, idades, orientações sexuais, uma rica história de vida, entre outras características.

A partir das críticas do feminismo negro ao movimento feminista tradicional, desde os anos 70, a percepção sobre quem são as mulheres se ampliou, deixou de apenas se remeter à mulher branca, abastada, casada com filhos e passou a acatar a humanidade e a feminilidade de mulheres outrora invisíveis: negras, indígenas, pobres, com deficiência, idosas, lésbicas, bissexuais, solteiras e mesmo as mulheres trans. Ao desconsiderarmos a intersecção entre raça e gênero, são menosprezadas as particularidades e privilegiados os modelos idealizados.

Os preceitos do feminismo negro são reiterados, na atualidade, pelo transfeminismo, novíssima linha de pensamento e ação feminista que valoriza as experiências de vida e lutas das pessoas trans, seu conhecimento acumulado no enfrentamento das discriminações, reconhecendo que as opressões têm uma natureza simultaneamente operacional e interligada, de modo que preconceitos e discriminações de gênero dialogam com os de raça, orientação sexual, idade, origem, entre outros.

Não temos explicações científicas sufi- cientes para nos esclarecer por que os seres humanos se identificam, ou não, com deter- minado gênero, em consonância ou não com a expectativa de sua cultura, mas sabemos que isso ocorre, e como ocorre. Mas precisamos, como pesquisadores e profissionais que lidam com pessoas, apoiá-las em suas diversas formas de ser no mundo, ajudando-as a fortalecer suas escolhas conscientes, a defender o poder de decisão sobre o seu corpo e, desse modo, estimular a coragem de as pessoas serem quem são, em uma sociedade que preza a conformidade.

Considerando a diversidade de gênero, é necessário reavaliar até mesmo as políticas públicas com base em uma agenda social inclusiva que combata a violência em todos os seus aspectos: simbólicos, emocio, verbais, físicos e institucionais; que garanta direitos reprodutivos (o que inclui o direito das mulheres cis ao aborto legal seguro; dos homens trans à gestação e ao parto; e ao fim da esterilização forçada de mulheres trans).

Tratar de gênero, no campo das ciências psi, é ampliar a extensão das questões associadas às distintas vivências de gênero. É, igualmente, assumir um posicionamento crítico e pro- fundamente empático, que reforça o caráter indispensável de solidariedade com e entre todas as pessoas, no afã de superar o sexismo e o machismo, que fazem sofrer e limitam o potencial humano de homens e de mulheres (todas as mulheres) que se constituem como o grupo social mais desprivilegiado, alvo continuado de opressões.

O filósofo Friedrich Nietzsche apresenta palavras sábias pertinentes ao tema: “Quando o homem atribuía um sexo a todas as coisas, não via nisso um jogo, mas acreditava ampliar seu entendimento: só muito mais tarde descobriu, e nem mesmo inteiramente ainda hoje, a enormidade desse erro. De igual modo o homem atribuiu a tudo o que existe uma relação moral, jogando sobre os ombros do mundo o manto de uma significação ética. Um dia, tudo isso não terá nem mais nem menos valor do que possui hoje a crença no sexo masculino ou feminino do sol”.

Anúncios

OUTROS OLHARES

O MOTORISTA SUMIU…

Os carros autônomos são a última fronteira na revolução da mobilidade e dos negócios na área automotiva. A indústria ainda tem de vencer vários obstáculos até coloca-los nas ruas.

O motorista sumiu...

Aos 86 anos, Bob Lutz é um dos protagonistas da história recente da indústria automotiva. Nas últimas cinco décadas, o suíço-americano dirigiu a BMW, Ford, Chrysler e GM. Suas análises sobre qualquer tema relacionado a automóveis, devem, portanto, ser levadas em conta. E, em palestras e artigos recentes, Lutz tem sido categórico: “Carros com motorista terão o mesmo destino dos cavalos: serão usados apenas em competições, ou em atividades de lazer, não mais em espaços públicos como ruas, avenidas e estradas”. Até as grandes e tradicionais montadoras consideram o cenário traçado por Lutz bastante factível. E começam a se mexer nessa direção.

As primeiras pesquisas sobre carros autônomos datam de 50 anos atrás e tinham fins militares. O primeiro sinal de que esse tipo de veículo poderia um dia chegar às ruas veio em 2005. Naquele ano, um VW Touareg, adaptado pela Universidade Stanford e batizado Stanley, venceu o 2° Darpa Challenge – prêmio de US$ 2 milhões, oferecido pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. No ano anterior, nenhum veículo conseguira completar o percurso mínimo exigido de 212 km sem motorista. Atualmente, 13 anos depois, o SUV, com sensores espalhados pelo teto e o porta­malas abarrotado de computadores, parece um dinossauro perto dos novos autônomos.

A eletrificação dos veículos, a revolução digital e a falta de interesse das novas gerações pela condução e posse de carros criaram o caldo de cultura necessário para que os autônomos se tornassem prioridade na indústria automotiva. “Um novo ecossistema está surgindo na área da mobilidade, no qual novos players e políticas de Estado já são tão importantes quanto as tradicionais montadoras e sistemistas”, diz Besaliel Botelho, CEO da Robert Bosch na América Latina. Nascida na Alemanha, no século 19, a companhia é um exemplo de reinvenção constante na área da mobilidade. Empresas especializadas em automação e conectividade, como Bosch, Continental e ZF, são cortejadas para trabalhar junto com montadoras e com os novos players da era digital. Não mais apenas como fornecedores, mas como parceiros estratégicos. “As fabricantes de carros perceberam que os custos de desenvolvimento são proibitivos para agirem de forma isolada, gerando parcerias entre marcas rivais e com os novos players”, conta Johannes Roscheck, CEO da Audi do Brasil. “Ao mesmo tempo, empresas como Apple e Google, que cogitaram entrar no ramo automotivo, perceberam a complexidade do negócio e passaram a exercer um papel importante em suas especialidades, porém complementar à de produção de veículos.”

Das três megatendências de mobilidade (eletrificação, compartilhamento e automação), a auto condução é a que mais desafios tem a vencer. Por enquanto, só chegaram ao mercado os semiautônomos. “A maior barreira é o custo do desenvolvimento”, argumenta Jean Silva, diretor para a América Latina da Here Technologies, líder no desenvolvimento global de mapas em nuvem. “Cada carro autônomo precisa de cerca de 300 sensores de alta complexidade, além das câmeras e da central de inteligência, um processador mais sofisticado do que a maioria dos computadores empresariais.” Os mapas em nuvem da Here estão na maioria dos modelos premium europeus, e têm como característica não serem planos, como os do Google Maps ou Waze, mas em relevo. “Esse modelo de mapeamento é crucial nos cálculos de autonomia dos modelos elétricos, e também será na conexão dos carros autônomos entre si e nas atualizações das condições de tráfego e de rodagem, quando a quinta geração de internet móvel [5G] estiver popularizada”, explica Silva. A Here nasceu americana como Navteq nos anos 80, foi comprada pela finlandesa Nokia em 2007 e desde 2015 é controlada por um consórcio formado pelas alemãs BMW, Daimler (dona da Mercedes-Benz) e Audi. Isso comprova a importância das sinergias em pesquisas entre as empresas de tecnologia e as montadoras.

A Audi, aliás, é a marca do Grupo Volkswagen escolhida para ser ponta de lança nos projetos de eletrificação e automação. O sedã de luxo A8, recém-lançado na Europa, e em breve no Brasil, é o único modelo à venda no mundo que tem chance de ser homologado em breve com o nível 3 de automação – quando o veículo é capaz de assumir o controle total e operar partes de uma viagem sem intervenção do motorista. “Ele tem toda a tecnologia para isso, mas o assunto é desafiador até para as autoridades europeias de trânsito, que estão fazendo vários testes de segurança antes de confirmar que ele é nível 3”, explica Johannes Roscheck.

A marca alemã já vende aqui o Audi Q7, de nível 2, que permite tirar as mãos do volante por 15 segundos. Já no Audi A8, o motorista poderá esquecer o volante, até ser alertado para alguma intervenção. Questionado se o fim dos carros com motorista não será um duro golpe para marcas premium, reconhecidas pelo prazer que proporcionam a quem as dirige, Roscheck acredita que o modelo de negócio mudará radicalmente, mas manterá uma lógica parecida com a de hoje. “Haverá os autônomos mais simples, de uso urbano, mas também os mais sofisticados”, prevê ele. “É como na aviação. Muitas pessoas procuram companhias melhores e assentos mais confortáveis. Com carros autônomos, muitos vão preferir marcas que ofereçam uma experiência premium, seja na rodagem, seja nos serviços a bordo, seja nos aspectos sensoriais.”

Novidades sobre auto condução aparecem quase diariamente. Em julho, a Ford anunciou a criação de uma subsidiária específica para carros autônomos, a Ford Autonomous Vehicles LLC. A nova estrutura receberá investimentos de US$ 4 bilhões até 2023 e estará sediada numa antiga fábrica transformada em campus pela Ford, em Detroit, nos Estados Unidos. A montadora americana já tinha uma fatia da startup Argo AI, focada em tecnologias de automação. Além disso, desde o ano passado, mantém uma frota de sedãs Fusion entregando pizzas em sua cidade-sede, Ann Arbor, em Michigan, numa parceria com a rede de pizzarias Domino’s. Os carros não têm motorista, apenas um pesquisador a bordo anotando os prós e contras da ação, que será estendida para outras cidades americanas ainda este ano.

Se a Ford abriu uma divisão própria, a rival GM preferiu comprar em 2016 uma empresa que já estava avançada no quesito automação, a americana Cruise Automation. Por ocasião da aquisição, Mary Barra, a diretora executiva e presidente da companhia, disse que a nova empresa está sendo gerida como se fosse uma startup. “Nossa visão é estar à frente do processo para um futuro com zero emissões, zero acidentes e zero congestionamentos”, defende Carlos Zarlenga, presidente da GM Mercosul. Em maio, o fundo Soft Bank comprou quase 20% da nova GM Cruise LLC, fazendo um aporte de US$ 2,25 bilhões. Boa parte desse montante será usado nos processos de homologação do veículo, hoje um grande desafio para as fabricantes. A ideia é lançar comercialmente o modelo Cruise AV até o final de 2019.

Para Botelho, da Bosch, o desenvolvimento já chegou a um nível que demanda a participação ativa de governos. Em nível federal, para apontar rumos e estratégias aos fabricantes. Em níveis estadual e municipal, para estabelecer normas. Quais serão as regras e tributos? De quem será a culpa de acidentes envolvendo carros sem motorista? Como agirão as empresas de seguro? Haverá pistas exclusivas? Vagas reservadas de estacionamento? Praças especiais de pedágio? E se por acaso houver uma autuação? E se um deles quebrar no meio de um cruzamento?

Os automóveis estão prontos para testes, mas é preciso baixar as expectativas em relação a eles. “Para que um veículo autônomo seja o mais seguro possível, a inteligência artificial dele precisa ser treinada por milhares e milhares de horas e dentro de todas as possíveis e imagináveis circunstâncias que o carro poderá um dia enfrentar na rua”, argumenta Richard Cameron, presidente da Nvidia do Brasil. “Um carro autônomo mal testado é similar a deixar uma pessoa recém-habilitada pilotar um superesportivo de 500 cavalos.” Ou seja, um tremendo perigo. Líder do Vale do Silício em inteligência artificial, a Nvidia criou um mundo virtual com cidades, estradas, pessoas, ciclistas, motociclistas, caminhões e todas as condições do mundo real para “treinar” os sistemas dos autônomos. Recentemente, a Daimler e a Bosch selecionaram a plataforma Nvidia Drive Pegasus para desenvolvimento de seus sistemas mais avançados de autonomia.

Há muito ainda a ser feito. “Não se pode passar a impressão de que, em breve, uma frota de carros autônomos infalíveis ganhará as ruas”, defende Juliano Machado, diretor das marcas Chrysler, Dodge e Ram para a América Latina. “Serão muitos anos de desenvolvimento, adaptações e transição.” A minivan Chrysler Pacifica, em estudos para ser importada para o Brasil em substituição à Town & Country, foi escolhida como laboratório de testes de eletrificação e autonomia pela Fiat Chrysler Automobiles (FCA), em parceria com a Waymo, subsidiária de autônomos da Alphabet, holding que controla o Google.

O motorista sumiu....2

A solução, por enquanto, é realizar testes em cidades com prefeitos mais visionários, que criam oportunidades para receber investimentos e gerar empregos. Em agosto, a Waymo testa, em parceria com o Walmart e a rede de shopping centers DDR, o transporte de passageiros em minivans autônomas para suas lojas de varejo. Inicialmente, os modelos Chrysler Pacifica vão operar apenas em uma região suburbana de Phoenix, no Arizona, que tem um acordo de colaboração com a Waymo. Até o fim deste ano, a Waymo também vai iniciar testes com o carro elétrico (e autônomo) Jaguar I-Pace, na Califórnia. A meta é ter até 20 mil unidades deste SUV rodando até 2020. Nesse mesmo estado americano, as alemãs Mercedes-Benz e Bosch vão testar carros sem motorista em parceria com a Nvidia.

Como se vê, fidelidade não é o forte dos namoros entre avelha indústria automotiva e o os novos gigantes digitais. A Nvidia também é parceira da Zenuity, empresa criada pelas suecas Volvo e Autoliv (equipamentos de segurança) para desenvolver carros autônomos. O objetivo é colocar carros com níveis avançados de automação no mercado até 2021, quatro anos antes do que pretende a japonesa Honda em sua parceria com a… Waymo.

De todos os testes com autônomos, o mais ousado está sendo preparado pela Land Rover, pois foge do ambiente de asfalto das cidades e estradas. O projeto Cortex desenvolverá a tecnologia de condução sem motorista em condições de terreno das mais adversas, por meio de algoritmos, evolução de sensores e testes físicos em pistas off-road no Reino Unido. Participam da empreitada, além da marca inglesa, a Universidade de Birmingham, líder em pesquisas sobre radar e sensores, e também a empresa Myrtle AI, especializada em inteligência artificial.

De acordo com Juan Manuel Hoyos, diretor de marketing da Nissan América Latina, uma pesquisa feita com clientes de cinco países da região identificou que 80% comprariam um carro elétrico, caso ele tivesse preço razoável e boa infraestrutura para uso. Para autônomos, a aceitação cai para 69%. Frise-se, ainda, que a pesquisa foi feita pouco antes do acidente fatal com o autônomo da Uber, em março passado. “Já temos mais de 75 mil modelos vendidos com nosso sistema ProPilot no mundo, de automação nível 2, e queremos aos poucos trazer essa tecnologia também para a América do Sul”, diz Hoyos.

A realidade parece distante do Brasil. “Ficar de fora desse processo seria desastroso para nosso país e nossa indústria, pois os players são globais e vão investir onde houver mais disposição dos governos”, afirma Botelho, da Bosch. Para ele, é importante mostrar isso aos brasileiros. Por isso, a empresa é a patrocinadora principal da arena New Mobility Trends & Future, um espaço no Salão do Automóvel de São Paulo, onde serão exibidas e debatidas, em novembro, as novas tendências de carros elétricos, autônomos e compartilhados.

O motorista sumiu....3.jpg

GESTÃO E CARREIRA

VOCÊ SABE CONTRATAR A PESSOA IDEAL PARA SUA EMPRESA?

Recrutar novos colaboradores para o time da empresa não é tarefa fácil. Requer tempo, habilidade, disposição e uma análise minuciosa antes de bater o martelo. Mas nem sempre os gestores sabem o que estão procurando ou para onde vão neste momento, por isso é importante que se defina o passo a passo antes de começar o processo seletivo. Abaixo, faça o teste e veja se você está no caminho certo.

Você sabe contratar a pessoa ideal para sua empresa

FONTES DE RECRUTAMENTO

Elaboração de anúncios.

Seleção e análise de currículos.

Atendimento de candidatos.

Recrutamento interno.

Recrutamento externo.

Contratações via prestadores de serviços, consultorias, entre outros.

1. O contratante se envolve no Recrutamento e Seleção da mão de obra em todos os níveis hierárquicos?

A. Frequentemente

B. Muitas vezes

C . Poucas vezes

D. Nunca ou raramente

 

PERFIL DA VAGA

A pessoa responsável pelo recrutamento dispõe de uma descrição de cargo para dar suporte ao perfil da vaga.

A seleção do candidato está baseada no perfil da vaga, considerando todas as atribuições e descrições do cargo.

2. Todas as exigências regulares do processo são aplicadas para todas as contratações com base no Perfil?

A. Frequentemente

B. Muitas vezes

C. Poucas vezes

D. Nunca ou raramente

 

PLANEJAMENTO DA TRIAGEM

Com preparação, roteiro, pauta e objetivo da entrevista.

Ter conhecimento prévio do candidato que será entrevistado.

Ter ambiente favorável.

Conduzir a triagem de acordo com o perfil da vaga.

3. A triagem dos candidatos é feita rigorosamente com base no perfil da vaga e etapas do processo de seleção?

A. Frequentemente

B. Muitas vezes

C. Poucas vezes

D. Nunca ou raramente

 

TESTES PSICOLÓGICOS

De acordo com cada função que deve ser submetida aos testes psicológicos, ter testes e gabaritos específicos.

Ter profissionais qualificados para aplicação, avaliação e laudo, de acordo com cada função.

4. Existem profissionais capacitados para aplicação dos testes específicos?

A. Frequentemente

B. Muitas vezes

C. Poucas vezes

D. Nunca ou raramente

 

TESTES PRÁTICOS

Os testes práticos são executados e avaliados por profissionais habilitados para tal análise. Existe um padrão de testes para cada função, com gabarito para análise de resultados.

5. Todas as contratações passam pela avaliação de testes práticos quando requer esta análise?

A. Frequentemente

B. Muitas vezes

C. Poucas vezes

D. Nunca ou raramente

 

DINÂMICAS DE GRUPO

Dinâmicas de grupo são aplicadas aos cargos cabíveis para esta avaliação.

Dinâmicas aplicadas por profissionais capacitados para avaliação destas práticas.

6. O contratante se preocupa em ter profissionais capacitados para aplicação e avaliação das dinâmicas?

A. Frequentemente

B. Muitas vezes

C. C. Poucas vezes

D. Nunca ou raramente

 

ENTREVISTAS TÉCNICAS

Devem ocorrer com os gestores da área requisitante da mão de obra. Estes irão avaliar e comparar a descrição de cargo em relação ao perfil da vaga e analisar demais condições do candidato para as tarefas.

7. Candidatos são submetidos às entrevistas técnicas com gestores da Área Requisitante para avaliação técnica?

A. Frequentemente

B. Muitas vezes

C. Poucas vezes

D. Nunca ou raramente

 

ESTAGIÁRIOS

Estagiários e contratados de prestação de serviço devem passar pelas etapas dos processos seletivos com o mesmo rigor de um funcionário efetivo.

A mão de obra estagiária ou temporária pode ser efetivada.

8. Você se preocupa com a qualidade dos processos para estagiários e terceiros?

A. Frequentemente

B. Muitas vezes

C. Poucas vezes

D. Nunca ou raramente

 

Exames médicos específicos. Antes da admissão, existem exames específicos para certas funções que determinam se o candidato está apto para exercer tais funções.

Audiometria, teste visual e outros, de acordo com a função.

9. Existem profissionais habilitados para encaminhamentos dos respectivos exames admissionais?

A. Frequentemente

B. Muitas vezes

C. Poucas vezes

D. Nunca ou raramente

 

FEEDBACK

Ao final do processo. todos os candidatos devem ter a consideração de receber o feedback.

A comunicação ao final do processo deve ser feita diretamente ao candidato ou através de mensagem.

10. Você informa feedback para todos os candidatos ao final do processo?

A. Frequentemente

B. Muitas vezes

C. Poucas vezes

D. Nunca ou raramente

 

RESULTADO

DE 8 A 10 RESPOSTAS A / B

Se você respondeu A e B para pelo menos 80% das questões, demonstra comprometimento em buscar os profissionais mais ajustados ao perfil de cada vaga aberta. Também demonstra que está coerente com as etapas que procuram minimizar erros nas capacitações, habilidades e comportamentos que podem ser avaliados durante o processo seletivo. É muito importante que a alta direção da empresa forneça respaldo ao departamento de RH para cumprir uma boa triagem, testes psicológicos e práticos, entrevistas com os profissionais das áreas requisitantes, gestores e diretoria. Dessa forma, o candidato pode ser analisado por diferentes profissionais que conhecem as necessidades da empresa e as tarefas que serão desenvolvidas. Um processo seletivo bem conduzido minimiza os riscos de substituição de mão de obra e busca acertar na escolha de pessoas ajustadas às necessidades da empresa.

 

DE 1 A 7 RESPOSTAS A / B

Menos de 80% de respostas A e B nas avaliações do teste indica que bater o martelo para uma contratação sem checar todas as etapas capazes de ajudar a minimizar erros pode trazer prejuízos. Contratações feitas de forma errada implicam em reposição de mão de obra, desperdício com integração, treinamento e tempo dos profissionais envolvidos. Por esse motivo, é muito importante que o processo seletivo tenha o máximo de critérios bem analisados. As etapas, desde as fontes de recrutamento até a contratação, devem ser rigorosamente exploradas. Quanto mais competente for o profissional envolvido em cada etapa do processo, maior a chance de haver uma boa investigação dos candidatos. Contratações feitas através de consultorias devem obedecer aos mesmos critérios.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 21: 20-25 – PARTE II

alimento diário

A Conversa de Cristo com Pedro. A Conclusão do Evangelho de João

 

II – Aqui temos a conclusão deste Evangelho, e com ele, a conclusão da história evangélica, vv. 24,25.

Este evangelista não conclui seu Evangelho tão abruptamente como os outros três, mas com um tipo de cadência.

1. Este Evangelho é concluído com uma explicação do seu autor ou escritor, conectada, por meio de uma transição adequada, ao que veio anteriormente (v. 24): “Este é o discípulo que testifica dessas coisas” para a época atual, e as escreveu para o benefício da posteridade, o mesmo discípulo sobre o qual Pedro e seu Mestre tiveram aquela conversa nos versículos anteriores – João, o apóstolo. Observe aqui que:

(1) Aqueles que escreveram a história de Cristo não se envergonharam de assiná-la com seus nomes. Aqui João, na verdade, assina seu nome. Assim como nós temos certeza de quem foi o autor dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento, que foram o alicerce daquela revelação, também temos certeza de quem foram os escritores dos quatro Evangelhos e do Livro de Atos, o Pentateuco do Novo Testamento. O registro da vida e morte de Cristo não é o relato de “não sabemos quem”, mas foi redigido por homens de conhecida integridade, que estavam dispostos não somente a testemunhar sob juramento, mas, além disto, a selá-lo com seu sangue.

(2) Aqueles que escreveram a história de Cristo, escreveram sobre seu próprio conhecimento, não com base em rumores, mas aquilo de que eles mesmos foram testemunhas oculares e auditivas. O escritor desta história era um discípulo, um discípulo amado, alguém que tinha se inclinado sobre o peito de Cristo, que tinha ouvido pessoalmente seus sermões e suas conversas, tinha visto seus milagres e as provas da sua ressurreição. Este é aquele que testificou a respeito de fatos de que estava completamente seguro.

(3) Aqueles que escreveram a história de Cristo, assim como testificaram o que tinham visto, também escreveram sobre o que antes tinham testificado. A história foi divulgada oralmente, com a maior certeza, antes que fosse escrita. Eles a testificaram no púlpito, nos tribunais, solenemente a declarando, a firmemente confessando, não como os viajantes dão um relato das suas viagens, para divertir os ouvintes, mas como as testemunhas sob juramento que apresentam uma narrativa do que sabem sobre um assunto, sabendo que suas palavras terão sérias consequências, com a máxima precaução e exatidão, para fundamentar um veredicto. Aquilo que eles escreveram, o escreveram como um depoimento, ao qual obedeceriam. Seus escritos são testemunhos permanentes da verdade da doutrina de Cristo para o mundo, e serão testemunhos a nosso favor ou contra nós, conforme nossa atitude, se os aceitarmos ou não.

(4) Foi graciosamente indicado, para suporte e benefício da igreja, que a história de Cristo devesse ser escrita, para que ela pudesse, com maior plenitude e certeza, ser transmitida a todos os lugares, e permanecer para sempre, por todas as épocas.

2. Este Evangelho é concluído com uma declaração da verdade daquilo que aqui foi relatado: “Sabemos que o seu testemunho é verdadeiro”. Isto pode ser interpretado, ou:

(1) Como uma expressão do senso comum da humanidade em questões desta natureza, qual seja, que o testemunho ocular de alguém que tenha uma reputação imaculada, que depõe solenemente sobre aquilo que ele viu, e que é escrito para maior certeza, é uma evidência inquestionável. Nós sabemos, isto é, todo o mundo sabe, que o testemunho de tal pessoa é válido, e a fé comum da humanidade nos obriga a dar crédito a ela, a menos que possamos refutar seu testemunho. E, caso ninguém venha a contradizer estes testemunhos, são da­ dos veredictos e julgamentos com base neles. A verdade do Evangelho vem confirmada por todas as evidências que podemos racionalmente desejar ou esperar, em algo desta natureza. A verdade de que Jesus realmente pregou tais doutrinas, e realizou tais milagres, e ressuscitou dos mortos, está provada, sem contradição, pelas evidências, como sempre se admite em outros casos, e, portanto, serve para a satisfação de todos os que são imparciais. E também é certo que a doutrina recomende a si mesma, e que os milagres provem que ela é de Deus. Ou

(2) Como uma expressão da satisfação das igrejas daquela época a respeito da veracidade daquilo que aqui é relatado. Alguns entendem que isto se refere ao endosso da igreja de Éfeso. Outros entendem que a referência seja ao endosso dos anjos ou ministros das igrejas da Ásia a esta narrativa. Não que um texto inspirado necessitasse de qualquer atestado dos homens, ou pudesse, com isto, receber qualquer acréscimo à sua credibilidade. Mas, desta forma, eles o recomendavam ao conhecimento das igrejas, como um texto inspirado, e declaravam a satisfação que receberam dele. Ou

(3) Como uma expressão da própria certeza do evangelista, da verdade daquilo que ele tinha escrito (cap. 19.35), pois ele “sabe que é verdade”. Ele fala de si mesmo no plural, “sabemos”, não para expressar uma forma majestosa, mas por modéstia, como em 1 João 1.1: “O que vimos”, e em 2 Pedro 1.16. Observe que os próprios evangelistas estavam integralmente satisfeitos com a verdade do que testemunharam e transmitiram a nós. Eles não exigem que creiamos naquilo em que eles mesmos não creram. Não, eles sabiam que seu testemunho era verdadeiro, pois eles arriscaram tanto esta vida quanto a próxima nisto. Eles abandonaram esta vida e passaram a depender completamente da vida porvir, crendo e confiando na­ quilo que diziam e escreviam.

3. Este Evangelho é concluído com um et cetera, com uma referência a muitas outras coisas, muito memoráveis, ditas e feitas pelo nosso Senhor Jesus, que eram todas bastante conhecidas por muitos que viviam então, mas seu registro para a posteridade não foi julgado adequado, v. 25. Houve muitas coisas bastante notáveis e benéficas, que, se fossem escritas de forma ampla, com suas diversas circunstâncias, mesmo o mundo propriamente dito, isto é, todas as bibliotecas existentes, não poderia conter os livros que se escrevessem. Desta maneira, ele conclui como um orador, como Paulo (Hebreus 11.32): “E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo”. Se alguém perguntasse por que os Evangelhos não são maiores, por que a história do Novo Testamento não foi tão copiosa e tão longa quanto a do Antigo Testamento, a resposta poderia ser:

(1) Não foi porque eles tivessem esgotado seu assunto, e não tivessem nada mais para escrever que fosse digno de ser escrito. Não, houve muitas das palavras e obras de Cristo, não registradas por nenhum dos evangelistas, que seriam merecedoras de ser escritas com letras douradas. Pois:

[1] Tudo o que Cristo disse e fez era digno do nosso conhecimento e aproveitável. Ele nunca pronunciou uma palavra vã, nem fez algo inútil. Não, Ele nunca disse nem fez nada inferior, ou pequeno, ou insignificante, o que é mais do que pode ser dito sobre o mais sábio ou o melhor dos homens.

[2] Seus milagres foram muitos, inúmeros, de diversos tipos, e os mesmos, frequentemente repetidos, conforme houvesse oportunidade. Embora um verdadeiro milagre talvez pudesse ser suficiente para provar uma comissão divina, ainda assim a repetição dos milagres, na vida de uma grande variedade de pessoas, em uma grande variedade de casos, e diante de uma grande variedade de testemunhas, ajudou muito a provar que eram verdadeiros milagres. Cada novo milagre tornava mais digno de crédito o relato do milagre anterior; e a grande quantidade deles torna incontestável o relato na sua íntegra.

[3] Os evangelistas, em diversas ocasiões, fizeram relatos gerais da pregação e dos milagres de Cristo, inclusive de muitos pormenores, como em Mateus 4.23,24; 9.35; 11.1; 14.14,36; 15.30; 19.2, e muitas outras passagens. Quando falamos a respeito de Cristo, temos diante de nós um assunto copioso. A realidade excede o relato, e, afinal, nem a metade nos foi dita. O apóstolo Paulo cita um dos dizeres de Cristo que não está registrado por nenhum dos evangelistas (Atos 20.35), e sem dúvida houve muitos mais. Todos os seus dizeres foram extremamente importantes.

(2) Mas isto se deu por três motivos:

[1] Porque não era necessário escrever mais. Isto está implícito aqui. Houve muitas outras coisas que não foram escritas por­ que não houve oportunidade para escrevê-las. O que está escrito é uma revelação suficiente da doutrina de Cristo, e da sua comprovação. E o restante apenas teria o mesmo propósito. Aqueles que, com base nisto, argumentam contra a suficiência das Escrituras como a regra da nossa fé e prática, e a favor da necessidade de tradições não-escritas, deveriam mostrar o que há, nas tradições, que eles pretendem que venha a aperfeiçoar a Palavra escrita. Nós estamos certos de que, em tais tradições, existe o que é contrário à Palavra escrita, e por isto o rejeitamos. Por estas pessoas, portanto, sejamos admoestados, pois “não há limite para fazer livros”, Eclesiastes 12.12. Se não crermos e nos beneficiarmos com o que está escrito, não o faríamos se houvesse muito mais.

[2] Não era possível escrever tudo. Era possível, para o Espírito, compor tudo. Mas era humanamente impossível, para os escritores, escrever tudo. O mundo não poderia conter os livros. Entendemos que esta seja uma hipérbole suficientemente comum e justificável, que tem a finalidade de dizer que este material, se redigido, encheria uma vasta e inacreditável quantidade de volumes. Seria uma história grande e excessivamente longa, como nunca houve igual, de modo a acotovelar todos os outros textos, e não deixaria espaço para eles. Quantos volumes seriam preenchidos com as orações de Cristo, se nós tivéssemos o registro de todas as orações que o Senhor fez quando passou noites inteiras orando a Deus, o Pai, sem nenhuma vã repetição? Muitos mais, se todos os seus sermões e suas conversas fossem detalhadamente relatados, bem como seus milagres, suas curas, todo o seu trabalho e todos os seus sofrimentos. Esta obra teria sido interminável.

[3] Não era aconselhável escrever muito, pois o mundo, em um sentido moral, não poderia conter os livros que se escrevessem. Cristo não disse o que Ele poderia ter dito aos seus discípulos, porque eles não eram capazes de suportá-lo. E, pela mesma razão, os evangelistas não escreveram tudo o que poderiam ter escrito. O mundo não poderia conter, choresai. É a palavra usada em João 8.37: “A minha palavra não entra em vós”. Elas teriam sido tantas, que não teriam encontrado espaço. Todo o tempo das pessoas teria sido passado na leitura, e outros deveres, portanto, teriam sido abandonados. Muito é ignorado do que está escrito, muito é esquecido, e muito é tornado questão de discussão duvidosa. Este teria sido o caso, muito mais, se tivesse havido tal mundo de livros, de igual autoridade e necessidade, dos quais toda a história teria se inchado, especialmente uma vez que era necessário que o que estava escrito fosse meditado e explicado, coisa para a qual Deus sabiamente julgou adequado deixar espaço. Os pais e ministros, ao educar, devem considerar a capacidade daqueles a quem ensinam e, como Jacó, devem tomar cuidado para não dirigir as situações excessivamente. Sejamos gratos pelos livros que estão escritos, e não os valorizemos menos pela sua simplicidade e brevidade, mas aproveitemos diligentemente aquilo que Deus julgou adequado revelar, e tenhamos um anseio, que nosso entendimento esteja no nível mais elevado possível, onde nossas capacidades sejam ampliadas e elevadas sem que haja o perigo de serem sobrecarregadas.

O evangelista, concluindo com “amém”, coloca seu selo sobre estas palavras, e que coloquemos, então, nosso selo sobre elas através de um “amém” de fé, endossando o Evangelho, expressando que ele é verdadeiro, e completamente verdadeiro em todos os seus detalhes, em todas as suas partes. E expressemos um “amém” de satisfação por aquilo que está escrito, pois é assim que podemos nos tornar sábios para a salvação. Amém. Assim seja.