PSICOLOGIA ANALÍTICA

O PODER DO TOQUE

O contato agradável nos encoraja a investir nas interações sociais e a construir laços duradouros. O sistema de nervos que responde a afagos suaves, por um bom tempo negligenciado pela ciência, pode ser crucial para a habilidade de formar e fortalecer vínculos afetivos.

O poder do toque

Pense numa cena emocionante de sua vida. É bastante provável que grande parte da forte sensação desse momento esteja relacionada, ainda que indiretamente, ao tato. Há muito sabemos que o toque é importante para nutrir os relacionamentos – bebês criados em orfanatos, com poucas oportunidades de contato, morrem com muito mais frequência que crianças não sujeitas a essa privação, por exemplo. Os primeiros minutos que as mães desfrutam com seus filhos, mais os abraços e carícias nos anos que se seguem, sem dúvida, contribuem significativamente para aprofundar os laços afetivos.

Tradicionalmente, o tema tem sido pesquisado pela neurociência, pela psicologia e pela psicanálise. Estudiosos já propuseram diversas teses pertinentes e relevantes, como a teoria do apego e o aumento da oxitocina. No entanto, essas hipóteses não esclarecem completamente o poder imediato do toque. Até recentemente, neurocientistas focavam apenas a natureza discriminatória da percepção táctil – tentando entender, por exemplo, de que maneira o toque nos permite saber se a pele de um bebê precisa de cobertor ou se está febril. Eles argumentavam que os aspectos emocionais apareceriam mais tarde, depois que o cérebro processava a sensação e tinha centenas de milissegundos para adicionar o contexto sentimental.

Essa visão mudou há alguns anos, quando um grupo pequeno de cientistas bastante determinados propôs que algo fundamental acontecia já nos instantes após o nascimento. Vários estudos constataram uma dimensão profunda do contato físico, separada da função discriminativa. Esse sistema recém-descoberto, chamado pelos pesquisadores de toque afetivo ou emocional, é composto por fibras nervosas acionadas exatamente pelo tipo de carícia amorosa que uma mãe faz em seu filho. A constatação é que as bases neurobiológicas do afeto desempenham papel muito mais significativo no comportamento humano do que acreditávamos, a ponto de estreitar laços e até mesmo aumentar as chances de sobrevivência. Essas fibras podem também ajudar o psiquismo a construir e a integrar a percepção de si e do outro, informando a consciência sobre nosso próprio corpo e a habilidade de nos relacionarmos.

“O toque afetivo pode ajudar na compreensão do desenvolvimento do cérebro social; para a maioria das pessoas, o gesto permite que o sistema neural reconheça a si mesmo e tome contato com o outro”, diz o neurocientista Francis McGlone, pesquisador da Universidade John Moores Liverpool, na Inglaterra. “Do ponto de vista emocional, uma carícia suave nutre e sustenta boa parte da interação social.”

BÓSON DE HIGGS

Os neurônios presentes na pele absorvem informações sobre tudo o que entra em contato conosco através de uma infinidade de fibras e receptores sensoriais chamados mecanorreceptores, especializados na apreensão do toque. Como os cones e bastonetes dos olhos, que transmitem dados separadamente para compor a totalidade do que vemos, diferentes prolongações neurais respondem melhor a distintos tipos de contato. As fibras têm preferências: algumas gostam de pequenos empurrões, por exemplo, e outras de serem esticadas. A classe A-beta faz a maioria do trabalho de discriminação; essas prolongações neurais recobrem todo o corpo, principalmente a palma da mão. São revestidas por uma camada de mielina (espécie de “isolamento” de gordura), por isso são capazes de conduzir mensagens eléctricas do sistema nervoso rapidamente. Afinal, se você pisa em algo perigoso, velocidade é essencial. Fibras C, também relacionadas ao toque, são de um tipo diferente: desmielinizadas, transportam informações a um ritmo até 50 vezes mais lento do que suas vizinhas.

As fibras C, relacionadas com a dor e coceira, são as que receberam maior atenção científica até o momento (embora algumas informações sobre os estímulos dolorosos viajem rapidamente, a maior parte dos dados leva mais tempo, por isso , às vezes, há atraso entre o momento em que nos cortamos e sentimos incômodo). “Agora, encontramos mais fatores envolvidos”, diz McGlone, que começou sua carreira estudando a dor. Localizada apenas em regiões da pele com pelos (ou penugem), como o antebraço ou dorso (ao contrário de superfícies lisas, como a palma da mão ou do pé), a nova fibra, conhecida como aferente C-tátil (CT), transmite mensagens para o sistema nervoso central. As CT estão profundamente sintonizadas com movimentos suaves e temperatura confortável, afagos, carinho ou qualquer outra forma de contato leve e inofensivo. Respostas sexuais são diferentes, embora a linha entre o prazer do toque e a excitação seja difícil de definir porque a carícia sensual pode levar ao sexo. Tecnicamente, qualquer pressão abaixo de cinco milinewtons (tão leve quanto um cartão-postal) sobre a pele é qualificada como toque suave, relacionado com as fibras C, mecanorreceptores de baixo limiar.

A descoberta desses prolongamentos nervosos remonta a 1939, quando o neurofisiologista sueco Yngve Zotterman identificou fibras C na pele de um gato e percebeu que eram diferentes dos receptores que transmitem a dor. Inicialmente, Zotterman sus peitava que pudessem desempenhar algum papel na percepção das cócegas, embora pesquisas posteriores não tenham confirmado essa hipótese. No entanto, ninguém prestou muita atenção à descoberta e acreditava-se que, se existissem em humanos, deveriam ser sobras evolutivas.

A técnica de microneurografia (um método meticulosamente preciso para gravar a atividade elétrica das prolongações nervosas individuais com a ajuda de eletrodos muito finos) permitiu aos cientistas estudar as aferentes CT em humanos. O primeiro relatório abrangente sobre essas fibras presentes em rostos foi feito em 1990, novamente por cientistas suecos. Outro pesquisador, Áke Vallbo, um neurofisiologista da Universidade de Gotemburgo, logo encontrou um a neurofibra semelhante na pele (com pelos) do antebraço. Assim como outras fibras C desmielinizadas, essa respondeu lentamente, mas apenas a toques leves, e não à dor ou coceira. “Algo completamente novo”, diz o neurocientista Hâkan Olausson, pesquisador da Universidade Linkõping, na Suécia, que atualmente trabalha com McGlone, mas na época era doutorando no laboratório de Vallbo. A descoberta levou à pergunta que tem norteado os trabalhos sobre essas prolongações nervosas desde então: para que servem?

É óbvio o motivo pelo qual precisamos de um sistema para nos alertar sobre a dor. Sem isso, teríamos problemas para sobreviver. Olausson e Vallbo, porém, acreditavam que essas novas fibras não funcionavam da maneira que costumávamos pensar em relação ao toque. Segundo eles, talvez fossem menos relacionadas com a percepção e mais com o sentimento, e as recompensas de um toque agradável fossem além do bem-estar breve de um tapinha tranquilizador nas costas ou uma carícia sensual. Basicamente, diziam que os prazeres associados a contatos suaves poderiam incentivar a interação. “O sistema de recompensa cerebral favorece comportamentos benéficos para a sobrevivência; basta observar a evolução: organismos que trabalham em conjunto são muito mais bem-sucedidos, e essa união está ancorada na necessidade de contato físico íntimo”, diz McGlone.

Pesquisas sobre comportamentos de higiene de outros animais apoiam esse ponto de vista. O antropólogo e psicólogo evolucionista Robin Dunbar, professor da Universidade de Oxford, argumenta que esse hábito é a base da ligação social e do sucesso reprodutivo dos primatas. Com um experimento bastante conhecido, o neurocientista Michael Meaney, da Universidade McGill, demonstrou que as mães de ratos que lambem e limpam seus filhotes mais frequentemente criam animais menos propensos ao estresse e se tornam elas mesmas melhores cuidadoras.

Embora ainda haja muito que explorar sobre o assunto, tanto no comportamento humano como no de bichos, McGlone aposta nas possibilidades e implicações das aferentes CT. “Talvez o toque afetivo seja o bóson de Higgs do cérebro social.”

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UM POUCO DE TERNURA

Olausson, McGlone e seus colegas passaram boa parte dos últimos 20 anos reunindo propriedades das aferentes CT. McGlone, por exemplo, se questionava se era mesmo possível quantificar algo chamado de “toque agradável”. Desde 1999, ele e outros pesquisadores publicaram diversos estudos psicofísicos em que robôs escovavam o antebraço de pessoas a 0,5 cm, 5 cm ou 50 cm por segundo. Os participantes descreveram a segunda opção como a mais agradável. Em um experimento relacionado, os neurofisiologistas Johan Wessberg e Line S. Lõken, ambos então da Universidade de Gotemburgo, utilizaram a microneurografia para mostrar que a percepção prazerosa dos voluntários se refletiu na neurobiologia. As aferentes CT responderam mais vigorosamente ao movimento da escova a uma velocidade média de 5 cm por segundo, o que corresponde bem ao afago delicado de toques carinhosos – um tapinha tranquilizador nos ombros ou uma massagem nas costas, por exemplo. Um estudo, conduzido por uma colega, a neurocientista Rochelle Ackerley, da Universidade de Gotemburgo, corrobora os resultados que têm emergido sobre as aferentes CT, mostrando que essas estruturas estão sintonizadas com a temperatura também, preferindo exatamente a da pele, nem mais fria nem mais quente.

Em 2002, Olausson e seus colegas publicaram uma das primeiras e mais importantes descobertas sobre as aferentes CT, com base em estudos de uma paciente conhecida como “G.L.”, que tinha uma condição rara chamada neuronopatia, que a havia deixado sem aferentes mielinizadas, mas com fibras nervosas desmielinizadas intactas. Inicialmente, quando tinha o antebraço tocado por uma escova, o que deveria estimular as aferentes CT restantes, G.L. dizia não sentir nada, mas Olausson decidiu propor outra situação, em que o antebraço da voluntária era acariciado constantemente com o mesmo objeto, sem que ela pudesse ver o que acontecia. O neurocientista pediu à paciente que indicasse quando havia sido tocada. Ela acertou quase 100% das vezes. Claramente, foi capaz de detectar essa suave carícia, mas tinha tão pouca experiência com as nuances da sensação que não conseguiu identificá-las logo no início.

Depois de algum tempo, G.L. começou a reconhecer o toque gentil e a descrevê-lo como agradável. O mesmo tipo de contato com a escova na pele da palma da mão, onde não há aferentes CT, não produziu nenhuma resposta. Quando os pesquisadores realizaram teste idêntico na paciente em um aparelho de ressonância magnética funcional, observaram que não havia nenhuma atividade na área do cérebro que costuma responder ao toque, o córtex somatossensorial. Em vez disso, houve resposta do córtex insular, ligado ao sistema límbico, considerado importante para o monitoramento das emoções e a percepção do próprio corpo, a interocepção. Essa função fisiológica nos permite perceber estados internos, como fome e exaustão, construindo uma consciência interna muito útil. Um segundo paciente da Inglaterra com neuronopatia confirmou os resultados.

A ativação do sistema límbico revelada pelo s estudos de imagem foi uma evidência significativa em favor da teoria original de Olausson e Vallbo, de que as aferentes CT tinham mais a ver com os sentimentos do que simplesmente com as sensações.

Em 2011, Olausson relatou o caso de uma família do norte da Suécia com um distúrbio hereditário que resulta em fibras nervosas mielinizadas normais, mas também numa perda substancial de fibras C desmielinizadas – essencialmente, o oposto do problema de G. L. Como esperado, essas pessoas foram capazes de identificar o contato em termos de discriminação de sensações táteis, embora não pudessem senti-lo como algo agradável, independentemente da velocidade. (Elas demonstravam também sensibilidade reduzida à dor e à temperatura.) “Era quase como um estudo sobre lesão. Você remove os aferentes, e, então, o toque se torna menos prazeroso”, recorda Olausson.

Mais recentemente, o laboratório do neurocientista voltou a se concentrar nas carícias em relação aos bebês. O toque e o primeiro sentido que surge no útero, e, embora esteja longe de estar maduro no nascimento, é o mais desenvolvido nesse momento. Em um estudo apresentado na reunião da Sociedade de Neurociência de 2014, em Washington, D.C., uma colega de Olausson, a neurocientista Emma Jõnsson, da Universidade de Gotemburgo, utilizou a espectroscopia de infravermelho próximo funcional (fNIRS), um método não invasivo de imagens do cérebro, para mostrar que recém­ nascidos podem detectar carícias que estimulam as aferentes CT, mas não um toque rápido de uma escova, o que indica que esse sistema sensorial secundário de fato já está presente no nascimento. A equipe está expandindo a pesquisa para avaliar a sensibilidade ao toque de crianças de seis anos ou mais. Os pesquisa­ dores acreditam que o afago pode ser a chave para o vínculo entre mãe e filho. “Provavelmente, recém-nascidos têm um mecanismo que lhes diz que devem ficar perto de seus cuidadores, algo que favorece principalmente a aproximação da mãe”, diz Olausson.

QUANDO O SISTEMA FALHA

As investigações sobre os benefícios afetivos relacionados ao contato têm ganhado maior solidez. Agora, os cientistas começam a estudar o que pode acontecer se o sistema que envolve essas carícias falhar. Afinal, se o contato físico desempenha um papel fundamental na conexão social, talvez as pessoas com dificuldade em formar vínculos respondam de forma diferente a afagos suaves que outros acham tão agradáveis.

O neurocientista e especialista em autismo Kevin A. Pelphrey, diretor do Centro de Desenvolvimento de Neurociência Translacional da Universidade Yale, foi estimulado por McGlone a considerar o tema em seu trabalho. “Para mim, estava muito claro que o toque afetivo pudesse desempenhar um papel importante nessa síndrome, já que o sistema sensorial se comunica com o límbico”, diz Pelphrey. “Suspeitamos há muito tempo que essa região cerebral seja diferente no autismo; eu me perguntava se seria outra rota pela qual a informação é processada e se há alterações na síndrome.”

Em 2013 Pelphreye seus colegas publicaram os resultados de um estudo em que submeteram 19 voluntários saudáveis a uma máquina de fMRI enquanto eram tocados no braço por uma escova em velocidade ora lenta, ora rápida. Os pesquisadores observaram que algumas áreas sociais do cérebro, como o córtex insular, o córtex orbito frontal e o sulco temporal superior (uma região de especial interesse para o autismo), reagiram mais fortemente aos afagos lentos e suaves do que aos rápidos. Os participantes que não tinham a síndrome também preencheram um questionário que media comportamentos sociais. Aqueles com tendência a traços autísticos mostraram respostas moderadamente silenciosas para o toque lento com a escova.

Agora o grupo de Pelphrey estuda diferenças entre crianças com e sem autismo. Segundo ele, se o sistema sensorial afetivo de pessoas com a síndrome tiver alterações, isso pode ser um indício de que o distúrbio é deflagrado muito cedo no desenvolvimento fetal. Para testar se esse mecanismo secundário poderia servir de biomarcador precoce confiável para o autismo, Pelphrey decidiu utilizar a fNIRS para monitorar a resposta ao toque no nascimento. “O equipamento tem nos ajudado a estudar recém-nascidos ao longo do tempo”, acredita. Se e quando esses bebês desenvolverem autismo, a equipe de Pelphrey poderá voltar aos testes iniciais e conferir se havia algum sinal aparente.

A ligação entre o toque afetivo e a interocepção abre outra área de pesquisa: a adicção. O psiquiatra Martin Paulus, do Instituto de Pesquisa do Cérebro Laureate, em Tulsa, Oklahoma, investiga como poderia usar as aferentes CT para sondar a neuroanatomia de dependentes químicos ou em risco de adicção. Os primeiros resultados, publicados em dois estudos em 2013, mostram que indivíduos com problemas de abuso de substância tiveram reações neurais exageradas em relação ao toque afetivo, principalmente no córtex insular. Segundo Paulus, essa resposta intensificada ao contato pode indicar uma necessidade crescente de outras formas de estimulação forte, o que poderia, por sua vez, explicar o apelo de drogas para essas pessoas.

Porém, um grupo de indivíduos dependentes químicos sóbrios há alguns meses mostrou o inverso: reação reduzida ou embotada ao toque afetivo. “Todo o sistema fica atrofiado, talvez como consequência do uso de drogas”, afirma o psiquiatra. Um estudo com adolescentes saudáveis, publicado em 2014, também encontrou aumento da sensibilidade ao contato nesse grupo quando comparados com adultos entre 20 e 55 anos, o que pode motivar os mais jovens a procurar experiências que envolvem contatos físicos agradáveis.

Como Pelphrey, Paulus se pergunta se a sensibilidade ao toque poderia ser um biomarcador para identificar pessoas em risco de adicção e como o quadro seria tratado. “Estamos bem no início dessa jornada, mas o contato afetivo pode nos servir de andaime neuroanatômico para nos ajudar a entender melhor os sistemas que falham”, diz o psiquiatra.

AQUILO QUE PENSAMOS

Embora preliminares, os resultados combinados sugerem que as aferentes CT desempenham um papel importante na saúde emocional e que esse sistema é crucial para incentivar a interação humana. Nem todos, porém, estão convenci­ dos disso. O neurofisiologista David Ginty, da Universidade Harvard, tem se esforçado para delinear os circuitos nervosos que controlam todos os aspectos que embasam o contato. Sua hipótese é que as aferentes CT fazem parte de um conjunto de fibras (os cientistas identificaram seis nessa categoria) que trabalham juntas, como uma sinfonia, para transmitir informações sobre toques suaves ao cérebro. Em outras palavras, ele suspeita que as aferentes CT por si sós não são tão significativas quanto McGlone e Olausson acreditam.

Em 2012 outros pesquisadores, liderados pelo neurocientista Christian Keysers, agora da Universidade de Amsterdã, publicaram resultados que sugerem que, apesar de terem observado atividade no córtex insular provocada por afagos, há também respostas significativas na área mais tradicionalmente associada com o toque, o córtex somatossensorial. Isso poderia indicar que, no final das contas, o sistema sensorial afetivo não é tão separado do tato discriminativo.

Além disso, é provável que as fibras aferentes CT trabalhem com outros sistemas ativados em resposta ao contato físico, tanto no cérebro como no corpo. A oxitocina, por exemplo, que ajuda a aumentar nosso interesse social, costuma ser liberada quando sentimos afagos. É claro que esse hormônio deve interagir de alguma forma com as aferentes CT para favorecer a aproximação, mas ainda não se sabe como. Olausson e sua colega, a neurocientista lndia Morrison, agora da Universidade Linkõping, estão embarcando em um estudo projetado para tentar clarear a relação entre a ocitocina e as aferentes CT.

Aquilo que pensamos sobre como nos sentimos também é importante. Só porque um toque estimula nossas prolongações nervosas não significa que será agradável para todos em qualquer circunstância. Se um desconhecido acaricia nosso braço no metrô, é pouco provável que interpretemos esse contato de uma forma prazerosa. Um dos colegas de Olausson e Wessberg, o neurocientista Dan-Mikael Ellingsen, agora da Universidade Harvard, investigou esses efeitos em um estudo de 2014. Os participantes foram informados de que receberiam um spray de oxitocina nasal, o que ajudaria a aumentar a sensação de satisfação do toque; de fato, receberam o borrifo, mas era de soro fisiológico. Ainda assim, relataram sentir maior prazer. A exposição dos voluntários a rostos amigáveis ou irritados, porém, afetou a percepção sobre o contato físico. Uma das explicações, segundo Olausson, é que as informações concorrentes que chegam dos sentidos e do cérebro são conciliadas caso a caso, num processo similar ao que ocorre quando comemos alimentos picantes. Ele diz que, ao recebermos sinais da CT, há boas possibilidades de percebermos a carícia como algo agradável, mas, se houver mensagens conflitantes fortes o suficiente (uma cara irritada, um estranho assustador ou mesmo um odor estranho) , o cérebro poderá vetar a informação a partir das aferentes CT e interpretar o toque de forma diferente.

Para entender de fato o papel do contato afetivo na formação do cérebro social, os pesquisadores precisam recorrer a modelos animais que podem fornecer informações mais precisas. David Ginty, por exemplo, estuda o toque com a ajuda de ratos. “É difícil saber com o um camundongo se sente”, reconhece. Novas ferramentas genéticas disponíveis, porém, permitem aplicar diversos truques que não seriam possíveis em humanos. A equipe de Ginty é capaz de visualizar e classificar subtipos de neurônios nesses animais. Os pesquisadores podem registrar a atividade dessas células, e talvez o mais intrigante: desligar conjuntos específicos de neurônios para avaliar respostas fisiológicas e comportamentais.

O toque é pouquíssimo estudado em relação a outros sentidos, como visão e audição. Trabalhos sobre o tema são recentes. Por esses motivos, existe um sentimento entre os especialistas de se aventurar nesse território emocionante e pouco explorado. “Este é um momento incrivelmente excitante; nos próximos cinco ou dez anos vamos desvendar os circuitos que estão na base das respostas a diferentes tipos de contato em condições distintas”, diz o neurofisiologista. Ginty acredita que os cientistas serão capazes de identificar e desenvolver novos tratamentos de base sensorial para diversos problemas, como síndrome de Rett, autismo, dor neuropática e danos na medula espinhal. E o papel interoceptivo do toque suave pode ter implicações na reabilitação. A neurocientista Aikaterini Fotopoulou, da Universidade College London, demonstra algumas evidências que sugerem que o contato afetivo presente na técnica do toque terapêutico pode ajudar pessoas com lesões cerebrais a recuperar o sentido de apropriação em relação a determinadas áreas do corpo.

Para o resto de nós, os afagos entre pessoas íntimas e até mesmo as primeiras carícias compartilhadas entre a mãe e seu bebê continuam sendo um dos sinais mais genuínos de conforto mútuo e carinho. Em uma sociedade que costuma substituir o contato pessoal pela comunicação virtual, esses resultados nos ajudam a lembrar de saborear cada abraço e de esticá-lo um segundinho a mais. Esses momentos podem ser a base das relações mais ricas e prazerosas.

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COMO O TOQUE AJUDA A FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS

Independentemente da forma, seja um toque delicado de paquera ou um beliscão, o contato físico pode transmitir vários tipos de informação social. Em 1984, os psicólogos Christopher G. Wetzel, do Rhodes College, e April H. Crusco, então da Universidade do Mississippi, relataram que garçonetes que encostavam brevemente na mão ou no ombro de um cliente tinham chances de ganhar uma gorjeta maior.

Estudos posteriores demonstraram ainda que o toque pode favorecer a influência que exercemos sobre estranhos e ajudar vendedores a pressionar consumidores ou instituições de caridade na hora de procurar voluntários. Esse tipo de contato talvez possa explicar por que alguns políticos costumam dar algumas batidinhas no ombro de seus eleitores sempre que possível.

O efeito funciona também entre pessoas íntimas. Por exemplo, um estudo de 2011 realizado por um grupo de psicólogos da Central de Serviços Psicológicos de Iowa e da Universidade do Estado de Iowa descobriu que as mulheres costumam tocar o marido mais frequentemente quando discutem um tema que elas trouxeram do que nos momentos em que ele levanta uma questão – como se a pressão extra, física e simbólica, pudesse aumentar sua influência. (O estudo revela também que os homens, por outro lado, tendem a manter menor contato físico, independentemente da pessoa que iniciou a conversa.)

Os pesquisadores acreditam que as interações corpo a corpo que sinalizam cordialidade e confiança podem impulsionar também a cooperação grupal. Em 2010, psicólogos da Universidade da Califórnia em Berkeley descobriram que o tempo que os jogadores de basquete da NBA passavam tocando um no outro no início da temporada poderia ajudar a prever o desempenho meses mais tarde. Leves pancadas comemorativas com os punhos, apertos de mãos, abraços. Tanto faz. A proximidade parecia refletir o espírito de uma equipe unida e indicar a capacidade dos atletas de jogar bem como indivíduos e como time

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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