PSICOLOGIA ANALÍTICA

PAIS EXIGENTES, FILHOS ANSIOSOS

Criação excessivamente rígida pode colaborar para que crianças sofram profundamente diante do mínimo sinal de fracasso; por outro lado, o incentivo constante e as gratificações fora de hora costumam trazer aos pequenos dificuldades para se relacionar. O grande desafio é fugir de exageros.

Pais exigêntes, filhos ansiosos

Numa época em que se acredita que a fórmula para o sucesso esteja bastante ligada ao histórico de cada um (por exemplo: ter uma carreira promissora requer ter frequentado uma faculdade renomada, que, por sua vez, exige ter tido bom desempenho no ensino médio e, em muitos casos, até na pré-escola), grande parte da responsabilidade sobre o sucesso costuma recair sobre os pais, que, nessa perspectiva, “deveriam” pressionar os pequenos cada vez mais. E, de fato, em nome de um futuro promissor, as exigências em relação aos filhos muitas vezes não são poucas. Afinal, será que devemos incentivá-los com elogios ou abraçar a estratégia ” mãe-tigre”, com críticas e punições? A expressão se tornou conhecida no Brasil, entre educadores, quando a sino-americana Amy Chua lançou o livro Grito de guerra da mãe-tigre (Intrínseca, 2011), onde apresenta seu rígido método de educação. Segundo o modelo que a autora usou com suas duas filhas, os pais devem focar a atenção nos erros da criança e jamais em seus acertos; não devem elogiar os filhos em público. Além disso, os pequenos não devem ter espaço para escolher as próprias atividades e qualquer nota abaixo de 10 é considerada desprezível.

Uma pesquisa publicada no periódico científico Asian American Journal of Physiology se propôs a medir o quanto o método contribui para o bem-estar e o sucesso das crianças na escola. Segundo a coordenadora do estudo, a psicóloga Su Yeong Kim, doutora em desenvolvimento humano, professora da Universidade do Texas, a inflexibilidade dos adultos não traz, necessariamente, melhorias no rendimento acadêmico e ainda pode provocar depressão infantil. A pesquisadora trabalhou com informações de 444 famílias que moravam nos Estados Unidos e pelo menos um dos pais era de origem asiática. O objetivo era traçar o perfil de educação adotado por essas famílias e entender os efeitos que isso tinha sobre os filhos adolescentes. As famílias foram acompanhadas durante oito anos e periodicamente respondiam a uma bateria de perguntas, além de informar dados sobre o desenvolvimento e rendimento escolar dos filhos. Apesar de o estudo ter começado antes do lançamento do livro de Amy Chua, no momento de analisar os dados a equipe de pesquisadores dividiu os pais em quatro tipos principais: apoiador, tigre, autoritário e descontraído.

Os cientistas constataram que a maioria das famílias adotava o estilo apoiador (ou democrático), associado com os melhores índices de desenvolvimento das crianças. Já os filhos de “pais-tigre” tinham médias mais baixas na escola, mais sintomas depressivos e menor grau de responsabilização social.

Mais recentemente, outro estudo sugeriu que filhos de pais muito rígidos têm maior tendência a desenvolver ansiedade e que esse quadro pode persistir na idade adulta. Os pesquisadores coletaram memórias da infância de mais de 4 mil homens e mulheres de diversas idades e correlacionaram suas lembranças com a qualidade de sua saúde mental, com base no que os próprios voluntários consideravam saudável ou não. Os resultados indicam claramente que crianças com pais autoritários podem ter maior dificuldade de lidar com as adversidades quando crescem.

“Do ponto de vista neurológico, uma criação punitiva pode provocar efeitos poderosos e persistentes porque treina o cérebro a enfatizar excessivamente os erros”, afirma o psicólogo Greg Hajcak Proudfit, da Universidade Stony Brook, em Nova York. Quando cometemos deslizes, o córtex pré-frontal medial (logo atrás do centro da testa) produz um padrão elétrico previsível, que pesquisadores chamam de negatividade relacionada ao erro (NRE). Os cientistas acreditam que esse mecanismo cerebral nos ajuda a “voltar para os trilhos” para não cometermos falhas ainda maiores. Evidências sugerem que a genética ajuda a explicar algumas variações na intensidade do NRE de uma pessoa para outra, mas o trabalho de Proudfit indica que a exposição a duras críticas também tem papel importante. O psicólogo e sua equipe mediram a negatividade relacionada ao erro de aproximadamente 300 crianças de 3 anos e, novamente, aos 6, enquanto montavam quebra-cabeças na companhia do casal parental. As interações que os cientistas observaram variavam bastante numa escala que a maioria de nós consideraria adequada, ou seja, os pais não foram abusivos. Eles foram classificados de acordo com o grau de controle que exerciam (por exemplo, se interferiam imediatamente quando a criança falhava) e a qualidade do afeto que demonstravam na hora de fazer algum comentário.

Proudfit também solicitou aos genitores que descrevessem suas estratégias para abordar os filhos, se eram mais propensos a oferecer incentivo quando cometiam deslizes ou desaprová-los duramente. Os resultados apontaram um grupo específico de pais: altamente controladores e pouco afetivos, com um estilo crítico e hostil.

Tanto o auto- relato como a observação de uma educação marcada pela censura e agressividade ajudaram a prever maior NRE três anos mais tarde. Além disso, os filhos de genitores muito punitivos que apresentavam mais negatividade relacionada ao erro se mostraram mais propensos a demonstrar sinais de transtornos de ansiedade na segunda visita.

Segundo o psicólogo, crianças expostas a críticas muito duras aprendem a interiorizar os comentários negativos dos pais até o ponto em que a NRE, um sinal conveniente de cuidado, se torna um gatilho de estresse. “É claro que todos cometemos erros, é até saudável ter algum senso crítico em relação a eles; mas, se a pessoa costuma ser excessivamente dura consigo mesma, independentemente da idade, pode estar no caminho de desenvolver um transtorno de ansiedade em algum momento da vida”, alerta Proudflt.

Pais exigêntes, filhos ansiosos. 2 

EXCESSO DE ELOGIOS PODE SER PREJUDICIAL

Uma regra que costuma valer na maioria absoluta dos casos: pais e mães desejam que seus filhos sejam pessoas felizes e realizadas – o que muda é a ideia que cada um tem desses conceitos. Muitas vezes, na ânsia de demonstrar amor pelos pequenos e até de compensar a falta de atenção e carinho recebidos na própria infância, os adultos exageram nas demonstrações de afeto e nos incentivos, o que pode ser péssimo para o desenvolvimento das crianças. Essa foi a conclusão a que chegaram psicólogos das universidades de Amsterdã e de Utrecht, na Holanda, após realizarem o primeiro estudo longitudinal com crianças sobre as origens da dificuldade de aceitar a frustração, falta de empatia e de intensos sentimentos de superioridade (que costumam esconder a insegurança, o medo da inferioridade e da rejeição).

Duas escolas de pensamento de linhas filosóficas quase opostas abordaram como a autoestima se desenvolve. A primeira atribui egocentrismo extremo à falta de afeto das figuras parentais; a outra remete a mães e pais que colocam seus filhos em um pedestal, cobrindo-os de elogios e louvores. Ao longo de 18 meses, 565 crianças com idades de 7 a 11 anos foram submetidas a múltiplos questionários destinados a avaliar sua autoestima, levando em conta a relação familiar. Os pais também preencheram questionários sobre a educação dos filhos.

Os pesquisadores holandeses relataram no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) que filhos de pais que elogiam excessivamente não eram propensos a acumular pontuação alta em autoestima, mostravam-se em geral pouco tolerantes consigo mesmos e com os outros e ansiosos por fazer valer a própria vontade. “Essa correlação sugere que um elogio deve ser associado a bom comportamento em uma criança, e não ser oferecido indiscriminadamente, de forma independente do que ela faça”, avalia o psicólogo Lucas Hyde, da Universidade de Michigan, que não participou do trabalho. “Em 2008, uma meta-análise de 85 estudos mostrou que a atitude ego-centrada parece estar em ascensão entre jovens adultos no Ocidente, o que poderia resultar, em parte, da ênfase cultural em elogios com o objetivo de reforçar uma elevada autoestima”, sugere Eddie Brummelman, principal autor do artigo no PNAS.

Segundo ele, vivemos sob a égide “elogiocêntrica”, o que pode ser muito prejudicial – não só para os indivíduos, já que buscar constantemente o reconhecimento externo é estressante e predispõe as pessoas a quadros de depressão e ansiedade, mas também para a sociedade de forma geral. “Ainda que bem­ intencionados, os elogios feitos indiscriminadamente, a todo momento, podem funcionar como um tiro que sai pela culatra; para serem construtivos é preciso que sejam adequados e estejam de fato a serviço da educação da criança e não das carências e inseguranças dos pais”, alerta.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.