PSICOLOGIA ANALÍTICA

CUIDANDO DE SI MESMO

Cuidar de si mesmo não é exatamente tarefa fácil. Requer tempo, dedicação, planejamento, atenção e determinação. Felizmente, alguns hábitos incorporados ao dia a dia costumam ser muito úteis. por exemplo: diante de uma escolha – que diga respeito a relacionamentos, alimentação, saúde, algo que nos desagradou ou a qualquer outra coisa – é possível se perguntar: “isso me faz bem?” ou melhor: “isso me fará mal?” – e não só de forma imediata, mas de maneira um pouco mais ampla.

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Pense em tudo o que você fez por você mesmo desde que abriu os olhos hoje pela manhã. Se está num dia normal de trabalho ou estudo é bastante provável que tenha tomado banho, escovado os dentes, penteado os cabelos, escolhido uma roupa que lhe pareceu adequada. Talvez tenha se espreguiçado e pensado no quanto seria bom ficar até mais tarde na cama antes de levantar-se. Você pode ter praticado exercícios físicos, tomado café da manhã, repassado mentalmente os compromissos do dia e escolhido a melhor forma de chegar ao seu destino. É possível até que tenha separado objetos para carregar com você, para garantir seu próprio conforto ao longo do dia – celular, objetos de higiene pessoal, um livro, uma fruta ou outro lanche para mais tarde. Cuidados, cuidados, cuidados… Em vários níveis, aliás. Queremos ser aceitos, aprovados. Aprendemos aquilo que nos interessa, nos atemos à aparência, bem-estar físico e coisas que queremos, na tentativa de evitar o sofrimento.

De alguma forma, na maior parte do tempo, procuramos atender nossas necessidades – reais ou imaginadas. O problema é que nem sempre fazemos isso de forma adequada. Pensamos a curto prazo, não buscamos ajuda e terminamos nos oferecendo menos do que gostaríamos. E isso não tem, necessariamente, a ver com capacidade intelectual, mas sim com nosso funciona- mento psíquico. Não por acaso tantas pessoas adultas, inteligentes, bem-sucedidas em alguma área (e que, muitas vezes, cuidam de outras pessoas tanto profissionalmente quanto na vida pessoal) encontram enormes dificuldades para compreender do que realmente precisam e se atrapalham – seja para gerir as próprias finanças, lidar com assuntos burocráticos ou financeiros, para “levar-se” ao médico ou ao dentista, mas principalmente na hora de deixar de lado comportamentos destrutivos, evitar colocar-se em situações perigosas, terminar o que começou, priorizar o que realmente é importante… Enfim, dedicar-se ao que sabem ser realmente necessário em suas vidas. Ou que intuem ser fundamental – afinal, desconsiderar as próprias percepções também pode ser uma forma de “descuidar-se” das próprias necessidades.

Paralelamente, muitas pessoas se tratam de forma permissiva e complacente, deixando-se levar e justificando, até para si mesmas, como se fossem crianças tentando enganar os pais ou a professora. Porém, o que parece mera indolência pode ser traduzido como abandono de si mesmo. Podemos pensar que por trás da evitação de compromissos com as próprias escolhas esteja um conflito interno: a “criança” travessa e irresponsável e o adulto repressor ou omisso são aspectos da mesma pessoa. O problema é que quanto mais intransigente ou abandonadora for a parte adulta, mais rebelde será a criança. E aí a confusão está formada. Uma solução mais saudável, que não recaia meramente na culpa e na auto recriminação (sem que haja transformação efetiva), requer, em primeiro lugar, o acolhimento do que sentimos, de forma muitas vezes contraditória, e o desejo de responsabilizar-nos por nossas próprias escolhas.

COMO DISSE FOUCAULT

Houve um tempo em que alguém cuidava de nós. Em geral a mãe (ou quem desempenhasse a função materna) nos alimentava, preocupava-se se estávamos limpos, aquecidos, confortáveis. Esse adulto tinha recursos psíquicos para pensar em nós, ainda bebês – ou melhor, pensar por nós. E graças a esses cuidados, às vezes mais, às vezes menos adequados, sobrevivemos física e emocionalmente – e nos tornamos quem somos hoje.

As experiências de interação nos ensinaram a priorizar algumas coisas em detrimento de outras. Gestos, intenções e palavras deixaram as marcas em nossas existências. A equação, porém, não é simples. Mais do que determinar o que houve de “certo” ou “errado” é importante pensar que foi no encontro entre a mãe e o bebê, cada um com suas próprias características, que se instauraram registros arcaicos, espécie de matrizes a partir das quais desenvolvemos a relação conosco e com os outros na vida adulta. Por conta dessas experiências iniciais e dos sentidos que damos a elas, cuidar de si mesmo pode ser mais difícil para uns do que para outros. De forma geral, porém, não é exatamente fácil ficar atento ao que nos faz bem e buscar isso. Para a maioria das pessoas trata-se de uma tarefa trabalhosa que, literalmente, ocupa toda a existência. Mas pode tornar-se extremamente prazerosa à medida que assumimos nossa autonomia. Para o bem e para o mal.

O termo grego para cuidado de si, epimeleia heautou, presente desde a Antiguidade, envolve a ideia de tomar um tempo para voltar-se às próprias questões. É atribuída a Sócrates, por exemplo, a frase: “Deves ocupar-te contigo mesmo”. O filósofo francês Michel Foucault trata do assunto sem defender uma posição individualista; ao contrário, argumenta que a atenção que temos conosco se insere num contexto mais amplo de práticas sociais e se constitui enquanto pontos de resistência aos modos de governar que, inúmeras vezes no decorrer da história, buscaram impor aos sujeitos determinadas formas de ser. Em seu curso A hermenêutica do sujeito, Foucault apresenta a noção de cuidado de si como ponto de partida para se pensar a relação entre o sujeito e a verdade no Ocidente. No entanto, é o preceito délfico do “conhece-te a ti mesmo” (gnôthi seauton), que é reconhecido na história da filosofia ocidental como a fórmula fundadora desta questão da subjetividade em sua relação com a verdade. Na prática, ele refere-se a um conjunto de ocupações que envolvem empenho, um “trabalho” pessoal. Foucault afirma que esse tempo de dedicação não é “vazio”, mas sim repleto de atividades práticas variadas como meditação, leitura, escrita, exercícios de memorização, cuidados com o corpo e com a saúde, exercícios físicos sem excesso. Curiosamente, ele inclui nessa lista a importância de reservar espaço para conversar com amigo, confidente ou um “mestre espiritual”. Há, segundo essa concepção, a valorização do corpo, da palavra e do encontro com o outro. “A prática do cuidado de si não constitui um exercício da solidão, mas sim uma verdadeira prática social”, salienta o filósofo em História da sexualidade 3: o cuidado de si.

Podemos pensar ainda que o cuidado consigo mesmo se manifesta em variados níveis, tanto em hábitos que podem parecer corriqueiros, quanto no reconhecimento de nossas emoções e no respeito aos próprios limites e nos relacionamentos que construímos. Mas se expressa, basicamente, na maneira como lidamos com o tempo e com aquilo que sentimos – e nas prioridades que estabelecemos. Uma das expressões mais fortes de autocuidado é a preocupação (e o empenho persistente) em se tornar uma pessoa mais parecida com aquela que desejamos ser. Tomando uma ideia freudiana como referência, cuidar de si pode ser aproximar-se do ideal de ego (per- meado criativamente por potencialidades, marcado pela autorização interna para ocupar os próprios espaços, sabendo-se passível de erros, acertos, trazendo para si as escolhas e suas consequências ). E, simultaneamente, afastar-se do ego ideal (baseado em referenciais externos, psiquicamente limitantes).

NEM TÃO DIFÍCIL

O cuidado não está apenas no que fazemos, mas principalmente na forma como o fazemos. Um exemplo simples: estar atento à própria dieta, procurando comer alimentos saudáveis é, pelo menos em princípio, bastante benéfico. Mas, se nos tornamos obsessivos com o controle da alimentação, o que era bom pode se tornar um problema. Até mesmo porque concentrar muita energia em uma única área da vida trará carência e privação em outras. Nesse sentido, a atenção à flexibilidade é um ponto alto do cuidado consigo mesmo, já que quanto mais maleáveis somos psiquicamente, menos sofremos quando as coisas não saem como imaginamos.

A questão não é se proporcionar coisas, sensações e experiências – e sim oferecer a si mesmo o que faz realmente bem. Felizmente, muitas vezes, isso não é inacessível ou tão complicado de ser feito. É possível começar pelos pequenos gestos, prestando atenção ao que parece “normal”, oferecendo-se pequenos carinhos, evitando expor-se ao que muito provavelmente trará sofrimento. E talvez valha lembrar que há cuidados que só nós podemos ter conosco.

O MEU, O SEU, O NOSSO

Cuidar do outro muitas vezes é necessário, seja por motivos pessoais (como a chegada de um bebê ou o adoecimento de um ente querido) ou pela própria profissão que escolhemos (uma escolha, aliás, que não se dá ao acaso certamente tem raízes na história de vida de cada um). A experiência de dedicação pode ser afetiva e psiquicamente muito rica.

Porém, não são raros os casos em que a devoção ao outro funciona como uma fuga, em especial quando surge de forma exagerada, deslocada. O fato é que quanto mais tranquilos estamos conosco, mais estaremos verdadeiramente disponíveis, sem exigir algo em troca de nossa dedicação, ou misturar os próprios sentimentos e desejo com os alheios, fazendo projeções e cobranças, ainda que não conscientes ou expressas claramente.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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