OUTROS OLHARES

A MÁGICA DA DESILUSÃO

Com frequência somos meros executores de ações previsíveis e falhas de julgamentos. Assim, podemos responsabilizar a forma como a mente foi programada para economizar energia nas escolhas, inclusive, as inconscientes.

amc3a1gicadadesilusc3a3o

A capacidade de criar ferramentas para ganhar eficácia nas tarefas é um dos grandes diferenciais da espécie humana – um que nos permite expandir qualquer limite. Basta uma bicicleta para nos tirar da posição humilde que ocupamos no ranking de velocidade no reino animal. Steve Jobs, em um depoimento para a Biblioteca do Congresso (Library of Congress), em 1990, utilizou esse fato para manifestar seu entusiasmo pela tecnologia: “Um computador, para mim, é a ferramenta mais formidável que já criamos – é o equivalente a uma bicicleta para a mente”.

Quando ele fez essa analogia, há 30 anos, tanto um quanto outro eram utilizados conforme o desejo e a necessidade de quem os manipulava. Sobre as bicicletas, continuamos tendo pleno domínio. Mas com os computadores a ordem foi invertida. Criamos uma relação de dependência com as máquinas, que jamais teríamos com uma bicicleta, ao termos transformado essas ferramentas em extensores da mente, dos quais não mais conseguimos nos distanciar por um dia sequer. Mas o lado mais perigoso dessa relação é bem menos evidente: embora tenhamos a impressão de estar no comando das próprias escolhas, isso está longe de ser verdade, especialmente no mundo virtual. Atrás dos eletrônicos, grande parte das nossas ações é guiada por artimanhas que atuam em nível sub­ consciente para estender o tempo de uso das telas e atrair a nossa atenção, cada vez mais concorrida e limitada.

Passamos a seguir, obedientemente, os propósitos das máquinas, ou melhor, das corporações que as tornam complexas – neurônios do córtex pré-frontal do grande cérebro da tecnologia. As notificações não são vermelhas por acaso; o feed do Facebook não se organiza de forma aleatória, nem segue uma rígida ordem cronológica; os vídeos que assiste no YouTube, ou a maioria deles, não foram ativamente buscados e/ou selecionados por você. Atrás de cada aplicativo há milhares de especialistas arquitetando formas de mantê-lo ativo e certo de que está agindo de forma racional.

Como mágicos, conhecem muito bem a mente humana e sabem fazer o público escolher uma determinada carta e jurar que a escolha foi livre. Pois justamente por conhecer muito bem as armadilhas em que cai facilmente a mente humana que um mágico foi parar na Google com a função de apontar caminhos éticos para a tecnologia. Especialista em persuasão e já chamado de “a consciência de Silicon Valley”, Tristan Hanis ajudou essa e outras grandes empresas do setor a identificar e desfazer truques manipulativos que pudessem prejudicar os usuários. Seu trabalho, que quando era garoto era de criar ilusões, passou a ser desmanchá-las – uma espécie de magia ao contrário, que muito tem a revelar sobre irracionalidade humana.

“O que aprendemos com a mágica é que existem coisas que funcionam com todas as mentes, em um nível subconsciente. Você nem precisa entrar no artigo para ser influenciado por fake news. O fato de aparecerem repetidamente no seu feed de notícias cria associações no cérebro que fazem parecer verdade”, explica Harris em entrevista a Helen Lewis no fórum internacional de debates Intelligence Squated.

Mentiras podem ser muito sedutoras, atrair a atenção de muitos e garantir mais tempo de interações. Por esse motivo, falácias ganham destaque nas redes, e entre os vídeos mais frequentemente recomendados pelo YouTube, com a intenção de manter o público conectado, estão os sensacionalistas. “Nossa mente é vulnerável e essa vulnerabilidade está sendo explorada pela tecnologia, que está inclinada na direção do sensacionalismo, de conspirações e radicalismo, o que traz reais consequências”, alerta.

O comprometimento com a ética e a verdade, antes base na qual os veículos de notícias construíam uma valiosa reputação, desassociou-se das principais fontes de informação na disputa por cliques, likes, comentários e por minutos ou segundos da atenção do consumidor. Ficou mais difícil selecionar a informação e se proteger contra mentiras e mensagens subliminares. Antes até poderíamos julgar o conteúdo pela capa, mas hoje essa metáfora não vale mais. A informação falsa, tendenciosa e sem fundamento pode vir muito bem disfarçada e em uma quantidade que exige das pessoas grande capacidade de análise e de seleção daqueles estímulos que merecem os minutos de sua tão valiosa e concorrida atenção; ou seja, para nos proteger das influências negativas do universo virtual, precisamos mais do que nunca desenvolver o pensamento crítico – um conjunto de habilidades pouquíssimo trabalhadas pela educação formal, especialmente no Brasil.

As reais consequências a que Harris se refere são difíceis de calcular, pois o comportamento humano nunca é guiado por um único fator. Mas quando parte considerável do tempo e da atenção das pessoas está voltada a notícias falsas, constantes notificações e filtros de embelezamento, a associação das influências ocultas da tecnologia às alterações drásticas nos fundamentos da sociedade é inevitável.

E se não for possível enxergar claramente com exemplos à sua volta, pense no número crescente de adolescentes que busca clínicas de cirurgia plástica com a finalidade de parecer sua versão “embelezada” do Snapchat – uma clara evidência dos danos das redes à estima de jovens, que estão perdendo a percepção dos limites entre o real e o virtual.

Seguir acreditando que temos consciência das nossas escolhas no universo virtual e que os eletrônicos são ferramentas sobre as quais temos total domínio, como acontece com bicicletas, é ingenuidade nossa e irresponsabilidade das empresas de tecnologia.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.