ALIMENTRO DIÁRIO

JOÃO 20: 26-31 – PARTE III

alimento diário

A Incredulidade de Tomé

 

III – O que aconteceu entre Cristo e Tomé, nesta reunião. E somente isto está registrado, embora possamos supor que Ele tenha dito muitas coisas aos de­ mais apóstolos. Aqui temos:

1. A graciosa condescendência de Cristo para com Tomé, v. 27. Ele o separou do resto, e dedicou-se particularmente a ele: ‘”Põe aqui o teu dedo’, e, já que tu queres isto, ‘vê as minhas mãos’, e satisfaz ao máximo tua curiosidade sobre as marcas dos pregos; ‘chega a tua mão’, e, se nada menos do que isto te convencer, ‘põe-na no meu lado”‘. Aqui temos:

(1) Uma repreensão implícita à incredulidade de Tomé, na clara referência que há aqui àquilo que Tomé tinha dito, respondendo palavra por palavra, pois Jesus as tinha ouvido, embora não pudesse ser visto. E poderíamos pensar que o fato de Cristo lhe dizer isto deve tê-lo envergonhado e feito ruborizar-se. Observe que não existe uma palavra de incredulidade em nossos lábios, nem um pensamento de incredulidade nas nossas mentes, em qualquer ocasião, que não seja de conhecimento do nosso Senhor Jesus, Salmos 78.21.

(2) Uma condescendência expressa à fraqueza humana, que fica evidente em duas coisas:

[1] Que Ele suporta que sua sabedoria receba algum tipo de exigência. Os grandes não receberão ordens dos seus inferiores, especialmente nos seus atos de graça, mas Cristo aqui se presta a atender até mesmo à exigência descabida de Tomé, em algo desnecessário, em lugar de romper com ele, deixando-o com sua incredulidade. Ele “não esmagará a cana quebrada”, mas, como um bom pastor, tornará a trazer a ovelha desgarrada, Ezequiel 34.16. Assim, nós devemos suportar as fraquezas dos fracos, Romanos 15.1,2.

[2] Ele suporta que seus ferimentos sejam investigados, permite que Tomé inclusive coloque a mão no seu lado, para que assim, por fim, ele creia. Assim, para a confirmação da nossa fé, Ele instituiu uma ordenança com o propósito de manter sua morte na lembrança, embora fosse uma morte ignominiosa, vergonhosa, e alguém pudesse pensar que ela deveria ser esquecida, e não mais mencionada. Mas, porque sua morte era uma evidência do seu amor, assim como seria um incentivo à nossa fé, Ele recomenda que se celebre a lembrança dela. E nesta ordenança, em que testemunhamos a morte do Senhor, nós somos chamados, por assim dizer, a colocar nosso dedo nas marcas dos pregos. Estenda sua mão até Ele, que estende sua ajuda, convidando, dando-lhe sua mão. As palavras que Cristo usa para encerrar o que tinha a dizer a Tomé são impressionantes: “Não sejas incrédulo, mas crente”, – não se torne um incrédulo, como se Tomé corresse o risco de ser selado na incredulidade naquele momento, caso não cedesse imediatamente. Este aviso é dado a todos nós: “Não sejas incrédulo”. Pois, se formos incrédulos, não teremos Cristo nem a graça, não teremos esperança nem alegria. Portanto, devemos dizer: “Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade”.

2. A aceitação crédula de Tomé a Jesus Cristo. Agora ele está envergonhado da sua incredulidade, e clama: “Senhor meu, e Deus meu!”, v. 28. Não sabemos se ele colocou seu dedo nas marcas dos pregos. Aparentemente, ele não o fez, pois Cristo diz (v. 29): “Porque me viste, Tomé, creste”. Ver foi o suficiente. E agora a fé surge vencedora, depois da batalha contra a incredulidade.

(1) Agora Tomé está plenamente convencido da verdade da ressurreição de Cristo – que o mesmo Jesus que foi crucificado agora está vivo, e que este é Ele. Sua lentidão e relutância em crer podem ajudar a fortalecer nossa fé, pois aqui parece que as testemunhas da ressurreição de Cristo, que a confirmaram ao mundo, e que empenharam suas vidas nisto, não eram homens que criam facilmente, mas eram suficientemente cautelosos, e deixavam em suspenso sua fé até que tivessem tido a última evidência que podiam desejar. Desta maneira, “do comedor saiu comida”.

(2) Por essa razão, ele creu que Ele era o Senhor e Deus, e nós devemos crer nisto também.

[1] Nós devemos crer na sua divindade – que Ele é Deus. Não um homem feito Deus, mas Deus feito homem, como este evangelista estabeleceu na sua tese desde o início, cap. 1.1. O autor e cabeça da nossa santa religião tem a sabedoria, o poder, a soberania e a imutabilidade de Deus, o que era necessário, porque Ele deveria ser não somente o fundador dela, mas a fundação, para seu suporte constante, e a fonte devida, para seu suprimento.

[2] Sua mediação – que Ele é Senhor, o único Senhor, 1 Coríntios 8.6; 1 Timóteo 2.5. Ele está suficientemente autorizado, como plenipotenciário, a estabelecer os grandes interesses que há entre Deus e o homem, e a absorver a controvérsia que inevitavelmente tem sido nossa ruína, e a estabelecer a correspondência que era necessária para nossa felicidade. Veja Atos 2.36; Romanos 14.9.

(3) Ele o aceitou como seu Senhor e seu Deus. Na fé, deve haver a aceitação da vontade do Senhor nos termos do Evangelho, assim como a adequação do entendimento às verdades do Evangelho. Nós devemos aceitar que Cristo seja para nós aquilo que Deus o indicou para ser. “Senhor meu” se refere a Adonai – minha fundação e meu sustentador. “Deus meu”, a Elohim – meu príncipe e juiz. Como Deus o constituiu como o árbitro e juiz, nós devemos aprovar a escolha e nos submetermos inteiramente a Ele. Este é o ato vital de fé, Ele é meu, Cantares 2.16.

(4) Tomé faz uma profissão aberta de sua fé diante daqueles que tinham sido as testemunhas das suas dúvidas incrédulas. Ele diz isto a Cristo, e, para completar o sentido, nós devemos interpretar assim: Tu és meu Senhor e meu Deus. Ou, falando aos seus irmãos: Este é meu Senhor e meu Deus. Nós aceitamos Cristo como nosso Senhor Deus? Devemos ir até Ele, e dizer isto a Ele, como Davi (Salmos 16.2), oferecer-lhe nossa rendição espontânea, dizer isto aos outros, como aqueles que triunfam com nosso relacionamento com Cristo: Este é meu amado. Tomé fala com um afeto ardente, como alguém que se apossou de Cristo com toda a sua força: “Senhor meu, e Deus meu”.

3. O julgamento de Cristo sobre tudo o que aconteceu (v. 29): “‘Porque me viste, Tomé, creste’, e é bom que tenhas, finalmente, sido trazido aos meus termos. Mas ‘bem-aventurados os que não viram e creram!”‘ Aqui:

(1) Cristo reconhece que Tomé é um crente. Os crentes sinceros e legítimos, embora possam ser lentos e fracos, serão graciosamente aceitos pelo nosso Senhor Jesus. Aqueles que permaneceram descrentes por muito tempo, se, por fim, se renderem, o encontrarão pronto a perdoar. Tão logo Tomé aceita Cristo, Cristo lhe dá este consolo, e o faz saber que ele crê.

(2) O Senhor repreende Tomé pela sua incredulidade anterior. Tomé poderia ficar envergonhado ao pensar:

[1] Que ele tinha sido tão relutante para crer; e que tinha vindo tão lentamente aos seus próprios consolos. Aqueles que, com sinceridade, aceitaram Cristo, veem uma grande razão para se lamentar por não terem feito isto antes.

[2] Que não foi sem muita dificuldade que ele foi levado a crer, por fim: “Se você não me tivesse visto vivo, não teria crido”. Mas, se nenhuma evidência for necessária, exceto a dos nossos sentidos, e nós não crermos em nada, exceto naquilo de que formos testemunhas oculares, poderemos dizer adeus a todo o relacionamento e a toda a convivência com o Senhor. Se este for o único método de prova, como o mundo deverá ser convertido à fé em Cristo? Portanto, Tomé é repreendido com justiça, por colocar tanta ênfase em ver.

(3) O Senhor Jesus elogia a fé daqueles que creem com mais facilidade. Tomé, como crente, era verdadeiramente bem-aventurado. No entanto, mais “bem-aventurados os que não viram”. Isto não se refere a não ver os objetos de fé (pois estes são invisíveis, Hebreus 11.1; 2 Coríntios 4.18), mas os motivos de fé – os milagres de Cristo, e especialmente sua ressurreição. Bem-aventurados os que não viram estes milagres, e ainda assim creem em Cristo. Isto pode se referir; retrocedendo, aos santos do Antigo Testamento, que não tinham visto as coisas que os apóstolos viram, e ainda assim creram na promessa feita pelo Pai, e viveram de acordo com esta fé. Ou pode se referir ao futuro, àqueles que creriam depois disto, os gentios, que nunca tinham visto Cristo encarnado, como os judeus tinham visto. Esta fé é mais louvável e digna de elogios do que a daqueles que viram e creram, pois:

[1] Ela evidencia um estado de espírito melhor naqueles que realmente creem. Não ver, e ainda assim crer, mostra um maior esforço em procurar a verdade, e um maior empenho de mente para aceitá-la. Aquele que crê com esta visão tem sua resistência derrotada por um tipo de violência, mas aquele que crê sem esta visão, como os bereanos, é mais nobre.

[2] Ela é um grande exemplo do poder da graça divina. Quanto menos perceptível for a evidência, a obra da fé parecerá, ainda mais, ser uma obra do Senhor. Pedro é bem-aventurado na sua fé, porque não foi carne e sangue quem lhe revelou, Mateus 16.17. A carne e o sangue contribuem mais para a fé daqueles que veem e creem do que para a fé daqueles que não veem e, mesmo assim, creem. O Dr. Lightfoot cita uma frase de um dos rabinos: “Um único prosélito é mais aceitável a Deus do que todos os milhares de Israel que estiveram diante do monte Sinai. Pois eles viram e receberam a lei, mas um prosélito não viu, e mesmo assim ainda a recebe”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.