PSICOLOGIA ANALÍTICA

O DESEJO E SUAS POSSIBILIDADES

Filme adaptado de conto inglês apresenta de forma delicada possibilidades de subversão de modelos convencionais de sexualidade, afeto e família.

o desejo e suas possibilidades

Se a linguagem e a cultura são determinantes na formação psíquica, trazer ao discurso questões que, até agora, não poderiam ser vistas ou ditas pode ter caráter transformador. Apesar das constantes de padronizar comportamentos e se excluir diferenças tentativas ao longo dos séculos, a diversidade tem aberto seu caminho, quebrando o modelo cristalizado e rígido de moral e família convencional, que acorrenta laços afetivos e a sexualidade.

É com essa proposta que François Ozon apresenta Uma nova amiga, uma adaptação livre do conto da escritora inglesa Ruth Rendell. O filme inicia com foco no casamento dos jovens David e Laura, e na relação da noiva com sua madrinha Claire, grande companheira de infância e adolescência. Pouco depois, porém, Laura adoece, vítima de um câncer precoce e devastador, no mesmo período em que engravida e dá à luz sua filha. No hospital, Claire promete à amiga estar sempre ao lado de David para ajudá-lo com o bebê e no que mais fosse necessário. Na primeira visita a David após a morte da amiga Claire surpreende o rapaz cuidando da filha vestido com as roupas da falecida. O constrangimento o leva a justificativas apoiadas em uma possível necessidade de manter a presença da mãe para acalmar o bebê, o que não convence Claire.

Com o tempo e a convivência, porém, ela e David desenvolvem uma intimidade que permite a ele expor-se publicamente usando roupas e nome de mulher – assim surge Virgínia, uma “nova amiga” para Claire. Da tensão inicial aparece uma cumplicidade com certa dose de atração e erotismo que parece desvendar em Claire seu lado homossexual, encantada pela porção feminina do amigo. E, a despeito do tom inusitado da situação, o relacionamento entre eles ganha força sexual e afetiva.

Sem esbarrar num clima panfletário, a narrativa propõe de maneira natural uma reflexão cuidadosa sobre o desejo e suas infinitas possibilidades. Vale reafirmar que estes referenciais tão arraigados nas sociedades judeu-cristãs impuseram valores, influenciando e marcando a cultura, a ciência, a medicina e a psiquiatria de forma especialmente intensa até há poucas décadas. A psicanalista e historiadora contemporânea Elizabeth Roudinesco alerta para a importância de evitar o reducionismo muitas vezes estimulado pelas ciências positivistas, na tentativa de normatizar categorias de comportamento e discriminar o que parece estranho.

Essa dinâmica restringe os sujeitos a sistemas fechados que desconsideram as subjetividades e singularidades.

Um exemplo claro e didático se apresenta em 1952, na primeira edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM). A homossexualidade, neste caso, fica incluída nos distúrbios sociopáticos da personalidade, considerada um desvio sexual envolvendo comportamento patológico. Em 1968 passou a pertencer à classe dos desvios sexuais e somente a partir da terceira edição do DSM, em 1987, foi finalmente retirado do manual. O transexualismo surge na terceira edição classificado como disforia de gênero, o que foi revisto em 1994 com o diagnóstico de transtorno de gênero.

Este processo de patologização da homossexualidade e do transgênero foi delineado formalmente nas primeiras discussões, no século 19, por autores como o psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, na Alemanha. Estes entendiam essa prática associada ao desvio sexual, à degeneração e psicopatia. Sob a influência do positivismo e de ideias desenvolvimentistas, Freud escreveu em 1905 os Três ensaios sobre a sexualidade e apontou como aberrações sexuais os desvios, as inversões (ou o que chamou hermafroditismo psíquico) e o comportamento perverso.

Por outro lado, sua teoria sobre desenvolvimento sexual, complexo de Édipo e castração trouxe a importância das experiências emocionais da infância como bases para a vida psíquica. Tendemos a repetir estas matrizes apoiadas nas identificações estabelecidas nessas primeiras vivências. E em nosso percurso, buscamos novas soluções para as inevitáveis marcas dos conflitos vividos. É a experiência da castração que nos possibilita o contato com nossos limites e com a incompletude. A partir desta constatação, somos impelidos à busca incessante de satisfação, em direção a outras possibilidades, já que a expectativa de realização pelo prazer total se perdeu e ficou impossível. Este olhar pode transcender o normal e o patológico como únicas referências possíveis.

O inusitado em Uma nova amiga surge, em grande parte, na atração de David/Virgínia por Claire, algo que extrapola o modelo “heteronormativo” previsto e coloca em pauta a questão de gênero, um tema contemporâneo complexo e desafiador aos pensamentos cartesianos. Na ordem do dia, a filósofa americana Judith Butler define gênero como “um modo de abraçar ou concretizar possibilidades, um processo de interpretar o corpo”. O debate sobre o tema visa desconstruir a padronização do modelo biológico e anatômico para definir sexualidade, considerando a constituição da identidade e do gênero uma orientação dinâmica atravessada pela construção da história pessoal, das relações e da cultura.

François Ozon foi ousado, mas de maneira delicada conduz o espectador a pensar e refletir sobre as implicações dos desejos e escolhas feitos pela vida. Denuncia também as hipocrisias sociais, os tabus que tendem a inibir infinitas saídas psíquicas. Como uma obra inacabada, caminhamos pela vida na busca de soluções mais ou menos criativas para nossas angústias. Em nossos projetos de vida, o amor, o trabalho e os relacionamentos podem permitir a concretização de alguns sonhos, mas trazem sempre à luz as arestas da realidade. Nesta luta, cada novo desafio pode ser visto como tentativa da reinvenção de nós mesmos, numa trajetória de aprendizado. Como diz Butler, “como corpos, nós somos sempre algo mais, e algo outro, do que nós mesmos”.

o desejo e suas possibilidades. 2

UMA NOVA AMIGA

1h47min – França, 2015 Direção: François Ozon Elenco: Romain Duris, Anaïs Demoustier, Raphaël Personnaz e outros.

 

ERANE PALADINO é psicóloga e psicanalista, mestre em psicologia clínica, professora do Instituto Sedes Sapientiae.

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OUTROS OLHARES

BRINQUEDO LEVADO À SÉRIO

Chega ao Brasil o sistema que faz sucesso nas grandes cidades americanas: o aluguel de patinetes elétricas compartilhadas. Trata-se de um negócio bilionário.

brinquedo levado à sério

O paulistano mais atento já notou. Depois de décadas relegada ao ostracismo, a patinete começa a voltar à paisagem. Não aquele velho brinquedo em que crianças se impulsionavam com uma das pernas em praças e calçadas. A nova patinete é elétrica, chega a 25 quilômetros por hora e tem sido usada por homens de gravata e mulheres de tailleur zunindo pela ciclovia da Avenida Brigadeiro Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, enquanto motoristas irritados no infame trânsito da hora do rush os observam de dentro do carro. É que já estão em operação na cidade três sistemas de compartilhamento de patinetes elétricas, nos moldes do aluguel de bicicletas que hoje faz parte da rotina das grandes cidades brasileiras. Sem muito alarde, as startups Scoo, Ride e Yellow começaram a disponibilizaras engenhocas em agosto, em alguns poucos pontos da capital paulista. O aluguel é efetuado por meio de um aplicativo no celular, que mostra onde há patinetes livres e as destrava uma vez feito o pagamento. Simples e eficiente. “Ela tem mais estabilidade do que a bicicleta, permite que eu ande de salto, leve a mala da academia e não chegue ao trabalho suada”, diz a advogada Nathaly Guimarães, que não usa mais o carro para percorrer os 2 quilômetros entre sua casa e o escritório.

No Brasil, a primeira companhia a apostar no negócio foi a Ride. Seu fundador, Marcelo Loureiro, morava na cidade de Santa Monica, na Califórnia. Em setembro de 2017, ele acompanhou de perto o surgimento da Bird, a primeira empresa de compartilhamento de patinetes elétricas do mundo. O sucesso da Bird foi tão estrondoso que fez dela a startup que mais rápido se tornou um unicórnio – palavra que, no jargão do Vale do Silício, designa companhias avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares. “Estava lá durante os primeiros meses, vi os erros e os acertos deles, e pude tropicalizar o modelo para trazê-lo para cá”, conta Loureiro. A Bird, que hoje vale 2 bilhões de dólares, já anunciou planos de entrar no Brasil.

De olho na concorrência que se avizinha, Loureiro tem criado estratégias para crescer. A Ride anunciou recentemente sua fusão com a Grin, a maior operadora de patinetes elétricas da Cidade de México, e promete colocar 1.000 veículos por toda a São Paulo até o fim do ano. Fechou ainda uma parceria com a Rappi, aplicativo de serviço de delivery. A ideia é usara penetração da Rappi na América Latina para fazer uma rápida expansão para países como Colômbia e Argentina. A Scoo também tem planos de expandir suas atuações para fora do país e chegar a Buenos Aires até o fim do ano. A empresa, que ofereceu 100 patinetes de forma gratuita nos seus primeiros 75 dias, começou a operar normalmente em novembro e promete chegar ao Rio de Janeiro e a Brasília antes da virada do ano. Mais de 10.000 pessoas já utilizaram o serviço, que oferece as tarifas mais baixas do mercado: 1 real nos primeiros quatro minutos e 25 centavos para cada minuto adicional. “Na nossa visão, esse produto é um meio de transporte complementar ao transporte público e, portanto, a tarifa precisa ser baixa”, defende Maurício Duarte, diretor-geral da startup.

Com passagens em altos cargos na Uber, o fundador da Bird, Travis Vander Zanden, replicou em sua empresa o mote de seus antigos empregadores: é mais fácil pedir desculpas do que pedir permissão. Sua estratégia foi a de inundar as cidades americanas com patinetes elétricas sem nenhum contato prévio com as prefeituras ou com as comunidades locais. A companhia permitia que os usuários deixassem a patinete em qualquer lugar, sem zonas específicas de estacionamento. As pessoas largavam o veículo na frente de garagens, bloqueavam calçadas, e a falta de organização causou transtornos e a ira de muita gente. Em maio, São Francisco baniu o uso do aplicativo e de seus concorrentes. Voltou atrás em agosto, mas com um número limitado de licenças. Santa Monica foi pelo mesmo caminho. Ainda assim, as leis que impedem que as patinetes circulem nas calçadas têm sido ignoradas. O especialista em cidades inteligentes Renato de Castro vê como normal esse início de relacionamento conturbado, e aposta na proatividade do setor municipal em auxílio ao desenvolvimento do processo de digitalização dos municípios. “Em vez de discutirem como limitar as patinetes, as prefeituras devem fazer parcerias para que essas empresas possam contribuir para a mobilidade das cidades”, afirma. Em São Paulo, as três companhias optaram por usar áreas fixas para as patinetes por orientação da Secretaria Municipal de Transportes,  e têm apostado na criação de zonas específicas de estacionamento.

Um mês após lançar um aplicativo de compartilhamento de bicicletas sem base fixa, a Yellow disponibilizou seu serviço de patinetes. A empresa desenvolve soluções de integração com o transporte público e, na sua avaliação, seus veículos estimulam o que ela chama de micromobilidade. “Você não consegue colocar um ponto de ônibus, trem ou BRT em cada esquina. Todo mundo tem de percorrer uma pequena distância, seja no começo, seja no final do trajeto, e nós facilitamos isso com uma alternativa barata e não poluente”, diz Eduardo Musa, fundador da companhia. Sim, a patinete voltou para ficar.

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GESTÃO E CARREIRA

ELEVADORES QUE ENXERGAM LONGE

Atlas Schindler e Thyssekrupp começam a disputar o mercado brasileiro de equipamentos conectados à internet das coisas.

elevadores que enxergam longe

Chega ao Brasil este ano uma briga global – a suíça Schindler, empresa de 144 anos, e a alemã Thyssenkrupp, com 205 anos, passam a disputar o mercado local de elevadores e escadas rolantes conectados pela internet das coisas (IoT). A tecnologia permite que os equipamentos apresentem análises preditivas e diagnósticos de funcionamento. “A estimativa é reduzir em ao menos 20% o número de paralisações”, diz Fabio Mezzarano, diretor de Operações da Schindler para as Américas (o braço do grupo multinacional no Brasil, Atlas Schindler, surgiu quando a empresa suíça comprou a brasileira Atlas, em 1999). Segundo a Thyssenkrupp, mais de 47 mil clientes se beneficiaram globalmente do sistema, ao diminuir as paradas de equipamentos. A disputa por esse mercado começou em 2016, quando a Thyssenkrupp se aliou à Microsoft, e a Schindler à Huawei, em projetos de IoT.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 20: 26-31 – PARTE Ialimento diário

A Incredulidade de Tomé

 

Aqui temos um relato de outra aparição de Cristo aos seus discípulos, depois da sua ressurreição, quando Tomé estava então com eles. E a este respeito, podemos observar:

I – Quando Cristo repetiu sua visita aos seus discípulos: “oito dias depois”, que era o dia após a sétima noite desde que Ele ressuscitou, e que, portanto, devia ser o primeiro dia da semana.

1. Ele adiou por algum tempo sua próxima aparição, para mostrar aos seus discípulos que Ele não tinha ressuscitado para uma vida como a que tinha tido anteriormente, para conviver constantemente com eles, mas como alguém que pertencia a outro mundo, e visitava este somente como o fazem os anjos, de vez em quando, quando houvesse oportunidade. É tolice investigar, e presunção determinar, onde Cristo esteve durante estes oito dias, e o resto do tempo da sua permanência na terra. Onde quer que Ele estivesse, sem dúvida “os anjos o serviam”. No início do seu ministério, Ele tinha estado por quarenta dias sem ser visto, tentado pelo Diabo, Mateus 4.1,2. E agora, no início da sua glória, Ele foi, durante quarenta dias, na maior parte do tempo sem ser visto, servido por seres celestiais bons.

2. Ele adiou sua visita por sete dias. Por quê?

(1) Para que Ele pudesse repreender Tomé pela sua incredulidade. Ele tinha negligenciado a reunião anterior dos discípulos, e, para ensiná-lo a valorizar mais estas sessões de graça no futuro, ele não teria outra oportunidade por diversos dias. Aquele que perde uma maré deve esperar um pouco por outra. Temos razão para pensar que Tomé teve uma semana muito melancólica, desanimado e em suspense, ao passo que os outros discípulos estavam cheios de alegria, e isto foi devido a si mesmo e à sua própria tolice.

(2) Para que Ele pudesse por à prova a fé e a paciência dos demais discípulos. Eles tinham obtido algo muito importante quando ficaram satisfeitos por terem visto o Senhor. “Os discípulos se alegraram”. Mas Ele iria testar se eles conseguiriam conservar o que tinham conseguido, quando não o vissem por alguns dias. Desta maneira, Ele gradualmente os desacostuma da sua presença física, que eles tinham amado e da qual dependiam em excesso.

(3) Para que Ele pudesse honrar o primeiro dia da semana, e dar uma clara indicação da sua vontade, de que este dia fosse observado, na sua igreja, como o dia de repouso cristão, o dia da semana para o descanso sagrado e para as santas convocações. O fato de que um único dia, em sete, devesse ser religiosamente observado era uma indicação que fora expressa desde o princípio, sendo tão antiga como a inocência. E o fato de que, no reino do Messias, o primeiro dia da semana devesse ser este dia solene era uma indicação suficiente de que Cristo, neste dia, repetidamente encontra­ ria seus discípulos em uma assembleia religiosa. É altamente provável que, na sua aparição anterior a eles, Ele lhes recomendasse que depois de oito dias se reunissem novamente, prometendo encontrá-los, e também que Ele aparecesse a eles a cada primeiro dia da semana, além de outras oportunidades, durante os quarenta dias. A observância religiosa deste dia tem sido, desde então, transmitida até nós, passando por todas as épocas da igreja. Por isto, “este é o dia que fez o Senhor”.