PSICOLOGIA ANALÍTICA

PSICOLOGIA NA SALA DE AULA

Cientistas já sabem: marcar os trechos mais significativos dos textos com canetas coloridas ou mesmo reler várias vezes a mesma lição não ajuda tanto no processo de aprendizado quanto retomar o assunto estudado algumas vezes em dinâmicas de grupo e conversas com os colegas. Ainda assim, poucos professores encorajam os alunos a optar por técnicas comprovadamente eficazes.

psicologia na sala de aula

A maioria dos professores concorda que é importante que os alunos se lembrem do que leem. No entanto, uma das coisas mais comuns em escolas e cursos universitários é vê­los debruçados sobre livros ou fotocópias, com canetas marca-texto na mão, destacando passagens pertinentes – que muitas vezes incluem a maior parte da página. No final do semestre os estudantes se preparam para as provas, voltando aos textos e relendo os parágrafos coloridos.

Várias pesquisas têm mostrado, porém, que destacar trechos e relê-los está entre as maneiras menos eficazes de as pessoas se lembrarem do conteúdo que leram. Uma técnica muito mais eficaz é a dinâmica de grupo. Um estudo já replicado mostra que alunos que leem determinado texto uma veze tentam lembrá-lo em três ocasiões obtêm notas em torno de 50% maiores nas provas, em comparação aos colegas que leram o mesmo texto e depois o releram três vezes. E ainda assim muitos professores insistem em encorajar – ou pelo menos em não desencorajar – as técnicas que a ciência provou serem ineficazes.

Esse é apenas um sintoma do fracasso geral de integrar o conhecimento científico na escola. Muitas ideias comuns sobre educação desafiam princípios de cognição e aprendizagem. Um equívoco comum em algumas escolas é pensar que o ensino de conteúdo é menos importante que o de habilidades de pensamento crítico ou estratégias de resolução de problemas. Pesquisadores sabem que crianças devem aprender as conexões entre letras e sons e que se beneficiam mais quando essa instrução é planejada e explícita. É fácil dizer que os professores devem se esforçar mais para acompanhar a ciência, mas ensinar já é uma profissão muito trabalhosa. E é difícil para um não especialista separar pesquisas científicas da avalanche de falação e pseudociência.

Vendedores de panaceias caras e supostamente baseadas em pesquisas científicas fazem lobby de produtos que podem até ter validade, mas ainda não foram profundamente testados. Teorias de aprendizagem matemática, por exemplo, sugerem que jogos de tabuleiro lineares (mas não circulares) aumentam a prontidão para a área de exatas em pré-escola res, mas a ideia precisa de estudos em grande escala.

Como os educadores devem saber quais práticas adotar? Uma instituição que consulte pesquisas e as resuma poderia resolver o problema. A medicina fornece um precedente: médicos praticantes não têm tempo para se manter atualizados com as dezenas de milhares de artigos de pesquisa publicados anualmente, que podem sugerir uma mudança de tratamento. Em vez disso, eles confiam em sumários respeitáveis de pesquisas, publicados todo ano, que concluem se as evidências acumuladas apoiam mudanças na prática médica. Professores não têm nada semelhante a essas revisões competentes: estão por conta própria.

O Departamento de Educação dos Estados Unidos (DOE, em inglês) tentou, no passado, levar rigor científico ao ensino. A câmara What Works, criada em 2002 pelo Instituto de Ciências Educacionais do DOE, avalia currículos, programas e materiais de sala de aula, mas seus padrões são estritos e professores não têm participação no processo de verificação, tampouco na avaliação – e isso é crucial. Cientistas podem analisar pesquisas, mas professores entendem de educação. O propósito dessa instituição seria o de produzir informações que pudessem ser usadas para modelar o ensino e a aprendizagem.

Muitos professores precisam perder as noções de que o cérebro dos meninos é mais apto a atividades espaciais que o das meninas, por exemplo. Pode-se dizer que o trabalho de levar informações científicas precisas sobre cognição e aprendizagem a professores seja responsabilidade de faculdades de educação, do governo e de organizações profissionais de professores, mas essas instituições em geral não colocam esse objetivo como prioridade. Talvez um conselho nacional de revisão de estudos sobre aprendizagem fosse a maneira mais simples e rápida para transpor um grande obstáculo para a melhoria em muitas escolas.

O armazenamento digital de dados se tornou parte do cotidiano, seja na forma de listas de contatos e eventos do smartphone, seja no acesso constante aos enormes estoques de conhecimento guardados na nuvem. Pesquisas anteriores já haviam apontado que guardar informações nesses locais nos torna menos propensos a recordá-las, provavelmente porque entendemos que não precisamos memorizar algo que já está salvo. “Mas isso também pode liberar recursos mentais e memória para outros conteúdos”, argumentam os cientistas cognitivos Benjamin Storm e Sean Stone, ambos da Universidade da Califórnia em Santa Cruz.

Os dois conduziram uma série de experimentos em que pediram aos voluntários que estudassem uma lista de oito palavras. Para um grupo, os pesquisadores disseram que deveriam salvar o arquivo e para o outro, que apenas fechassem o documento. Em seguida, os participantes estudaram uma segunda lista. Mais tarde, um teste de memória avaliou o quanto os participantes se lembravam dos vocábulos.

ISSO FUNCIONA NA PRÁTICA!

Vem crescendo o número de estudos sobre como absorvemos conteúdo. Resultados consistentes sugerem que determinadas estratégias, como lembrar aos alunos que a inteligência não é algo fixo e “pronto”, podem ser determinantes para aprimorar a aprendizagem e o desempenho. Esse campo de pesquisa pode oferecer indicações simples e preciosas que ajudam a trazer muitos ganhos. Confira alguns dos mais recentes estudos que exploram esses campos.

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SALVE UM ARQUIVO PARA LEMBRAR O CONTEÚDO DO OUTRO

Os pesquisadores observaram que aqueles que salvaram o primeiro arquivo se recordaram mais da lista do segundo, de acordo com artigo publicado em fevereiro do ano passado na revista Psychological Science. Esse efeito não foi observado quando o processo de gravação não era comprovadamente confiável ou se o documento acessado primeiramente mostrava apenas duas palavras. Os pesquisadores cogitam que é como se os voluntários tivessem usado o armazenamento digital como uma capacidade externa para “transferir” as demandas da memória. Eles sugerem que podemos aproveitar essa peculiaridade, salvando imediatamente as informações de que não precisamos para consulta posterior. Assim, realocamos recursos para aprender.

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TENHA PACIÊNCIA E MANTENHA A CURIOSIDADE

Em tempos de internet, quando qualquer informação está ao alcance de alguns toques, podemos ter a impressão de que acessar os resultados na hora favorece a absorção de informação. Vários estudos, porém, chamam atenção para os benefícios de não receber uma resposta às nossas perguntas tão rapidamente. Quando fazemos um teste, temos maior chance de memorizar a alternativa correta se a ouvimos depois de alguns segundos, em vez de acessá-la instantaneamente.

Para compreender por que isso ajuda a apurar a aprendizagem, pesquisadores da Universidade Estadual de Iowa pediram a estudantes universitários que dessem seu melhor palpite para perguntas triviais como “Quem inventou a palavra nerd?” e “Qual é a cor do sangue dos gafanhotos?” e avaliassem seu grau de curiosidade em relação ao assunto. Para metade das perguntas, os participantes tiveram acesso à informação correta imediatamente depois de ter respondido às perguntas. Para as demais, tiveram de esperar quatro segundos ou escutar a resposta com intervalos imprevisíveis de dois, quatro ou oito segundos. Em seguida, os voluntários participaram de uma tarefa não relacionada, com o objetivo de distraí-los e, só então, foram testados sobre o quanto absorveram das questões a que haviam respondido.

Os resultados desse experimento, publicados em novembro 2014 na Memory & Cognition, confirmam os benefícios dessa estratégia de aprendizado, mas mostram que ela depende da curiosidade: em testes de acompanhamento, os participantes acertaram mais vezes quando receberam as respostas depois de um tempo, porém, apenas em relação a questões de seu interesse. Os pesquisadores sugerem que esse atraso incentiva os alunos a antecipar a informação, o que aumenta o nível de atenção quando a recebem.

O efeito foi mais forte quando a resposta era dada em intervalos imprevisíveis, o que está de acordo com estudos anteriores que mostram que a atenção é reforça­ da quando a sequência de eventos é incerta. Então, quando estudar com um amigo, peça a ele que revele a informação correta somente depois de alguns segundos, sem que você saiba quantos. Mas, se preferir fazer isso sozinho, tente resistir ao desejo de pesquisar no Google ou procurar uma resposta imediata: dê palpites antes.

Aliás, quem cunhou a palavra nerd foi o escritor e cartunista americano Theodor Seuss Geisel, conhecido por Dr. Seuss, morto em 1991. E o sangue dos gafanhotos é branco. Se você estava pensando sobre isso, a demora pode ter ajudado a gravar essa informação em sua memória.

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MEXA COM O CORPO LOGO DEPOIS DE ESTUDAR

De forma geral, manter o corpo em movimento colabora para a saúde do cérebro, o que ajuda a aprimorar a capacidade de raciocinar e fixar o que aprendemos. Agora, novos estudos revelam outras constatações importantes relacionadas à prática de exercícios físicos: marcar o horário do treino logo após adquirir algum aprendizado ajuda a reter melhor as informações. Em diversos experimentos, constatou-se que pessoas que participaram de exercícios de musculação um pouco antes de estudar se saíram melhor em testes de recordação após horas, dias ou semanas.

Especialistas acreditam que a excitação física é a chave para a fixação. Exercícios podem estimular o corpo de maneira similar a experiências emocionais – e sabemos que memórias afetivas são as que mais duram. Os pesquisadores advertem, porém, que a atividade física produz, no máximo, um efeito de suporte – o mais importante, obviamente, é se dedicar aos estudos antes de qualquer coisa.

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DISTRAÇÕES ÚTEIS

Em certas circunstâncias, a distração pode colaborar para o aprendizado. A raiz dessa argumentação está no fato de que a memória tende a funcionar por meio de associações e o que aprendemos em uma situação nem sempre pode ser lembrado em outra. De maneira notável, pesquisadores já demonstraram que palavras decoradas durante um mergulho são mais fáceis de serem recordadas num ambiente subaquático do que em terra seca. Agora, psicólogos da Universidade Brown sugerem algo semelhante em relação à distração. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores treinaram 48 voluntários para atingir um alvo na tela de um computador utilizando um touchpad instável (que poderia, por exemplo, mover o cursor na diagonal). Depois, avaliaram a capacidade dos participantes de atingir rapidamente a marca. Durante essas etapas, os voluntários foram selecionados aleatoriamente para fazer uma segunda tarefa relacionada à capacidade de manter a atenção: contar letras em uma tela. Os que foram distraídos durante apenas uma fase demonstraram baixo desempenho na hora do teste, mas aqueles que participaram da tarefa de calcular letras tanto durante o treinamento quanto durante a avaliação se saíram tão bem quanto os que fizeram o mesmo, mas sem sofrer interferência, segundo artigo publicado em fevereiro na Psychological Science.

Os cientistas concordam que o consenso entre muitos especialistas é que a distração é algo negativo para o aprendizado. No entanto, se você souber de antemão que vai passar por um teste que interfere na atenção ou que terá de enfrentar um ambiente perturbador, uma boa alternativa para evitar ser pego de surpresa é tentar simular as distrações enquanto estuda ou treina.

É INUSITADO, MAS PODE AUMENTAR A CRIATIVIDADE E O FOCO

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TONIFICAÇÃO DA LINGUAGEM, EDUCAÇÃO PRECOCE NO BERÇO

Cientistas da Universidade de Rutgers desenvolveram testes para determinar se os bebês com audição normal processam os sons de modo profundo dentro do cérebro (gráfico abaixo). Eles estão analisando se um jogo criado por eles (gráfico ao lado) pode preparar crianças mais novas a falar, ouvir, ler e escrever.

psicologia na sala de aula. 7 À ESPERA DE “AHÁ!”

O Laboratório de Estudos sobre a Infância da Rutgers coloca uma touca de eletrodos em bebês para registrar a atividade cerebral enquanto eles ouvem sons variados. Primeiro, as crianças escutam tons de alta frequência, que estimulam determinado padrão de ondas cerebrais. Tons de alturas diferentes se intercalam com os tons iniciais e provocam uma mudança temporária na onda cerebral (a resposta ahá!) conforme o cérebro detecta a mudança. Uma resposta mais lenta ou mais fraca a esta alteração súbita na altura pode predizer problemas posteriores de linguagem.

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DIREÇÃO PREFERENCIAL

Com a tomografia por ressonância magnética por difusão os pesquisadores tornam visíveis as fibras da substância cerebral branca. As regiões claras correspondem às áreas nas quais a água só pode se mover de forma limitada (anisotrópica), por exemplo, ao longo dos filamentos neurais. Por outro lado, estão escuras as regiões do cérebro com difusão ilimitada (isotrópica) da água, por exemplo, nos ventrículos. As imagens pequenas as mostram em detalhe: anisotrópica (no alto) e isotrópica (embaixo).

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Tente isto: coloque uma informação fundamental em um tipo de letra difícil de acompanhar. Em um estudo de 2011, voluntários que leram algo numa fonte desconhecida ou pouco legível se recordaram mais da informação do que aqueles que tiveram a leitura fácil. O tamanho da letra, porém, não fez diferença.

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BRINCADEIRAS PARA OS PEQUENOS

Os bebês na Rutgers podem aprender a processar a altura (frequência do som) de forma mais eficiente enquanto também se divertem. A criança aprende a virar a cabeça em resposta aos tons B (à direita), mas não aos tons A (à esquerda), e é recompensada com um trecho de um vídeo na resposta correta. O ritmo de sequências de tons se acelera, e a criança aprende a responder cada vez mais com maior precisão, nesse ritmo acelerado.

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OUTROS OLHARES

ELUS SÃO ELES E ELAS

Pessoas que não se identificam nem como homem nem como mulher revelam as complexas questões modernas sobre gênero e identidade.

elus são eles e elas

A pose é sexy. De saia curta, scarpin e blusa decotada, Mar Gonçalves, de 49 anos, cruza as pernas e deixa os cachos caírem sobre o rosto, faz carão e bate o selfie diante do espelho. A foto é a proteção de tela de seu celular, que, aliás, é um dos poucos objetos que compõem sua mesa de trabalho. O contraste da imagem com o ambiente burocrático do banco – e com o que costuma vestir no dia a dia – é grande: só sai de casa de calça jeans, camiseta e tênis. A dualidade de estilos é, na verdade, sua essência.  Mar é uma pessoa não binária: não se identifica nem com o gênero masculino nem com o feminino. Para o iFood e alguns alegas, é o Mar – o que não chega a ser um problema. Mas ela gosta mesmo de ser a Mar. Quer me chamar de ele, falar o Mar, tudo bem.

Mas, me encaixar numa caixinha, não, diz que quer que eu levante um armário porque sou forte, não porque sou homem.”

A carioca não sabia o que era não binaridade até 2012, quando, navegando na internet, deparou com o conceito. Para quem sempre se considerou fora dos padrões do mundo, de repente, passou a fazer sentido. Logo se entendeu como uma pessoa de gênero neutro e decidiu que, a partir dalí, seu nome de registro, Mar, seria a inspiração para o nome social: atenderia por Mar. Na época, era casada com uma zootecnista, com quem manteve um relacionamento até agosto do ano passado.      A companheira e os filhos dela, então com 17 e 18 anos, se esforçaram imediatamente para deixar de chamá-la pelo antigo apelido, Celo, passaram a apresentá-la como Mar. “São pessoas de boa cabeça”. No primeiro encontro com a ex-mulher, em 2009, já havia dito que era transgênero.

Se, em casa, a questão estava resolvida, no trabalho havia um mar para atravessar. Ela tinha acabado de ser transferida para o setor de Recursos Humanos da Caixa Econômica Federal, no qual é responsável até hoje por dar subsídio à defesa de reclamações trabalhista contra o banco. Não queria chegar ao novo grupo com a informação debaixo do braço. Preferiu esperar. Mudar o nome no perfil do Facebook parecia uma medida menos drástica e nem tão dramática. Pero no mucho. Ao passar a militar pelas causas LGBTQ+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e queers) na rede social, em 2015, sua página foi tomada por mensagens de cunho transfóbico. Acabou apagando a conta. ”Três meses depois, voltei fortalecida, com perfil novo, 100% assumida e militante”, lembrou.

No mesmo ano, Mar escreveu um texto sobre linguagem inclusiva e compartilhou com o pessoal do banco. Era hora de puxar o assunto e deixar de ser Marcelo no ambiente de trabalho. O processo foi lento e não exatamente fácil. Apesar de, aos poucos, muitos terem absorvido a “novidade”, uma colega fez questão de seguir enquadrando-a como homem. Mar desceu do salto: sem se preocupar em ser educada pediu à moça que destilasse seu preconceito em outra freguesia. Também propôs um debate sobre diversidade à equipe e acabou por doutrinar a referida senhora, que hoje só a chama pelo nome de registro eventualmente. Por lapso, claro…

A falta de paciência para lidar com certas posturas hostis fez Mar preferir o mundo virtual ao real desde cedo. O computador e o vídeo- game – além do cinema e da literatura – viraram seu refúgio     diante da rejeição que começou a enfrentar ainda na infância, na escola, na hora do recreio, em vez de jogar futebol, preferia brincar de elástico, o que era motivo de piadas e insultos. A   chamavam de mulherzinha. Já na adolescência, reconheceu-se como mulher transexual, mas não     se sentiu pronta para compartilhar a descoberta. Só aos 30 anos criou coragem para contar o segredo para a mãe, com quem morava e mantinha uma relação delicada. O passo foi acompanhado por outro ainda maior: saiu de casa e começou a tomar hormônio feminino e inibidores de testosterona. Os seios cresceram, os pelos diminuíram, a gordura corporal se redistribuiu. Nessa época, conheceu uma mulher trans, com quem ficou casada por quatro anos. Deixou de recorrer aos hormônios em 2008, mesma época em que seu casamento acabou. Resolveu colocar um pé no freio na transição porque uma identificação completa com o gênero feminino não era exatamente o que estava imaginando. “Dei um passo atrás, voltei para o meu casulinho e fiquei assim até 2012, fazendo cosplay de pessoa cisgênero.”

Esse risco ela não corre mais. O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou, em 1º de março, pessoas trans a mudar de nome e sexo nos documentos de identificação sem necessidade de cirurgia, o que foi regulamentado, em junho, pelo Conselho Nacional de Justiça. Em agosto, Mar aproveitou as férias para dar entrada no pedido de alteração do nome de registro. ”Mais confusão para os outros, mais tranquilidade interior para mim.”

O conceito de não binaridade é relativamente novo: chegou ao Brasil há cerca de oito anos. Recentemente, veio à tona após o desaparecimento de Matheusa Passareli, aluna de artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Morta no início de maio por traficantes do Morro do Dezoito, em Água Santa, Zona Norte do Rio de Janeiro, seu corpo não foi encontrado até hoje. Nos Estados Unidos, o termo começou a ficar mais popular na década de 90, quando apareceram as palavras “genderqueer” e ‘non-binary”, usadas para falar de pessoas que não se identificavam nem com o gênero masculino nem com o feminino. Ao longo da história da humanidade, entretanto, muita gente já se sentia como Mar. No século XV, antes da chegada dos colonizadores europeus, membros da tribo indígena americana Dois Espíritos acreditavam que dentro de um mesmo corpo havia um espírito de homem e um de mulher. No dia a dia, eles vestiam roupas e executavam o trabalho de ambos os gêneros.

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Conhecer um pouco mais sobre essa tribo fez Nuaj del Fiol, de 24 anos, entender que o que passava por sua cabeça não era exclusivo. Começou a externalizar isso em 2016, quando resolveu contar para seu pai que era pessoa não binária, o que não foi muito bem compreendido. Como não se considerava nem menina nem menino, Nuaj passou a usar pronomes e adjetivos neutros para falar de si. “Para mim, não é ela nem ele. É elu mesmo.”

Elu (pronuncia-se êlu) é o pronome mais usado na linguagem não binária para substituir “ela” ou “ele”. Há, ainda, outras formas, como ilu (ilú) e el.  Já os adjetivos ganham um “e” como vogal temática, proposta da comunidade LGBTQ + justamente para evitar o binarismo de gênero     gramatical. É também uma alternativa ao @ – bastante usado no começo dos anos 2000 entre feminista que se incomodavam com os efeitos excludentes da língua – e ao “x”, que ganhou força recentemente ao ser adotado por pessoas trans, queer e não binárias como forma de desconstruir a dicotomia entre masculino e feminino. Ambos os empregos foram questionados por terem suas interações orais limitadas, explicou o professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rodrigo Borba, autor do livro O (des)aprendizado de si: transexualidades, interação e cuidado em saúde, publicado pela editora Fiocruz.

Nuaj contou que, mesmo sem se dar conta, sempre questionou a imposição de gênero. Cortou as madeixas no estilo “Joãozinho” pela primeira vez quando estava na primeira série do ensino fundamental. Também não entendia o por que de ter de frequentar o banheiro feminino. Quando entrou num banheiro masculino foi puxade (passamos a empregar o “e” não binário para nos referirmos a Nuaj) pela orelha pela professora. Passou boa parte de sua infância e adolescência sendo chamade de sapatão. Até pouco tempo atrás, tinha inflamações na pele e na garganta; para   elu, somatizações de seu sofrimento.  Há aproximadamente dois anos, quando descobriu e começou a entender a não binaridade, teve a sensação de que não tinha nem mesmo um nome para chamar de seu. O nome de registro já era uma peça pregada pelo destino. Natália significa “nascimento”, e del Fiol ‘do filho”: uma previsão irônica de que não se enquadraria na binaridade dos gêneros. Numa de suas buscas interiores, tirou algumas horas para meditar. Ouviu de suas vísceras um som que fazia ”nuuuuaaaaau. Renasceu. A partir daquele momento passou a se chamar Nua. O “J” foi acrescentado posteriormente, por sugestão de uma numeróloga.

Nascide em Campinas, veio para Rio há quatro anos com o objetivo de estudar: é alune de artes na Universidade Federal Fluminense (UFF) e está se formando em artes cênicas na Casa das Artes de Laranjeira (CAL). Vive sozinhe com uma gata em um apartamento no Flamengo, na Zona Sul, para onde se mudou em março. Na portaria, um senhor de idade diz: ”A Nuaj mora no quinto andar”, Elu contou que inda não explicou a ele que é uma pessoa não binária e, por isso, sofre diariamente ao sair de casa. “Não consigo sair de bigode de manhã porque o porteiro vai me olhar estranho. E ele é um senhorzinho tão amigável…”

A desconstrução da aparência feminina tem sido a parte mais dolorosa de seu processo. Comprou uma calcinhona, que cortou para fazer um top e esconder os seios. Deixou de depilar as pernas, e conquistou uma leve penugem no buço com a ajuda de alimento que contribuem para os pelos crescerem, como semente de girassol. ”Eu gosto do meu corpo, mas tenho uma disforia social. Quando me falam que sou ela, tento me esconder”.

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Quando criança, Sophi Saphirah, de 21 anos, achava que era um menino, seu gênero designado. Nascida em Uberlândia e filha de mãe solteira e evangélica, ainda adolescente não se reconhecia como transexual. Associava o termo à figura de um homem vestido de mulher. Hoje se considera uma pessoa não binária, mas prefere ser chamada no feminino, já que nega a construção social do que é ser homem. “Às vezes não quero pensar sobre isso, só quero ser. Não tenho exigência de ser tratada no gênero neutro, aceito o feminino sem problemas”, contou Sophi, amiga de Nuaj e estudante de artes cênicas na CAL.

Professora de psicologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Jan iro (IFRJ) e transexual, Jaqueline Gomes de Jesus destaca que o Brasil tem uma educação muito conservadora e rígida nos estereótipos de gênero. Para ela, nossa cultura tem imagens tradicionais: pressupõe que as meninas são gostar de rosa, usar saia e brincar de boneca, enquanto os meninos vão preferir o azul, trajar calça e jogar bola. Para Sophi, uma cor não exclui a outra. Seus cabelos, longos e ondulados, foram tingidos de rosa e azul. Ela é bem alta, esguia. Sua pele é tão branca que beira o translúcido. O olhar é vago, e a fala cuidadosa e reflexiva, como se escolhesse cada palavra. Passou pelo processo de transição no ano passado, depois de uma professora proibir de interpretar um personagem que tinha características trans numa peça.    Começou a pensar sobre si e, de lá para cá, vem se questionando. Tomou hormônio feminino e inibidor de testosterona porque não queria ser vista como bicha, menino gay. “As pessoas têm cabeças binárias. Seria natural eu ter barba, por exemplo, mas é uma coisa que eu não suporto por causa da leitura social que isso representa. Muita gente olha para ver se eu tenho peito ou pau.”

Embora não tenha vontade de se submeter a cirurgias, Sophi fez modificações estéticas para ser lida socialmente como mulher e evitar situações transfóbicas – chegou a ser ameaçada com um pedaço de madeira. Episódios como esse são comuns. Informações do Grupo Gay da Bahia (GGB), que há 38 anos coleta estatística sobre assassinatos de homossexuais e transgênero no país. revelam que o Brasil é o país que mais mata LGBTQ+ no mundo. Só no ano passado, 445 pessoas foram vítimas fatais de crime homofóbico, número 30% maior do que em 2016. A assessora de Direitos Humanos e Minorias do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), promotora Eliane de Lima Pereira, recebe diariamente denúncias de violência, como o caso da transexual Bruna Andrade de César, internada à força por sua mãe em uma clínica psiquiátrica em maio. Apesar de lamentar a falta de dados mais precisos de crime contra essas pessoas, Pereira se mostra otimista com o protocolo de atendimento para mulher transexual e travesti na delegacia do Rio, lançado pela Polícia Civil também em maio. Para ela, estratégias para dar visibilidade àqueles cuja existência é negada são extremamente poderosas.

Sophi sabe que, mesmo sofrendo preconceito diariamente, é bastante privilegiada por ter apoio da mãe e poder trabalhar com teatro sem ganhar dinheiro por enquanto. “Gostaria de ver mais pessoas trans no mercado de trabalho. A maioria acaba se prostituindo para se sustentar.” Ela disse isso de forma enfática, enquanto brincava com seu gato na sala da casa em que mora sozinha. Já ao falar de sua vida pessoal, é muito discreta. Sua primeira relação mais séria, com uma pessoa não binária, começou há cerca de cinco meses. Amigues dizem que o casal se completa. E os perfis delus nas redes sociais, repletos de sorrisos e declarações atestam: estão muito felizes.

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GESTÃO E CARREIRA

DE ONDE VEM E DE ONDE VIRÁ O CLIENTE

Executivos de supermercados concentram o esforço em aplicativos e televendas.

de onde vem e de onde virá o cliente

Quais são os setores do varejo mais ancorados em lojas físicas e quais já colhem a maior parte das receitas na internet? Uma pesquisa obtida com exclusividade mostra qual é o grau de dependência desses negócios em relação a lojas físicas (em todos, a dependência entrou em queda mais acelerada desde 2016). O estudo abrangeu 537 dos maiores varejistas do Brasil. “As empresas líderes é que vão ditar o ritmo da mudança. Isso vai depender dos investimentos que elas fazem neste momento em novos canais e na experiência do cliente”, diz Daniel Domeneghetti, CEO da DOM Strategy Partners, consultoria que fez a pesquisa. Supermercados e hipermercados despontaram como os que mais investem em canais virtuais – 87% dos executivos responderam que concentram esforços para criar ou melhorar aplicativos móveis e televendas neste ano. No caso dos varejistas de moda, 67% dedicam mais atenção a canais como redes sociais, em que a venda nem sempre ocorre, mas que servem como entrada importante para que o consumidor compre em outro canal.

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ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 20: 19-25 – PARTE III

alimento diário

Cristo com seus Discípulos

 

III – A incredulidade de Tomé, quando lhe foi feito o relato de tudo isto, motivando a segunda manifestação de Cristo.

1. Aqui está relatada a ausência de Tomé nesta reunião, v. 24. Aqui está escrito que ele era um dos doze, um participante do círculo dos apóstolos, que, embora agora fossem somente onze, já tinham sido doze, e em breve seriam doze outra vez. Eram somente onze, e um deles estava ausente. Os discípulos de Cristo nunca estarão todos reunidos, até a assembleia geral, no grande dia. Talvez a ausência de Tomé se devesse a alguma infelicidade, ou ele não estava bem, ou não tinha sido chamado, ou talvez tivesse cometido algum pecado ou tolice, ou foi distraído por negócios, ou por alguma visita, que ele preferiu a esta oportunidade, ou não veio por temer os judeus, e talvez tenha chamado de prudência e precaução aquilo que foi sua covardia. No entanto, com sua ausência, ele perdeu a satisfação de ver seu Mestre ressuscitado, e de compartilhar com os discípulos a alegria desta ocasião. Observe que sabem o que estão perdendo aqueles que se ausentam, descuidada­ mente, das assembleias solenes dos cristãos.

2. O relato que os outros discípulos lhe fazem, da visita que seu Mestre lhes tinha feito, v. 25. Na próxima vez que o viram, disseram-lhe, com suficiente alegria: “Vimos o Senhor”, e sem dúvida lhe contaram tudo o que tinha acontecido, particularmente a satisfação que Ele lhes tinha dado, mostrando-lhes suas mãos e seu lado. Aparentemente, embora Tomé não estivesse com eles naquela ocasião, ele não ficou longe deles por muito tempo. Aqueles que ficam ausentes por algum tempo não devem ser condenados como apóstatas para sempre. Tomé não é Judas. Observe com que alegria e triunfo eles contam: “‘Vimos o Senhor’, a visão mais consoladora que já tivemos”. Isto, eles disseram a Tomé:

(1) Para repreendê-lo pela sua ausência: “‘Vimos o Senhor’, mas você não o viu”. Ou, mais exatamente:

(2) Para informá-lo: ‘”Vimos o Senhor’, e desejávamos que você estivesse aqui, para vê-lo também, pois você teria visto o suficiente para ficar satisfeito”. Observe que os discípulos de Cristo devem se esforçar para edificar uns aos outros em sua fé mais sagrada, tanto repetindo o que ouviram àqueles que estavam ausentes, para que possam ouvi-lo de segunda mão, como também transmitindo o que sentiram e vivenciaram. Aqueles que, pela fé, viram o Senhor, e sentiram que Ele é gracioso, devem contar a outros o que Deus fez às suas almas, excluindo somente a ostentação.

3. As objeções que Tomé levantou contra as evidências, para justificar sua pouca disposição de aceitá-las. “Não me digam que vocês viram o Senhor vivo. Vocês são crédulos demais. Alguém fez vocês de tolos. Quanto a mim, ‘se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei”‘. Comparando isto com o que ele tinha dito (cap. 11.16; 14.5), alguns supõem que ele era um homem de tempemamento impertinente e rude, capaz de falar com irritação, pois nem todas as pessoas boas têm um bom temperamento. No entanto, houve muitos equívocos no seu comportamento nesta ocasião.

(1) Ele não tinha prestado atenção, ou não tinha dado a devida consideração, ao que Cristo tinha dito tão frequentemente, e também ao Antigo Testamento, que dizia que Ele ressuscitaria no terceiro dia. De modo que ele deveria ter dito: “Ele ressuscitou”, embora ainda não o tivesse visto, nem tivesse falado com alguma das pessoas que o tinham visto.

(2) Ele não teve uma consideração justa com o testemunho dos seus co-discípulos, que eram homens de sabedoria e integridade, e deviam ser dignos de crédito. Ele sabia que eles eram homens honestos. Todos os dez contribuíram para o testemunho com grande confiança, e ainda assim Tomé não conseguia se persuadir a dizer que o relato deles era verdadeiro. Cristo os tinha escolhido para que fossem suas testemunhas, deste mesmo fato, a todas as nações, e ainda assim Tomé, que pertencia à sua própria fraternidade, não permitia que eles fossem testemunhas competentes, nem confiava em nada além do que pudesse ver neles. No entanto, não era sua veracidade que ele questionava, mas sua prudência. Ele temia que eles fossem excessivamente crédulos.

(3) Ele tentou a Cristo, e limitou o Santo de Israel, quando desejou ser convencido pelos seus próprios métodos, caso contrário não se convenceria. Tomé não podia ter a certeza de que as marcas dos pregos que os apóstolos lhe disseram ter visto poderiam ser tocadas por seus dedos, ou que a ferida no seu lado suportasse a colocação da sua mão, nem era adequado lidar de maneira tão rude com um corpo vivo. Ainda assim, Tomé condiciona sua fé a esta evidência. Ou isto lhe seria permitido, e ele teria sua condição fantasiosa satisfeita, ou não creria. Veja Mateus 16.11; 27.42.

(4) A declaração aberta disto, na presença dos discípulos, era uma ofensa e um desencorajamento para eles. Não era somente um pecado, mas um escândalo. Assim como um covarde produz muitos covardes, um cristão cético também leva o coração de seus irmãos a se derreter como seu coração, Deuteronômio 20.8. Se ele tivesse pensado somente este mal, e tivesse coberto a boca com sua mão, para suprimi- o, seu erro teria permanecido consigo. Mas sua proclamação da sua infidelidade, e de maneira tão peremptória, podia ter péssimas consequências para os demais, que eram apenas fracos e hesitantes.