PSICOLOGIA ANALÍTICA

SALTOS, RENDAS E OUTROS FETICHES

Preferência erótica por objetos inanimados ou partes do corpo, como pés, látex ou botas, mostra quão são enigmáticos os caminhos do desejo – e suscita controvérsias sobre os limites entre normal e patológico.

saltos, rendas e outros fetiches

Bernardo, de 40 anos, já perdeu as contas de quantas botas acumulou com o tempo, se 150 ou 200 pares. Em seu quarto, vários modelos – pretos, longos, brilhantes – estão alinhados, lado a lado.

Há variações de modelos militares, pilhas de específicos para motociclistas, indicados para fazer trilha, pares envernizados, de couro, além dos exemplares especiais de sua coleção – antigas botas de montaria inglesas que costuma usar. No entanto, Bernardo nunca montou um cavalo na vida. “Eu as uso durante a relação sexual. Elas são um fetiche para mim. “Ele adora também que seu parceiro use botas pesadas. A atração que sente por elas é tão grande que pode levá-lo ao clímax sexual mesmo sem a participação de outra pessoa.

O executivo bem-sucedido não tem problema nenhum em se classificar como fetichista. Quando, em chats na internet, procura pessoas com gosto semelhante, usa um nome que lembra o do imperador romano Gaius Germanicus (12 – 41 d.C), que recebeu o apelido de Calígula na infância por causa das botinhas (pequenas sandálias militares) que usava – quem sabe, o primeiro fetichista de botas famoso da história. No caso de Bernardo, porém, não são apenas elas que funcionam como estímulo erótico; ele se excita com couro de maneira geral. É possível pensar que há fetichismo quando, para atingir a excitação sexual ou o orgasmo, são necessários determinados objetos que lembram o corpo, partes do corpo ou estão relacionados às excreções.

Os favoritos incontestáveis da liga fetichista são os pés. Além deles, nada parece impensável no mundo colorido dos fetiches. Ao lado de clássicos como couro e borracha, utensílios como algemas, fraldas ou balões e mesmo ações como fumar podem se tornar o ponto­ chave do desejo.

Já Francisca, de 30 anos, adora vestidos de festa – não aqueles grandes, bufantes, mas os longos e justos. “Os vestidos me excitam e, quando estou usando um, imagino que fui raptada.” Ela é uma das poucas mulheres que assumem abertamente seu fetichismo. De maneira geral, a cena é dominada pelos homens. Não se sabe, porém, com exatidão qual a porcentagem de fetichistas na população, pois essa preferência surge frequentemente – isso quando o fato é mencionado nos consultórios do psiquiatra, psicanalista ou psicólogo – associada ao sadomasoquismo, voyeurismo ou exibicionismo.

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LIMITES IMPRECISOS

A distinção entre fetichismo e outras práticas sexuais costuma ser difícil, mas para os pesquisadores coloca-se principalmente a questão: a partir de que ponto uma pessoa é fetichista? Segundo o psiquiatra e terapeuta sexual Peter Fiedler, professor da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, não é fácil definir o que pode ser considerado “normal” quando se considera o poder de atração exercido por saltos altos ou lingeries provocantes sobre homens de qualquer orientação – até porque a sexualidade é desviante por natureza, como bem assinalou Sigmund Freud.

Freud já sabia que a passagem do “normal” para o “patológico” era fluida quando escreveu, em 1905, no primeiro de seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade: “Certo grau de (…) fetichismo, portanto, costuma ser próprio do amor normal, principalmente naqueles estágios da paixão nos quais o objeto sexual normal parece (…) inatingível. Para ilustrar quão presente pode ser a excitação sexual pelo fetiche, ele cita um trecho do romance Fausto, de Goethe (1749 – 1832). Nele, o personagem central está consumido de amor por Margarete. Como a união não é possível, ele pede ao demônio Mefisto: “Traze-me um lenço do seu seio/Um laço ao meu ardente anseio!”. Freud só falava em perversão patológica quando o fetiche suplantava qualquer outra possibilidade de satisfação, tornando-se objeto sexual exclusivo, sem o qual o desejo não pode ser satisfeito. Nesse caso, para ele, tratava-se de uma patologia. Atualmente psicanalistas e psicólogos são mais cuidadosos em classificar um fetichismo extremo como distúrbio sexual patológico. Aquilo que é estranho ou pouco usual não precisa ser obrigatoriamente patológico.

Os fetichistas se alegram com essa tendência. Bernardo e Francisca nunca se sentiram doentes por causa de suas preferências. Seus parceiros também jamais foram ameaçados por sua predileção fetichista. Esse é um ponto decisivo para o diagnóstico de distúrbios sexuais: o comportamento da pessoa afetada em um relacionamento serve de base para averiguar se há um problema grave. Quando fetichistas respeitam seu (sua) parceiro(a) e os interesses dele(a), está tudo bem.

Antigamente, esse tipo de comportamento seria considerado patológico, ainda que trouxesse satisfação pessoal e não prejudicasse os outros. Desde os anos 90, comportamentos e preferências foram se tornando pouco a pouco socialmente aceitáveis. Desde então, o desrespeito à esfera íntima e aos direitos de terceiros passou a ser o quesito decisivo para definir o que precisa de tratamento ou não.

Apesar de quase nunca sentirem sua necessidade como patológica, os fetichistas com frequência percebem muito cedo que seu comportamento sexual tende a ser diferente do de outras pessoas. Bernardo se pergunta se queria compensar alguma coisa ou simplesmente parecer mais masculino com o visual em couro, mas não e contra explicação convincente. Eu gosto porque me excita”, resume. Francisca vê a origem de seu fetichismo na relação com a mãe, muitas vezes doente e ausente. Em retrospectiva, diz: “O homem que me rapta em minha fantasia, quando estou usando vestidos maravilhosos, é como minha mãe, um tanto misterioso, poderoso”

Ainda assim, nem Bernardo nem Francisca conseguem explicar claramente o surgimento de suas preferências. Mesmo assim, suas reflexões indicam uma importante função dos fetiches: dar-lhes segurança. Segundo teoria do pediatra e psicanalista inglês Donald W. Winnicott (1896 – 1971), seu significado tem raízes nos chamados objetos de transição dos primeiros anos de vida, a partir dos quais as crianças encontram consolo na ausência da mãe (um cobertor ou um bichinho de pelúcia, por exemplo). Essa interpretação tem um paralelo com o significado etnológico dos fetiches: navegadores portugueses na Guiné foram os primeiros a cunhar o termo ao observar como membros de tribos da África ocidental usavam amuletos para se proteger de perigos e espíritos maus. Partindo desse princípio, psicanalistas passaram a interpretar a tendência ao fetichismo sexual como consequência de uma ligação insegura ou falta de ligação com a mãe durante a infância.

O psiquiatra e psicanalista americano Robert Stoller (1925 – 1991) também localiza na primeira infância a tendência ao fetichismo de nuances sadomasoquistas. Segundo ele, experiências traumáticas, como humilhações ou surras, acrescentam novos elementos ao desejo e ao prazer na idade adulta. Essa retomada de uma situação negativa da infância, Stoller classificou de perversão. “Um fetiche é uma história disfarçada de objeto, afirmou ele em 1991 depois de ter estudado o cenário do fetichismo em Los Angeles

RAZÃO E SENSIBILIDADE

Modelos psicanalíticos esclarecedores do fetichismo se mostram bastante plausíveis aplicados a cada caso, mas não podem ser comprovados empiricamente. Além do mais, as teorias não explicam por que apenas algumas pessoas cedem ao estímulo do fetiche. Na infância, todos são sensíveis a separações e se apegam a seus cobertores. No entanto, só alguns se tornam fetichistas. Parece que tudo depende da intensidade dos afetos. E mais: será que alguns são mais suscetíveis a estímulos fetichistas que outros?

Os psicólogos já quiseram descobrir isso no século passado. Contudo, até agora, ninguém nunca cogitou seriamente em considerar a existência de uma espécie de “gene do fetichismo”. A sexualidade humana é complexa demais para que uma única variante genética possa definir traços comportamentais de modo tão profundo. Certas predisposições, porém, poderiam se desenvolver de maneira a tornar uma pessoa mais suscetível ao surgimento de um fetichismo que outras. Possivelmente é congênita a forma como alguém estrutura suas ligações com os pais ou substitutos. Algumas variantes genéticas poderiam, então, tornar uma pessoa mais suscetível e outras mais resistentes.

“EXCITAÇÃO” DE LABORATÓRIO

Se o fetichismo for mesmo filogeneticamente determinado, um modelo animal talvez ajude. Há alguns anos, o pesquisador Michael Domjan, da Universidade do Texas em Austin, realizou um experimento com codornas-japonesas (Cotumix japônica). Aos machos foram apresentados bichos de pelúcia durante a copulação com fêmeas vivas, tornando-se assim um estímulo condicionado. Curiosamente, só cerca de metade dos animais copulou com o bicho de pelúcia, após a exposição ao estimulo. Conclusão: também entre as codornas-japonesas existem indivíduos mais suscetíveis ao fetiche que outros.

O único experimento conhecido desse tipo com seres humanos data dos anos 60. Naquela época, o cientista americano Stanley Rachman tentou induzir o fetichismo em laboratório: os sujeitos de sua pesquisa eram três psicólogos solteiros aos quais ele mostrou imagens de botas longas pretas. Quando juntou às imagens fotos de mulheres nuas, Rachman pôde registrar o surgimento de excitação sexual.

Dois anos mais tarde, demonstrou em um estudo subsequente, com seu colega Ray Hodgson, que um condicionamento adicional leva ao desenvolvimento de um fetichismo leve e temporário.

A experiência mostrou que também em seres humanos é possível condicionar a excitação sexual sob condições especiais pela apresentação de determinados objetos. No entanto, não ficou claro qual a influência dos genes. Também permaneceu incomprovada a suposição do pesquisador de que a combinação de um estímulo qualquer com a estimulação sexual na infância levaria ao surgimento de um fetichismo. Além disso, não se pode explicar qual a razão de não haver um número maior de fetichistas no mundo e por que objetos como travesseiros ou cobertores não se transformam em objetos do desejo, e sim coisas associadas ao corpo (quase sempre feminino).

Alguns pesquisadores consideram a predisposição o fator mais relevante: outros estão convencidos de que a origem está em acontecimentos marcantes; e há ainda os que explicam o desejo pelo objeto por meio da inveja do pênis freudiana, da suspensão do afeto ou de vivências eróticas na infância. No entanto, sem dúvida seria muito simplista atribuir ao fetichismo uma única origem. Resta o espanto sobre o que o cérebro humano é capaz de fazer em termos de abstração, fantasia e memória.

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O PODER MÁGICO DOS OBJETOS

“Artificial”, “falso” e “magia” são os significados da palavra feitiço, da qual advém fetichismo. Navegadores portugueses utilizavam esse termo para designar imagens de deuses da África ocidental. Na segunda metade do século 18, o magistrado francês Charles de Brosses (1709 – 1777) o usou em discussões científicas, relacionando-o à crença das populações primitivas no poder de objetos.

Em 1887, o psicólogo francês Alfred Binet (1857- 1911) associou pela primeira vez fetichismo e sexualidade. Segundo ele, um objeto adquiria significado erótico porque era percebido com estímulos sexuais naturais, de forma semelhante a um condicionamento pavloviano.

Em sua obra Psychopathia sexualis, o psiquiatra Richard von Krafft-Ebing (1840 – 1902) tratou detalhadamente dos comportamentos sexuais desviantes da norma como sadismo, masoquismo e fetichismo, os quais considerava patologias. Ele adotou o ponto de vista de Binel, do surgimento da preferência durante o período de amadurecimento sexual.

Já o médico e sexólogo alemão Magnus Hirschfeld (1868 – 1935) defendia uma abordagem sexual­ biológica: sua teoria da atratividade parcial afirma que todo ser humano tem certa preferência por determinadas características em uma pessoa – ou seja, um “fetichismo saudável com diferentes intensidades. O “fetichismo patológico” surgiria, então, quando uma única característica fosse supervalorizada e isolada do parceiro. Também para Sigmund Freud (1856 – 1939), certa preferência fetichista era normal.

Diferentemente de Binet e Krafft-Ebing, o psicanalista via a origem do fetichismo na primeira fase do desenvolvimento sexual.

Apesar de, ainda hoje, haver poucos dados sobre fetichistas, a maioria dos pesquisadores supõe que essa preferência ocorre sobretudo em homens. É provável que o motivo para isso tenha sua origem na história da evolução: enquanto a sexualidade feminina se orienta tendencialmente para a relação, os homens são quase sempre excitados por um estímulo-chave erótico.

Qualquer objeto específico pode ter efeito excitante sobre um fetichista, mas, considerando que quando se trata de sexualidade as composições podem ser as mais diversas, não é possível (nem desejável) restringir as possibilidades de prazer por meio de rótulos.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.