PSICOLOGIA ANALÍTICA

“SINTO TUDO, MAS NÃO TENHO NADA…”

O sofrimento físico e mental marca o fenômeno psicossomático, convocando profissionais da saúde a considerar suas implicações, o papel do paciente no processo de adoecimento e eventuais desdobramentos. A própria clínica abre e amplia essa discussão.

sinto tudo, mas não tenho nada...

Sofro com intestino preso e com essas dores há mais de 20 anos. É como se tivesse algo se movimentando dentro de mim, querendo sair, mas não sai. Minha barriga fica estufada, cheia de gases… Não aguento mais. Isso está acabando comigo, afeta toda a minha vida!” Essas palavras, em tom de desabafo, são ditas por Maura, no desenrolar de sua primeira consulta comigo. Visivelmente desgastada, a advogada elegante, de 41 anos, confessa estar cansada de fazer exames, procurar inúmeros especialistas, seguir todas as prescrições e continuar sofrendo e ouvindo as mesmas coisas: “Você não tem nada sério”; “A síndrome do intestino irritável (SII) é assim mesmo, de difícil tratamento”; “É apenas uma disfunção, nada mais que isso”. Por fim, ela me questiona: Terei que simplesmente aceitar e me conformar? Sinto tudo e não tenho nada? Como assim, doutora?”.

Casos como esse exemplificam os desafios cada vez mais frequentes com os quais deparamos na prática clínica diária. Diante desses questionamentos, o que responder? Como abordar o dilema da ambivalência do “sentir tudo e não ter nada”? Maura me fez pensar, especialmente nos possíveis significados de palavras como apenas, nada, tudo.

Ao afirmar que o paciente apresenta alterações funcionais, o médico se refere à exclusão de doença orgânica, após extensa investigação diagnóstica. Ao dizer “é apenas uma disfunção, “nada sério”, a referência é o campo biológico. Entretanto, a exclusão de lesões dos órgãos e sistemas orgânicos não deve implicar um reducionismo na concepção da desorganização somática – na verdade, psicossomática. Tampouco minimizar a complexidade da condição clínica de pacientes como Maura. Tais situações demandam a revisão de conceitos e perspectivas de abordagem clínica e terapêutica envolvidos no processo do adoecimento, com a inclusão da subjetividade, que ultrapassa as fronteiras do clássico modelo biomédico cartesiano (marcado pela dicotomia mente-corpo)

Sabe-se que a maior parte dos quadros disfuncionais não apresenta uma causa claramente definida. Múltiplos fatores estão envolvidos na fisiopatologia desses distúrbios, inclusive aspectos psicossociais. Nesse sentido, o desenvolvimento tecnológico e das pesquisas em neurociência permitiu avanços no campo da psiconeuroimunologia, com grande contribuição à compreensão das íntimas e reciprocas associações entre mente e corpo. As vertentes psicofisiológicas, ainda que fundamentadas em evidências biológicas, abrem caminho para uma interlocução entre profissionais da medicina, psicologia, psicanálise. Muitas vezes, é útil e precioso informar o paciente a respeito da plasticidade do cérebro, de suas conexões com órgãos e sistemas do corpo, sobre os registros conscientes e inconscientes da memória, com o intuito de proporcionar relações “demonstráveis” e, então, “aceitáveis”, entre cérebro e organismo, mente e corpo, psiquismo e soma, dor física e psíquica.

No caso da síndrome do intestino irritável, de fato, não se observa alteração metabólica ou estrutural da víscera. O papel do sistema nervoso central e autônomo é preponderante na função intestinal, através de importantes conexões que modulam as atividades motoras e sensoriais do intestino. Diante de alterações nesses sistemas reguladores, ocorrem as disfunções de motilidade, assim como aumento da percepção dos movimentos peristálticos. Por isso, os principais sintomas são dor, desconforto, distensão abdominal, podendo haver constipação, diarreia ou alternância entre ambos, em variados níveis de intensidade e comprometimento da saúde física e mental.

Considerando a situação de Maura, ela acordava de madrugada por causa da dor, sentia algo se movimentando dentro do abdome, sem possibilidade de evacuação, de alívio. Em sua peregrinação pelos consultórios médicos, a dor, “apenas” de caráter funcional, foi se tornando algo sem importância, sem remédio, sem solução, associado ao nada. Como lidar com a sensação de nulidade, coisa nenhuma, quando se sente “tudo”? É possível encontrar alivio e consolo nessa condição, mesmo com a exclusão de algo grave? Como pode haver ausência diante da presença insistente e perturbadora de sintomas que desorientam, desorganizam e assolam o corpo?

Outra paciente, Lídia, de 38 anos, de início se identificava como “um caso difícil e complicado de SII. Ela se mostrava apreensiva e com muito medo do diagnóstico. Pesquisou sobre o assunto e ficou apavorada diante da condição debilitante vivida por muitas pessoas com a síndrome. Lídia contou ter perdido o emprego por causa de sua dificuldade de concentração no trabalho, já que tinha fortes cólicas abdominais que precediam as idas frequentes ao banheiro. Seus sintomas não melhoravam com medicamentos e restrições dietéticas. “Sinto-me num beco sem salda, a caminho do caos. Eu sei que isso tudo tem a ver com meu emocional, sou muito nervosa, tudo que eu tenho é por causa da minha ansiedade. E, por fim, disse: “Sou a responsável por estar assim, toda estragada!”. Fiquei impactada e perguntei o porquê de uma afirmação tão contundente. Ela disse que sempre ouviu de todos à sua volta – parentes, colegas, médicos, psicólogos – que “isso é psicológico, emocional, psicossomático: isso é por causa do seu estresse, de sua ansiedade”. Eu me pergunto: isso o quê? Ou o que é isso? Percebo que saber disso não a ajudou a compreender o que isso significa.

O caso de Lídia aponta o surgimento de outro sintoma: se sentir responsável por estar “toda estragada” – a opressão da culpa, que adoece ainda mais o corpo e a alma. Esse é um aspecto que demanda atenção e cuidado. Lídia carregava um rótulo, o estigma de ser um caso difícil e complicado, uma pessoa problemática, doente, mas sem doença alguma, “apenas” com distúrbio funcional, “nada ” além disso. Há mais angústia e sofrimento a medida que as possibilidades de extirpação da causa e da tão esperada cura se tornam cada vez menos tangíveis.

Na verdade, muitas pessoas sofrem com a cronicidade de suas dores, seus desarranjos e disfunções e vivem a procura do porquê de seus transtornos. Quando o médico se dá conta do esgotamento de suas possibilidades terapêuticas e da provável influência de fatores psíquicos, é possível que faça encaminhamentos para profissionais da saúde mental. A questão é como o próprio médico concebe a necessidade e o papel do acompanhamento psicológico.

Como o foco é buscar tratar “a causa”, muitos encaminhamentos se resumem à indicações para  esse fim, sem que se compreenda ao certo como a psicoterapia pode ajudar a combater a dor “no corpo”, que não é “do corpo”. Não raramente há a crença de que, se a então procurada e misteriosa causa é psicológica, já não é do físico, é “da cabeça”; não é somático, é psíquico; não é do corpo, é da mente; não é do médico, é do psicólogo! Permanece a dicotomia, a cisão com a mesma sutileza que diferencia os conteúdos dos termos psico-soma e psicossoma. A presença do hífen traz apenas associação, enquanto sua ausência, integração. Sem dúvida, no caminho da compreensão do fenômeno psicossomático importa inicialmente associar psique e soma, para que se possa ligar, integrar, constituir a unidade psicossomática, representativa do que possa ser humano, ainda que disfuncional.

Georg Groddeck, médico contemporâneo de Freud, profundamente interessado na teoria psicanalítica e em suas implicações terapêuticas também nas doenças orgânicas, já apontava de forma crítica os impasses do pensamento causalista, à procura de causas internas ou externas. “Após uma divisão assim tão nítida, nos jogamos com verdadeira fúria sobre as causas externas, isto é: os bacilos, os resfriamentos, o excesso de comida, de bebida, os acidentes de trabalho e sabe-se lá mais o quê. E a causa interna foi completamente esquecida! Por quê? Porque é muito desagradável olhar para dentro de si mesmo – e é apenas em si mesmo que encontramos as poucas fagulhas que iluminam as trevas da causa interna.”

De fato, não é fácil nem simples acessar causas internas. Apesar de todas as dificuldades, esforços e do valor inerentes à formação e capacitação do profissional médico, se prepara mais para conhecer, acessar, interpretar, tratar, extirpar o que está fora do que o que está dentro. Nesse contexto, é perceptível uma contradição no discurso de muitos pacientes: falam de seus órgãos como algo que está dentro, mas é de fora. É comum ouvir “meu intestino é preguiçoso e indisciplinado; não me obedece; não sei o que fazer com ele!”. Apesar de a referência ser a um órgão interno, é como se representasse um objeto externo, uma peça do organismo, que requer avaliação e conserto. E, quando o problema é constatado, a “causa externa” está assegurada. Talvez por essa razão, o encontro de uma doença orgânica, que legitima o sofrimento no corpo, pode parecer mais confortante do que sua exclusão. A exclusão simplifica por um lado e complica por outro: expõe a sensação de vazio e insegurança quando a esperada primazia da “causa externa” é descartada.

Considerando esses aspectos, como podemos compreender a demanda e o conteúdo do apelo implícitos no desabafo de Maura ao dizer “sinto tudo e não tenho nada?”. Creio que o seu verdadeiro anseio por ajuda tinha uma relação muito estreita com essa frase, tão enigmática e desafiadora para um médico. Trata-se de uma pergunta ou de uma afirmação? A exclusão da causa externa reduz a nada o tudo que é sentido no corpo? Entendo haver um clamor pelo sentido intensamente contraditório de nada – e “tudo”, pelo significado de tamanha desorganização, de um existir (ou não existir) caótico. Na verdade, algo circula por todo o seu corpo e o desorganiza: uma excitação sem destino, sem nome, sem reconhecimento, sem fim. Será essa excitação o tudo irrepresentável, oculto e inominado, que se expressa como “nada” no corpo?

Pensar essas questões somente se tornou possível com o reconhecimento da necessidade de ajuda por parte do que cuida para compreender e conceber a dimensão do que possa significar ser pessoa. E isso vai se revelando em meu percurso pessoal profissional através do encontro com os conteúdos da psicossomática psicanalítica, que mobilizam profundas reflexões.

Na verdade, a obra freudiana proporcionou as bases para o desenvolvimento da escola psicossomática do século 20. O psicanalista Sándor Ferenczi desenvolveu conceitos importantes como patoneurose, neurose de órgão, a pontou as relações entre pensamento e descarga motora e ressaltou a importância da dinâmica psíquica em toda e qualquer doença orgânica. Groddeck estava certo de que não existem doenças orgânicas e doenças psíquicas, pois corpo e alma adoecem simultaneamente. O neurologista Paul Schilder (1886-1849) afirmou: “Utilizei o insight que nos dera a psicanálise com seus mecanismos psíquicos para elucidar problemas da patologia do cérebro”. Segundo Wilhelm Reich (1897-1957), “as relações entre as esferas somática e psíquica são resultantes de um paralelismo psicofísico” – toda experiência psíquica apresenta uma ancoragem fisiológica. Franz Alexander (1891-1964), psicanalista húngaro, representante da escola de psicossomática de Chicago, anunciava que “toda doença é psicossomática, pois os fatores emocionais influenciam todos os processos fisiológicos pelas vias nervosas e humorais”. O consagrado psiquiatra infantil e psicanalista René Spitz postulava que “o organismo opera fisiológica e psicologicamente como um sistema binário”.

Não é mesmo possível separar funcionamento mental de funcionamento orgânico. Os estudos do francês Pierre Marty, morto em 1993, e colaboradores, fundadores da escola de psicossomática de Paris, ampliaram os conceitos psicanalíticos, com ênfase na importância de aspectos do funcionamento mental nos processos de somatização. A manifestação de sintomas somáticos e de doenças se associa aos movimentos de organização e desorganização psíquicas, na dependência da qualidade e quantidade dos recursos presentes e disponíveis. Essas capacidades variam entre as pessoas, assim como em um mesmo indivíduo, dependendo do momento de sua vida. Posteriormente, Michel Fain retoma e salienta a noção de trauma, em que uma sobrecarga de excitação pode exceder os limites de resposta do psiquismo, do ego, e “transbordar” para o corpo. De fato, uma das principais funções do aparelho psíquico é possibilitar a assimilação de traumatismos ao longo da vida, transformar as excitações em representações psíquicas. Essas considerações apontam para a importância do infantil, das vivências primitivas, do acontecer vivenciado no corpo: único, singular.

Neste momento não cabe aprofundar, mas ressaltar a importância das pesquisas realizadas por autores como Splitz, Donald Winnicott, Leon Kreisler, que se dedicaram ao estudo das fases iniciais do desenvolvimento, das funções materna e paterna, fundamentais para a ligação entre psique e soma, para a construção e constituição do self, o verdadeiro eu, que possibilita o reconhecimento de si mesmo. Os estudos evidenciaram a necessidade de equilíbrio do par presença-ausência, da mãe na relação com seu bebe, ou seja, excesso de presença e excesso de ausência são profundamente desorganizadores, com impacto na organização psicossomática de todo indivíduo.

No início deste texto, foi proposta uma reflexão em torno das palavras apenas, nada, tudo, presentes no discurso de Maura. Neste momento, acrescento à lista a palavra excesso. Maura e Lídia sofriam de excessos. Excesso de presença não remete a “tudo”, e excesso de ausência, a “nada”, ambos desorganizadores, com conteúdos difusos, sem possibilidade de nomeação e representação psíquica? Seus distúrbios funcionais são “apenas” disfunções? Do corpo, da mente, ou de ambos?

Para Kreisler, “na histeria, o corpo fala; na clínica psicossomática, o corpo sofre…”, exatamente porque não fala. É necessário que alguém escute e possa compreender o não dito. Por isso, ao que cuida, mais do que informação, é necessário formação, para além da aquisição de saberes específicos dos especialistas, inclusive em psicossomática. Chamo atenção para a possibilidade de um verdadeiro encontro, não mais de um profissional bem informado com um organismo fragmentado, ou partes dele, sem vida. Refiro-me ao precioso e singular encontro de uma pessoa bem formada, constituída na qualidade de sujeito, com outro sujeito, muitas vezes aos pedaços e disfuncional, que carrega no próprio corpo as marcas de sua história. Quem sabe, a partir de então, seja possível o caminhar em um percurso que possibilite a esse outro o encontro de “si mesmo”.

Em 1923, Freud escreveu: “A psicanálise nunca pretendeu ser uma panaceia ou produzir milagres. Para além de seus efeitos de cura, ela pode recompensar os médicos através de uma compreensão insuspeitada sobre as relações entre o psíquico e o somático. Certamente, recompensou.

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OUTROS OLHARES

JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS

Crescem na América Latina os linchamentos organizados pelas redes sociais. Entre as vítimas, muitos inocentes.

justiça com as próprias mãos

Em 19 de outubro de 2015 os irmãos José Abraham e Rey David Copado Molina, estudantes da Cidade do México, estavam na cidade de Ajalpan, no leste do país, fazendo bico como pesquisadores para uma empresa de marketing. Eles percorriam a cidadezinha, com seus formulários, fazendo perguntas. Nessa mesma manhã circulavam pelas redes sociais informações indicando que criminosos haviam tentado sequestrar uma menina em Ajalpan. Subitamente, uma pessoa na rua, ao ver os dois jovens, gritou: “Eles sequestraram a menina!”. As pessoas ao redor concluíram que, se não eram conhecidos da cidade, logo deveriam ser de fora. E, como estavam fazendo “perguntas esquisitas” – sobre o consumo de tortillas -, só poderiam ser os criminosos que haviam sequestrado a criança.

Quando lhes perguntaram o que faziam ali, responderam que eram “encuestadores” (pesquisadores). Alguém gritou: “Estão vendo? Eles admitem que são sequestradores!”. Diversas pessoas começaram a bater nos dois rapazes. A polícia deteve os dois e os levou para a delegacia, onde comprovaram sua real identidade. Enquanto isso, nas redes sociais, a população era convocada, pelo WhastApp, a ir imediatamente até a delegacia linchar os supostos criminosos.

A polícia optou por não liberá-los, já que uma multidão cercava o prédio. A turba invadiu a delegacia, carregou os dois irmãos para fora, espancou-os, cortou-os com “machetes” (peixeiras), jogou-lhes gasolina e ateou­ lhes fogo em praça pública. Depois, descobriu-se que a menina sequestrada nem sequer existia. Para analistas, os irmãos foram vítimas colaterais da irritação popular com a impunidade de 98% dos crimes no México.

Essa modalidade de linchamento, originada por rumores nas redes sociais, está sendo denominada de “linchamento 2.0”. O formato está em acelerada expansão na América Latina, região que é terreno fértil para esse estilo de vendetas populares, além de receptiva às chamadas fake news. Uma pesquisa do Barómetro de las Américas feita em 2016 indicou que na América Latina os linchamentos contam com a aprovação de 32,1% da população – o índice no Brasil é de 23,5%.

Os linchamentos 2.0 acontecem em três etapas:

1) as redes sociais são usadas para espalhar rumores sobre pessoas, apontando-as como autoras de supostos crimes;

2) convoca-se o linchamento dos supostos criminosos;

3)  após torturar e matar os supostos criminosos, participantes dos linchamentos se ufanam da ação pelas redes sociais, às vezes postando vídeos do assassinato.

Entre 2013 e 2017, o número de linchamentos no México subiu de 40 para 245 casos. Só no primeiro semestre deste ano foram registrados 162 linchamentos e tentativas de linchamento.

Na Colômbia, o aumento dos linchamentos estimulados pelas redes sociais levou a polícia de Bogotá a fazer uma campanha pedindo à população que não confiasse em todas as denúncias que circulam no WhatsApp. Um relatório da universidade Libre aponta que 64% dos bogotanos aprovam a justiça “pelas próprias mãos”. Entre 2014 e 2017 mais de 300 pessoas foram linchadas no país.

Na Venezuela, segundo Roberto Briceno León, presidente da ONG Observatório Venezuelano de Violência, 66% da população aprova os linchamentos. “Os linchamentos têm um efeito de catarse na sociedade”, disse León. Um dos casos de maior repercussão dos últimos tempos foi o de Roberto Bernal, um chef de 42 anos, linchado em Caracas. Ele foi espancado, molhado com gasolina e incinerado. O motivo: Bernal ajudou uma pessoa caída no chão que havia sido assaltada. Os transeuntes acharam que ele era o assaltante e o mataram.

Na Bolívia, os linchamentos fazem parte da tradição das comunidades indígenas. A Constituição não os permite, mas as autoridades federais muitas vezes fazem vista grossa para não contrariar as populações indígenas. A Bolívia tem, em média, mais de 40 linchamentos por ano.

GESTÃO E CARREIRA

COMO ESCUTAR MELHOR

Especialistas em comunicação interpessoal enumeram algumas atitudes que podem nos tornar emocionalmente mais disponíveis.

como escutar melhor.

Por que muitas vezes não ouvimos o que as pessoas de quem mais gostamos tem a dizer? Os motivos podem ser vários: falta de interesse genuíno nos sentimentos alheios ou crenças que nos levam a pensar que já “sabemos” o que o outro tem a falar ou como se sente são alguns deles. Especialistas em comunicação interpessoal e em escuta dão sugestões sobre como podemos nos tornar emocionalmente mais disponíveis e manter diálogos mais produtivos com quem amamos.

QUESTIONAR SUPOSIÇÕES.

Não raro temos “certeza” do que se passa na cabeça de alguém. De acordo com o psicólogo John Stewart, autor de U&Me: communicating in momenls that malkr (Você e eu: comunicação nos momentos que importam), o cérebro é predisposto a aceitar informações que concordam com suas noções preconcebidas. De forma que, quando acreditamos que já “sabemos” o que o outro quer dizer, dificilmente o ouvimos na realidade. “Não acho que seja possível deixar de imaginar o que o outro pensa, isso faz parte de nós”, diz Stewart. No entanto, afirma, podemos balancear essa parcialidade. Uma maneira é cultivando interesse genuíno em conhecer o que o outro sente ou pensa. Verificar as próprias hipóteses durante a conversa – dizer, por exemplo, “então você quer dizer…” ou “você acredita que…” – e deixar que o outro confirme ou corrija melhora comunicação e cria condições para um diálogo verdadeiro.

BUSCAR COMPREENDER A PERSPECTIVA DO OUTRO.

“O lado surpreendente do interesse genuíno é que ele nos impede de sermos defensivos”, diz Stewart. Perguntar-se, por exemplo, por que seu parceiro fica frustrado se você procrastina lavar a louça ou a roupa é mais eficaz do que concluir de saída que ele é excessivamente caprichoso e julga você desleixado. Ao mudar a perspectiva, você pode descobrir que a bagunça pode fazer seu companheiro se sentir estressado, desorganizado, como se a vida estivesse fora de controle. Dessa perspectiva, é mais vantajoso mudar algumas atitudes, organizando-se um pouco mais, ou continuar a oferecer motivos para que o outro tenha esses sentimentos? Uma boa maneira de exercitar o cuidado com o outro é fazer perguntas abertas, como “Pode falar mais sobre isso?”, uma das favoritas de Stewart. Ou “Como isso fez você se sentir?”, “Pode dar mais detalhes para me ajudar a entender?”

TENTAR NÃO JULGAR.

Não raro nos tornamos tão arraigados em nossas próprias crenças e opiniões que nos fechamos ou não ouvimos mais nada de ninguém, mesmo dos mais próximos. “Mas, agindo assim, perdemos mensagens importantes”, diz o pesquisador Philip Tirpak, instrutor de estudos de comunicação do Colégio da Comunidade da Virgínia do Norte e presidente da Associação Internacional de Escuta (ILA, na sigla em inglês), de apoio a pesquisas sobre ouvir de maneira eficaz. “A primeira coisa a fazer ê tentar não interpretar o que o outro diz. Procure, de verdade, deixar a pessoa falar”, ele recomenda. “Ouça a mensagem inteira, sem interrupções. Apenas escute. “Quando fizer isso, vai perceber que, mesmo discordando de alguns tópicos ou objetivos comuns, será mais fácil se colocar no lugar do outro – ou seja, exercitar a empatia. “Esse sentimento tem a ver com compartilhar experiências. Embora possamos não identificar muita coisa em comum em alguns casos, no contexto geral somos muito mais parecidos do que imaginamos, diz Tirpak

RESPEITAR OS PRÓPRIOS LIMITES.

“Escutar alguém de verdade requer humildade e curiosidade. Nenhuma dessas características pode ser simulada com sucesso, afirma Stewart. Uma pessoa em situação de estresse ou com pressa, exemplifica, provavelmente não vai conseguir realmente permanecer presente e com interesse na conversa, principalmente se for sobre um tema difícil. Nesses momentos, sugere Tirpak, “não há nada de errado em apenas dizer “Entendo que isso é muito importante para você’ e quero prestar atenção. Podemos esperar um pouco? Preciso de algum tempo”.

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ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 20: 11-18 – PARTE III

alimento diário

A Ressurreição

III – A aparição de Cristo a Maria, enquanto ela falava com os anjos e lhes contava sua situação. Antes que eles lhe deem qualquer resposta, o próprio Cristo se apresenta, para satisfazer sua busca, pois agora Deus nos fala por meio do seu Filho. Ninguém, exceto Ele mesmo, pode nos levar a si mesmo. Maria deseja ansiosamente saber onde estava seu Senhor, e eis que Ele está à sua direita. Observe:

1. Aqueles que não se satisfarão com nada menos do que uma visão de Cristo, não receberão nada menos. Ele nunca disse à alma que o procurava: Procura em vão. “É Cristo que você deseja ter? Cristo você terá”.

2. Ao manifestar-se àqueles que o procuram, Cristo frequentemente supera suas expectativas. Maria espera ver o corpo de Cristo, e é sua perda que ela reclama, e eis que ela o vê, vivo. Desta maneira, Ele faz, pelo seu povo que ora, mais do que eles são capazes de pedir ou pensar. Nesta aparição de Cristo a Maria, observe:

(1) Como, a princípio, Ele se ocultou dela.

[1] Ele apareceu como uma pessoa comum, e ela o viu desta maneira, v. 14. Ela estava esperando uma resposta dos anjos às suas queixas, e ao ver a sombra, ou ao ouvir os passos, de alguém atrás de si, ela “voltou-se para trás”, deixando de falar com os anjos, e viu Jesus em pessoa, em pé, a mesma pessoa que ela estava procurando, e apesar disso, ela “não sabia que era Jesus”. Observe que, em primeiro lugar, “perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado” (Salmos 34.18), mais perto do que eles se dão conta. Aqueles que procuram a Cristo, embora não o vejam, podem ter certeza de que Ele não está longe deles. Em segundo lugar, aqueles que procuram o Senhor diligentemente se virarão para todos os lados, na sua busca. Maria virou-se para trás, esperando descobrir alguma coisa. Diversos dos antigos sugerem que Maria foi orientada a olhar para trás porque os anjos se levantaram, e fizeram reverência ao Senhor Jesus, a quem viram antes que Maria o visse, e que ela olhou para trás para ver a quem eles prestavam tão profunda reverência. Mas, se isto fosse verdade, não é provável que ela o confundisse com o hortelão. Portanto, foi seu profundo desejo de procurá-lo que a fez voltar-se em todas as direções. Em terceiro lugar, Cristo frequentemente está perto do seu povo, e eles não percebem sua presença. Ela “não sabia que era Jesus”. Não que Ele tivesse aparecido com outra aparência, mas talvez ela tivesse lhe dirigido um olhar rápido e desatento, e, com os olhos tão cheios de preocupação, ela não pôde distinguir bem, ou talvez seus olhos estivessem como que fecha­ dos, de modo que não o reconheceu. O mesmo aconteceu com os olhos daqueles dois discípulos, Lucas 24.16.

[2] Ele lhe fez uma pergunta comum, e ela lhe respondeu, em conformidade com ela, v. 15.

Em primeiro lugar, a pergunta que Ele lhe fez foi suficientemente natural, e que qualquer pessoa lhe poderia ter feito: “Mulher, por que choras? Quem buscas?” O que tu vieste fazer aqui no jardim, tão cedo? E por que tanto ruído e confusão?” Talvez isto tivesse sido dito com alguma rudeza, como José falou com seus irmãos quando mostrou-se estranho para com eles, antes de se dar a conhecer a eles. Aparentemente, estas eram as primeiras palavras que Cristo falava, depois da sua ressurreição: “‘Por que choras?’ Eu ressuscitei”. A ressurreição de Cristo tem em si o suficiente para enlaçar todas as nossas tristezas, para estancar todas as correntes, e secar as fontes, das nossas lágrimas. Observe aqui que Cristo conhece:

1. As tristezas do seu povo, e pergunta: “Por que choras?” Ele armazena suas lágrimas, e as registra no seu livro.

2. As preocupações e as buscas do seu povo: Quem buscas, e o que desejas ter? Mesmo quando sabe que estão procurando por Ele, ainda assim Ele de­ seja ser informado disto por eles. Eles devem dizer-lhe a quem estão buscando.

Em segundo lugar, a resposta que ela lhe deu é suficientemente natural. Ela não lhe dá uma resposta direta, mas, como se dissesse: “Por que você me censura, e me repreende pelas minhas lágrimas? Você sabe por que choro, e a quem busco”. E, portanto, supondo que Ele fosse o jardineiro, a pessoa empregada por José de Arimatéia para embelezar e conservar seu jardim, que, pensou ela, tinha vindo cedo ao seu trabalho, ela disse: “Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei”. Veja aqui:

1. O engano da sua percepção. Ela supôs que nosso Senhor Jesus fosse o jardineiro, talvez por entender que Ele estivesse perguntando que autoridade ela tinha para estar ali. Observe que os espíritos perturbados, em um dia nublado e escuro, são capazes de apresentar Cristo de forma deturpada a si mesmos, e de interpretar erroneamente os métodos da sua providência e graça.

2. A veracidade do seu afeto. Veja como o coração de Maria Madalena estava concentrado em encontrar a Cristo. Ela faz a pergunta a todos que encontra, como a esposa preocupada: “Vistes aquele a quem ama a minha alma?” Ela fala respeitosamente com um jardineiro, e o chama de Senhor, esperando obter dele algum esclarecimento a respeito daquele a quem sua alma ama. Quando ela fala de Cristo, não menciona seu nome, mas diz: “Se tu o levaste”, assumindo que este jardineiro estava tão preocupado com Jesus quanto ela estava, e, portanto, não poderia deixar de saber a quem ela se referia. Outra evidência da força do seu afeto era que, onde quer que Ele estivesse, ela se encarregaria de buscá-lo. Um corpo como este, envolto com tal peso de especiarias, seria muito mais do que ela poderia pretender carregar, mas o verdadeiro amor pensa que pode fazer mais do que realmente pode, e menospreza as dificuldades. Ela supôs que este jardineiro tivesse se incomodado com o fato de que o corpo de alguém que tinha sido crucificado de maneira ignominiosa tivesse a honra de ser depositado no sepulcro novo do seu mestre, e por isto o tivesse removido para algum lugar miserável, que ele julgava mais adequado. Contudo, Maria não ameaça contar isto ao senhor do jardineiro, fazendo-o perder seu trabalho por isto, mas procura descobrir outro sepulcro, ao qual Ele pudesse ser bem-vindo. Cristo não deve ficar onde é considerado um estorvo.

(2) Como Cristo, por fim, se fez conhecer a ela e, com uma agradável surpresa, deu-lhe garantias infalíveis da sua ressurreição. José, por fim, disse aos seus irmãos: Eu sou José. E o mesmo faz Cristo aqui, a Maria Madalena, agora que Ele entrou no seu estado exaltado. Observe:

[1] Como Cristo se revelou a esta boa mulher que o procurava chorando (v. 16): “Disse-lhe Jesus: Maria!” Isto foi dito com ênfase, e com o ar de bondade e liberdade com que Ele estava acostumado a falar com ela. Agora Ele mudou sua voz, e falou como Ele mesmo, e não como um jardineiro. A maneira de Cristo se fazer conhecer ao seu povo é por meio da sua palavra, sua palavra aplicada às suas almas, falando a eles, em particular. Quando aqueles a quem Deus conhece pelo nome, nos conselhos do seu amor (Êxodo 33.12), são chamados pelo nome, na eficácia da sua graça, então Ele revela seu Filho neles, como em Paulo (Gálatas 1.16), quando Cristo o chamou pelo nome: “Saulo, Saulo”. E as ovelhas de Cristo conhecem sua voz, cap. 10.4. Esta única palavra, “Maria”, foi como aquela dita aos discípulos no meio da tempestade, “sou Eu”. Assim, a Palavra de Cristo nos faz bem quando colocamos nossos nomes nos preceitos e nas premissas. “Nisto, Cristo me chama, e fala comigo”.

[2] Com que rapidez ela recebeu esta revelação. Quando Cristo disse: “Maria, você não me conhece? Você e eu nos tornamos estranhos?”, ela imediatamente percebeu quem era, como a esposa (Cantares 2.8): “Esta é a voz do meu amado”. Ela caiu em si e respondeu: “Raboni”, meu Mestre. Isto pode ser interpretado com uma interrogação: “Raboni? E meu Mestre? É realmente Ele?” Observe, em primeiro lugar, o título de respeito que ela lhe confere: meu Mestre, um mestre que ensina. Os judeus chamavam seus doutores de Rabis, grandes homens. Seus críticos nos dizem que Rabon era, para eles, um título de maior honra que Rabi, e por isto Maria escolhe este título, e acrescenta uma nota de apropriação: meu grande Mestre. Observe que apesar da liberdade de comunhão consigo mesmo que Cristo se alegra em nos conceder, nós devemos nos lembrar de que Ele é nosso Mestre, e nos dirigirmos a Ele com um temor piedoso. Em segundo lugar, com que vivacidade de afeto ela atribui este título a Cristo. Ela voltou-se dos anjos, a quem estava olhando, para olhar para Jesus. Nós devemos abandonar toda a nossa consideração por todas as criaturas, até mesmo as mais esplêndidas e as melhores, e fixá-la em Cristo, de quem nada deve nos desviar, e com quem nada deve interferir. Quando pensava que era o jardineiro, ela olhava para outro lado enquanto falava com ele. Mas agora que tinha conhecido a voz de Cristo, voltou-se. A alma que conhece a voz de Cristo, e que se volta para Ele, o chama, com alegria e triunfo: Meu Mestre. Veja com que prazer aqueles que amam a Cristo falam da sua autoridade sobre si. Meu Mestre, meu grande Mestre.

[3] As instruções adicionais que Cristo deu a ela (v. 17): ‘”Não me detenhas’, mas vai e leva as novidades aos discípulos”.

Em primeiro lugar, Ele a desvia da expectativa de associação e convivência familiar com Ele, nesta ocasião: “Não me detenhas, porque ainda não subi”. Maria estava tão tomada pela visão do seu amado Mestre, que se esqueceu de si mesma, e do estado de glória em que Ele agora entrava, e estava prestes a expressar sua alegria abraçando-o afetuosamente, o que Cristo aqui proíbe, nesta ocasião.

1. “Não me detenhas” deste modo, sob qualquer condição, pois Eu subo para o céu. Ele pediu que os discípulos o tocassem, para a confirmação da sua fé. Ele permitiu que as mulheres abraçassem seus pés, e o adorassem (Mateus 28.9). Mas Maria, supondo que Ele havia ressuscitado, como Lázaro, para viver entre eles constantemente, e conviver com eles tão livremente como tinha convivido antes, estava com esta presunção, prestes a tomar sua mão, com a costumeira liberdade. Cristo retificou este engano. Ela devia crer nele, e adorá-lo, como exaltado, mas não devia esperar ter a mesma familiaridade com Ele, como antes. Veja 2 Coríntios 5.16. Ele a proíbe de amar sua presença física, de incitar seu coração com isto, ou de esperar aquela continuidade, e a conduz à convivência e comunhão espiritual que deveria ter com Ele, depois que Ele tivesse subido para seu Pai, pois a maior alegria da sua ressurreição era o fato de que era um passo em direção à sua ascensão. Maria pensou, agora que seu Mestre tinha ressuscitado, que Ele imediatamente estabeleceria um reino temporal, como eles tinham esperado durante tanto tempo. “Não”, diz Cristo, “não me detenhas, com qualquer pensamento deste tipo. Não penses em me deter aqui. Pois, embora Eu ainda não tenha subido, “vai para meus irmãos e dize-lhes que eu subo”. Assim como antes da sua morte, também agora, depois da sua ressurreição, o Senhor repete o mesmo ensino, que Ele ia partir, não mais estaria neste mundo, e, portanto, eles devem olhar além da sua presença física, e olhar além do presente estado de coisas.

2. “Não me detenhas, não me toques, não fiques aqui para fazer mais perguntas, nem para demonstrar mais expressões de alegria, pois Eu ainda não subi, Eu não partirei imediatamente, esta demonstração de amor e carinho poderá ser feita em outra ocasião. O melhor que podes fazer agora é levar as boas novas aos discípulos. Não percas tempo, portanto, vai o mais rápido que puderes”. Observe que o serviço público deve ter preferência à satisfação privada. “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”. Jacó deve deixar o anjo partir, quando o dia amanhecer, e é hora de cuidar da sua família. Maria não deve ficar para conversar com seu Mestre, mas deve levar sua mensagem, pois é um dia de boas novas, cujo consolo ela não deve absorver, mas transmitir a outros. Veja esta história, 2 Reis 7.9.

Em segundo lugar, Ele diz a ela qual é a mensagem que deve levar aos discípulos: “Vai para meus irmãos e dize-lhes”, não somente que Eu ressuscitei (ela lhes poderia dizer isto de si mesma, pois ela o tinha visto), mas que “eu subo”. Observe:

1. A quem esta mensagem é enviada: “Vai para meus irmãos”, pois Ele não se envergonha de chamá-los assim.

(A) Agora Ele entrava na sua glória, e era declarado como sendo o Filho de Deus com mais poder do que nunca, mas Ele ainda considera seus discípulos como seus irmãos, e se expressa com um afeto mais terno por eles do que antes. Ele os tinha chamado de amigos, mas nunca de irmãos, até agora. Embora Cristo seja elevado, Ele não é arrogante. Apesar da sua elevação, Ele não se recusa a reconhecer o relacionamento que tem com as pessoas mais simples.

(B) Seus discípulos tinham, ultimamente, se comportado de maneira pouco sincera em relação a Ele. Ele nunca os tinha visto juntos, desde que todos o tinham abandonado e fugido, quando Ele foi preso. Com razão, Ele poderia ter-lhes enviado agora uma mensagem zangada: “Vá àqueles desertores traiçoeiros, e diga-lhes que Eu nunca mais confiarei neles, nem terei qualquer coisa a ver com eles”. Mas não. Ele perdoa, Ele esquece, e Ele não lança fora.

B. Por quem é enviada: por “Maria Madalena, da qual [Jesus] tinha expulsado sete demônios”. Porém, esta era agora uma mulher favorecida pela bênção de Deus. Esta era sua recompensa pela sua constância na união a Cristo, e na sua busca por Ele. Esta era também uma tácita repreensão aos apóstolos, que não tinham estado tão próximos quanto ela, ao acompanhar a Jesus à morte, nem tinham sido tão pioneiros quanto ela, ao encontrar o Jesus ressuscitado. Ela se torna um apóstolo aos apóstolos.

C. Qual é a mensagem propriamente dita: “Eu subo para meu Pai”. Há duas grandes consolações nestas palavras:

(A) Nossa relação conjunta com Deus, resultante da nossa união com Cristo, é um consolo indescritível. Falando desta fonte inesgotável de luz, vida e bênção, Ele diz: Ele é o “meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Isto é muito expressivo da relação íntima que existe entre Cristo e os crentes: “O que santifica como os que são santificados, são todos de um”, pois eles concordam num, Hebreus 2.11. Aqui temos um avanço dos cristãos, e uma condescendência de Cristo para aproximá-los. O planejamento dos eventos e situações para que a união seja favorecida é admirável.

[A] A grande dignidade dos crentes é que o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é, em Cristo, seu Pai. Realmente, existe uma vasta diferença entre as respectivas fundações desta relação. Ele é o Pai de Cristo, por geração eterna, e nosso, por uma graciosa adoção. E até mesmo isto nos autoriza a chamá-lo, como fazia Cristo, “Aba, Pai”. Uma das razões pela qual Cristo os chamou de irmãos consistia no fato de que seu Pai era o Pai deles. Cristo agora estava subindo para comparecer como advogado junto ao Pai. Na presença de seu Pai, e por isto podemos esperar que Ele interceda em todos os assuntos. Na presença de nosso Pai, e por isto podemos esperar que Ele interceda por nós.

[B] O fato de que Jesus se alegra em reconhecer o Deus do crente como seu Deus é uma grande condescendência de Cristo: “Meu Deus e vosso Deus”. Meu, para que possa ser seu. O Deus do Redentor, para sustentá-lo (Salmos 89.26), para que Ele possa ser o Deus dos redimidos, para salvá-los. O resumo do novo concerto é que Deus será, para nós, o único Deus. Cristo é a garantia e o cabeça do concerto. É com Ele que se deve tratar primeiro. É somente por meio dele que os crentes, como sua semente espiritual, estão ligados a esta relação de concerto. Primeiro, Deus é o Deus do Senhor Jesus, e depois o nosso. Ao participarmos da natureza divina, o Pai de Cristo se torna nosso Pai. E, como Ele participa da natureza humana, nosso Deus é seu Deus.

(C) A ascensão de Cristo ao céu, na continuação da sua missão por nós, é, da mesma maneira, um consolo indescritível: “Dize-lhes que Eu devo subir em breve. Es­ te é o próximo passo que Eu vou dar”. Isto pretendia ser:

[A] Uma palavra de advertência aos discípulos, para que não esperassem a continuidade da presença física de Jesus aqui na terra, nem o estabelecimento do seu reino temporal entre os homens, com que eles sonhavam. “Não, diga a eles que Eu ressuscitei, não para ficar com eles, mas para prosseguir na missão por eles, ao céu”. Assim, aqueles que são ressuscitados a uma vida espiritual, em conformidade com a ressurreição de Cristo, devem admitir que ressuscitam para subir. Eles são vivificados juntamente com Cristo para que possam assentar-se com Ele nos lugares celestiais, Efésios 2.5,6. Não pensem que esta terra será sua casa e seu descanso. Não, sendo nascidos no céu, eles devem ir para o céu. Seus olhos e seu objetivo devem estar no outro mundo, e isto deve estar sempre nos seus corações: “Eu subo”, portanto devo procurar as “coisas que são de cima”.

[B] Uma palavra de consolo a eles, e a todos os que crerão nele, por meio da palavra deles. Ele então subia, Ele agora subia ao seu Pai, e ao nosso Pai. Isto foi sua promoção. Ele subia para receber estas honras e poderes que seriam a recompensa pela sua humilhação. Ele diz isto com triunfo, para que todos os que o amam possam se alegrar. Isto é nosso benefício, pois Ele subiu como um vencedor, levando cativo o cativeiro, por nós (Salmos 68.18). Ele subiu como nosso precursor, para preparar um lugar para nós e para estar pronto para nos receber. Esta mensagem é parecida com aquela que os irmãos de José levaram a Jacó a respeito dele (Genesis 45.26): ”José ainda vive”, e não somente isto, ele vive, e vem para o senado também. “Ele é governador sobre toda a terra do Egito”. Todo o poder é dele.

Alguns entendem que nestas palavras: “Eu subo para… meu Deus e vosso Deus”, está incluída a promessa da nossa ressurreição, em virtude da ressurreição de Cristo. Pois Cristo tinha provado a ressurreição dos mortos com as palavras: “Eu sou o Deus de Abraão”, Mateus 22.32. Assim, Cristo aqui está dizendo: “Como Ele é meu Deus, e me ressuscitou, também é vosso Deus, e irá, portanto, ressuscitar-vos, e será vosso Deus”, Apocalipse 21.3. “Porque eu vivo, e vós vivereis”. ”Agora Eu subo, para honrar ao meu Deus, e vós subireis a Ele, como vosso Deus”.