PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE OS BEBÊS TÊM A DIZER?

Mesmo sem se expressar verbalmente, crianças com pouco tempo de vida podem se beneficiar de trabalhos psicológicos ou psicanalíticos; voltados para as relações primordiais entre pais e filhos, profissionais procuram identificar quanto antes eventuais riscos psíquicos, o que tem propiciado intervenções cada vez mais precoces, levando em conta a capacidade dos pequenos.

o que os bebês têm a dizer

Parece desafiador falar em trabalho psíquico com aqueles que estão nas etapas iniciais do processo de subjetivação, já que ainda não falam e aparentemente não sabem tornar inteligíveis suas demandas. É certo que um mediador se faz necessário na relação do bebê com o mundo. Ainda assim, pesquisas e experiências clínicas têm mostrado que os bebês apresentam enorme potencial – até mesmo para responder a psicoterapias. Profissionais da saúde, em especial psicólogos e psicanalistas, têm se voltado cada vez mais à observação das etapas precoces do   desenvolvimento, com destaque para a saúde mãe-bebê, buscando formas adequadas de intervenção terapêutica.

Para tanto, é preciso pressupor que o recém-nascido tenha certa sensibilidade para perceber as demandas, tanto da pessoa que dele cuida como do meio, deixando-se inscrever nelas. As práticas de assistência oferecidas a crianças com poucos meses – sejam no campo da medicina, da psicologia ou da psicanálise – se estruturam justamente com base nessa suposição. Pelo viés do psiquismo, destacam-se três tipos de proposta de trabalho: observação de bebês, consultas psicanalíticas mãe-bebê e formação de profissionais de várias áreas para detectar sinais preditivos de risco psíquico. O acesso a tais possibilidades se dá mais facilmente em locais que recebem bebês e suas mães, como hospitais, consultórios pediátricos, de psicologia e de psicanálise, unidades de terapia intensiva (UTIs) neonatais, escolas de educação infantil, creches e organizações não governamentais (ONGs).

A prática de observação de bebês tem o objetivo de mapear seus sistemas cognitivo e afetivo e identificar desajustes em sua formação psíquica, bem como possíveis correlações que deem conta de explicar a causa. Os estudos sobre o psiquismo perinatal ou fetal, por exemplo, que contam hoje com instrumentos tecnológicos capazes de acompanhar o desenvolvimento intrauterino – caso dos equipamentos de ultrassonografia em três dimensões (3D) -, indicam um esboço da função cognitiva já a partir de 15 semanas de gestação, quando o córtex cerebral está bem formado. Com base em constatações como essas, procura-se intervir no ambiente do bebê para facilitar sua relação com o meio. Vários autores consagrados da psicologia do desenvolvimento e da psicanálise dispõem de técnicas para essa prática.

As primeiras obras do pensador suíço Jean Piaget (1896 -1980) sobre o tema – O nascimento da inteligência na criança (1936) e A construção do real na criança (1937) – já marcavam o início do interesse do criador da epistemologia genética pela inteligência dos bebês. Ele buscou relacionar   a inteligência dos adultos com sua formação na tenra infância. “Piaget nos mostra um bebê sozinho, que consegue resolver problemas cada vez mais complexos, mas, paradoxalmente, não tem nenhuma representação mental, nem pensamento, antes da idade de 2 anos”, lembra a psicanalista francesa Marie-Claude Fourment-Aptekman, professora titular da Universidade Paris   13. Para o pensador, o bebê é egocêntrico (outra forma de dizer narcísico, auto erótico), e seu mundo, povoado por objetos físicos a serem ou não percebidos por ele.

Já para o pediatra e psicanalista inglês Donald W. Winnicott (1896 – 1971), um bebê sozinho não existe: ele precisa de outro humano para se constituir. Se chora, a mãe lhe oferece alimento. Se resmunga, recebe carinho. Quando percebe que o filho desenvolveu estratégias de apelo, a mãe, aos poucos, vai deixando de responder de imediato a ele, pois passa a acreditar na capacidade da criança de suportar sua ausência e se satisfazer, ainda que por pouco tempo, sozinha. “Para Winnicott, essa capacidade de enfrentar a falta progressiva da mãe já constituiria um esboço de pensamento”, lembra Marie-Claude. Embora o mundo físico esteja a seu dispor, a criança só existe do ponto de vista subjetivo a partir de um outro, caracterizado pela figura materna. A mãe precisará se mostrar progressivamente faltante para que o bebê possa desenvolver curiosidade sobre o mundo em geral.  Mas, se as faltas dela forem demasiadas ou insuficientemente progressivas, poderão levar a um “excesso de pensamento”, o que, para Winnicott, se traduz como ausência materna.

Segundo o psicanalista, “inteligência oculta certa privação”, uma vez que o pensamento do bebê seria um substituto materno. Ainda na visão de Marie-Claude, Winnicott indica a possibilidade de as funções de pensamento e de fantasia, abordadas por Freud, caminharem em paralelo. Segundo suas observações, alguns bebês têm aptidão precoce para a fala, chamada por ele de ação de pensar. Outros se especializam nas experiências sensoriais e perceptivas (visão, audição) e criam experiências alucinatórias. Essas duas expressões servem como substitutos da presença da mãe. O bebê recorre a esses recursos para se satisfazer, ao menos temporariamente.

AMBIENTE SEGURO

Winnicott já supunha que tudo o que o bebê registrava “fosse catalogado, categorizado e comparado”. Hoje, técnicas de habituação, provenientes da psicologia do desenvolvimento, comprovam que desde os 2 meses o bebê já é capaz de diferenciar as formas e as cores. “Um pouco mais tarde, também, se torna apto a classificar em duas categorias retratos de homens e de mulheres e consegue encontrar uma matriz idêntica em figuras complexas”, afirma a psicanalista francesa. E mais: logo após o nascimento, o bebê já diferencia fala de ruídos.

Quanto à teoria do apego, do psiquiatra inglês John Bowlby, esta não supõe fenômenos inconscientes na gênese do pensamento. Traz uma concepção desenvolvimentista em termos de segurança e autonomia; quanto maior o estado de segurança, mais disponibilidade a criança tem para descobrir o mundo – o que exige um afastamento gradual da figura materna, tendo em vista a autonomia do filho. Baseados nisso, autores da psicologia do desenvolvimento descrevem tipologias da dupla mãe-criança em função da qualidade do apego (seguro, evitante, ambivalente ou desorganizado) para compreensão de transtornos e psicopatologias infantis. Se há boa interação entre mãe e bebê, ou apego saudável, a criança adquire progressivamente a capacidade de adaptar-se a situações novas, estressoras ou adversas. Caso contrário, torna-se vulnerável às   adversidades da vida, sem condições de enfrentamento. Segundo Marie-Claude, essa teoria   comportamental encontra-se “longe da sobredeterminação freudiana que nos ensina a prudência, indicando-nos que a fragilidade psíquica nunca pode vir de uma única causa”. E acrescenta: ainda que os critérios comportamentais pudessem fornecer “boa preditividade dos sujeitos vulneráveis”, “não nos ajudam em nada a compreender por que, em percursos idênticos, alguns conseguem se livrar (da catástrofe) e outros não”.

Ao psicanalista cabe “escutar ” a relação mãe-bebê e traduzi-la como apelo – tanto a fala materna  e suas hesitações quanto a manifestação do bebê e seus sintomas -, tornando possível, dessa  forma, uma intervenção que se baseia na interpretação do discurso daquele adulto que ocupa a função materna.

POSIÇÃO ESTRATÉGICA

Contemporânea de Jacques Lacan (1901- 1981), com quem trabalhou, a psicanalista francesa   Françoise Deito (1908 – 1988) foi uma das pioneiras a propor um estudo preventivo em relação às psicopatologias infantis. Após um longo trabalho com crianças psicóticas e autistas, criou a Maison Vert, espécie de creche que os pais ou acompanhantes podiam frequentar, contando sempre com   um psicanalista de plantão para escutá-los e atendê-los.

Também psicanalista, a francesa Marie ­ Christine Laznik, da Universidade Paris 13, defende uma intervenção precoce na díade mãe-bebê quando detectados, por meio da observação e escuta do  discurso  materno, dois sinais que poderiam apontar para um risco de autismo: “Um não olhar da  mãe a seu bebê, sobretudo se esta não se dá conta disso, e a não instauração do terceiro tempo do circuito pulsional”. Acrescenta ela: “Intervir na relação do Outro [daquele que ocupa a função   materna) com a criança significa prevenção (..) a síndrome autística clássica é consequência de uma falha no estabelecimento dessa relação, nesse laço sem o qual nenhum sujeito pode advir”.

A psicanalista brasileira Raquel Degenszajn, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), aponta quanto é importante o médico acompanhar o processo de subjetivação da criança, em especial se as funções materna e paterna estão sendo exercidas, uma vez que o bebê produz respostas que podem ser verificadas pelos indicadores de desenvolvimento. O pediatra é quem está em posição estratégica, visto que oferece acompanhamento clínico periódico durante toda a infância, podendo levantar suspeitas diagnósticas, observar a persistência de alterações psíquicas e até encaminhar a criança no momento oportuno ao profissional especializado.

Tanto para os problemas orgânicos que necessitam de esclarecimento quanto para as  perturbações psíquicas (que podem se apresentar sob a forma de manifestações somáticas importantes), é desejável que o pediatra desenvolva instrumentos de leitura que o ajudem não  apenas na detecção dos problemas da criança, mas também na orientação à família e no encaminhamento de seus membros a especialistas, cujo êxito depende de um trabalho de base  sobre a implicação dos pais no sintoma do bebê.

Trabalhos como o de Raquel Degenszajn –  que englobam o ensino na área da saúde mental da criança para residentes do primeiro ano de pediatria comunitária no nível de atenção básica –  têm como meta a interlocução entre campos distintos, com o objetivo de articular a subjetividade da criança e da família aos problemas levados ao pediatra, utilizando como eixo a relação médico-paciente. É muito importante, assim, que as pesquisas relacionadas ao atendimento de bebês levem em conta a formação psíquica destes na interação com os adultos cuidadores (sejam eles os pais, sejam os profissionais da saúde e da educação), bem como a qualidade dessa interação. A interlocução entre as diversas áreas que acompanham o desenvolvimento subjetivo dos bebês é fundamental para a construção de uma prática clínica diversa da tradicional, mais condizente com a adoção de políticas públicas de prevenção e intervenção precoce em educação e saúde mental.

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QUANDO É HORA DE INTERVIR

O bebê pode se beneficiar de estimulação precoce e de atendimentos que envolvam pais e profissionais da saúde

A falta de autonomia do bebê faz com que ele tenha de “pedir” pela satisfação de suas necessidades. Daí o choro, que deve ser entendido pelos adultos que o cercam como um pedido de amparo, isto é, reconhecido como linguagem, como demanda dirigida a eles.

Uma vez que o bebê é posto nesse circuito da demanda, passa a visar a mãe em primeira  instância, em especial a forma como esta lhe responderá: uma sonda oral sacia a fome, mas não o satisfaz, pois ele precisa da presença materna, do olhar e da voz que acompanham a mamada no peito aconchegante. Cria-se uma demanda de amor a esse outro cuidador e uma dependência não apenas física, sobretudo de reconhecimento. A identificação, que nos humanos não é natural como            no reino animal.                                                                        

Toda satisfação o bebê encontra no outro e não no mundo. A mãe, ao responder à demanda do filho, o faz com seu desejo: o modo como interpreta o choro e responde a ele reflete o que ela sente pela criança e o sentido que esta tem em sua vida. Portanto, também ela demanda a seu filho respostas a suas expectativas. Inaugura-se o movimento lógico e fundamental que insere a criança no mundo da cultura.

As trocas afetivas e simbólicas entre mãe e filho, que retiram o foco do organismo a fim de transferi-lo para a relação, iniciam-se assim que o bebê nasce, nas mama­ das, nas trocas de fralda, nos banhos e nas atividades que a família dispensa a ele. Quando ocorre de um recém-nascido, prematuro ou não, precisar de uma UTI neonatal, submetendo-se às rotinas hospitalares, em que seu organismo é o principal foco de ação, é fundamental, do ponto de vista psíquico, que este não seja o único objeto de atenção. Esse bebê, submetido às medicações e aos procedimentos clínicos, deve ter assegurada a possibilidade de estabelecer o circuito da demanda com seus pais – primeiro passo para deixar de ser só um organismo e tornar-se um corpo desejado e futuramente desejante.

A psicologia intervém nos casos em que detecta, por meio de sinais na relação da criança com o ambiente e com os familiares, que o lugar do bebê no desejo dos pais e no estabelecimento do circuito da demanda está ameaçado. Qualquer que seja o motivo que o tenha levado à internação precoce, o psicólogo deve intervir na equipe, sobre os pais e familiares e sobre o bebê, visando sempre um ato ou uma fala, dos adultos que o cercam, capaz de dar a ele a possibilidade de iniciar sua constituição psíquica.

Ao profissional cabe se posicionar de forma a escutar o discurso familiar sobre a criança. Esse discurso que precede o nascimento dela é enunciado pelos pais e parentes. Ele deve interrogar sobre o lugar do bebê no desejo familiar, isto é, os efeitos que tal desejo tem sobre o corpo da criança. Se em geral não é tão claro para os pais como cuidarão do filho, em uma situação em que ele está fisicamente ameaçado é bem provável que haja de fato uma paralisação. Diante de si, só veem o horror e, nesse horror, o bebê. O que pode reverter tal situação é o desejo dos próprios pais de retirar a criança desse lugar, traçando um futuro para ela.

Com a equipe institucional, o trabalho do psicólogo deve ser de parceria e corresponsabilidade. A ele não cabe apenas se ocupar das urgências, como a agressividade ou a infelicidade de pais e familiares que por vezes perturbam a rotina médica. Mais que isso, deve discutir com estes, buscando intervenções comuns e complementares que visem a relação de cada criança com seus pais. Portanto, o bebê pode ser assistido pelo psicólogo de duas formas: indireta (via trabalho de escuta do discurso dos pais e da equipe sobre a criança) e direta (por meio de estimulação precoce). De uma maneira ou de outra, o profissional tem de assegurar à criança o modo particular e estrutural com que seu corpo figura no desejo dos pais e atentar para que as ações institucionais não recaiam apenas sobre seu organismo.

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REFLEXOS DO ESTADO DE HUMOR MATERNO

Alguns trabalhos sugerem que o psiquismo fetal já estaria ao menos esboçado no período uterino e que experiências ocorridas nessa época teriam efeitos emocionais profundos sobre o desenvolvimento infantil. Na década de 90, a pesquisadora e psicanalista italiana Alessandra Piontelli fez um estudo observacional do comportamento fetal e infantil, desde a concepção até os 4 anos de idade. Sua metodologia incluía o acompanhamento regular da gestante no pré-natal, eventualmente do parto, e posterior observação da criança em casa. A partir das ultrassonografias de 11 fetos, sugeriu que suas expressões faciais, motoras e sensoriais poderiam estar relacionadas com o estado de humor materno. Sua investigação não foi conclusiva, mas contribuiu para a evolução da psicologia pré e perinatal. Nas imagens acima, simulação realizada com imagens de ultrassom 3D, recurso tecnológico de última geração.

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FORMAS DO PENSAMENTO INFANTIL

Até os 2 anos de idade o aprendizado é feito pelos sentidos e pela área motora.

O pensador suíço Jean Piaget (1896-1980), um dos mais renomados teóricos do desenvolvimento cognitivo, investigou a lógica formal que rege a criança na resolução dos diferentes obstáculos com os quais ela se defronta ao longo da infância. Constatou que para cada idade há uma lógica de exploração e solução de problemas.

São padrões organizados de comportamentos característicos de cada faixa etária que se modificam segundo a relação que a criança mantém com o ambiente. Piaget nomeou quatro modos de ação no mundo: sensório-motor (do nascimento aos 2 anos), pré­ operatório (dos 2 aos 6), operatório concreto (dos 6 aos 12) e operatório formal (a partir dos 12). O esquema sensório-motor caracteriza-se pelo aprendizado resultante dos sentidos e da atividade motora. Esse primeiro estágio divide-se em seis subestágios.

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QUANTO MAIS CEDO MELHOR

A intervenção precoce pode diminuir ou mesmo eliminar o risco de distúrbios. Abaixo, alguns marcadores psíquicos importantes, dignos de observação pelos profissionais e cuidadores que acompanham o bebê desde o nascimento até os 6 meses:

  • A mãe é capaz de transformar as necessidades fisiológicas do bebê em demanda dirigida a ela, supondo um sujeito?
  • Ela consegue afastar-se do bebê, alternando presença e ausência?
  • A mãe é capaz de diferenciar tipos de choro de seu filho?
  • Ela espera a reação da criança depois de realizar uma ação? Há ligação entre os olhares dela e do bebê?
  • O bebê apresenta indícios de comunicação: olhar, sorriso social, balbucies, experiências orais não alimentares como chupar o dedo, por exemplo?
  • Ele faz movimento em direção aos objetos?
  • A mãe fala com o bebê de um jeito particular? E ele, responde com vocalizações?
  • O bebê tem alterações de sono e vigília, de alimentação ou distúrbios intestinais?
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OUTROS OLHARES

TERRA DOS ENFORCADOS

A cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul tem o maior índice de suicídios do Brasil. Também tem uma das maiores produções de fumo do país. O que uma coisa tem a ver com a outra?

terra dos enforcados

O coveiro de Monte Alverne gosta de fazer contas. Calcula que já teve cinco automóveis Brasília e que só em uma das estradas das redondezas já houve quatro suicídios. “Aqui teve muita gente se enforcando”, diz Gilberto Bencke, o Pepe, de 58 anos, sentado em frente à mais recente Brasília, que a despeito da paixão do dono está sendo devorada pela ferrugem e tem as lanternas presas por fita adesiva. Apesar de conviver com a morte desde o fim da adolescência, quando começou a aprender com o pai o ofício que herdaria, Pepe estranha a quantidade de suicídios na região. “É um enterro muito mais triste.”

Monte Alverne é o primeiro e o mais importante distrito de Santa Cruz do Sul, município situado no Vale do Rio Pardinho, no centro do Rio Grande do Sul. É uma região de montes e depressões na qual carros de boi ainda transitam por estradas de chão batido e pedregulhos. Ao lado de quase todas as casas há uma estufa de tijolos à vista para secar fumo e, em frente a algumas delas, estátuas religiosas substituem anões de jardim. O estranhamento de Pepe faz sentido.

No Brasil, a cada grupo de 100.000 habitantes houve, na última década, entre quatro e seis suicídios por ano, mas nas famílias dos fumicultores de Santa Cruz o número chegou a76.

O fumo foi um dos produtos que os indígenas repassaram aos portugueses nas primeiras trocas pós-descobrimento. Ainda no século XVI, a planta começou a ser cultivada por colonos, principalmente na Bahia, e acabou servindo como moeda para a compra de escravos africanos. Em meados do século XIX, imigrantes alemães que chegaram à atual região de Santa Cruz trouxeram sementes de fumo na bagagem e, no século seguinte, o tabaco gaúcho desbancou o baiano na liderança do mercado.

Segundo maior plantador mundial de fumo, atrás somente da China, o Brasil lidera o beneficiamento e a exportação do produto. Do que se cultiva aqui, apenas 10% é consumido pelos brasileiros, o restante segue para fora. No ano passado, o país exportou 462.000 toneladas de tabaco, o que rendeu às fumageiras 2,1 bilhões de dólares. Esses números poderiam ter sido menores. Em maio de 2016, antes do impeachment de Dilma Rousseff, o Banco Central baixou uma resolução determinando que fumicultores interessados em crédito subsidiado precisariam aumentar a diversificação de culturas, reduzindo a dependência do tabaco. Em agosto daquele ano, já com Michel Temer no Palácio do Planalto, a determinação foi suspensa.

Santa Cruz tem oscilado entre o segundo e o quinto lugares na lista dos maiores produtores de tabaco, mas é o maior beneficiador e exportador do produto no país, com parte do fumo transformada em cigarro ali mesmo e outra parte vendida picada. Com 118.000 habitantes segundo o censo do IBGE de 2010, Santa Cruz é o mais populoso município entre os maiores produtores de fumo, o que o credencia a comparações. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que não se façam índices de suicídio com pequenas localidades, nas quais um número baixo de mortes pode levar a uma estatística alta.

Com base nesse critério, cruzamos o número de suicídios dos últimos dez anos registrados pelo Ministério da Saúde com a população do mais recente censo do IBGE de todos os municípios brasileiros com mais de 100.000 habitantes. Santa Cruz aparece em primeiro lugar, com média anual de dezesseis suicídios a cada grupo de 100.000 habitantes. Em segundo lugar, aparecem Passo Fundo, também no Rio Grande do Sul, e Patos de Minas, em Minas Gerais, com média anual de doze suicídios por grupo de 100.000 cada uma. Em uma década, portanto, Santa Cruz registrou quarenta suicídios a mais em comparação com Passo Fundo e Patos de Minas. No Brasil, nesse período de 2007 a 2016, em média cinco pessoas tiraram a vida a cada ano por grupo de 100.000 habitantes. O Rio Grande do Sul manteve a tradição de ser o estado recordista em suicídios, com dez casos por100.000 pessoas.

Os números do IBGE e da Secretaria de Agricultura mostram que em Santa Cruz do Sul as famílias de plantadores de fumo reúnem 12.000 pessoas, cerca de 10% da população do município. Apesar disso, com dados obtidos pela Lei de Acesso à Informação, em cartórios de Santa Cruz e com familiares das vítimas, descobriu-se que a presença de fumicultores entre os suicidas vai muito além desses 10%. Em 2013, por exemplo, dos 25 suicídios ocorridos na cidade, oito foram de trabalhadores da cultura do fumo, de acordo com os registros oficiais. Projetando-se o número, conclui-se que, para cada grupo de 100.000 fumicultores, houve 67suicídios – enquanto, entre a população em geral, esse número ficou em dezesseis por 100.000.

O recorde da década deu-se em 2011, quando 34 pessoas tiraram a vida em Santa Cruz, nove das quais eram fumicultores – um número que projeta 76 suicídios anuais por grupo de 100.000 pessoas ligadas à plantação de fumo. A mais jovem vítima naquele ano foi Angélica Vargas de Oliveira. Era uma adolescente linda e simpática, de 16 anos, que queria ser policial militar. Enforcou­ se perto da escola em Monte Alverne. Os pais da jovem abandonaram o plantio de fumo, deixaram a velha morada e cuidam de um mercadinho de beira de estrada onde jovens se reúnem no fim da tarde de domingo para beber e jogar sinuca. ”A gente veio pra cá para ver se esquecia”, diz o pai, Sebastião Francisco de Oliveira, de 63 anos. “Mas não esquece.” A menina o ajudava desde criança na lavoura de fumo, mas não se descuidava dos estudos, como mostram os boletins dos quais a mãe nunca se desfez. “Ela só tirava notas altas”, orgulha-se Maria Leoni de Vargas, de 57 anos.

Quatro dias depois da morte de Angélica, Silomar Padilha, de 59 anos, enforcou-se na casa onde morava, em Alto Paredão, distrito vizinho a Monte Alverne. “Ele plantava fumo desde quando podia, desde a adolescência”, diz o irmão Senomar José Padilha, que anda de bombacha e chapéu. A menos de 5 quilômetros de onde Padilha se enforcou vive Alcido Schulz, de 77 anos. Ele parou de plantar fumo no ano passado, depois de mais de quatro décadas. Em 2011, precisou vender uma moto da família para pagar a lápide da sepultura do filho Valdomiro, que se enforcou aos 33 anos. “Era um guri que dos 8 anos para a frente estava na roça com a gente, sempre trabalhando.” Clerio Andre Schulz, de 38 anos, irmão de Valdomiro, mantém a lavoura com a ajuda da mulher e dos filhos. “O fumo é a sobrevivência da gente”, diz.

Pelo relato da maioria dos familiares, os fumicultores que se mataram em 2011 apresentavam sinais de depressão. “Ele plantou fumo a vida inteira e estava com depressão havia anos”, diz Jonas Rachow, filho de Albino Rachow, que se suicidou aos 65 anos. “Ele estava se tratando com remédios”, informa Carine Krüger, irmã de Juliano Lindolfo Krüger, que se matou aos 34 anos. Completando a lista dos nove plantadores de fumo que se suicidaram em Santa Cruz em 2011, há ainda Renato Frantz, de 49 anos, José Carlos Severo, de 41, Guido José Sehn, de 63, e Valdori Gõttems, de 32. Dos nove mortos daquele ano, seis usaram a forca para dar fim à própria vida. Existem ainda duas pessoas que optamos por não incluir na relação dos nove porque deixaram a atividade faz algum tempo. Trata-se de uma fumicultora aposentada que abandonou o ofício quatro anos antes de se matar, quando já morava na cidade, e de um agricultor que parou de plantar fumo cerca de cinco anos antes do suicídio.

No começo dos anos 2000, um estudo nos Estados Unidos relacionou o trabalho de migrantes latinos na lavoura de fumo com a depressão. Em 2015, houve uma série de relatos de suicídio de plantadores de fumo do Estado de Andhra Pradesh, no sul da Índia. No Brasil, a primeira suspeita de relação entre suicídio e plantio de fumo apareceu em 1996. Um estudo de um grupo de pesquisadores gaúchos mostrou que o índice de suicídios em Venâncio Aires, município vizinho de Santa Cruz, à época com 61.000 habitantes, chegara a 37 casos anuais por grupo de 100.000 pessoas. O assunto atraiu a atenção da imprensa nacional e de forma esporádica voltaria a aparecer em reportagens nos anos seguintes, sempre com base em médias municipais de suicídio. No levantamento de 2007 a 2016, Venâncio aparece com uma média anual de 23 suicídios por 100.000 habitantes.

“O que a gente sempre vê são hipóteses ou probabilidades que não têm cunho científico”, diz Iro Shünke, presidente do SindiTabaco, que reúne as maiores indústrias do setor no país. “Para mim, isso está dentro da onda antitabagista.” Ele resgata o principal argumento de quem se opõe à ideia de que há uma relação entre suicídio e plantio de fumo. O problema seria a ascendência germânica de grande parte dos moradores da região. Uma espécie de autorrigor cultural levaria esses descendentes a se suicidar ante situações problemáticas.

O cruzamento dos dados compromete esse raciocínio. Municípios gaúchos que tiveram colonização alemã tão ou mais forte que Venâncio Aires e Santa Cruz apresentam índices de suicídio muito aquém daqueles dos produtores de fumo. É o caso de Campo Bom e Igrejinha, cujas médias anuais de suicídio de 2007 a 2016 foram, respectivamente, de sete e oito por grupo de 100.000. E regiões que produzem fumo e não foram colonizadas por alemães têm índices mais altos, como Dom Feliciano (treze) e Camaquã (doze).

Além disso, o perfil dos suicidas de Santa Cruz sepulta a tese germânica. Os sobrenomes dos mortos e de seus pais nas certidões de óbito de anos recentes revelam que a maioria dos suicidas no município não é descendente de alemães. No ano do recorde, 2011, mesmo entre os plantadores de fumo – atividade dominada por netos e bisnetos dos imigrantes -, um terço dos suicidas não tinha origem germânica.

O perfil também mostra que o índice de suicídios é alarmante entre os fumicultores, e não no restante da população de Santa Cruz. Caso se tratasse de uma herança cultural, por que os descendentes de alemães que estão no comércio, na indústria, na prestação de serviços e mesmo em outras atividades agrícolas não se matariam como os plantadores de fumo?

O estudo gaúcho feito em 1996 indicava como provável causa de suicídios em Venâncio Aires o elevado uso de agrotóxicos na cultura do fumo. Depois, entre 1999 e 2001, um grupo multidisciplinar com dezenove pesquisadores de três instituições – Universidade de Santa Cruz do Sul, Universidade Estadual de Campinas e Universidade Federal do Rio de Janeiro – entrevistou e examinou moradores de 147 propriedades rurais que cultivam fumo em Santa Cruz do Sul e arredores. Descobriu que 20% deles haviam sido vítimas de episódios de intoxicação aguda com agrotóxicos, alguns com até nove incidentes. A análise da saúde mental de 315 fumicultores revelou que um quarto deles já havia utilizado medicamentos “para os nervos, para dormir ou para depressão”. Do grupo, dezessete apresentavam ideação suicida e, entre os 298 restantes, um total de 21% tinha familiares que se suicidaram. Do total, 44% atingiram o nível do que os pesquisadores chamaram de “suspeição de caso de morbidade psiquiátrica”. Conclui o estudo: “Pode-se aceitar como verdadeira a hipótese deque os agrotóxicos empregados indiscriminadamente no cultivo do tabaco causam intoxicações e distúrbios neurocomportamentais nos membros das unidades familiares de produção”.

Mais recentemente, outra hipótese passou a ser estudada. Desde o início desta década, pesquisadores de diversos países vêm investigando o que chamam de efeito “em forma de U invertido” da nicotina. Ao ser absorvida por uma pessoa com depressão, a substância iniciaria seu caminho por uma extremidade do U e teria efeito aparentemente positivo até chegar à base da letra. Em seguida, a própria substância passaria a aumentar os sintomas da depressão. Os estudos mais comuns nessa linha são realizados em fumantes pesados, mas o outro grupo populacional exposto a doses altas de nicotina é o dos fumicultores. Na tese de doutorado que defendeu há quatro anos na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, a pesquisadora Nádia Spada Fiori fez uma revisão de dez estudos de cinco países – Índia, Brasil, Estados Unidos, Malásia e Itália – para mensurar a nicotina no organismo de plantadores de fumo. A conclusão: os fumicultores estão expostos à nicotina tanto quanto ou mais que os fumantes pesados.

A médica Neice Faria, pesquisadora associada da UFPel, investiga a saúde de fumicultores e outros agricultores há mais de duas décadas. Em artigo publicado há quatro anos na respeitada revista NeuroToxicology, resultado de um estudo com 2.400 fumicultores de São Lourenço do Sul (RS), além de reforçar a ideia da relação entre agrotóxicos e transtornos mentais, ela se deteve nos plantadores que, no ano anterior à pesquisa, haviam sofrido com a chamada doença da folha verde, que indica intoxicação por nicotina no contato da pele com o fumo. Esses agricultores foram separados em dois grupos: os que tiveram de um a três episódios da moléstia e os acometidos quatro ou mais vezes. No primeiro grupo, 26% apresentavam transtornos como ansiedade, depressão e pânico. No segundo, 47%.

Uma associação entre agrotóxicos em excesso e intoxicação por nicotina pode explicar por que os suicídios são muito mais comuns em municípios produtores de fumo do que naqueles especializados em outras culturas nas quais também há utilização de grandes quantidades de fungicida, inseticida e herbicida. O estudo de São Lourenço foi realizado em três fases que envolveram diferentes períodos de cultivo de fumo e duraram ao todo oito meses. “Um rapaz que estava na primeira e na segunda etapas da pesquisa não foi à terceira”, lembra Neice Faria. “Ele se matou.”

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GESTÃO E CARREIRA

COMO FAZER SUA EMPRESA SER AMADA PELOS FUNCIONÁRIOS

Muitos são os métodos que empresas podem adotar para melhorar o relacionamento com seus funcionários. Confira uma lista com cinco delas:

como fazer sua empresa ser amada pelos pelos funcionáreiosc

Passamos a maior parte do nosso tempo no ambiente de trabalho, dividindo espaço, tarefas, momentos e horas com os nossos colegas de escritório.

Para que todos estejam confortados para executar da melhor maneira possível suas atividades, que o convívio com todos no ambiente corporativo seja o mais saudável possível e os resultados obtidos no final sejam os melhores, existem diversos pontos e observações que devem ser levados em consideração e aplicados no espaço corporativo.

A seguir, compartilhamos uma lista com algumas delas, produzida pela empresa MundiPagg:

COMPARTILHAMENTO DA CULTURA

Uma cultura que promove valores como a união, a liberdade, a autonomia, a responsabilidade e o espírito de dono é fundamental para o sucesso, e deve ser criada e transmitida desde o início, não só na teoria, mas, sobretudo, na prática. Não existe uma riqueza maior para a empresa do que contar com uma equipe que realmente abraça a cultura, absorvendo-a naturalmente.

Para isso, não é necessário pregar os valores na parede, mas eles devem ser vividos no dia a dia, em todas as tarefas. Os colaboradores que vivenciam essa realidade fazem o dia render e trabalham focados em entregar o melhor aos clientes. A cultura deve propiciar o desenvolvimento da responsabilidade desde cedo, com o apoio dos líderes, para que o indivíduo se sinta preparado suficientemente para sugerir e tomar decisões. No final, os resultados são visíveis: quando a instituição cresce, as pessoas crescem junto.

QUALIDADE DE VIDA

Em um país em que o emprego tradicional tem diminuído a cada ano, benefícios como vale-transporte, vale-refeição ou alimentação, auxílio combustível e plano de saúde ainda fazem os olhos dos trabalhadores brilharem. Entretanto, essa é uma visão limitada do que uma empresa pode de fato oferecer ao colaborador.

Um dos fatores essenciais para a qualidade de vida de um funcionário hoje é ter liberdade para exercer suas tarefas da forma que desejar, no momento em que se sentir mais confortável, sem uma rotina fixa, com voz dentro de seu time e autonomia para escolher o melhor caminho. Além disso, a infraestrutura também pode ser mais confortável, com áreas de descanso e de lazer, além da disponibilização de serviços de empresas parceiras, como academias, clubes, restaurantes, cinemas, entre outros.

HIERARQUIA HORIZONTAL E RECONHECIMENTO

Grande parte do sucesso de uma empresa moderna é o tratamento horizontal, que permite à equipe ter liberdade para discutir e dialogar sobre as tarefas e projetos, tendo a liderança como um apoio para guiar as decisões ao invés de apenas cobrar. Para isso, o feedback constante é uma ferramenta básica que funciona como uma bússola, com o objetivo de identificar o que está evoluindo e o que não está, e corrigir a rota.

Esse tipo de ambiente promove uma competitividade do colaborador com ele próprio e faz com que os destaques tenham oportunidade de crescer, com base na meritocracia. Uma consequência desse sucesso é a criação de lideranças jovens, abertas a críticas e sugestões.

PROCESSO SELETIVO DESAFIADOR

Quem almeja uma vaga deve estar preparado para o que lhe espera. Independentemente da forma de captação de candidatos, seja por indicação, hunting, atração e campanhas de comunicação, o recrutamento deve contar com etapas que ofereçam desafios técnicos além das entrevistas.

Quanto mais o processo for inclusivo, com a participação de diferentes líderes, melhor. A conversa deve ser franca e direta com diferentes áreas, como a de RH, gestores dos times e, principalmente, pelo responsável técnico – quando se trata de Tecnologia – como o avaliador final. Provas de lógica, teste de fit, dinâmicas e entrevistas devem ser aplicadas com alto nível de exigência. Na área de Tecnologia, por mais que as etapas tornem o processo mais lento, são fundamentais para validar o escopo técnico e o nível de conhecimento.

CONFIANÇA

Pessoas precisam acreditar no que fazem, que estão no lugar certo, que recebem os desafios sob medida. A confiança é necessária para que possam aprender e correr atrás dos objetivos, para que saibam também cair e se reerguer e, sobretudo, para que possam ser reconhecidos diante de suas conquistas. Isso deve acontecer desde o estagiário, que pode ser muito mais do que um mero ajudante. Ele pode ter responsabilidades, decisões a tomar e liberdade para criar as coisas. A inteligência deve ser estimulada por todos e para todos.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 20: 1-10 – PARTE I

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A Ressurreição

 

Não havia nada de que os apóstolos se interessassem mais em produzir provas substanciais do que da ressurreição do seu Mestre:

1. Porque sua ressurreição era aquilo a que Ele mesmo apelava como sendo a última e mais convincente prova de que Ele era o Messias. Àqueles que não cressem nos outros sinais, se faria referência a este milagre do profeta Jonas. Portanto, os inimigos estavam muito interessados em reprimir as notícias deste sinal, porque isto seria incitar a questão e, se Ele ressuscitasse, eles não somente seriam assassinos, mas assassinos do Messias.

2. Porque era disto que dependia o cumprimento da sua missão pela nossa redenção e salvação. Se Ele der sua vida como um resgate, e não retomá-la, não parecerá que sua doação foi aceita como uma expiação. Se Ele ficar prisioneiro pela nossa dívida, e assim permanecer, nós estaremos perdidos, 1 Coríntios 15.17.

3. Porque Ele nunca se manifestou vivo, depois da sua ressurreição, a todo o povo, Atos 10.40,41. Nós deveríamos ter dito: “Que sua morte ignominiosa seja privativa, e sua gloriosa ressurreição seja pública”. Mas os pensamentos de Deus não são os nossos, e Ele ordenou que a morte de Cristo fosse pública, perante o sol, pelo mesmo sinal através do qual o sol enrubesceu e ocultou sua face. Mas as demonstrações da sua ressurreição deveriam ser preservadas como um favor aos seus amigos em particular, e por meio deles ser divulgadas ao mundo, para que aqueles que não tinham visto, e ainda assim tinham crido, pudessem ser bem-aventurados. O método de prova é tal que dê satisfação abundante àqueles que estão piedosamente dispostos a receber a doutrina e a lei de Cristo, e ainda abre lugar para as objeções daqueles que são determinadamente ignorantes e obstinados na sua descrença. E este é um teste justo, adequado ao caso daqueles que estão em experiência.

Nestes versículos, temos o primeiro passo dado para a prova da ressurreição de Cristo, que é o sepulcro sendo encontrado vazio. “Ele não está aqui, e, sendo assim, eles devem nos dizer onde Ele está, ou concluiremos que Ele ressuscitou”.

 

I – Maria Madalena, indo ao sepulcro, “viu a pedra tirada do sepulcro”. Este evangelista não menciona as outras mulheres que estavam com Maria Madalena, mas somente ela, porque ela foi a mais ativa e ousada nesta visita ao sepulcro, e nela ficou evidente o maior afeto. E foi um afeto despertado por uma boa causa, em consideração às grandes coisas que Cristo tinha feito por ela. Muito lhe tinha sido perdoado, por isto ela muito amava. Ela tinha mostrado seu afeto por Jesus enquanto Ele vivia, aprendendo sua doutrina, ministrando a Ele com o que tinha, Lucas 8.2,3. Não parece que ela tivesse qualquer interesse agora em Jerusalém, exceto servi-lo, pois as mulheres não eram obrigadas a subir à festa, e provavelmente ela e as outras o seguiam de perto, como Eliseu seguiu a Elias, agora que sabia que seu mestre seria tomado por de cima de sua cabeça, 2 Reis 2.1-6. Os constantes exemplos do respeito que ela tinha por Ele, na sua morte, e depois dela, provam a sinceridade do seu amor. Observe que o amor por Cristo, para ser sincero, deve ser constante. O amor de Maria Madalena por Cristo era forte como a morte, a morte de cruz, pois o amor foi o motivo pelo qual o Senhor morreu na cruz; cruel como o sepulcro, pois ela fez uma visita a ele, e não se acovardou pelos seus terrores.

1. Ela “foi ao sepulcro”, para lavar o corpo com suas lágrimas, pois foi até lá, para ali chorar e ungir Jesus com o bálsamo que tinha preparado. O sepulcro é um lugar ao qual as pessoas não desejam fazer visitas. Aqueles que são postos entre os mortos estão separados dos vivos, e visitar um túmulo é uma demonstração de afeto pela pessoa falecida. Mas, geralmente, isto é especialmente amedrontador para as mulheres. Poderia ela, que não tinha força suficiente para afastar a pedra, pretender ter tal presença de espírito para entrar no sepulcro? A religião judaica proibia os judeus de se envolverem além do necessário com sepulcros e cadáveres. Ao visitar o sepulcro de Cristo, ela se expôs, e talvez aos discípulos, à suspeita de um desejo de furtar seu corpo. E que serviço real ela poderia fazer ao Senhor através de uma atitude como esta? Mas seu amor responde a esta, e a mil objeções similares. Observe:

(1) Nós devemos nos empenhar em honrar a Cristo naquilo em que não pudermos ser produtivos para Ele.

(2) O amor por Cristo remove o terror da morte e do sepulcro. Se não pudermos ir até Cristo, exceto por aquele vale escuro, mesmo ali, se o amarmos, não temeremos mal algum.

2. Ela veio tão cedo quanto pôde, pois veio:

(1) “No primeiro dia da semana”, tão logo tinha terminado o sábado, desejando, não vender grãos e expor trigo (como Amós 8.5), mas estar no sepulcro. Aqueles que amam a Cristo aproveitarão a primeira oportunidade de testemunhar seu respeito por Ele. Este era o primeiro dia de repouso cristão, e ela o começou da maneira correta, procurando por Cristo. Ela tinha passado o dia anterior comemorando o trabalho da criação, e, portanto, descansando. Mas agora ela estava buscando o trabalho da redenção, e por isto faz uma visita a Cristo, e este crucificado.

(2) Ela “foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro”. Observe que aqueles que desejam procurar a Cristo, para encontrá-lo, devem procurá-lo cedo, isto é:

[1] Procurá-lo ansiosamente, com uma preocupação tal que até mesmo interrompe o sono. Despertar-se cedo, por medo de perdê-lo.

[2] Procurá-lo persistentemente. Nós devemos negar o repouso, a nós mesmos e aos nossos, para procurar a Cristo.

[3] Procurá-lo logo, cedo, nos nossos dias, cedo todos os dias. “Pela manhã, ouvirás a minha voz”. Um dia que começa assim tem grandes possibilidades de terminar bem. Aqueles que procurarem a Cristo diligentemente, “sendo ainda escuro”, serão iluminados a respeito dele com uma luz que brilhará cada vez mais.

3. Ela “viu a pedra tirada do sepulcro”. Esta era aquela pedra que ela tinha visto rolar para fechar sua entrada. Isto foi:

(1) Uma surpresa para ela, pois não esperava isto. Cristo crucificado é a fonte de vida. Seu sepulcro é uma das fontes da salvação, se formos até ele com fé. Embora para um coração carnal isto seja uma fonte fechada, nós veremos que a pedra foi retirada (como Genesis 29.10), e assim teremos livre acesso aos seus consolos. Os frequentes incentivos daqueles que buscam ao Senhor bem cedo são consolos surpreendentes.

(2) Era o começo de uma gloriosa descoberta. O Senhor tinha ressuscitado, embora, a princípio, ela não tenha compreendido isto. Observe que:

[1] Aqueles que são mais constantes na sua adesão a Cristo, e mais diligentes nas suas buscas por Ele, normalmente têm as primeiras e mais doces notícias da graça divina. Maria Madalena, que seguiu a Cristo até o final da sua humilhação, encontrou-o no início da sua exaltação.

[2] Deus normalmente se revela, e aos seus consolos, gradualmente para nós, para despertar nossas expectativas e motivar nossa busca.