PSICOLOGIA ANALÍTICA

PSICOPATOLOGIA DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

Nos últimos anos as pesquisas a respeito desses tipos de transtornos entre essas faixas etárias, que apresentam algumas peculiaridades, estão apresentando grande evolução.

psicopatologia da infância e da adolescência

A infância e a adolescência são períodos de intensas transformações, o que gera inúmeras manifestações e mudanças de comportamento. Nos últimos anos as pesquisas a respeito dos transtornos psicopatológicos da infância e da adolescência estão apresentando grande crescimento. A área da psicopatologia da infância e adolescência apresenta algumas peculiaridades: por se tratar de pessoas ainda em desenvolvimento.

Estudos epidemiológicos indicam taxas variadas de prevalência para as psicopatologias na infância e adolescência. Cerca de 10 % a 25 % das crianças e adolescentes, em algum momento da vida, podem apresentar algum transtorno, necessitando assim, de um olhar e acompanhamento especializado. Estima-se que em nível mundial, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 20% de crianças e adolescentes apresentam algum problema de saúde mental, situação que pode trazer consequências negativas a curto e longo prazo nas trajetórias de desenvolvimento dos indivíduos.

O diagnóstico dos transtornos da infância e adolescência é acompanhado por uma variedade clínica e, muitas vezes as manifestações clínicas são extremamente parecidas, dificultando assim, o olhar do avaliador. Os fatores de risco para o desenvolvimento infantil são condições ou variáveis ambientai, biológicas, genéticas ou sociais que tornam a criança e o adolescente mais vulneráveis para o aparecimento de um transtorno mental.

Os principais fatores de risco para o desenvolvimento de algum transtorno nessa etapa do desenvolvimento são: negligência; violência doméstica; violência e maus tratos; abuso emocional ou físico; abuso de substâncias; extrema pobreza; vulnerabilidade social.

Crianças e adolescentes que sofrem algum tipo de violência podem apresentar dificuldades de   comportamento, prejuízos cognitivos ou até mesmo transtornos mais graves. Estudos mostram maiores prejuízos cognitivos, assim como os transtornos psicológicos, em crianças que sofreram alguma violência.

No contraponto aos fatores de risco estão os fatores de proteção, que são componentes promotores de um desenvolvimento adequado e da prevenção de aparecimento de psicopatologias. Os principais fatores de proteção para um bom desenvolvimento infantil são: vínculos familiares adequados contendo afeto e segurança; promoção da autonomia para cada faixa etária específica; limites consistentes; discurso e comportamento não violento por parte dos cuidadores; afetividade familiar; fontes de apoio individual ou institucional para família e criança; saúde mental parental.

Atualmente o sistema categórico mais utilizado para o diagnóstico da infância e adolescência é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5, que permite realizar um diagnóstico descritivo pautado em critérios diagnósticos estatísticos. Entre os transtornos mais prevalentes na infância e adolescência estão:

TRANSTORNOS DE NEURODESENVOLVIMENTO – Deficiência intelectual; transtornos do espectro autista, transtornos de aprendizagem; transtornos de comunicação; transtorno de Déficit de atenção/hiperatividade; transtorno de tique.

TRANSTORNOS DISRUPTIVOS DO CONTROLE DO IMPULSO E DA CONDUTA – Transtorno de oposição desafiante; transtorno de conduta; transtorno explosivo intermitente.

TRANSTORNOS DE ANSIEDADE – mutismo seletivo. transtornos de ansiedade de separação; fobias específicas; transtorno explosivo intermitente.

T RANSTORNOS DEPRESSIVOS – Transtorno disruptivo da desregulação de humor; transtorno depressivo maior; transtorno depressivo persistente, transtorno disfórico pré-menstrual; transtorno depressivo induzido por substâncias/medicamento; transtorno depressivo devido a outra condição médica; outro transtorno depressivo especificado; transtorno depressivo não especificado.

Nas últimas décadas tem se percebido um aumento da previdência dos transtornos depressivos e   a compreensão a respeito, tem se modificado significativamente. Se antes havia questionamentos sobre a real existência de episódios depressivos na infância e na adolescência, o desenvolvimento de manuais classificatórios permitiu o estabelecimento de critérios operacionais para a identificação desse fenômeno nessa faixa etária. Entre os transtornos depressivos anteriormente     citados, os que parecem possuir maior ocorrência na infância e na adolescência são o transtorno depressivo maior (TDM), e o transtorno disruptivo da desregulação do humor (TDDH).

A manifestação do TDM parece diferir de acordo com a faixa etária. Enquanto os estudos   apontam para uma ocorrência relativamente baixa de episódios depressivos em pré-escolares – afetando aproximadamente de 1% a 2,5% dessa população – durante a adolescência as estimativas de prevalência se assemelham àquelas encontradas na população adulta, com 4 % a 9%, do jovem; apresentando um episódio depressivo em um período de 12 meses. Muitos fatores podem contribuir com o aumento da ocorrência de depressão após a puberdade, uma vez que a adolescência é um período crucial para o desenvolvimento humano, marcada por diversas mudanças biológicas, psicológicas e sociais.

O TDM pode acarretar diversos prejuízos no funcionamento social, ocupacional, físico e emocional e está associado a desfechos negativos como baixo desempenho acadêmico, uso de substâncias, e   comportamento, suicida. Dados recentes indicam que, dos 10 aos 24 anos, a depressão é a principal categoria diagnóstica em termos de carga de doença nessa faixa etária, representando 8,2% dos DALYs (em inglês – anos de vida ajustados para incapacidade). Ainda que a maioria dos pacientes se recupere de um primeiro episódio, pesquisas sugerem que a probabilidade de recorrência nos primeiros dois anos após a remissão dos sintomas é de 20% a 70%.

Ainda que os sintomas depressivos na infância e na adolescência possam ser compreendidos como um espectro de sintomas, uma decisão diagnóstica é necessária para definir a necessidade de tratamento. De acordo com o DSM-5, um episódio depressivo caracteriza-se a partir da presença de um número mínimo de cinco sintomas com uma duração de ao menos duas semanas. Os sintomas cardinais de um episódio depressivo são a mudança de humor e a anedonia, devendo pelo menos um deles necessariamente se apresentar para o diagnóstico.

Em crianças e adolescentes, o manual ressalta que o humor irritável é permitido, como um sintoma nuclear de diagnóstico ao invés do humor deprimido. Associados, esses, outros sintomas acessórios precisam estar presentes por um tempo mínimo de duas semanas: alterações no peso e no apetite, alterações no sono; alterações psicomotoras; fadiga ou perda de energia sentimentos de inutilidade e culpa inapropriados; capacidade diminuída para pensar e se concentrar, pensamentos recorrentes de morte; ideação suicida ou planos e tentativas de suicídio.

O transtorno disruptivo de desregulação do humor é uma categoria diagnóstica recente do DSM, uma vez que foi incluída na última versão do manual. O principal propósito de seu surgimento está relacionado a um aumento substancial de diagnósticos pediátricos de transtorno de humor bipolar (THB) nas últimas décadas, oriundos, principalmente de sintomas como irritabilidade crônica não episódica, além de explosões de raiva desproporcionais. Com esse aumento de diagnósticos pediátricos de THB, alguns pesquisadores começaram a procurar entender esta manifestação de irritabilidade e agressividade na infância e na adolescência realmente estava relacionada ao THB, ou se esses sintomas eram mais bem explicados por outra condição.

NOVOS ESTUDOS

Esses estudos chegaram à conclusão de que os sintomas expressados pelas crianças não eram manifestações pediátricas do THB, principalmente porque as taxas de conversão de irritabilidade grave não episódica em transtorno bipolar na idade adulta são muito baixas. Em vez disso, as crianças com irritabilidade crônicas estão em risco de desenvolver transtornos depressivos unipolares e/ou ansiedade na idade adulta. Portanto, o DSM-5 incluiu um diagnóstico concebido para abranger esses jovens, o qual proporciona uma categoria distinta para estas manifestações. Os sintomas de TDDH descritos a seguir devem ocorrer, em média, três, ou mais vezes por semana   e precisam estar presentes por um período de 12 meses ou mais.

São eles: explosões de raiva recorrentes e graves manifestadas pela linguagem e/ou pelo comportamento que sejam consideravelmente desproporcionais em intensidade ou duração à situação ou provocação. ATENÇÃO! Essas explosões de raiva devem ser inconsistentes com o nível  de desenvolvimento, p humor entre as explosões de raiva é persistentemente irritável, ou zangado  na maior parte do dia, quase todos os dias, e é observável por outras pessoas (por exemplo, pais, professores, pares); os sintomas devem estar presentes em pelo menos dois de três ambientes (por exemplo, em casa, na escola, com os pares) e devem ser graves em pelo menos um deles.

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AVALIAÇÃO DIFERENCIADA

A avaliação de crianças e adolescentes deve considerar, principalmente, duas características fundamentais: tempo e espaço. Avaliar uma criança considerando seu tempo e contexto permite que o clínico possa compreender seus sintomas dentro de uma cultura e uma sociedade na qual o indivíduo está inserido.

A abordagem de ecologia do desenvolvimento humano preconiza que um indivíduo não existe sem o seu contexto e, portanto, o ambiente ecológico contempla diversos níveis que precisam ser considerados no momento da avaliação de uma criança ou um adolescente:

Microssistema –   Compreende o indivíduo e a sua família;

mesossistema – abrange as relações existentes entre os diferentes sistemas. Encontram-se os efeitos experimentados pelas relações (escolas, creches, parentes), exossistema – relacionado às articulações entre pessoas envolvidas nos sistemas em que a pessoa circula e que afetam indiretamente (trabalho, clubes de lazer, empresas privadas); macrossistema –  composto por todos os outros níveis citados em que estão contidos valores, crenças, recursos, ideias, classes sociais, estilos de vida, entre outros.

Tratando-se de crianças e adolescentes, é crucial realizar as entrevistas levando-se em consideração seu contexto temporal, ambiental e desenvolvimental.

Apesar de na infância serem frequentes as queixas relacionadas a alterações cognitivas, comportamentais e de inteligência, atrasos de desenvolvimento neuropsicomotor e alterações psicológicas, é importante verificar o que são alterações normais de cada etapa desenvolvimental e o que está discrepante em termos de frequência e intensidade de sintomas. Para que se consiga diferenciar o desenvolvimento típico, ou normal do atípico, e de um transtorno, é importante uma avaliação clínica individual; que muitas vezes é realizada em conjunto com um profissional da área da Psiquiatria.

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 MAUS-TRATOS A CRIANÇAS NO BRASIL

As informações disponíveis a respeito do tema maus-tratos a crianças no Brasil são inconsistentes, o que faz com que sejam analisadas com cautela. Há uma grande dificuldade em relação à   obtenção de números que espelhem a realidade, principalmente devido a falhas nos sistemas de registro, cultura da omissão e a falta de conhecimento dos profissionais envolvidos no atendimento das crianças. De qualquer forma, os números existentes mostram a gravidade do problema. Dados divulgados em 2017 apontam o seguinte: o Disque 100, canal do Ministério de Direitos Humanos recebeu 144.580 denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes em 2016. A média e de 396 ocorrências por dia ou 16 a cada hora. O dado integra o Cenário da Infância e da Adolescência no Brasil elaborado pela Fundação Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos). Entre as denúncias recebidas pelo Disque 100, a maioria (71,3%) é por negligência. Em seguida, agressão psicológica (44,5%) e violência física (42,1%). Além disso, em uma ocorrência pode ser informado mais de um tipo de agressão.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.