OUTROS OLHARES

MUNDO BARBIE

O sucesso comercial e simbólico da boneca mais vendida no mundo é próprio de uma estrutura social com padrões mercantis de beleza e realização pessoal que concentra nas crianças os desejos de acumulação dos adultos.

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A cada três segundos uma Barbie é vendida no mundo. Já se ultrapassou a cifra de centenas de milhões de bonecas comercializadas, isso sem falar de suas réplicas, irmãs, sósias ou cópias. Uma espécie de Barbie muçulmana, com véu e estojo de maquiagem, é sensação no Oriente Médio, sucesso de vendas em reduto anticapitalista. A Barbie é a boneca mais vendida no planeta e ocupa as vitrines de nada menos que 150 países.

Como compreender esse fenômeno? Quais suas causas e origens? E que efeitos produz no imaginário social, tanto masculino como feminino?

Para acompanhar essas questões, é interessante buscar no advento da modernidade os fios que trançam sexualidade, infância e indivíduo, apontando como o corpo e suas projeções psíquicas passam a ser objeto privilegiado da ciência e do imaginário modernos. O papel do consumo e, mais especificamente, da boneca – e sua transformação ao longo das últimas décadas – permite jogar alguma luz nos processos de constituição subjetiva no momento contemporâneo. Dito de forma mais específica: esse percurso possibilita entender melhor o que faz com que vivamos numa cultura em que a boneca Barbie modela de maneira onipresente nosso desejo e nossas práticas sociais, saibamos disso ou não.

Diz-se que a psicanálise “criou” a sexualidade. Freud teria sido o articulador-mor desse processo ao tomá-la como objeto de estudo, dando voz às histéricas que sofriam na carne, trazendo dessa forma ao patamar da palavra o que corpos censurados gritavam: sexo. Foram esses corpos que nomearam a patologia, especificamente seu útero, do grego hysteron. O sintoma vinha no lugar do livre escoamento da carga sexual reprimida. O processo inverso, analítico, do sintoma ao canal da palavra, foi definido de maneira precisa por Anna O., paciente “inaugural” da psicanálise: talking cure. A cura pela fala poderia aliviar o ser de seus sintomas e, nesse movimento, delimitar a construção de um terreno fértil para que a ciência dirigisse sua luneta para uma obscura seara: a subjetividade humana, em uma de suas interfaces mais enigmáticas, ada inter-relação mente/ corpo. O último quarto do século 19 delimitou o ambiente intelectual que estabelece a sexualidade como campo possível e legítimo a ser abordado e, assim, o corpo propriamente psíquico como objeto a investigar, eventualmente mensurar e, finalmente, tratar.

ENTRE CORPO E MENTE

Sim, Freud foi um brilhante investigador, homem de insights originais e coragem ímpar para segui-los até a raiz. No entanto, soube frutificar e colher na seara já plantada em seu tempo: a sexualidade já era objeto da ciência, por mais positivista e moralista que fosse (na linha dos manuais sexuais da época). O que o século 19 fortificou foi de fato a possibilidade de se debruçar sobre qualquer tema da vida humana, inclusive o das práticas sexuais, posto que este assunto, como qualquer outro, era objeto do olhar inquisidor que espiava pela lente epistemológica ávida por conhecer os recônditos de qualquer célula, semente, neurônio, comportamento.

E esta é uma criação não exatamente de Freud ou dos iluministas do século 18, mas da modernidade em sua essência. Em que medida? Na medida em que, na lâmina do cogito cartesiano, a modernidade funda o sujeito, atribui-lhe racionalidade e consciência inquisidoras e opera uma separação entre esta e o objeto pensado. É na esteira desse viés moderno do século 17 que hoje, na além-modernidade, podemos nos debruçar sobre nosso corpo e sobre “identidades sexuais”, moldando-as com objetos materializados e consumíveis, bonecas nomeadas que não só desenham, como modelam e buscam controlar cada vez mais esse irrequieto domínio que é o da sexuação, ou, de forma mais poética, o do vir-a-ser homem, o do vir-a-ser mulher, o do vir-a-ser sexuado.

A psicanálise se coloca, de certa forma, nessa corrente, situando a sexualidade como objeto da ciência, porém de forma distinta do olhar mais positivista em voga na época, uma vez que distingue instinto de pulsão. A via pulsional é aquela no delicado limiar entre “o somático e o psíquico”, o que nos proporcionará os mecanismos de investimento de energia e de sublimação que permitam compreender o fascínio por uma boneca e o lugar privilegiado que ela pode ocupar no imaginário tanto individual como social.

Psicanálise, teoria da relatividade, física quântica, genética, cinema, rádio, telégrafo, eletricidade, surrealismo, dadaísmo, música dodecafônica… inúmeras transformações na ciência, na arte e no pensamento – a virada do 19 para o 20 é fervilhante e ordena em seu eixo transformações tais que uma nova subversão de valores e conceitos toma corpo, instaurando aquele que foi chamado, também, de “o século da subjetividade”.

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FAMÍLIA, INFÂNCIA E BRINQUEDO

O sujeito, agora descentrado em relação à consciência racional e palco de conflitos pulsionais, de classe, de gênero, de culturas, passa a ser objeto fundamental do olhar do século 20. O século 20 se debruça sobre esse anjo desviado do paraíso artificial da racionalidade com cuidado e curiosidade, além de dominação e usufruto, ou, em outras palavras, num misto de investigação, oferta, vigilância e controle. Como se dá o processo de formação do humano? A inquietação sobre sua constituição – biológica, psíquica, social – é onipresente. Nesse contexto, subjetividade, sexualidade e infância se entrelaçam. É nessa constelação que se inserem, e mais, se tornam possíveis, as Barbies.

A boneca é um objeto privilegiado no longo percurso de constituição do sujeito. E um objeto­ chave na construção do feminino na cultura globalizada contemporânea. Objeto em dupla acepção: objeto material, no campo da circulação de mercadorias que representam as demandas dos indivíduos consumidores no capitalismo massificado contemporâneo, e objeto psíquico, polo de intersecção de investimentos libidinais por parte de um sujeito dessa mesma cultura. A boneca tem como função ocupar o lugar de modelo identificatório representante dos ideais propostos à subjetividade em formação. Hoje, a boneca é uma mercadoria presa numa complexa rede de circulação de produtos, movida por estratégias precisas de marketing e comunicação de massa, dirigidas para um público determinado: a criança. Temos ar entrelaçamentos entre infância, consumo e mídia.

A infância surge como categoria específica, propriamente moderna, num momento relativamente recente da história humana. Apenas há alguns séculos a criança é um “ser” em sua singularidade, com espaço, tratamento e objetos próprios, e não um mero adulto em miniatura. A “criança” surge com a família moderna, que se constitui paralelamente ao hábito de educar a criança na escola, no início do século 17. A esses dois pontos de apoio, família e escola, o contemporâneo acrescenta um terceiro, a mídia, e assim forma-se o tripé no qual se apoia a circulação simbólica e imaginária que sustenta o fenômeno Barbie. Sigamos esse processo.

Já no Renascimento, época de lentas e profundas transformações, passou-se a uma variação da amplitude da frequência escolar. Até a era medieval, a criança nascia e vivia em casa, formando-se no universo cotidiano que lhe era “imediatamente” oferecido, tendo-se como pressuposto que a formação se dava pela imersão no mundo dos adultos. O movimento de individualização e subjetivação crescente na modernidade recorta o coletivo familiar “ampliado” da pré-modernidade e constrói espaços materiais e simbólicos privatizados. O “lar” moderno passa a ser uma figura importante, moldando o surgimento da família nuclear, espaço de maior intimidade, propiciando a circulação afetiva entre pais e filhos. A família não é mais somente um agrupamento moral e patrimonial no qual se cuida da transmissão da herança a um primogênito privilegiado, mas um núcleo sustentado por laços afetivos e de responsabilidades quanto à educação desse ser em formação que era – e ainda é – a criança.

É nesse universo potencialmente protegido da intimidade e da familiaridade que vai cada vez mais se potencializando um lugar privilegiado para a criança como centro de atenção, demanda e poder. E é aí que o pequeno ser efetua sua for­ mação e se dedica ao brincar. Esse domínio – do brincar- sofre alterações importantes no decorrer do século 20 seguindo o duplo movimento de industrialização crescente (com sua “artificialização” dos objetos) e a mercantilização extensiva que inclui na lógica consumista do atual estágio da produção capitalista todos os domínios da vida humana, inclusive a infância e suas atividades de compreensão e decodificação do mundo através da atividade lúdica. Nesse sentido, cada vez mais possibilidades e tipos da mercadoria “brinquedo” são oferecidos ao pequeno consumidor infantil. Nesse cenário, ocorre um fenômeno específico, a oferta de um novo produto: em 1959 é lançada a primeira boneca “adolescente”, que recebe como nome o apelido da filha de sua criadora: Barbie. Logo ela se torna uma sensação e milhares de exemplares são vendidos.

Delineiam-se, dessa maneira, dois tipos de boneca disponíveis no universo infantil feminino: a boneca-bebê e a boneca-Barbie. O sucesso desta última é crescente e conquista cada vez mais amplas fatias do mercado de tal forma que hoje temos, de fato, um fenômeno de transição no universo do “brincar de boneca”: a boneca-bebê cede cada vez mais espaço à Barbie, e cada vez mais cedo. A menina trilha o processo de formação de seu papel social apoiada menos na relação com o objeto bebê e mais no outro, corporificado pela moça glamourosa. O que está em jogo aí?

Em primeiro lugar, um reflexo claro da abertura dos campos disponíveis para o feminino que se oferecem no final do século da chamada Revolução Sexual. Ao brincar de boneca, a menina se joga no círculo quase infindável da repetição das atividades e posturas de seu lugar na cultura, introjetando- os mais ou menos conscientemente. Se a boneca com a qual o sujeito interage é um bebê, as opções são basicamente duas e se localizam no interior da relação mãe-filha. Ou seja, é o polo materno do amplo espectro feminino que se atualiza no brincar. A menina é a mãe, a menina é a filha. A menina é a mãe mais ou menos jovem, mais ou menos severa, mais ou menos interativa. Ou a menina é a filha, maior ou menor, mais ou menos obediente, mais ou menos amada.

E assim a menina vai construindo, pela via do imaginário e do simbólico, numa atividade real, o mapeamento de seu lugar tanto presente quanto futuro. Coloca-se aí efetivamente como filha, em sua relação com as irmãs e os irmãos, com as amigas, com sua própria mãe e com os derivados da função materna, como avós e babás, e ainda com o pai; e, outro lado da moeda, joga com o vir-a-ser mãe, o cuidar e educar a prole, ninando, amamentando, ensinando, brigando, vestindo, alimentando, constituindo, assim, o desejo e o lugar “naturalizado” da identificação com o materno como aquele que preenche a mulher e lhe dá sentido. Nesse campo, da boneca-bebê, os tipos de boneca são vários e redundam no mesmo convite de identificação do feminino com o materno, tendo as funções de maternagem como os esteios do brincar. Nesse sentido, o objeto boneca pode ser um bebê, uma boneca com cara de bicho, uma menina pequena. Em suas variações situacionais, a posição ocupada pela menina é a daquela que cuida ou é cuidada, educa ou é educada.

já a Barbie, e seus derivados, opera prioritariamente em outro polo: o da jovem mulher sexuada, que se torna “moça”. É nesta via que se oferta como modelo identificatório à criança, mesmo que muito pequena, à menina, à púbere, à adolescente. A Barbie é aquela que tem, em primeiro lugar, o corpo sexuado da adolescente­ mulher, com longas pernas e cabelos compridos, cintura e seios proporcionais, harmonia dos traços faciais adultos, isto é, cumpre as proporções corretas, inclusive normatizadas e midiatizadas, que delineiam o ideal do corpo perfeito da mulher contemporânea.

Em segundo lugar, ela é uma mulher com o atributo de vaidade num mundo em que este não é mais pecado e sim virtude, fonte alimentadora de uma indústria bilionária. Dessa maneira, a boneca-você-no-futuro ensina um “ser-mulher” que irá se replicar nos salões de beleza, shopping centers e academias: ela vem com estojinho de maquiagem, esmalte, secador e um variado e enorme guarda-roupa com peças, sapatos e acessórios. Lenta e cotidianamente se delineia a mulher que queremos ser e que parece que estamos desejando que nossas filhas sejam.

E quanto aos pactos afetivos e de sociabilidade próxima? A Barbie, como mulher adulta e não mais bebê ou criança, tem namorado e amigas. Exercita uma vida social intensa que transita do bucólico ao metropolitano, passando pelo Oeste a ser desbravado, assim como por inúmeras culturas, das mais remotas e já desaparecidas às mais contemporâneas. Nessa medida, há o conjunto para piquenique assim como a coleção de metralhadoras.

Esses pactos sociais remetem aos lugares simbólicos propostos para a boneca e, assim, para o sujeito em constituição. E aí temos talvez o mais poderoso canal de formatação e modelização vigente no contemporâneo, propiciado pela boneca onipresente e onipotente – quanto à representação de papéis sociais, há tudo quanto é tipo de Barbie, das noivas e princesas às executivas e pilotas. O universo feminino (e sua contraparte masculina, comoveremos) encontra em princípio a totalidade de polos identificatórios possíveis: desde a bela moça para casar que se tornará dona de casa e mãe até a profissional e líder do século 21.

Portanto, Barbie opera com enquadres sobrepostos e talvez excludentes. Alimenta o ideal do amor romântico e, portanto, da posição de princesa que encontra o príncipe e com ele se casa, constituindo a família como “rainha do lar”, detentora do poder no espaço privado cuja função prioritária é parir e acompanhar a prole- eixo fundamental no universo Barbie, contemplado nas infindáveis séries de noivas, princesas e estrelas. Acontece que o mundo mudou, e só essa roupagem é pouco para contemplar a nova mulher, aquela que conquistou o direito ao trabalho no universo público, ou seja, aquela submetida ao mercado. Nesse sentido, proliferam as Barbies “profissionais”, dentro, claro, da glamourização necessária para o funcionamento da indústria de consumo de objetos e imagens que é a nossa cultura, baseada no comércio de sonhos. A nova mulher conquistará seu lugar ao sol no mundo do “self-made-indivíduo” como celebridade: pop star, modelo, atriz, alta executiva, atiradora. Isso sem falar na incrível Barbie candidata à presidência, talvez um dos postos mais concentradores do imaginário do poder no nosso mundo globalizado – leia-se, como cantam alguns, americanizado.

A apropriação consumista dos brinquedos por todas as classes cresce de forma exponencial, junto com o processo mais amplo de transformação da pólis republicana em mercado global, isto é, nossa passagem de cidadãos a consumidores. E qual o lugar da criança nessa ciranda? A partir da virada declaradamente consumista da segunda metade do 20, com o apoio das mídias de massa na retaguarda do processo de idealização que promove a acumulação de objetos, temos o surgimento de uma sociedade descartável que não cessa de vetorizar seu desejo ao acumular e comprar, alimentando os circuitos básicos do capital financeiro volátil. Nesse processo crescente – e numa aceleração, assim, necessária -, não temos como deixar de assistir ao espraiamento infinito do mercado: todos os seres vivos devem se tornar, e se tornam, consumidores – por mais incapacitados que sejam para a tarefa, por falta de moeda ou consciência, não importa: o imperativo do consumo é soberano.

Propiciamos, desse modo, o surgimento de sua majestade, a criança consumidora. Aquela que pode se tornar – e às vezes se torna de fato – bulímica em sua apreensão incessante do mundo e nos limites da perversão despótica: a que diz “eu quero” e “compra para mim” numa frequência bem mais alta que a de décadas atrás. E perguntas surgem: porque não colocar mini carrinhos de supermercado em suas mãos tão fofinhas? Por que não um passeio pelos parques temáticos no shopping center ou uma incursão pelas lojas especializadas em brinquedos que vêm se espalhando por todo o planeta na última década? Por que não trabalharmos mais para podermos dar uma vida confortável para aquele que faz nossa vida ter sentido? Por que não o esforço que não tem preço para ver nosso pimpolho feliz com seu minicastelo encantado com televisão, computador, celular, roupas “de grife”, escolas “de grife”, cursos dos mais variados tipos, games, brinquedos, brinquedos, brinquedos?

Que efeitos esse tresloucado carrossel gesta em nosso tempo? A lógica Barbie amplia-se para toda uma cultura.

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INFINITOS PRODUTOS

O “mundo Barbie” é o nosso mundo hoje. Não somente porque Barbie talvez seja a mais precisa representação daquilo que devemos ser e almejamos conquistar, tanto como mulheres, quanto como homens ou qualquer outro gênero, em sua perfeição de formas e possibilidades. Mas ainda na medida em que preenche excepcionalmente bem as linhas de força da nossa cultura hiperconsumista, ao mesmo tempo individualista e massificada, global e regionalizada, descartável e apoiada no imaginário pretensamente fixo da marca reconhecível. Em grande medida, é como se a criança funcionas ­ se como o termômetro e, de certa forma, o álibi que faltava para a assunção de nossos desejos acumulativos mais primários.

Aí fomos pegos numa armadilha. Adultos e crianças, polos anteriormente contrapostos agora A unidos pela totalização crescente e aparentemente inescapável da mercantilização extensiva. O indivíduo que foi se construindo pouco a pouco desde os primórdios da modernidade, agora, em seu impasse ultramoderno, se transforma no superindivíduo consumista por excelência, sedento de qualquer produto que possa lhe dizer quem é e lhe dar a garantia de pertencimento ao coletivo, somente possível numa submissão vivida como identificação, imaginária ao menos, com os ideais constituídos no momento. Essa é a “forma-moda” ditadora dos enquadres em que a pessoa busca rapidamente se encaixar, em processos identificatórios incessantes e infinitos, de tal forma que agora a estabilidade sonhada parece se esvair nesta modernidade líquida, pós ou hipermoderna. Nesse sentido, é quase da ordem da obviedade que a boneca adquira diversas e sucessivas roupagens, e domine materialmente a construção do imaginário de possibilidades identificatórias numa série infindável de lançamentos, tal como qualquer outra mercadoria. Barbie passa a ser um substantivo e uma forma de vida, em seu ciclo, portanto, também necessariamente infinito, das mais conservadoras às mais modernas, das que propõem um lugar mais celestial ao feminino àquelas que as inserem no “mercado”, na explícita justaposição capitalista de valores anteriormente contraditórios, agora subsumidos pela mesma e única lógica da mercantilização: Barbie princesa (uma série infinita de princesas, com diversas roupas, tonalidades e culturas), Barbie noiva (idem), Barbie de longos cabelos, Barbie loira, Barbie morena, Barbie ruiva, roqueira, executiva, adolescente, revolucionária, funcionária, pilota de avião, super-heroína… Barbies de todos os países, passados e futuros, reais, imaginários, tailandesa, egípcia, inca, chinesa, francesa, nativa, contemporânea. Barbies declaradamente ligadas a marcas: Barbie Coca­ Cola, Ferrari (num interessante processo de retroalimentação das grandes marcas), idílicas, Barbies campestres, Barbies ícones da indústria do entretenimento, notadamente do cinema, com as scarletts e marilyns da série Hollywood. E, sem dúvida, para arrematar a lista com chave de ouro: a Barbie hippie.

Aí está a explicitação cristalina do processo de apropriação, por parte de quem produz, de qualquer tipo de ideia ou valor, mesmo que contraditórios; e mais, o esfacelamento do próprio conceito de valor ao inutilizar a contraposição submetendo os lados contrários à uniformização mercantil das várias possibilidades numa mesma infinita prateleira do hipermercado global. O que uma Ferrari tem a ver com uma camiseta do Che Guevara? E o que uma boneca Barbie tem a ver com uma Barbie hippie? Nada. E tudo.

Os imperativos de gozo, prazer, fruição (e, claro, tudo numa aura de diversão) constituem nossos controles mentais. Sabemos também que esses são imperativos majoritários em nossa cultura do entretenimento, cujas bases se reproduzem na circulação de bens e serviços da classicamente nomeada indústria cultural, da qual sem dúvida o produto/ marca/imagem Barbie faz parte. No tempo do só-prazer e só­beleza, todo desprazer e toda desarmonia são rapidamente expulsos para uma periferia qual­ quer da mente ou da cidade. As pessoas ficam, portanto, presas a mecanismos de identificação a um objeto ditatorialmente idealizado, enfeitiça­ do – que tem origem etimológica no português castiço “fetiche” – moldado pela cultura em seus tentáculos midiáticos (a mesma que, assim prenhe de feitiçarias, dissemina, logicamente, paulo-coelhos e harry-potters).

E como se dá a circulação real e simbólica da mercadoria Barbie no universo que vai fazendo sentido para o sujeito? Prioritariamente no circuito fechado família-escola-televisão, os três polos basais de reconhecimento e persuasão operantes na cultura infantil (e que se replicam de forma estrutural na vida adulta, embora com circuitos mais amplos: família-mídia-trabalho e canais sociais coligados). Ou seja, a escola recebe as meninas e suas Barbies, instaurando­ se a rede de transmissão de conhecimento e reconhecimento. Funções de que a escola vem se apropriando cada vez mais, desde sua forma­ tação moderna, e que hoje exerce de maneira mais ampla, praticamente monopolizando a totalidade das funções de formação intelectual, moral, política e, portanto, ideológica, propondo – e mesmo propagandeando – a inserção desse indivíduo no mercado.

E, como decorrência, na nossa era de materialismo hedonista utilitarista, não há como viver sem possuir um corpo que se esforça por se assemelhar a esse modelo fetichizado. A perfeição das formas se torna insuficiente. É a perfeição da possibilidade de gozo, isto é, do usufruto “livre” e contínuo de um corpo sexuado. Ao extremo. Engendra-se, portanto, um movimento de duplo alcance: uma sexualização ampla da sociedade e seu imaginário constituído, que segue paralela a uma identificação com a adolescência, que passa a ser o modelo da era feliz e idealizada desse gozo. Todas e todos somos Barbies! É preciso gozar o tempo todo, como um adolescente liberal, filho da lógica do prazer. Porque já somos isto, na essência, é que a boneca da Mattel pôde conquistar um espaço que de fato era todo seu. Cada indivíduo segue o seu caminho, singular e submetido, na medida do possível, somente às ambições e vontades do eu soberano. Temos projeto então? Falência das utopias políticas coletivas e nascimento das nova s utopias ultra- individualistas?

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METROSSEXUAIS

Tudo fazemos para nos assemelhar aos lugares iluminados dos modelos. Todos, ou ao menos muitos, lançamos mão de gastos e submissões, o que não deixa de operar pela via de um puritanismo ostentatório que sacraliza o corpo e o prazer ao mesmo tempo que instaura a prática do sacrifício para a obtenção dessa máxima graça terrena (transcendente, desejaríamos). Já dizia Weber que a ética protestante andou de mãos dadas com o espírito capitalista, pois a aura puritana nos faz passar fome, malhar, fazer tratamentos, cirurgias e muito mais.

Desde o boom das academias de ginástica a partir dos anos 80, com sua tarefa incrível de construir o corpo (novos deuses que somos do body-building, por falta de poder construir um futuro ou um sistema mais interessante para viver) até a prática crescente das cirurgias estéticas que floresceram a partir dos anos 90, a década de ouro que fecha o milênio revelando cada vez mais claramente as forças atuantes neste século. A biologização absoluta que nos fará em breve poder escolher as células-tronco mais adequadas para o tipo de sexo, tecido e modelo de nós mesmos.

E o homem, no mundo Barbie? E os meninos, estão fora da discussão? De forma alguma, pois que as Barbies adolescentes de todas as idades se fazem para eles, se constroem, esculpem, vestem, imitam para o olhar do outro, como sempre. Quem é esse outro masculino sustentador de toda essa lógica? É aquele que brinca de carrinho em seu clube do Bolinha enquanto as mini-Barbies brincam de boneca? Ah, não, doce ilusão. Não somente moldam, sim, também eles, o modelo soberano em voga, com suas escolhas e construções midiáticas, como – e mais importante – eles próprios se tornam Barbies. Ah, sim, com outros nomes, como “metrossexual” ou o novo homem urbano que “assume” a veia consumista dirigida para a escultura do eu potente. É pura e simplesmente a lógica Barbie. Próteses, botox, peelings, carapaças e vestimentas nelas, cremes e grifes neles. Ainda timidamente. Mas a enxurrada da agora permitida e viril “vaidade masculina” não tardará. Os inquietos consumidores saberão encontrar seu lugar ao sol e no salão. Afinal, os homens não estão penetrando as delícias do jardim privado? Não estão entrando em contato com sua sensibilidade, chorando no cinema, discutindo a relação e descobrindo o prazer de cuidar dos filhos? Por que não iriam brincar de Barbie logo mais?

Porém, assim como Barbie hippie é um paradoxo, Barbie princesa também o é, pois que a via principesca leva indubitavelmente à busca do encontro com o príncipe e o viver feliz no interior do lar. O que, além da aura de mágica e fantasia que logo irá se revelar inalcançável e geradora de expectativas frustradas, implica a transformação do casal em família, o que implica engravidar, amamentar e criar. Será que a mulher que se ocupa dessas funções tem tempo, dinheiro e energia para permanecer com seu corpo de princesa Barbie? Difícil. A mulher adulta que se esforça em estar à altura – elevada – de seus variados papéis e múltiplas demandas é cria da menina que brincava de Barbie de dia e dormia abraçada à boneca-bebê de noite, criança fragilizada que voltava a ser o que era quando o sol se escondia. E, ao acordar, reinicia-se o ciclo para toda mulher: se arrumar bonita para enfrentar mais um McBarbie dia feliz. Mas eis que estamos justamente nessa era, não somente da dupla jornada de trabalho, no espaço público e no espaço privado, mas, hoje, da quádrupla ou quíntupla jornada, cujas tarefas de fato se misturam no trânsito entre o dentro e o fora de casa: com os filhos, com a administração doméstica, com o parceiro, com o mercado de trabalho e com o cuidado de si. Este, aliás, hoje demandante de cada vez mais investimento, seja em academias, seja em cirurgias. Isso é muito difícil. Para não dizer impossível.

Mais uma vez se decanta a estrutura central desse universo, que de fato é o nosso: Barbie, modelo contraditório e impossível. Mas extremamente adequado às formas de vida hiperconsumista e massificada. Ela tem e nós desejamos: corpo, maquiagem, roupas, sapatos, acessórios, carros, casas, amigos, namorados, carreiras, tudo de sonho… Enfim, “l’m a Barbie girl in a Barbie world”. Barbies estão cada vez mais à nossa volta e dentro de cada um de nós. Afinal, o mundo em que vivemos é o mundo Barbie. Barbies de todos os tipos: de plástico, de luz projetada na tela, pigmento no papel, de carne e osso. Posando para a foto.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.