OUTROS OLHARES

O FASCÍNIO DA SEGUNDA PELE

A forma como nos vestimos desvela movimentos íntimos e desejos muitas vezes desconhecidos, fazendo com que a roupa ocupe lugar de interface entre a pessoa e o mundo; para as mulheres, historicamente esse fenômeno parece ser ainda mais forte.

o fascínio da segunda pele

As roupas estão em toda parte: multiplicam-se em nossos armários, estão nas lojas, são exibi­ das como objetos de desejo nas revistas, criam códigos sociais, são dadas de presente, trocadas e nos deixam loucos nos dias de liquidação… Sua onipresença, sustentada por um interesse geral crescente, pode, porém, surpreender e nos levar a questionamentos. Afinal, por que elas ocupam tanto espaço em nossa vida? O que será que nos prometem em suas dobras silenciosas? O que buscamos compensar ou exibir aos olhos dos outros? Qual o uso que fazemos delas, às vezes até sem perceber? Em comportamentos como colocar sempre o mesmo vestido, usar apenas preto, ser fanático por shoppings, guardar cuidadosamente peças de vestuário daqueles que morreram prevalecem aspectos de nossa história pessoal. Por trás de uma aparente futilidade desvelam-se movimentos íntimos e, muitas vezes, desejos desconhecidos. A roupa, essa segunda pele, pertence ao mesmo tempo ao dentro e ao fora, tanto protege a intimidade quanto abre para o espaço social e relacional, ocupa uma posição fronteiriça, de interface entre o eu e o mundo, podendo mascarar o sujeito ou, ao contrário, revelá-lo.

A maneira de se vestir insere-se numa história, indica a margem de liberdade do indivíduo diante da família, de seus pares e nas interações sociais. A roupa acompanha a trama da construção de si e expressa a relação com sua imagem, expondo as marcas de fracassos ou sucessos na edificação do narcisismo. Por meio dela, descobrimos vestígios de identificações e memórias. Porém, esse trabalho de decifração de vínculos por meio das roupas só é possível dentro de um contexto determinado e para um sujeito considerado em uma história na qual se insere.

 DE LUTO E DE FESTA

Não se trata aqui de propor “diga-me como te vestes e te direi quem és”, mas sem dúvida é possível, com base nos exemplos da vida cotidiana, seguir algumas pistas de reflexão sobre um elemento que carrega a má fama de futilidade. As histórias ligadas à infância ilustram alguns elementos em jogo quando os pais escolhem as roupas dos filhos. Os tecidos absorvem em suas fibras a memória dos primeiros cuidados maternos. A criança é vestida pela mãe e, assim, inserida em uma tradição familiar. Por meio da roupa os pais imprimem sua marca no corpo do filho, modelando-o inconscientemente segundo seu desejo. Farão dele um bebê? Um adulto em miniatura? Seu super-herói num uniforme cintilante?

Nos primeiros meses de vida, a roupinha da criança é, em geral, uma preocupação exclusiva da mãe. Ela ocupa-se do filho, lava-o e veste-o – e há um investimento emocional nesses gestos. Os cuidados maternos criam um mundo sensorial rico em sensações táteis e olfativas. As roupas carregam o aroma da mãe e testemunham essa relação no corpo da criança, criando assim uma continuidade e afirmando laços afetivos. Mãe e criança formam, então, um par isolado do resto do mundo.

Ao longo do desenvolvimento infantil, as roupas continuam carregando os estigmas dessa troca subjetiva, cuja significação a criança descobrirá no olhar dos outros quando deixar o ambiente familiar para entrar na escola. Nas primeiras experiências de socialização, suas roupas não devem de forma alguma distingui-la das outras crianças – e sim fundi-la ao grupo.

TECIDO DE DESEJOS

O vestuário desempenha outro papel importante: pode revelar tramas inconscientes. Torna-as palpáveis, passíveis de apreensão; à sua maneira, diz à criança sobre os sonhos de seus pais em relação a ela. E ainda favorece questionamentos infantis sobre a identidade sexual. Em certa medida, também oferece aos pais a ilusão do filho ideal que têm em mente. Em geral, o adulto consegue estabelecer uma distância entre a satisfação de seu desejo e a realidade – mas e quanto à criança? Ela é, desde o início da vida, joguete de uma encruzilhada de desejos e projeções identificatórias de seus pais.

Assim, a suntuosidade de um traje exprime o orgulho dos pais, um ideal de êxito, como se a criança devesse dar conta de promessas que eles próprios talvez não tenham sido capazes de cumprir.

Por meio da roupa, diversas informações são trocadas inconscientemente, mas pouco a pouco vão constituindo em torno da criança um tecido de desejos parentais, de modelos nos quais ela terá de se apoiar para construir suas próprias referências. Pois, apesar da energia das forças que a pressionam, a criança geralmente preserva a liberdade de suas escolhas e identificações. Porém, em certos casos patológicos, quando sua autoconfiança é muito frágil, ou a pressão do desejo exterior, muito forte e pouco diversificada, o leque de possibilidades se reduz, o que pode acarretar graves distúrbios de identidade.

Na adolescência, a roupa acompanha as provações da puberdade, permitindo ao sujeito mascarar ou revelar sua sexualidade. O jovem se vê às voltas com a questão da autonomia em relação aos pais. A roupa torna-se, então, o carro-chefe dessa apropriação de si, multiplicando códigos e referências.

As relações amo rosas, mesmo na vida adulta, introduzem complicações e embaralham o jogo: a roupa seduz ou esconde, desvelando fantasias do casal. Lutos e perdas, assim como conquistas e rituais (formaturas, casamentos, batizados) também são marcados pelas roupas que usamos em cada ocasião, como telas nas quais dia após dia se inscrevem nossos sofrimentos e alegrias.

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O MUNDO TRATA MELHOR QUEM SE VESTE BEM

Nos primórdios da humanidade, os seres humanos recorriam à pele dos animais abatidos para se proteger do frio. Ao longo do tempo, essa proteção foi se tornando cada vez mais sofisticada: surgiram os adereços, e as roupas passaram a ser uma importante forma de comunicação. Como ocorre nos dias atuais – tanto em povos indígenas como nas populações urbanas, nos mais diferentes meios-, a maneira como uma pessoa se vestia pode indicar sua procedência, o clã ao qual pertencia e até seu status no grupo. Diferentes trajes sinalizavam até mesmo eventos como preparação para a guerra ou cerimônias religiosas. Em algumas culturas antigas eram valorizadas cores específicas. Em Constantinopla, capital do Império Bizantino, fundada em 667 a.C. pelos gregos, por exemplo, as peças tingidas com matizes de roxo eram as mais valorizadas, pois para obter essa tonalidade eram utilizados pigmentos raros, que só os nobres podiam comprar. Mas não é preciso ir muito longe para obter exemplos de que as roupas transmitem informações: nas décadas de 60 e 70, por exemplo, os trajes dos hippies remetiam à ideia de conforto, simplicidade e certa ingenuidade; as flores e os símbolos da contracultura eram constantes. O importante era propagar uma mensagem. Nada muito diferente do que acontece também hoje: não é novidade que determinadas etiquetas tornam as peças extremamente valorizadas e revelam o poder de quem as usa. Afinal, quem discorda que “o mundo trata melhor quem se veste bem”? Mas o que é se vestir bem? Usar peças confortáveis, de qualidade e, principalmente adequadas a cada ocasião? Talvez. Mas esses critérios certamente dependem mais da cultura de cada grupo que de preferências individuais.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

2 comentários em “OUTROS OLHARES”

  1. O que vejo hoje é uma preocupação constante das pessoas em estarem sempre na moda, então compram quantidades absurdas de roupas, pois a roupa que comprou a pouco tempo já saiu da moda rsrs…é hora do ser humano começar a buscar valores maiores, e principalmente olhar para o próximo… aprender a dividir mais, e não apenas somar essas futilidades…Parabéns pelo post, mais uma vez me proporcionou alguns bons minutos de reflexão.

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