OUTROS OLHARES

FILHOS? NÃO, OBRIGADA

Nas últimas décadas surgiram para a mulher inúmeras possibilidades de escolha e realização por meio do estudo, do trabalho, da diversão. Ao mesmo tempo, a ciência mostrou que o chamado “instinto materno” não é inato e pode ser vivido de diversos modos. Ainda assim, prevalece a pressão social que cobra a opção pela maternidade.

Filhos não, obrigada

É raro alguém perguntar o que levou um homem ou uma mulher a ter filhos. Em contrapartida, é comum escutar: ” Não tem filhos? Por quê?”. E, em geral, o principal alvo das indagações são as mulheres. Talvez algo como “não tive tempo”, “não sou casada” ou “não encontrei o homem certo, no momento certo” fossem boas respostas, mas há algo mais em jogo. É como se – ainda hoje, apesar de todas as transformações sociais dos últimos anos – continuasse necessário explicar à sociedade essa escolha (às vezes mais, às vezes menos consciente). Ao serem questionadas, as mulheres percebem na curiosidade alheia a pressão e as críticas disfarçadas, como se a opção de não terem sido mães as fizesse pessoas especialmente egoístas ou fosse sinal de algum “grande problema” em relação à sua feminilidade.

“Em nossas pesquisas promovemos a discussão do tema em grupos de mulheres sem filhos, em diversas cidades italianas, e muitas das participantes admitiram que se sentiam julgadas, às vezes até severamente, por parentes ou conhecidos, estigmatizadas como se fossem cidadãs de segunda categoria”, conta Maria Letizia Tanturri, professora de demografia da Universidade de Pádua, na Itália, que participou de um importante projeto de pesquisa coordenado por várias universidades. “É como se, de certa forma, a maternidade fosse a garantia de nos tornarmos pessoas melhores, mais sensíveis”, observa. Ela lembra que, em 2007, uma senadora democrata da Califórnia, Barbara Boxer, atacou a secretária de Estado Condoleezza Rice: “Como não tem filhos nem família, a senhora não pagará nenhum preço pessoal pelo envio de mais 20 mil soldados americanos ao Iraque”. As palavras podem ser entendidas como uma variante de algo como: “Quem não tem filhos não pode entender o que só nós, seres humanos privilegiados pela graça de ter filhos, conseguimos compreender”.

No entanto, desde as históricas tomadas de posição de Simone de Beauvoir no século passado e mais recentemente da filósofa Elisabeth Badinter – autora de O conflito: a mulher e a mãe (Record, 2011), entre outros livros -, o debate feminista parecia ter eliminado o mito da maternidade como destino e do instinto materno como pulsão inata. Enquanto isso, multiplicam-se na Europa e nos Estados Unidos publicações (algumas sérias, outras apelativamente populares) que analisam o problema, além de sites dedicados ao mundo childfree (livre de filhos) – neologismo inglês que distingue as mulheres sem filhos (childless) das que realmente não desejam tê-los, por escolha.

Vários pensadores, em especial da área da sociologia, porém, continuam falando em voluntary childlessness. A expressão é empregada, por exemplo, pela socióloga inglesa Catherine Hakim, pesquisadora da London School of Economics. “Hoje, mulheres com melhores condições socioeconômicas podem escolher, e, pelo menos na Europa, uma a cada quatro não parece estar interessada em ter filhos”, afirma. “Em termos numéricos, não é novidade: mesmo no passado havia cerca de 20% de mulheres sem filhos, mas isso era devido à pobreza, desnutrição ou à emigração que impedia casamentos. Ainda assim, a família era o centro da vida. Agora existem mais possibilidades de trabalho, de diversão. Ou seja, mais escolhas.” E entre as opções está a de não ter filhos: “Trata-se de uma decisão que, se consciente, é tão saudável e natural quanto a de ser mãe”, ressalta a psicanalista Geni Valle, membro da Associação Italiana de Psicanálise (Aipsi). “Vivemos em uma época em que grande parte das mulheres conseguiu estabelecer uma hierarquia do que é importante para a própria vida; algumas conciliam elementos muito diferentes, outras escolhem privilegiar um aspecto em detrimento de outro.” Permanece o fato de que a escolha de fazer diferente é mais aceita quando vem de uma cientista como a neurologista Rita Levi­ Montalcini, ganhadora do Nobel de Fisiologia e Medicina em 1986, que faria 104 anos dia 22 de abril de 2013 (faleceu aos 103 anos em dezembro de 2012). “Durante anos vi a cara que as pessoas faziam quando eu dizia que nunca tive nem desejei ter filhos”, diz a socióloga e psicóloga Paola Leonardi, especializada em questões de gênero. “Parece um problema se manifestar contra ‘as alegrias’ da família.” Voltada a questões ligadas à psicologia de gênero, ela desenvolveu na Itália um projeto no qual entrevistou mulheres engajadas no feminismo que eram jovens quando a maternidade era ainda vista como um destino.

SEM VOLTA

O mesmo aspecto une as entrevistadas por Paola e as participantes dos grupos de discussão acompanhados por Maria Letizia: a exigência de justificar suas escolhas para outras pessoas – o que parece uma contradição, já que vivemos em uma sociedade que privilegia as escolhas. “Hoje as jovens podem e querem optar; a identidade não está mais relacionada à maternidade, mas à própria realização por meio do trabalho e da independência. E ter filhos pode parecer uma decisão sem volta, que impossibilita seguir outros caminhos”, acredita Maria Letizia.

Resultado: a opção childfree está ganhando seguidores. No Brasil, em 38,7% dos domicílios as mulheres são chefes de família, segundo dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dez anos antes, esse percentual era de 24%. Aumento da escolaridade, novos arranjos familiares e maior participação feminina no mercado de trabalho influem nas mudanças. O cenário pode ajudar a explicar a queda vertiginosa da taxa de fecundidade no país. No final da década de 60, a mulher tinha em média seis filhos, passando para 4,5 no final dos anos 70. Em 2010, esse número caiu para 1,86, dados semelhantes aos dos países desenvolvidos e abaixo da taxa de reposição populacional, que é de 2,1.

“Algumas mulheres reconhecem que não nasceram para ser mães, o que, de certa forma, é um alívio para elas”, observa a demógrafa Catherine Hakim. Ela fala também de uma categoria de mulheres que não consegue sem decidir se querem ser mãe e ainda das que chama de “retardatárias”. Nessa última categoria ela enquadra aquelas que dizem “Depois vejo isso”, até se darem conta de que o momento certo não chega nunca. Elas esperam conseguir um trabalho, estabelecer-se na profissão, ter um companheiro – e depois desejam ter tempo para desfrutar de alguma tranquilidade. Então, o “depois” pode ser tarde demais. “Ou, talvez, muitas simplesmente fiquem satisfeitas com o equilíbrio encontrado e sem nenhuma vontade de alterá-lo”, observa Maria Letizia. “Se considerarmos mulheres tecnicamente férteis que não conseguem engravidar podemos pensar que é a inteligência do corpo que entra em jogo”, acrescenta Paola Leonardi. Ou uma instância inconsciente que simplesmente se nega a ser mãe.

Isso não significa que quem não tem filhos não ame os pequenos – muitos gostam, mas por motivos variados não querem tê-los. “Há pessoas muito envolvidas com as crianças, que ficam felizes em cuidar delas, profissionalmente ou dedicando-se a filhos de familiares e amigos, mas não pensam tê-los como uma presença permanente”, afirma Catherine. “Eu, por exemplo, descobri ter necessidade de leveza na vida: gosto das crianças dos outros, mas não imagino ter uma relação exclusiva como acontece com um filho”, explica Paola. “São principalmente os homens que veem com ressentimento as mulheres que não têm filhos, julgando-as frias e incapazes de se relacionar com os outros.”

TIA SIM, POR QUE NÃO?

Um estudo conduzido pela socióloga Caroline Gattrell, professora da Lancaster University Management School, revelou que muitas vezes mulheres sem filhos sofrem preconceito por ser consideradas frias, carentes e egoístas. “O curioso é que raramente as pessoas questionam a atitude de alguém que escolhe ter filho para dar sentido à própria vida ou ter um apoio na velhice.

E o que dizer de uma mulher que usa a maternidade como desculpa para renunciar a desafios profissionais que teme?”, salienta a psicóloga Leslie Leonelli, uma das entrevistadas por Paola. O problema do trabalho é concreto, pois existem ocupações dificilmente conciliáveis com uma vida familiar convencional. Mas nem sempre a questão é profissional. “A quem me perguntava por que não tinha filhos, muitas vezes respondi que tinha outras coisas a fazer, optei por viajar e desempenhar atividades voltadas para o bem-estar das pessoas, dei aulas, acompanhei grupos e criei um centro de autoestima da mulher”, conta Paola.

É possível pensar que sua experiência se refira a uma espécie de maternidade simbólica, já que ela se empenhou em projetos e produção cultural – fazendo eco a Simone de Beauvoir e a seu “não faço filhos, faço livros”. “O instinto materno não é inato, desenvolve-se na relação e pode ser vivido de modos diversos”, afirma Letizia Bianchi, socióloga da família da Universidade de Bolonha. “Além disso, a maternidade é, sobretudo, um ato criativo que pode ser expresso por meio do trabalho, dos relacionamentos ou simplesmente do esforço de tornar a vida diária mais rica.”

Nesse sentido, ao assumir “o lugar da tia”, é possível estabelecer uma relação afetiva intensa com a criança ou o adolescente, sabendo que são filhos de outras pessoas e que não se pode (nem se deve) assumir um papel parental. Em contrapartida, há espaço para agir de forma até mais livre, diferentemente dos pais. “Embora não sejam necessariamente fundamentais, as tias (biológicas ou não) podem ocupar um papel importante na educação; na prática, o fato de serem menos implicadas no cotidiano dos sobrinhos. “O que é triste é não saber a quem deixar as próprias coisas, não tanto os bens materiais, e sim as lembranças; quanto à solidão, todos nós vivemos em uma sociedade em que estamos sós, tanto as crianças quanto os idosos, e certamente não serão os filhos que resolverão o problema” , afirma a psicóloga Leslie Leonelli, uma das entrevistadas de Paola Leonardi. Ciente disso, Leslie tem se empenhado em levar adiante o projeto de criar um cohousing, um residencial que una espaços privados e comuns, onde as pessoas possam encontrar “outros jeitos de morar”, sem necessariamente ser tragadas pela solidão ou ser um peso para os mais jovens.

Não é de estranhar que a família de origem tenha grande peso na hora da escolha da maternidade. Não raro, mulheres que optam por não engravidar (ou adotar) se lembram do sacrifício vivido pela própria mãe e reafirmam não querer revivê-lo. O curioso é que muitas escolhem não ter filhos primeiramente em um nível inconsciente – mesmo que os motivos estejam vinculados a fatores externos, como esterilidade ou falta de um parceiro adequado.

MELHOR NÃO TÊ- LOS?

Para ser mãe é preciso ser filha – o que equivale a dizer que para oferecer cuidados é necessário ter sido (e se sentido) cuidada. Por outro lado, há aqueles que almejam oferecer aos filhos o amor e o amparo que gostariam de ter recebido na infância – o que em muitos casos acarreta problemas porque em vez de olhar para as necessidades da criança a pessoa só consegue ver as próprias carências e as possibilidades de supri-las. Nesse sentido, faz sentido a afirmação da filósofa italiana Luísa Muraro: “Mulheres que não têm filhos estão mais em paz com a figura materna em relação às outras, pois não têm necessidade de se comparar colocando-se no papel de mãe”. Nesse contexto, também é preciso considerar a figura do pai e a forma como o casal parental era visto na infância. Com certeza não há fórmulas: quando falamos de psiquismo é impossível supor consequências exatas de alguma experiência, embora haja desdobramentos bastante prováveis a ser considerados.

“É difícil definir um modelo, visto que experiências similares podem levar a situações opostas; uma mãe ausente pode provocar o desejo de ter filhos que consintam em cuidar da criança que existe dentro de cada uma de nós, ou então pode ser difícil se imaginar em um papel que lhe é estranho”, salienta a psicanalista Geni Valle. “Em todo caso, a ideia da maternidade de alguma forma sempre faz pensar nas próprias vicissitudes das relações, e isso pode fazer com que surjam conflitos não resolvidos.”

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Michigan com 6 mil mulheres com idade entre 50 e 60 anos revelou que ter ou não ter filhos não tem efeito relevante no bem-estar psicológico nessa faixa etária – o que, de certa forma, contradiz a ideia de que é preciso criar os filhos para ter com quem contar no futuro. “Os aspectos mais importantes para uma maturidade feliz são a presença de um companheiro e de um círculo de relações sociais significativas”, salienta a socióloga Amy Pienta, coautora da pesquisa publicada no periódico científico lnternational Joumal of Aging and Human Development. Assim – e considerando todo o risco, trabalho e preocupação que significa ter filhos -, seria melhor não tê-los? Depende. O único dado certo é que hoje existe uma liberdade maior de escolha: é possível ser mulher de forma plena e prescindir da maternidade.

Filhos não, obrigada.2.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

4 comentários em “OUTROS OLHARES”

  1. Eu optei por não ter filhos. Minha saúde mental não é boa, e eu não queria sujeitar uma criança a ter uma mãe depressiva, que não vai poder oferecer os melhores cuidados. Acredito que tem pessoas que são feitas para a maternidade/paternidade, e querem isso na vida, e outras que não seriam boas mães ou bons pais – essas talvez tenham um papel melhor como tias/tios, biológicos ou não.

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