PSICOLOGIA ANALÍTICA

POTENCIALIZAÇÃO DA QUALIDADE

Relações afetivas em geral e qualidade de vida são aspectos fundamentais na trajetória das pessoas, influenciando decisivamente, na busca pela felicidade.

Potencialização da qualidade

Os relacionamentos entre as pessoas representam uma parte fundamental da atividade humana e permeiam toda a nossa vida, estando presentes de maneira direta ou indireta nela. O objetivo deste artigo é discutir a potencialização da qualidade dos relacionamentos afeto-sexuais. Iniciaremos abordando a importância das relações humanas de maneira global. Em seguida, trataremos dos aspectos que nos ajudam a conquistar um relacionamento afetivo-sexual de qualidade e das dificuldades para encontrar um parceiro compatível. Por fim, são enumeradas algumas dicas para fazer o amor durar.

Para Morris (1994), o homem é um “animal social”, um ser que vive em sociedade e que precisa manter relações sociais. O desejo de formar e estreitar laços tem origem na evolução da humanidade, os seres humanos não teriam sido capazes de sobreviver ou reproduzir-se sem tal motivação, caçavam, partilhavam o alimento, protegiam-se dos predadores e combatiam juntos os inimigos comuns. Desde a sua concepção, o ser humano é inserido no meio social, viver em sociedade é uma necessidade vital, precisamos uns dos outros, de nos relacionarmos, de termos a sensação de pertencimento, de desenvolvermos e mantermos relacionamentos interpessoais fortes, estáveis e positivos (Chagas; Lima; Portella, 2013).

De acordo com pesquisas em Psicologia Positiva, existem alguns fatores que seriam os responsáveis por uma melhor qualidade de vida e bem-estar. Dentre esses fatores destacam-se as relações com outros seres humanos.

Em seu livro Teoria da Potencialização da Qualidade de Vida, Portella (2013) destaca a importância dos relacionamentos interpessoais para uma vida feliz. Os relacionamentos interpessoais com parceiros amorosos, familiares, colegas de trabalho e bons amigos representam uma das fontes mais poderosas de bem-estar e satisfação na vida. Para Seligman e Diener, os relacionamentos com familiares e amigos são fundamentais para a felicidade das pessoas. Na teoria do florescimento humano, Seligman destaca a importância dos relacionamentos positivos ou significativos. Para o autor, pessoas são o melhor antídoto para situações ruins e a maneira mais confiável para vivenciar bons momentos. Nas horas difíceis de perda, tristeza e dor, os amigos podem ajudar a amenizar o momento vivido. Por outro lado, podemos dizer que poucas atividades positivas são solitárias.

Nenhum ser humano funciona como uma “ilha”. Precisamos dos outros para obter uma sensação de completude, de pertencimento. Precisamos doar tanto quanto precisamos receber e, muitas vezes, doar nos traz ainda mais benefícios do que receber ajuda. Somos dotados de emoções que   nos sintonizam para amar, oferecer amizade em um compartilhamento de nossas vidas com a vida de outros e, embora essa relação possa nos causar dor, ainda assim precisamos das relações sociais para nos sentirmos completos. Pesquisas apontam para mecanismos que associam apoio social e benefícios da saúde através da regulação neural da reatividade ao estresse, ou seja, a resposta ao estresse está associada ao apoio social.

Segundo as pesquisas, a principal causa de angústia nos indivíduos é o rompimento de um relacionamento importante. Estudiosos norte-americanos da sociologia da família estudaram três gerações de residentes de São Francisco, na Califórnia, concluindo que o casamento é uma poderosa proteção contra os problemas, considerando-se todas as áreas bases da vida: saúde, ocupacional, afetiva / social, lazer, patrimônio e espiritual.

Estudos apontam que pessoas casadas são mais felizes do que as divorciadas, separadas, viúvas ou solteiras. A estratégia de investir em relacionamentos pode trazer felicidade não somente nos relacionamentos conjugais, mas em quase todas as relações significativas de nossas vidas. No entanto, o que a maior parte das pessoas deseja, de acordo com inúmeras pesquisas, é uma relação afetiva-sexual de qualidade. Porém, uma das dificuldades para alcançar esse objetivo é encontrar um parceiro compatível.

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SELEÇÃO DE PARCEIROS

Como fazer para encontrar um relacionamento amoroso de qualidade? Sem dúvida, esse caminho é para os corajosos, que não desanimam com as decepções da vida amorosa pregressa, o cansaço do dia a dia, as frustrações com as quais nos deparamos na procura pela pessoa certa. Por que parece ser tão difícil, até quase impossível, encontrar aquela pessoa especial com a qual vamos viver felizes o resto de nossa vida?

Os filmes de Hollywood, certamente, não seriam o sucesso de bilheteria que são caso eles mostrassem o passado amoroso tenebroso dos protagonistas, antes que eles pudessem encontrar um ao outro e ficarem felizes no final do filme.

A verdade é que precisamos nos arriscar e, talvez, passar por um milhão de rejeições antes de encontrar o amor verdadeiro. Não podemos nos render aos relacionamentos medíocres ou ao desânimo no meio do caminho.

Encontrar um relacionamento amoroso, de fato, não é difícil. O difícil é encontrar um relacionamento amoroso de qualidade. Para construir esse tipo de relacionamento, dois elementos são fundamentais: a química romântica e a maturidade. O elemento químico é composto por três fatores, a saber: admiração mútua, química romântica e atração. A química romântica é o “fogo da paixão”, a necessidade de estar junto do outro em todos os momentos. Não estamos falando apenas de sexo, estamos falando do desejo pelo outro de um modo geral, da faísca no olhar, de passar o dia pensando no outro. A química envolve os fatores que tornam a convivência agradável, que faz com que não percebamos o tempo passar enquanto caminhamos juntos pela praia e que nos permite admirar o outro incansavelmente. Inclui, sim, é claro, a atração sexual, mas não se limita a ela.

A maturidade refere-se aos padrões do comportamento do outro que nós admiramos. Esses aspectos do comportamento incluem o nosso comprometimento ético, os valores das nossas ações, a responsabilidade, confiabilidade e confiança, respeito.

Cabe ressaltar que todos os aspectos da maturidade (consciência, associação, integridade e competência) podem sofrer alterações. No entanto, apenas dois aspectos da química (admiração mútua e química romântica) podem ser alterados, sendo que a atração não pode ser alterada. Hulburt desenvolve uma forma de avaliar essas características nos parceiros. Os “dados do amor” falam justamente do equilíbrio entre os aspectos da química e da maturidade nos relacionamentos amorosos. Segundo a “metáfora dos dados”, cada um dos parceiros possui um dado branco (representando seu grau de maturidade) e um dado vermelho (representando a química). Se houver desequilíbrio nessas pontuações, o relacionamento corre risco. Para o relacionamento ser excelente, ambos os parceiros devem obter alta pontuação nos dois dados, sendo alta pontuação um cinco ou um seis em cada dado. Caso os dois tenham nota seis nos dois dados, estamos de frente para um relacionamento com alto potencial de qualidade. Esse é um tipo de conexão profunda, que tem a probabilidade de 1 para 1.296 de acontecer. Mais especificamente, se uma pessoa saísse com 20 novas pessoas todos os anos, ela levaria 65 anos para encontrar um relacionamento de altíssimo padrão (6\6\6\6). No entanto, para sermos felizes e satisfeitos em nosso relacionamento amoroso, não necessariamente precisamos encontrar a combinação 6\6\6\6.

A outra possibilidade de se ter um relacionamento muito bom apresenta uma pontuação de dois cincos para química e dois seis de maturidade. Nesse caso, a química que os parceiros sentem um pelo outro é alta e ambos são bastante maduros. Esse relacionamento é um que está acima da média dos relacionamentos típicos e já traria grande satisfação para a vida conjugal. A probabilidade desse tipo de relacionamento acontecer é de 1 em 324. Ou seja, as probabilidades já são bem mais favoráveis. Nesse caso, se uma pessoa saísse com 20 novos parceiros todo ano, levaria, em média, quatro anos para encontrar esse relacionamento bom, de ótima qualidade.

Percebemos acima que selecionar um parceiro compatível pode ser um desafio. No entanto, a boa notícia é que uma vez tendo selecionado seu parceiro(a), existem muitas estratégias provenientes da Psicologia Positiva e Psicologia que podem ajudá-lo a melhorar o nível de maturidade e de química do seu relacionamento afetivo-sexual.

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QUÍMICA ROMÂNTICA

1). POTENCIALIZANDO A ADMIRAÇÃO MÚTUA: refere-se à admiração mútua das qualidades do parceiro. Segundo Seligman, somente se formos únicos aos olhos da pessoa amada é que ela se comprometerá profunda e irracionalmente conosco. Parte do que nos faz insubstituíveis aos olhos daqueles que nos amam é o perfil de nossas forças e a forma especial que temos de expressá-las. Ele aponta os caminhos: gratidão, perdão, bondade, perspectiva, integridade, inteligência social, justiça, humor, autocontrole, animação, prudência e humildade são forças que podem levar ao amor. No entanto, com o passar dos anos, podemos enxergar as forças de nossos parceiros como defeitos e isso pode levar ao desgaste do relacionamento. Por exemplo, no início podemos perceber nosso parceiro como perseverante. Porém, essa mesma qualidade com o tempo pode passar a nos incomodar e passamos a vê-la como rigidez.

Gottamn ressalta a importância da cultura da apreciação, na qual as interações saudáveis e positivas e a sensação de segurança sejam normas. Assim, de acordo com o autor, é importante expressar verbalmente admiração por nosso parceiro.

 2). QUÍMICA ROMÂNTICA: refere­ se ao desejo infindável e poderoso de estar com alguém de uma maneira íntima, desejo de ser especial e valioso na vida daquela pessoa. Sentir uma afeição profunda. Podemos lançar mão de algumas estratégias para potencializar esse elemento da nossa vida afetiva sexual: investir em metas em comum e do outro; compartilhar valores e propósito de vida; auxiliar o parceiro (ser valioso e especial); conectar-se com o parceiro, percebendo e atendendo suas necessidades.

3). ATRAÇÃO (FEROMÔNIOS): para a manutenção da atração é fundamental lidar com o fenômeno da habituação. A atração sexual pode perder um pouco seu brilho ao longo dos anos. Isso acontece porque estamos sujeitos a um fenômeno chamado de habituação. Se repetimos muitas vezes uma determinada atividade, da mesma forma ou de modo similar, nos habituamos a essa atividade, e o prazer que sentimos com ela diminui. Se nos habituarmos com o parceiro(a) e com o modo como nos relacionamos sexualmente, acabamos sentindo essas relações como menos prazerosas. Mas esse destino não é inevitável. Pequenas modificações e surpresas na vida sexual e romântica, como, por exemplo, um novo jogo sexual, uma noite especial a dois programada com as atividades valorizadas pelo casal, a realização de fantasias sexuais, podem evitar o fenômeno da habituação, mantendo a vida íntima do casal prazerosa. De acordo com Vasconcelos e Klem, o sexfulness é uma estratégia para potencializar a vida sexual do casal e vencer a habituação. Essa estratégia é composta por três técnicas: mindfulness (atenção plena voltada ao momento presente), savoring (apreciação) e flow (mergulhar de cabeça nas experiências). Investindo no sexfulness, o casal terá uma vivência excelente e plena de seu potencial para o prazer.

MATURIDADE

1). CONSCIÊNCIA: até que ponto você está consciente dos seus sentimentos e da outra pessoa? O quanto você conhece sua motivação e age de forma não defensiva e realista? Para a maioria das pessoas, os sentimentos são confusos, isso quer dizer que temos dificuldade de entrar em contato e conhecer o que estamos sentindo, expressar esses sentimentos de maneira clara e também de compreender e acolher os sentimentos de outras pessoas. A comunicação aberta, sincera e acolhedora é o melhor caminho para lidar com esse aspecto do relacionamento. Os companheiros devem sempre se preocupar em tentar compreender o que o outro está sentindo, principalmente na hora de encarar as queixas e demandas. Deve-se tentar manter uma atitude aberta, procurando ouvir primeiro.

2). ASSOCIAÇÃO: como lidar com suas necessidades sociais e até que ponto respeita e se importa com as do outro. Trata também das expectativas e necessidades que temos nos relacionamentos. Um casal em um relacionamento maduro não deve esperar que o outro tenha o poder de “ler a sua mente”. É importante que necessidades e desejos sejam colocados às claras. Que o casal compartilhe seus pensamentos e sentimentos mais íntimos, que eles sempre se sentem para discutir os problemas e tomar decisões juntos. O planejamento de atividade prazerosa em conjunto também é um importante aspecto para nos ajudar a lidar com expectativas e realizar nossos objetivos em conjunto.

3). INTEGRIDADE: segundo Hurlburt, esse quesito diz respeito ao comportamento ético e autodisciplina individual. Juntas, essas características revelam o caráter da pessoa e até que ponto ela é confiável. Estratégias para potencializar a integridade são: investir nas forças de caráter (pessoais e nas do parceiro); investir na virtude da coragem, através do trabalho com as forças da bravura, persistência, integridade e vitalidade.

4). COMPETÊNCIA: indica até que ponto a pessoa é decidida, organizada, motivada e boa para resolver problemas. Não pode ser deixada de lado, contudo, a flexibilidade. Responsabilidade com rigidez pode nos levar ao adoecimento psicológico. A responsabilidade, entretanto, pode ser essencial para que sejamos admirados por nosso parceiro (a) como alguém que merece ser admirado. Para o casal, a capacidade de fazer e cumprir planos é muito importante. É sinal de respeito mútuo. Além disso, uma vida a dois apresenta muitos deveres e obrigações (casa, filhos, finanças etc.), que devem ser divididos. A forma como um se organiza nesses aspectos certamente impacta a vida do outro.

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MANUTENÇÃO DO AMOR

Gottman consegue prever quais casais irão se separar e quais ficarão juntos observando a interação dos casais, durante 18 horas diárias, por um final de semana inteiro. Em seu Laboratório do Amor, prevê os divórcios com 94% de acerto, baseado nos seguintes indícios:

Discussão áspera quando há discordância;

Queixas, críticas ao parceiro;

Demonstrações de menosprezo;

Atitude defensiva imediata;

Não valorização (particularmente sabotagem);

Linguagem corporal negativa (cruzar os braços, afastar o tronco).

Também prevê quais casamentos irão melhorar, o que ocorre quando casais dedicam cinco horas semanais ao casamento e seguem as seguintes recomendações:

DESPEDIDAS. Ao despedirem-se pela manhã cada um comenta o que fará durante o dia (2 minutos x 5 dias = 10 minutos);

REGRESSOS. Ao final de cada dia, os casais têm uma conversa tranquila de 20 minutos (20 minutos x 5 dias = 1 hora e 40 minutos);

AFETO. O casal se toca, agarra, pega, beija, tudo com ternura e perdão (5 minutos x 7 dias = 35 minutos);

UMA VEZ POR SEMANA. Somente os dois, numa atmosfera relaxada, dedicam um tempo para a renovação do amor 2 horas, uma vez por semana);

ADMIRAÇÃO E APRECIAÇÃO. Todos os dias, nem que seja apenas uma vez, procuram demonstrar afeto e apreciação um pelo outro (5 minutos x 7 dias= 35 minutos).

Lyubomirsky recomenda algumas estratégias para o fortalecimento das relações amorosas, como o casamento:

CONVERSAR MUITO. Casais bem­ sucedidos passam no mínimo cinco horas ou mais por semana juntos e conversando, compartilhando alguma atividade de interesse de ambos;

EXPRESSAR ADMIRAÇÃO, SATISFAÇÃO E AFETO PELO COMPANHEIRO(A). Relações felizes se caracterizam por uma proporção de afeto, de positivo a negativo, de 5 para 1. Significa que: para toda afirmação ou comportamento negativo (crítica, censura ou reclamação) deverá haver cinco comportamentos positivos;

INVESTIR NA BOA SORTE E NOS SUCESSOS DO PARCEIRO (A). Mais do que reagir às decepções e reveses um do outro, deve-se demonstrar emoção, interesse e entusiasmo pelas vitórias e conquistas do companheiro (a);

APRENDER A ADMINISTRAR CONFLITOS. Casamentos felizes evitam as acusações, as críticas, o desprezo, as defesas antecipadas, buscam sempre apaziguar, expressam afeto e levam a divergência com bom humor;

PARTILHAR UMA VIDA INTERIOR. No relacionamento, sonhos, objetivos e interesses devem ser compartilhados, enfrentando lado a lado os riscos e assumindo juntos as responsabilidades, mantendo o respeito mútuo.

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OUTROS OLHARES

FILHOS? NÃO, OBRIGADA

Nas últimas décadas surgiram para a mulher inúmeras possibilidades de escolha e realização por meio do estudo, do trabalho, da diversão. Ao mesmo tempo, a ciência mostrou que o chamado “instinto materno” não é inato e pode ser vivido de diversos modos. Ainda assim, prevalece a pressão social que cobra a opção pela maternidade.

Filhos não, obrigada

É raro alguém perguntar o que levou um homem ou uma mulher a ter filhos. Em contrapartida, é comum escutar: ” Não tem filhos? Por quê?”. E, em geral, o principal alvo das indagações são as mulheres. Talvez algo como “não tive tempo”, “não sou casada” ou “não encontrei o homem certo, no momento certo” fossem boas respostas, mas há algo mais em jogo. É como se – ainda hoje, apesar de todas as transformações sociais dos últimos anos – continuasse necessário explicar à sociedade essa escolha (às vezes mais, às vezes menos consciente). Ao serem questionadas, as mulheres percebem na curiosidade alheia a pressão e as críticas disfarçadas, como se a opção de não terem sido mães as fizesse pessoas especialmente egoístas ou fosse sinal de algum “grande problema” em relação à sua feminilidade.

“Em nossas pesquisas promovemos a discussão do tema em grupos de mulheres sem filhos, em diversas cidades italianas, e muitas das participantes admitiram que se sentiam julgadas, às vezes até severamente, por parentes ou conhecidos, estigmatizadas como se fossem cidadãs de segunda categoria”, conta Maria Letizia Tanturri, professora de demografia da Universidade de Pádua, na Itália, que participou de um importante projeto de pesquisa coordenado por várias universidades. “É como se, de certa forma, a maternidade fosse a garantia de nos tornarmos pessoas melhores, mais sensíveis”, observa. Ela lembra que, em 2007, uma senadora democrata da Califórnia, Barbara Boxer, atacou a secretária de Estado Condoleezza Rice: “Como não tem filhos nem família, a senhora não pagará nenhum preço pessoal pelo envio de mais 20 mil soldados americanos ao Iraque”. As palavras podem ser entendidas como uma variante de algo como: “Quem não tem filhos não pode entender o que só nós, seres humanos privilegiados pela graça de ter filhos, conseguimos compreender”.

No entanto, desde as históricas tomadas de posição de Simone de Beauvoir no século passado e mais recentemente da filósofa Elisabeth Badinter – autora de O conflito: a mulher e a mãe (Record, 2011), entre outros livros -, o debate feminista parecia ter eliminado o mito da maternidade como destino e do instinto materno como pulsão inata. Enquanto isso, multiplicam-se na Europa e nos Estados Unidos publicações (algumas sérias, outras apelativamente populares) que analisam o problema, além de sites dedicados ao mundo childfree (livre de filhos) – neologismo inglês que distingue as mulheres sem filhos (childless) das que realmente não desejam tê-los, por escolha.

Vários pensadores, em especial da área da sociologia, porém, continuam falando em voluntary childlessness. A expressão é empregada, por exemplo, pela socióloga inglesa Catherine Hakim, pesquisadora da London School of Economics. “Hoje, mulheres com melhores condições socioeconômicas podem escolher, e, pelo menos na Europa, uma a cada quatro não parece estar interessada em ter filhos”, afirma. “Em termos numéricos, não é novidade: mesmo no passado havia cerca de 20% de mulheres sem filhos, mas isso era devido à pobreza, desnutrição ou à emigração que impedia casamentos. Ainda assim, a família era o centro da vida. Agora existem mais possibilidades de trabalho, de diversão. Ou seja, mais escolhas.” E entre as opções está a de não ter filhos: “Trata-se de uma decisão que, se consciente, é tão saudável e natural quanto a de ser mãe”, ressalta a psicanalista Geni Valle, membro da Associação Italiana de Psicanálise (Aipsi). “Vivemos em uma época em que grande parte das mulheres conseguiu estabelecer uma hierarquia do que é importante para a própria vida; algumas conciliam elementos muito diferentes, outras escolhem privilegiar um aspecto em detrimento de outro.” Permanece o fato de que a escolha de fazer diferente é mais aceita quando vem de uma cientista como a neurologista Rita Levi­ Montalcini, ganhadora do Nobel de Fisiologia e Medicina em 1986, que faria 104 anos dia 22 de abril de 2013 (faleceu aos 103 anos em dezembro de 2012). “Durante anos vi a cara que as pessoas faziam quando eu dizia que nunca tive nem desejei ter filhos”, diz a socióloga e psicóloga Paola Leonardi, especializada em questões de gênero. “Parece um problema se manifestar contra ‘as alegrias’ da família.” Voltada a questões ligadas à psicologia de gênero, ela desenvolveu na Itália um projeto no qual entrevistou mulheres engajadas no feminismo que eram jovens quando a maternidade era ainda vista como um destino.

SEM VOLTA

O mesmo aspecto une as entrevistadas por Paola e as participantes dos grupos de discussão acompanhados por Maria Letizia: a exigência de justificar suas escolhas para outras pessoas – o que parece uma contradição, já que vivemos em uma sociedade que privilegia as escolhas. “Hoje as jovens podem e querem optar; a identidade não está mais relacionada à maternidade, mas à própria realização por meio do trabalho e da independência. E ter filhos pode parecer uma decisão sem volta, que impossibilita seguir outros caminhos”, acredita Maria Letizia.

Resultado: a opção childfree está ganhando seguidores. No Brasil, em 38,7% dos domicílios as mulheres são chefes de família, segundo dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dez anos antes, esse percentual era de 24%. Aumento da escolaridade, novos arranjos familiares e maior participação feminina no mercado de trabalho influem nas mudanças. O cenário pode ajudar a explicar a queda vertiginosa da taxa de fecundidade no país. No final da década de 60, a mulher tinha em média seis filhos, passando para 4,5 no final dos anos 70. Em 2010, esse número caiu para 1,86, dados semelhantes aos dos países desenvolvidos e abaixo da taxa de reposição populacional, que é de 2,1.

“Algumas mulheres reconhecem que não nasceram para ser mães, o que, de certa forma, é um alívio para elas”, observa a demógrafa Catherine Hakim. Ela fala também de uma categoria de mulheres que não consegue sem decidir se querem ser mãe e ainda das que chama de “retardatárias”. Nessa última categoria ela enquadra aquelas que dizem “Depois vejo isso”, até se darem conta de que o momento certo não chega nunca. Elas esperam conseguir um trabalho, estabelecer-se na profissão, ter um companheiro – e depois desejam ter tempo para desfrutar de alguma tranquilidade. Então, o “depois” pode ser tarde demais. “Ou, talvez, muitas simplesmente fiquem satisfeitas com o equilíbrio encontrado e sem nenhuma vontade de alterá-lo”, observa Maria Letizia. “Se considerarmos mulheres tecnicamente férteis que não conseguem engravidar podemos pensar que é a inteligência do corpo que entra em jogo”, acrescenta Paola Leonardi. Ou uma instância inconsciente que simplesmente se nega a ser mãe.

Isso não significa que quem não tem filhos não ame os pequenos – muitos gostam, mas por motivos variados não querem tê-los. “Há pessoas muito envolvidas com as crianças, que ficam felizes em cuidar delas, profissionalmente ou dedicando-se a filhos de familiares e amigos, mas não pensam tê-los como uma presença permanente”, afirma Catherine. “Eu, por exemplo, descobri ter necessidade de leveza na vida: gosto das crianças dos outros, mas não imagino ter uma relação exclusiva como acontece com um filho”, explica Paola. “São principalmente os homens que veem com ressentimento as mulheres que não têm filhos, julgando-as frias e incapazes de se relacionar com os outros.”

TIA SIM, POR QUE NÃO?

Um estudo conduzido pela socióloga Caroline Gattrell, professora da Lancaster University Management School, revelou que muitas vezes mulheres sem filhos sofrem preconceito por ser consideradas frias, carentes e egoístas. “O curioso é que raramente as pessoas questionam a atitude de alguém que escolhe ter filho para dar sentido à própria vida ou ter um apoio na velhice.

E o que dizer de uma mulher que usa a maternidade como desculpa para renunciar a desafios profissionais que teme?”, salienta a psicóloga Leslie Leonelli, uma das entrevistadas por Paola. O problema do trabalho é concreto, pois existem ocupações dificilmente conciliáveis com uma vida familiar convencional. Mas nem sempre a questão é profissional. “A quem me perguntava por que não tinha filhos, muitas vezes respondi que tinha outras coisas a fazer, optei por viajar e desempenhar atividades voltadas para o bem-estar das pessoas, dei aulas, acompanhei grupos e criei um centro de autoestima da mulher”, conta Paola.

É possível pensar que sua experiência se refira a uma espécie de maternidade simbólica, já que ela se empenhou em projetos e produção cultural – fazendo eco a Simone de Beauvoir e a seu “não faço filhos, faço livros”. “O instinto materno não é inato, desenvolve-se na relação e pode ser vivido de modos diversos”, afirma Letizia Bianchi, socióloga da família da Universidade de Bolonha. “Além disso, a maternidade é, sobretudo, um ato criativo que pode ser expresso por meio do trabalho, dos relacionamentos ou simplesmente do esforço de tornar a vida diária mais rica.”

Nesse sentido, ao assumir “o lugar da tia”, é possível estabelecer uma relação afetiva intensa com a criança ou o adolescente, sabendo que são filhos de outras pessoas e que não se pode (nem se deve) assumir um papel parental. Em contrapartida, há espaço para agir de forma até mais livre, diferentemente dos pais. “Embora não sejam necessariamente fundamentais, as tias (biológicas ou não) podem ocupar um papel importante na educação; na prática, o fato de serem menos implicadas no cotidiano dos sobrinhos. “O que é triste é não saber a quem deixar as próprias coisas, não tanto os bens materiais, e sim as lembranças; quanto à solidão, todos nós vivemos em uma sociedade em que estamos sós, tanto as crianças quanto os idosos, e certamente não serão os filhos que resolverão o problema” , afirma a psicóloga Leslie Leonelli, uma das entrevistadas de Paola Leonardi. Ciente disso, Leslie tem se empenhado em levar adiante o projeto de criar um cohousing, um residencial que una espaços privados e comuns, onde as pessoas possam encontrar “outros jeitos de morar”, sem necessariamente ser tragadas pela solidão ou ser um peso para os mais jovens.

Não é de estranhar que a família de origem tenha grande peso na hora da escolha da maternidade. Não raro, mulheres que optam por não engravidar (ou adotar) se lembram do sacrifício vivido pela própria mãe e reafirmam não querer revivê-lo. O curioso é que muitas escolhem não ter filhos primeiramente em um nível inconsciente – mesmo que os motivos estejam vinculados a fatores externos, como esterilidade ou falta de um parceiro adequado.

MELHOR NÃO TÊ- LOS?

Para ser mãe é preciso ser filha – o que equivale a dizer que para oferecer cuidados é necessário ter sido (e se sentido) cuidada. Por outro lado, há aqueles que almejam oferecer aos filhos o amor e o amparo que gostariam de ter recebido na infância – o que em muitos casos acarreta problemas porque em vez de olhar para as necessidades da criança a pessoa só consegue ver as próprias carências e as possibilidades de supri-las. Nesse sentido, faz sentido a afirmação da filósofa italiana Luísa Muraro: “Mulheres que não têm filhos estão mais em paz com a figura materna em relação às outras, pois não têm necessidade de se comparar colocando-se no papel de mãe”. Nesse contexto, também é preciso considerar a figura do pai e a forma como o casal parental era visto na infância. Com certeza não há fórmulas: quando falamos de psiquismo é impossível supor consequências exatas de alguma experiência, embora haja desdobramentos bastante prováveis a ser considerados.

“É difícil definir um modelo, visto que experiências similares podem levar a situações opostas; uma mãe ausente pode provocar o desejo de ter filhos que consintam em cuidar da criança que existe dentro de cada uma de nós, ou então pode ser difícil se imaginar em um papel que lhe é estranho”, salienta a psicanalista Geni Valle. “Em todo caso, a ideia da maternidade de alguma forma sempre faz pensar nas próprias vicissitudes das relações, e isso pode fazer com que surjam conflitos não resolvidos.”

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Michigan com 6 mil mulheres com idade entre 50 e 60 anos revelou que ter ou não ter filhos não tem efeito relevante no bem-estar psicológico nessa faixa etária – o que, de certa forma, contradiz a ideia de que é preciso criar os filhos para ter com quem contar no futuro. “Os aspectos mais importantes para uma maturidade feliz são a presença de um companheiro e de um círculo de relações sociais significativas”, salienta a socióloga Amy Pienta, coautora da pesquisa publicada no periódico científico lnternational Joumal of Aging and Human Development. Assim – e considerando todo o risco, trabalho e preocupação que significa ter filhos -, seria melhor não tê-los? Depende. O único dado certo é que hoje existe uma liberdade maior de escolha: é possível ser mulher de forma plena e prescindir da maternidade.

Filhos não, obrigada.2.

GESTÃO E CARREIRA

O INIMIGO DENTRO DE CASA

Pesquisa mostra que, no Brasil, 84% dos executivos entrevistados já vivenciaram fraudes nas empresas. E em muitos casos, os funcionários estão envolvidos.

O inimigo dentro de casa

As fraudes nas empresas continuam a crescer em todo o mundo, ano a ano. É o que revela a 10ª edição do Relatório Global de Fraude & Risco 2017/2018 da Kroll, que atua na gestão de riscos e em investigações corporativas. Dos 540 executivos entrevistados em todos os continentes, 84% destacaram que suas companhias já foram vítimas desse tipo de ocorrência nos últimos 12 meses, contra 82% em 2016. Em 2012, esse patamar era de 61%, o que revela uma expansão de 23% nos últimos cinco anos. No Brasil, os resultados atingiram o mesmo patamar, frente a 68% em 2012.

Em linha com o crescimento exponencial do uso da tecnologia nos ambientes corporativos, no quadro geral os ciberataques permanecem com alto índice de incidência, envolvendo 86% das empresas, contra 85% em 2016. Já as ocorrências relativas à segurança foram apontadas por 70%, frente a 68% no mesmo período.

Pela primeira vez em 10 anos, o roubo ou perda de informações foi o tipo de fraude mais vivenciada por 29% dos questionados – um aumento de 5% em relação à edição de 2016. Na sequência, está o roubo de ativos físicos ou estoques, com 27% das menções. Suborno e corrupção registraram o crescimento mais expressivo no período, com 21% das ocorrências, uma alta de 6% em relação a 2016, passando do 10º lugar no ranking geral para a 5ª posição.
Funcionários estiveram envolvidos em 39% dos casos, especialmente entre os cargos mais juniores da companhia, seguidos por ex-funcionários (34%) e níveis gerenciais (27%).

De acordo com a pesquisa, 70% dos entrevistados afirmaram que adotam medidas antifraudes em suas empresas e 25% dizem que pretendem implementar um plano de mitigação de risco nos próximos 12 meses. As medidas mais consideradas são a instalação de sistemas de detecção de intrusão baseados em dispositivos (57%), ferramentas de monitoramento de ameaças (55%) e sistemas de detecção de intrusão baseados em rede (54%).

O total de 68% dos executivos ressaltou que não há engajamento do board das organizações na adoção de medidas antifraudes. “Os mecanismos de governança corporativa são um enorme diferencial para as empresas, mas eles só funcionam de fato se houver um comprometimento da diretoria e do conselho de administração”, indica Fernanda Barroso, diretora-geral da operação brasileira da Kroll. “Ter uma política transparente facilita a identificação rápida de irregularidades e, certamente, fará diferença entre os stakeholders, aumentando a credibilidade desta empresa no mercado”, diz.

DADOS DOS CRIMES

AS AÇÕES MAIS CITADASs:
Ciberataques (86%)
Ocorrências relativas à segurança (70%)
Roubo ou perda de informações (29%)
Roubo de ativos físicos ou de estoque (29%)
Suborno e corrupção (27%)

E O QUE É PIOR:
Funcionários estiveram envolvidos em 39% dos casos

FONTE: Relatório Global de Fraude & Risco 2017/2018

 CENÁRIO BRASILEIRO
Apesar dos avanços regulatórios que se seguiram à Lei Anticorrupção (12.846/2013) e das operações que investigam casos de suborno, lavagem de dinheiro e outros atos ilícitos, as fraudes relativas a não conformidades ou violação a regulamentos internos estão entre as mais frequentes no Brasil, com 29% das menções, mesmo índice das fraudes financeiras. Em terceiro lugar está o roubo ou perda de informações, com 26%.

Embora no ranking mundial os colaboradores das empresas apareçam em primeiro lugar entre os
agentes responsáveis por fraudes, no Brasil este cenário muda. Ex-funcionários lideram as listas do público de risco, apontados por 50% dos participantes. “Muitas vezes, a insatisfação com o trabalho e remuneração inadequada são problemas que podem afetar os funcionários”, ressalta Fernanda. “Se a companhia não tiver um programa de compliance muito bem estruturado, pode chegar a um cenário em que essas situações acabam se tornando precedentes para o desvio de conduta ou ato ilegal dentro de qualquer companhia”, explica a diretora.

Fernanda acredita que as organizações estão aprimorando cada vez mais a gestão de riscos e prevenção de fraudes. “Desde que a Lei Anticorrupção entrou em vigor, as empresas brasileiras estão mais preocupadas, e os recentes escândalos revelados no país também acenderam uma luz amarela no assunto”, acrescenta. “Sempre digo que não é possível prever quando alguém vai cometer um ato ilícito, por isso é preciso implementar pilares de governança, segurança de dados e controles de acessos, entre outras práticas que realmente garantam a mitigação de riscos e prejuízos”, completa.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 19: 16-18 – PARTE II

Alimento diário - Comendo a Bíblia

A Inscrição sobre a Cruz. A Crucificação

 

II – A divisão das suas vestes entre os executores, vv. 23,24. Na execução, trabalharam quatro soldados, que, depois de tê-lo crucificado, pregando-o na cruz, e de terem levantado a cruz com o Senhor pendurado nela, nada mais havendo a fazer, senão esperar que Ele expirasse devido às dores extremas, como, conosco, quando o prisioneiro é condenado à pena capital, passaram a dividir suas roupas, cada qual reclamando uma parte igual. Desta maneira, fizeram uma divisão em quatro partes, com aproximadamente o mesmo valor, conforme puderam, para cada soldado uma parte. Mas sua túnica, ou manto superior, fosse um manto ou uma túnica, como era uma peça bonita e curiosa, tecida toda de alto a baixo, e não tinha costura, eles concordaram em disputá-la lançando sortes. Observe aqui:

1. A vergonha a que submeteram nosso Senhor Jesus, despindo-o das suas roupas antes de crucificá-lo. A vergonha da nudez surgiu com o pecado. Portanto, aquele que se fez pecado por nós suportou esta vergonha, para remover nossa desonra. Ele foi despido, para que nós pudéssemos ser vestidos com vestes brancas (Apocalipse 3.18), e para que, estando vestidos, não sejamos achados nus.

2. Como estes soldados se recompensaram por terem crucificado a Cristo. Eles estavam dispostos a crucificá-lo para terem as roupas que o Senhor usava. Nada deve ser feito com tanta maldade, mas é possível encontrar homens suficientemente maus para fazê-lo por uma bagatela. Provavelmente, eles esperavam conseguir algo além do benefício comum das suas roupas, tendo ouvido falar de curas realizadas pelo toque da orla das suas vestes, ou esperando que seus admiradores pagassem algum dinheiro para obtê-las.

3. O jogo que fizeram com sua túnica sem costura. Nós não lemos que Ele tivesse tido nada valioso ou notável, exceto esta túnica, e esta, não pela riqueza, mas somente pela sua variedade, pois era tecida toda de alto a baixo. Não havia curiosidade, portanto, na forma, mas uma simplicidade proposital. Diz a tradição, que sua mãe a tinha tecido para Ele, e ainda acrescenta que ela tinha sido feita para Ele quando era criança e, como as roupas dos israelitas no deserto, não envelheceu. Mas esta é uma fantasia infundada. Os soldados julgaram que seria uma pena rasgá-la, pois então ela se desfiaria, e um pedaço dela não serviria para nada. Por isso, eles decidiram lançar sortes por ela. Enquanto Cristo estava agonizando, eles estavam alegremente dividindo seu espólio. A preservação da túnica sem costura de Cristo é considerada como mostrando o cuidado que todos os cristãos devem ter para não rasgar a igreja de Cristo com disputas e divisões. Mas alguns observaram que a razão pela qual os soldados não desejaram rasgar sua túnica não se deveu a nenhum respeito por Cristo, mas porque cada um deles desejava tê-la toda para si. E assim, muitos clamam contra as divisões somente para poderem acumular todo o poder e a riqueza para si mesmos. Aqueles que se opuseram à separação de Lutero da igreja de Roma insistiam muito na túnica sem costura, e alguns deles colocavam tanta ênfase nisto, que eram chamados de Os sem costura.

4. O cumprimento das Escrituras neste fato. Davi, em espírito, previu esta mesma circunstância dos sofrimentos de Cristo, em Salmos 22.18. O evento, respondendo de maneira tão exata à predição, prova:

(1) Que as Escrituras são a Palavra de Deus, que prediz eventos contingentes a respeito de Cristo, tanto tempo antes, e que vieram a acontecer de acordo com a predição.

(2) Que Jesus é o verdadeiro Messias, pois nele todas as profecias do Antigo Testamento a respeito do Messias foram, e são perfeitamente cumpridas. “Os soldados, pois, fizeram essas coisas”.