PSICOLOGIA ANALÍTICA

A SABEDORIA DA CONVIVÊNCIA

O grande desafio de relacionamento com as chamadas pessoas difíceis na família ou ambiente de trabalho é, inquestionavelmente, uma das reclamações mais frequentes nos settings terapêuticos   atualmente.

A sabedoria da convivência

Como lidar com um parceiro difícil, que leva a vida de forma completamente diferente da sua e torna seus dias pesados e desgastantes por sua insatisfação constante, cara feia, críticas frequentes, comportamentos inadequados ou discussões sem fim? E um filho que, em algum momento da sua vida, faz parecer que tudo se tornou um completo caos sem possibilidade de saída ou resolução?

Imaginem como deve ser ter um chefe ou colega de trabalho difícil, que torna o ambiente hostil e estressante, levando setores inteiros a adoecer, desanimar ou a entrar em atritos constantes, gerando inclusive baixa na produtividade da empresa e na qualidade de vida dos funcionários daquela equipe.

A dificuldade de relacionamento com pessoas difíceis é, incontestavelmente, uma das queixas mais frequentes nos settings terapêuticos atualmente. Independentemente da abordagem de trabalho, constatamos hoje que não só terapeutas, mas diversas formas de prestadores de serviço ao próximo, inclusive instituições religiosas, recebem massivamente inúmeras pessoas queixando-se do alto nível de dor emocional, psicológica ou até mesmo física proveniente da manutenção de relações adoecidas ou destrutivas com pessoas que julgam serem difíceis de lidar.

Esse tipo de relação a médio ou longo prazo pode causar prejuízos das mais diversas formas aos envolvidos. Desde questões emocionais e psicológicas, como baixa estima, tristeza, intolerância ou raiva como quadros graves, tanto de distúrbios psiquiátricos severos como crises de ansiedade ou depressão, até doenças físicas desencadeadas por essa carga emocional e mental duradoura e persistente.

O mais difícil é conseguir tomar uma decisão satisfatória que pondere equilibradamente o lado racional que nos impele a nos preservar, evitando a causa de tanta dor e perturbação, e o lado emocional, que envolve o sentimento que nos mantém naquela relação difícil ou a necessidade de se manter naquela situação para a garantia de sua sobrevivência, por exemplo.

CONTORNÁVEIS E EVITÁVEIS

Existem casos em que as pessoas difíceis não fazem, necessariamente, parte de nosso dia a dia. São mais fáceis de lidar. Não causam, geralmente, maiores danos aos envolvidos e o afastamento temporário da pessoa difícil, por si só, é capaz de amenizar os desconfortos e ajudar os envolvidos a restabelecerem o equilíbrio necessário para um novo encontro desgastante e difícil.

Esse é o caso de relações difíceis entre pessoas ou até mesmo parentes que moram ou trabalham longe e não têm a necessidade de estar em contato físico frequente.

Quando a relação difícil se dá entre a esposa ou marido de alguém muito querido ou com quem possuímos algum grau de parentesco, na relação com a sogra de um(a) filho(a), por exemplo, ou os pais de um amiguinho muito querido de seu filho, ainda conseguimos nos manter distanciados de alguma maneira, para preservar o relacionamento com quem prezamos.

Todos esses são casos onde conseguimos, com algum esforço, manter a relação sem prejuízos graves ou insuportáveis, desde que mantenhamos certo distanciamento nos encontros e na profundidade da relação.

E, talvez, por essa possibilidade de controlar esse distanciamento, o caso não envolve a necessidade de uma transformação pessoal para me­ lh orar a convivência com a pessoa de difícil relacionamento. O tempo, por si só, acaba tratando de desintoxicar as emoções destrutivas criadas nos envolvidos e prepará-los, novamente, para tentar um reencontro, para estar perto de quem se gosta e de quem se necessita.

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MEMBROS DA FAMÍLIA

Quando essa pessoa difícil está incluída em nossa família, o quadro já se torna diferente. Nos casos de pais e filhos ou sogros e noras/genros, principalmente quando moram juntos, a dificuldade fica mais nociva devido ao contato frequente com a pessoa tóxica. É o caso, também, de maridos e mulheres que se escolhem e permanecem juntos diariamente, tentando contornar ou suportar as dificuldades diárias impostas pelo jeito de ser de um dos parceiros.

Há quem descreva que a dificuldade provém de um comportamento, um hábito, crenças e valores ou jeito de ser aparentemente oposto ao da “vítima” do familiar difícil. Os familiares se queixam da dificuldade de compreender e encontrar uma maneira eficaz de conviver bem com a pessoa difícil.

E isso causa, constantemente, o desgaste nas relações, provocando distanciamento familiar ou embates verbais e, por vezes, físicos que afetam os filhos e demais envolvidos. Todos acabam sendo afetados, além de socialmente, já que têm seu convívio prejudicado, como pessoalmente. Já que as consequências dessa dificuldade relacional geram, em nível pessoal, muitas marcas, como isolamento e solidão, desenvolvimento de baixa estima, carência afetiva, tristeza ou depressão, irritabilidade e raiva, sensação de fracasso ou incapacidade, desânimo ou desistência frente à vida etc.

Outro fator comumente provocado por essa dificuldade de se relacionar com pessoas ou pela dificuldade de conviver com uma pessoa difícil é a manutenção de uma excessiva carga de trabalho, apenas com o objetivo de evitar a convivência frequente e o mal-estar proveniente dela. Esse é um dos grandes motivos de vermos os workaholics se afundando mais e mais no trabalho.

Eles se escondem e anestesiam na área de sua vida que parecem dominar melhor, área na qual conseguem lidar sem tanta dificuldade, área em que se sentem capazes de estar e atuar de maneira satisfatória e prazerosa. E usam isso para fugir daquilo com que não se sentem capazes de lidar ou com que não estão satisfeitos.

Se, por um lado, essa aparente saída ameniza a dor da incapacidade e frustração, por outro afasta e impe­ de mais ainda que o sujeito se desenvolva e crie condições de lidar com sua dificuldade de alguma outra forma. Afasta-o do problema, mas não o soluciona. Representa, apenas, uma triste fuga da dor e uma fatal permanência da dificuldade de se relacionar e da solidão.

São pessoas que parecem bem-sucedidas e felizes profissionalmente, mas carregam, no seu íntimo, uma amargura, mesmo que escondida e velada, por anos e anos. Essa amargura e evitação uma hora vêm à tona. E, infelizmente, isso ocorre tardia­ mente, quando já não existe mais a possibilidade de fazer diferente e mudar aquele quadro, corroendo, adoecendo e minando corpo e alma do sujeito.

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NO AMBIENTE PROFISSIONAL

Quando a pessoa difícil se encontra no trabalho, na presença de seu chefe, um subordinado necessário ou pares, a convivência diária – geralmente maior até do que a convivência que mantém com seus próprios familiares – se torna um agravante.

Nesse ambiente vemos as dificuldades advirem, com frequência, da disputa ou imposição do poder, necessidade de obtenção de reconhecimento ou destaque, fofocas, traições, manipulações, criação de embates e brigas entre os funcionários e demais comportamentos que acabam por gerar estresse, desmotivação, baixa da produção e sofrimentos pessoais. Vemos pessoas que, claramente, esquecem do propósito comum daquela equipe de trabalho e parecem permanecer ali trabalhando em prol da satisfação de uma necessidade pessoal, baseada no seu ego e não no bem-estar da equipe ou da empresa a que servem. Ficam totalmente cegas e inadequadas, servindo a algo que já não diz respeito ao compromisso que firmaram com a empresa, mas a uma necessidade pessoal da qual, na maioria dos casos, elas nem têm consciência.

Os envolvidos, muitas vezes, também não conseguem compreender o motivo daquele colega de trabalho agir daquela forma. Parece nitidamente um desserviço à empresa, já que gera danos a ela diretamente, através do comprometimento da produção, ou indiretamente, através da criação de um clima hostil e adoecedor entre a sua equipe de trabalho. Mas o fato é que a pessoa difícil está reagindo às marcas e traumas que carrega e reage a elas o tempo inteiro, prejudicando e punindo quem nada tem a ver com a origem daquelas dores que carrega em sua alma. Reage a situações que nem são reais, a ilusões criadas por seu imaginário traumatizado e adoecido pelas marcas do passado e que respondem a uma humilhação ou traição, por exemplo, que nem ocorreram real­ mente em determinada situação, mas que sua visão deturpadora e embaçada pelas marcas do trauma o faz acreditar e responder.

Mas qual seria o propósito de atrair para o seu campo de convivência alguém com uma forma de se relacionar tão difícil?

Mas o que será que essas provações, a que nos vemos presos, seja pelo laço do amor ou da necessidade de sobrevivência, têm a nos ensinar? Qual seria o sentido de tudo isso para nossas vidas e nosso desenvolvimento enquanto pessoas?

Se diante de uma situação dessas conseguirmos tirar o foco, momentaneamente, da pessoa difícil e tentarmos avaliar a situação de forma mais distanciada e impessoal, se conseguirmos nos distanciar de nós mesmos e observar a situação de fora podemos perceber lições importantes que podemos tirar com tudo aquilo.

Sempre poderemos encontrar, numa dificuldade, algo que precisa e pode ser melhorado, modificado ou adquirido por nós. Não se trata de uma tarefa fácil. Trata-se da possibilidade de se utilizar de um desconforto para extrair mais e mais potencialidades e habilidades de nós mesmos.

Às vezes, somente através de um relacionamento difícil teremos a chance de aprender a lidar com as diferenças. A chance de tentar compreender, criar empatia ou apenas respeitar o que não se assemelha a nós. A chance de perceber e refletir acerca de um novo ponto de vista, um jeito diferente de sentir ou ser. Sem juízo de valores. Nem melhor nem pior, apenas diferente. O jeito que o outro é capaz de ser ou apresentar.

Na relação com uma pessoa difícil, somos convidados a desenvolver a humildade e a capacidade de perdoar o outro, já que também não somos perfeitos e necessitamos, em muitos momentos, sermos perdoados pelas falhas que cometemos, consciente ou inconscientemente.

Com uma pessoa difícil, podemos aprender que não existe uma verdade única. Cada um de nós possui a sua verdade e uma jamais exclui ou se sobrepõe a outra. Pois não existe certo ou errado. Existe a forma particular com que cada pessoa vi­ vencia a mesma experiência, já que são pessoas distintas que carregam suas próprias e singulares marcas, traumas e feridas, seu sistema único de crenças e valores, uma educação diferenciada etc. E, com isso, somos convidados a abrir mão da arrogância ou prepotência de que o meu jeito ou o meu ponto de vista é o melhor, o certo. E a parar de julgar que “eu tenho razão e você está errado”.

E, se estivermos abertos e no nosso melhor, quem sabe um relacionamento difícil não pode nos conduzir a aprender mais sobre o nosso lado sombra e nos ajudar a enxergar um lado ou traço que nós mantemos em nosso jeito de ser de que sequer tínhamos consciência até então.

Que grande presente seria poder tomar consciência de uma parte nossa inconsciente que necessita ser revista e modificada. Uma parte que mantemos, mas que não faz mais sentido manter em nossa vida atual, pois causa sofrimento a nós mesmos ou a quem amamos, ao invés de nos assegurar bem-estar ou segurança.

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CAMINHOS PARA A SOLUÇÃO

Pare com a dependência da mudança do outro para ser feliz, seja o próprio agente da sua vida. Por vezes nos sabotamos, colocando nossa possibilidade de realização atrelada ao outro. E isso não passa de uma desculpa para não sermos felizes. Uma desculpa para não arregaçarmos as mangas e fazermos nossa própria vida feliz e realizada.

Julgamos que não somos capazes de viver sem aquela pessoa ou de arrumar um novo emprego e nos acomodamos naquela situação sofrida e insustentável. Nos iludimos de que nosso bem-estar depende de algo externo e deixamos de nos responsabilizar por ele e fazer sequer a nossa parte.

Pode parecer cômodo ou mais confortável jogar a culpa no outro, responsabilizar algo fora, sobre o qual não temos possibilidade de atuar para transformar a situação difícil. Mas não passa de uma saída covarde e ilusoriamente mais fácil. Já que mais difícil do que se esforçar para realizar a mudança é se manter na situação de dor e sustentar todos os prejuízos causados por ela.

Pare com a queda de braço com o outro. Chega de medir forças com o outro e se aliar a ele na manutenção da infelicidade e do desgaste de todos os envolvidos. Abra mão de depositar seu bem-estar e sua realização numa mudança que o outro não quer ou não pode realizar.

Só que, nessa disputa, o maior responsável sempre será aquele que possui maior nível de consciência, justamente por ser o possuidor da maior capacidade de mudança. Mas esse, via de regra, permanece cego, brigando e insistindo uma vida inteira por uma mudança que o outro não tem condições de fazer e o preço disso inclui a privação de seu bem-estar e de sua felicidade.

Se não atentarmos, perderemos parte da vida tentando provar algo ou forçar o outro a se modificar para que vivamos melhor. Com a certeza prepotente de que nossa forma de viver ou pensar é a correta e mais coerente. E desconsiderando, prepotentemente, a capacidade ou vontade de o outro realizar a mudança desejada ou exigida.

Será que já se parou para refletir sobre o que existe por trás de uma pessoa difícil? A busca pela compreensão dos possíveis fatores que motivam aquele sujeito com um jeito de ser tão difícil e massacrante pode ajudar os envolvidos a lidar de uma forma melhor com ela. O que o leva a ser assim? O que o leva a agir dessa forma no mundo? O que, por exemplo, realmente leva alguém a ter que humilhar o outro para se sentir poderoso ou superior?

E a obtenção dessa compreensão geralmente ajuda, porque nos aponta que ninguém se torna tão difícil de conviver se não carregar em si ou em seu histórico de vida uma enorme dor na alma. Podemos notar na estrutura interna dos maiores algozes uma grande dor que os move naquela direção, numa tentativa de aplacá-la ou suportá-la.

Sabemos que a simples compreensão desses fatores não justifica as atitudes tomadas pelas pessoas difíceis. E sabemos, também, que ela não amenizará por si só o desconforto dos que sofrem as consequências dos atos reativos dessas pessoas. Mas pode ser uma ferramenta utilizada pelos que convivem com sujeitos difíceis, no sentido de amenizar o seu desconforto pessoal frente às limitações do ser com quem necessitamos manter o contato.

Também existe a possibilidade de, ao invés de olhar para fora, olhar para dentro de nós. Não vamos nos distrair apenas listando as necessidades de mudança do outro se estamos aqui para nos desenvolver a nós mesmos através das relações interpessoais.

O que aquele sujeito tem na sua forma de ser, agir ou pensar que tanto me afeta ou aborrece? O que possuo disso em mim? Apesar de a maioria das pessoas, nesse caso, julgar que o que mais abomina no sujeito difícil de conviver passa longe do que ela é, muitas delas se enganam. Irritam-se, pois precisam reconhecer através do outro algo que precisam modificar em si mesmas. Algo que elas mesmas possuem, mas que já não faz sentido manter em sua vida. Algo que precisam enxergar e se esforçar para modificar, pois já não está mais de acordo com seus valores e crenças no momento atual. Algo que elas nem tinham consciência que carregavam dentro delas. Mas que só foi possível notar pelo mal-estar causado através do reflexo daquilo que necessita ser modificado nela e que está agora expresso no outro.

Um agravante nessa difícil tarefa de sair da ilusão de ser o dono da razão e chegar a um lugar apaziguador para ambos é a tendência de se vitimizar que o ser humano tem diante de um momento de dor. Ao se colocar no papel de vítima, colocamos automaticamente o outro no papel do algoz. E a vítima se empodera de tal forma como dono da verdade que perde totalmente a capacidade de avaliar adequadamente a situação, de forma a conseguir sair dela e superar a dificuldade imposta com a geração de um novo aprendizado para ela ou eles.

A vítima se mantém presa na dor da injustiça e mantém o outro preso no papel de algoz, e isso impossibilita a dissolução daquele conflito e alimenta pensamentos e emoções destrutivas e a desunião. A mente da vítima se torna o maior perturbador que alguém pode ter e faz com que ela se torne marionete de seus próprios pensamentos vitimizantes e destruidores. Isso, por sua vez, cria um estado emocional difícil e igual­ mente pesado e destrutivo, alimentando reações inadequadas e a manutenção dos conflitos.

Por fim, veremos que só temos a agradecer à pessoa difícil que foi colocada no nosso caminho. Afinal, por qual razão nos depararíamos com alguém tão difícil se ali não estivesse a possibilidade de retirarmos um ensinamento importante para a nossa jornada de crescimento pessoal? Concluímos, então, que a melhor saída para lidar com pessoas difíceis é alcançar mudanças pessoais que nos habilitem a encontrar o equilíbrio e a alegria que necessitamos dentro de nós mesmos. O universo se encarrega do resto.

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MUDANÇA

Durante o processo de convivência com uma pessoa difícil, há vezes em que a solução da relação desgastante passa por uma necessidade de a “vítima” abrir mão do que julga o certo ou justo para viver o que é possível viver dentro daquela situação. No fundo, a pessoa não se conforma com a realidade tal como é e passa anos ou uma vida inteira dando murro em ponta de faca, numa atitude infantil e teimosa de se manter naquela relação exigindo que o outro se modifique.

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O CAMINHO DA AUTOTRANSFORMAÇÃO

Um caminho que pode ser muito útil e nos conduzir a uma convivência sadia com uma pessoa difícil ou um ambiente hostil causado por ela é o da auto- transformação. Esse caminho envolve a difícil tarefa de enxergar a si mesmo no outro. Se não pode mudar o outro ou o ambiente, mude você mesmo. Pois se o outro não muda. você não pode continuar se desgastando e destruindo por isso. Se você não deseja ou não pode, por algum motivo, sair da situação ou se afastar daquela pessoa difícil, modifique o que precisa em você para conviver da melhor forma inserido naquela realidade. A realidade pode não se modificar, mas você tem condições de o fazer e conviver com ela de uma maneira completamente nova e sadia.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.